
O PREO DA VENTURA


DANIELLE STEEL



***


Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!


***

O PREO DA VENTURA
Romance Traduo
de
FERNANDA BRANCO
Reviso literria
de
Teresa Leandro
BERTRAND EDITORA
VENDA NOVA 1995
04-0-q 6
11)

Titulo Original: Mixed Blessings C Danielle Steel, 1992
Capa de Fernando Felgueiras
Todos os direitos para a publicao desta obra em Portugal reservados por Bertrand Editora, Lda.
Fotocomposo e montagem:
Atelier de Imagem, Publicaes e Artes Grficas, Lda. Impresso e acabamento:
Grfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda. Depsito Legal n.' 90985/95
Acabou de imprimir-se em julho de 1995
ISBN: 972-25-0941-1

Aos milagres da minha vida: Beatrx, Trevor, Todd, Nick, Samantha, Victoria, Vanessa, Maxx e Zara,
pelo jbilo e pelas infinitas venturas que trazem aos meus dias,
e ao maior milagre de todos... o meu querido e nico amor, Popeye'
de todo o meu corao, com amor, d.s.


Adorvel milaQre
Breve milagre de esperana, bno sem conta e medida, palmo de sonho,
to imenso o amor de despertar
o tiquetaque da tua hora,
to grande o desespero  tua partida,
to raro o pesar
o grito de dor demente, e ento,
com sorte,
poder saborear novamente, ter, segurar, oferecer, dividir,
ousar
os escolhos, as mars,
outra vez, nadar at
se no poder mais, chorar no escuro com uma saudade
maior do que o cu,

murmurar suavemente, senti-lo por perto,
ter f em que os mais brandos espritos escutem,
longa espera, noite tenebrosa, sem ousar respirar, at pequenos dedos
nos puxarem pela manga, e com oiro tocarem
os nossos coraes,
nunca  demasiado tarde, incerto de mais para ter um filho
seguro no regao, milagre de vida, precioso momento
de admirao, murmrios dolorosos
apelo angustiante,
at que finalmente chegue, e ento apertar-te
em meus braos,
amor supremo, instantaneamente meu,
adorvel prodgio oh to querido.

CAPITULO 1
Sob um cu azul radioso, o dia estava quente e sereno quando Diana Goode desceu da limusina com o pai. Tinha os ngulos do rosto mais suaves do que era habitual, 
ocultos sob a nvoa de um finssimo vu cor de marfim, e o pesado vestido de cetim roagava ligeiramente enquanto o motorista a ajudava a sair e lho compunha em 
redor do corpo. Ela sorriu para o pai, de p no exterior da igreja, e depois fechou os olhos, na tentativa de reter todos os pormenores daquele momento. Nunca fora 
to feliz em toda a sua vida. Estava tudo perfeito.
- Ests linda! - murmurou-lhe o pai enternecido, e atrs dela erguia-se a igreja Episcopal de Todos-os-Santos de Pasadena.
A me seguira  frente num outro carro com as irmas, os maridos e os filhos. Diana era a filha do meio, a clssica obstinada em ser a melhor, a mais inteligente, 
a mais realizada. Amava as irms com uma profunda e slida afeio, e no entanto achava sempre que tinha de fazer algo mais do que elas. No que estas se regessem 
por to impossveis padres. Gayle, a irm mais velha, tinha decidido entrar para a Escola Mdica, mas essa determinao apenas durou at conhecer o marido durante 
o primeiro ano de curso preliminar, casar~se ainda nesse ms de junho e ficar imediatamente grvida. Aos 29 anos, tinha agora trs adorveis raparigas. Mais velha 
dois anos que Diana, embora fossem muito ligadas, sempre existira entre ambas um sentimento de rivalidade, e as duas mulheres eram espantosamente diferentes. Gay1e 
ps definitivamente de parte a ideia de uma carreira mdica. Sentia-se feliz casada, satisfeita por estar em casa com as filhas e ocupar todo o seu tempo a cuidar 
delas e do marido. Era a perfeita mulher de mdico,

12                          DANIELLE STEEL
inteligente, informada e de uma total compreenso com os seus horrios de obstetra. Estavam a planear ter pelo menos mais um filho, confiara-lhe Gay1e umas semanas 
atrs. Desta vez, Jack desejava muitssimo que fosse um rapaz. Toda a vida de Gay1e girava em torno do marido, das filhas, da casa. Para ela, o mundo profissional 
no tinha o menor atractivo, ao contrrio do que acontecia com as duas irms mais novas.
Sob certos aspectos, Diana tinha mais em comum com a irm abaixo dela, Sam. Samantha era ambiciosa, competitiva, entusistica em relao ao seu prprio papel no 
mundo. Os seus dois primeiros anos de casada tinham sido uma dificil prova de equilbrio entre o lar e a profisso, mas ao nascer-lhe o segundo filho, treze meses 
a seguir ao primeiro e quando estava casada h um mero par de anos, fora obrigada a reconhecer que no podia conciliar as duas coisas. Largou o lugar que ocupava 
numa galeria de arte em Los Angeles, e resolveu ficar em casa, o que o marido, alis, desejava. Porm, no obstante terem passado j vrios meses sobre o momento 
em que abandonara o emprego, para Sam era ainda uma frustao no estar a trabalhar. Sea~ mus, cuja obra tinha comeado a ser reconhecida e admirada nos dois anos 
a seguir ao casamento, estava a tornar~se um dos jovens artistas contemporneos mais famosos de Los Angeles.
Em casa, Sam fazia alguns trabalhos de design, mas mesmo isso lhe era quase impossvel, uma vez que no dispunha de nenhuma ajuda e tinha duas crianas muito pequenas. 
Ela adorava estar em casa com Seamus e os bebs, as relaes entre ambos no podiam ser melhores e tanto o filho como a filha pareciam dois querubins muito gorduchos. 
Cativavam imediatamente quem os via. No obstante, havia alturas em que ela invejava o lugar de Diana no mundo do trabalho, entre "gente crescida>,, como se lhe 
referia.
Mas aos olhos de Diana as vidas das irms pareciam muito acomodadas. Tanto quanto podia perceber, aos 25 e 29 anos elas tinham aparentemente tudo quanto queriam. 
Sam no s era feliz como estava  vontade no mundo da arte moderna, Gay1e sentia-se igualmente segura de si, na pele da mulher de um mdico. Mas Diana sempre quisera 
mais do que elas. Fora para Stanford, e fizera a seguir o seu penltimo ano de Faculdade em Paris, na Sorbonne. Voltara a Paris para mais um ano aps a licenciatura; 
descobrira um apartamento magnfico na Rue de Grenelle, em plena Rive Gauche e, no incio, estivera decidida

0 PREO DA VENTURA                             13
a ficar de vez. Mas depois de passar ano e meio a trabalhar para a revista Pars-Matcb, tivera subitamente saudades do pas, da farridia... e acima de tudo, o que 
deveras a surpreendeu, das irms. Gay1e tinha tido ento o seu terceiro beb, Sam aguardava o primeiro, e Diana, fosse por que motivo fosse, percebera que queria 
simplesmente estar com elas.
Sentiu-se, porm, dividida quando chegou, e durante os primeiros meses mortificava-se a pensar se o seu regresso fora ou no um passo acertado. Talvez no tivesse 
feito esforos bastantes para ficar.
Paris fora formidvel, mas Los Angeles tinha tambm o seu interesse, tanto mais que, quase a seguir  sua chegada, lhe havia sido proposto um emprego estupendo como 
directora editorial da Tdays Home. Tratava-se de uma revista nova e a oportunidade parecia estimulante. Tinha um bom salrio, as pessoas eram simpticas, as condi~ 
es de trabalho excelentes, e destinaram~lhe um gabinete fabuloso. Em poucos meses, Diana estava a dirigir filmagens, a contratar fotgrafos, a reescrever ela prpria 
alguns dos artigos, a deslocar~se para admirar casas extraordinrias nos locais mais exticos. Algumas vezes chegou a rever Paris e Londres. Fez uma reportagem no 
Sul de Frana, outra em Gstaad. E em Nova lorque, naturalmente, bem como em Palm Beach, Houston, Dallas, So Francisco e noutras cidades americanas. Era uma ocupao 
perfeita para ela, que a tornava alvo das invejas dos amigos e das prprias irms. Para as pessoas que no se apercebiam da sua dureza, o trabalho parecia absolutamente 
fascinante. Diana era uma delas.
Logo aps ter assumido o lugar, por ocasio de uma festa para pessoas dos media, Diana conheceu Andy. Nessa mesma noite, conversaram seis horas a fio num pequeno 
restaurante italiano e, da at ele lhe pedir que fosse viver para o seu apartamento, ela quase no teve tempo para respirar. Esperou, contudo, seis meses antes 
de tomar uma deci~ so, hesitando em abdicar da sua independncia. Mas estava apaixonada por ele, e Andy sabia-o. Este tambm era louco por ela, e tudo neles era 
uma perfeita cumplicidade, como se fossem idealmente talhados um para o outro. Ele era alto, loiro, atraente, tinha sido uma estrela do tnis em Yale, nascera numa 
velha e conceituada famlia de Nova lorque e tinha vindo estudar Direito para a Universidade da Califrnia, em Los Angeles. Assim que terminara o curso, ingressara 
no departa-

14                           DANIELLE STEEL
mento juridico de uma grande rede de transmissores. Gostava do seu trabalho e Diana estava fascinada com o que ele fazia e com as pessoas que conhecia. Andy ser-via 
de consultor jurdico a diversos e importantes sbows, e as empresas tinham-lhe um profundo apreo pelo modo como lhes resolvia os contratos mais complicados.
Diana adorava ir a festas de negcios com ele, conhecer algumas das estrelas, conversar corri outros advogados, grandes produtores, agentes importantes. Era toda 
uma engrenagem extenuante, mas que Andy suportava sem esforo. Seguro de si, dotado de um esprito brilhante, era raro deixar-se impressionar pelo fascnio do mundo 
em que trabalhava. Gostava do que fazia, mas planeava abrir o seu proprio escritrio e especializar-se em legislao dos espectculos. Sabia, contudo, que ainda 
era demasiado cedo, e apreciava a inestimvel experincia que estava a adquirir nas empresas. Andy sabia exactamente que rumo tomar e o que pretendia da vida. Havia 
muito que tinha programado a sua carreira em todos os seus detalhes e, quando Diana entrou na sua vida, ele percebeu em poucos dias que era aquela a mulher que desejava 
para esposa e me dos seus filhos, Riram os dois com gosto ao descobrir que ambos queriam ter quatro crianas. Ele prprio tinha mais trs irmos, dois deles gmeos 
incrivelmente iguais, e Diana interrogava-se sobre se tambm eles no teriam gmeos. Conversavam bas~ tante acerca de crianas, e assim Diana apercebeu-se de que 
a falta de precaues que ambos tinham em certos momentos nascia do desejo de desafiar o destino e de que ela engravidasse. No constituiria motivo de aflio para 
nenhum deles se isso acontecesse e fossem forados a antecipar o casamento. Nos escassos meses do seu relacionamento, falavam abertamente em casar-se e nas suas 
intenes a longo prazo.
Viviam juntos num apartamento pequeno mas muito elegante, em BeVerly Hills. Tinham em muitas coisas os mesmos gostos, e haviam at compr,do dois quadros a Seamus. 
Com os ordenados dos dois, podiam permitir-se algo verdadeiramente agradvel; escolheram uma decorao em rigoroso estilo moderno e gastavam todo o seu dinheiro 
extra em arte. Queriam iniciar um dia uma coleco importante, mas de momento no dispunham dos meios necessarios e por isso compravam o que podiam e apreciavam~no 
imensamente.
Mas o que Diana mais apreciava em Andy era a maneira como se dava bem com os pais dela, as irms e os cunhados. Estes ltimos eram

0 PREO DA VENTURA                            15
pessoas diametralmente opostas e, no entanto, dir-se-ia que Andy gostava de ambos. Almoava frequentemente com eles, quando no tinha nenhum almoo de negcios programado 
na empresa. Aparentemente, sentia-se to  vontade no mundo artstico de Seamus como no mundo de Jack, a discutir investigaes mdicas ou a falar sobre investimentos 
financeiros. Andrew DougIas era um indivduo socivel, envolvente, cuja via em comum com Diana constitua para esta uma fonte de inesgotvel emoo. Foram juntos 
 Europa no final do primeiro ano. Em Paris, ela mostrou-lhe os seus recantos preferidos, depois percorreram o vale do Loire; a seguir, deram um salto  Esccia 
para visitar Nick, o irmo mais novo de Andy, que estava ali a passar um ano. Era uma vida per~ feita e, ao regressarem, comearam paulatinamente a fazer projectos 
para casar no Vero seguinte. Ficaram noivos dezoito meses depois de se terem conhecido e marcaram a data do casamento para da a oito meses, em junho, resolvidos 
a voltar  Europa para a lua-de-mel, desta vez para o Sul de Frana, Itlia e Espanha. Diana conseguiu uma licena de trs semanas na revista e Andy forjou uma escapadela 
do escritrio por um perodo idntico.
Procuraram casa em Brentwood, Westwood, Santa Monica, e estavam mesmo dispostos a ir e vir diariamente de Malibu quando ali descobrissem alguma coisa que realmente 
lhes agradasse. Em Maro, porm, encontraram a casa perfeita, em Pacific Palisades. Esta fora durante anos muito amada e bem cuidada por uma famlia numerosa, cujos 
filhos tinham crescido e seguido cada um o seu rumo, de modo que agora o casal de proprietrios estava relutantemente a vend-la. Andy e Diana ficaram rendidos a 
primeira vista. Era uma vivenda enorme, acolhedora, sinuosa; havia paredes com belos lambrs de madeira, e no exterior rvores maravilhosas quase ao alcance da mo, 
e um enorme jardim para as crianas brincarem. Tinha um quarto de casal esplncido no segundo andar, um escritrio para cada um deles, e um elegante quarto de hspedes. 
E no andar de cima havia quatro enormes quartos de criana.
A casa passou para o nome deles em Maio e Andy foi ocup-la trs semanas antes do casamento. Na noite do jantar de despedida de solteira, que os pais de Diana estavam 
a oferecer no Bistro, em 13everly Hills, ainda se viam caixas espalhadas por todo o lado e Diana tinha deixado a sua bagagem para a lua-de-mel no ball da entrada. 
Na vs-

16                          DANIELLE STEEL
pera do casamento, ela no quis passar a noite com ele e foi ficar em casa dos pais. Dormiu no seu quarto de criana, onde, de manh, ficou algum tempo deitada depois 
de acordar, contemplando o papel de parede de flores desbotadas azuis e cor-de-rosa que ela to bem conhecia. Era estranho pensar que da a algumas horas seria uma 
outra pessoa, a mulher de algum... isso significava o qu? Quem seria ela ento? Iria ser tudo diferente do que fora viver com ele? Ser que ele ia mudar? E ela? 
De sbito, tudo isso parecia algo assustador. Pensou nas irms, nos homens com quem tinham casado, nos filhos que tinham tido, em como tudo isso as fizera mudar, 
subtilmente primeiro, e depois, com o passar dos anos, tomando-as uma espcie de unidade indestrinvel com os filhos e os maridos. 0 seu afecto por elas mantinha-se, 
mas, de uma forma imperceptvel, era algo diferente. Era estranho imaginar, tambm, que da a um ano ela prpria podia ter o seu filho. Fazer amor com Andy era sempre 
to extraordinrio, e pensar que um dia pudesse dar flutos e nascer-lhes um beb tornava-o ainda mais excitante. Ela amava-o profundamente e dava-lhe um prazer imenso 
imaginar como seria bom ter um filho dele.
Estava ainda a sorrir quando se levantou no dia do seu casamento, pensando em Andy e na vida que iam partilhar. Desceu do quarto para tomar uma tranquila chvena 
de caf antes que mais algum se levantasse. A me apareceu pouco depois e, meia~hora mais tarde, chegaram as irms com os filhos para se vestirem ali e ajudarem 
Diana a preparar-se para o casamento. Os maridos tinham ficado em casa porque iam fazer de mestres~de-cerimnia. As trs midas de Gay1e e a garotinha de Sam iam 
distribuir as flores e o filho de Sam levaria as alianas. Este tinha apenas dois anos, e ficava de tal modo gracioso com o pequeno fato de seda que Dana escolhera 
para ele que esta e as irms ficaram de lgrimas nos olhos ao v~lo.
Mal chegaram, a me de Diana tratou de reunir imediatamente as crianas, para as quais j tinha contratado os servios de uma rapariga que iria ajudar a mant-las 
na ordem enquanto as mes se vestiam.
- I-ipico! - deixou escapar Gay1e com um sorriso trocista.
Normalmente, a me pensava em tudo, previa todas as contingncias, e era de tal modo organizada que arrancava de toda a gente longos gemidos quando comeava a telefonar-lhes 
em Junho para saber que planos tinham para o dia de Aco de Graas. Para Diana, porem,

0 PREO DA VENTURA                             17
a me foi uma ddiva do cu na preparao do casamento. Ocupadssima como estivera na revista, com o tempo contado para as provas do vestido, a me encarregara-se 
de todos os pormenores, e isso bastava para Diana saber que tudo iria correr bem. E at quele instante, correra de facto. As irms estavam lindssimas nos seus 
vestidos de seda de tons plidos de pssego, e levavam rosas cor de pssego muito suave; as filhas estavam tambm um primor nos seus vestidos brancos com faixas 
cor de pssego. Ao sarem para a igreja com a av e as
mes, levavam cestos com ptalas de rosas nas mos enluvadas, Diana                   I ainda ficou, a trocar dois dedos de conversa com o pai nos derradei-
ros e tensos minutos que faltavam.
- Ests simplesmente maravilhosa, minha querida - disse-lhe o pai com um sorriso. Ele mostrava-se sempre to orgulhoso dela, sempre fora to generoso, to afvel 
e encorajador. Ela no tinha o mais pequeno motivo de queixa dos pais, nunca ali houvera nada escondido, perguntas inconvenientes, animosidades, nem mesmo quando 
crescera, pelo menos que se lembrasse. Gayle, por exemplo, tivera momentos bem piores com eles, e entre ela e a me tinha havido vrias desinteligncias violentas. 
Mas Gay1e fora a primeira, e <estava a estre-Ios>, costumava ela explicar mais tarde. Diana, em contrapartida, sempre con~ siderara os pais bastante razoveis, 
e Samantha concordava com ela, se bem que, no incio, o patriarca dos Goodes demonstrasse algum ner~ vosismo por ela ir casar com um artista. Mas acabaram por habituar-se 
a admir-lo e a respeit-lo. Scamus era um excntrico confesso, mas tornava-se difcil no gostar dele..
E no tinham qualquer tipo de reservas em relao a Andrew Douglas. Era um homem encantador com o qual sabiam que Diana ia ser felicssima.
Assustada? - perguntou-lhe o pai num tom carinhoso, vendo-a passear~se pela sala, aguardando os ltimos minutos antes de sair para a limusina que os levaria para 
a cerimnia.
Ainda faltava algum tempo e, subitamente, o desejo de Diana era que tudo tivesse j terminado, que se encontrassem j em Bel Air nessa noite ou no avio para Paris 
na manh seguinte.
- Mais ou menos - e fez um sorriso amarelo, parecendo a mesma criana doutros tempos. Com os longos cabelos castanhos acobreados apanhados num rolo por baixo do 
vu, ao olhar para o pai ela parecia

18                           DANIELLE STEEL
admiravelmente sofisticada e ao mesmo tempo demasiado jovem. Sempre fora capaz de se dirigir a ele, contar-lhe o que sentia, partilhar com ele os seus desgostos 
e receios. Mas no tinha receios graves, naquele momento, apenas algumas interrogaes sem resposta.
- Ponho-me a pensar se agora no ser tudo diferente... quer dizer, casados... em vez de vivermos juntos... - Suspirou e tornou a sorrir -. Tudo isto parece to 
adulto, no ?
Com 27 anos, ela sentia-se ainda to nova e, contudo, s vezes to velha. Mas talvez fosse o momento certo para casar, sobretudo com um homem que amasse tanto como 
ela amava Andrew William Douglas.
- E  adulto - afirmou o pai, a sorrir enquanto a beijava ao de leve na testa. Era um homem alto, com ar distinto, de cabelos brancos e olhos muito azuis. Ele conhecia~a 
bem, e gostava da mulher em que ela se tornara, e do homem com quem tencionava casar~se. Sabia que ia ser bom para os dois. No tinha nenhum receio sobre Andrew 
e Diana, Se a vida lhes fosse favorvel, os dois iriam longe, e ele s podia desejar-lhes o melhor para a sua jornada.
- Ests preparada, sabes perfeitamente que passo vais dar, e ele  um bom homem. Serias incapaz de cometer um erro, minha querida. E vamos estar sempre /ao teu lado... 
e do Andy- Espero que os dois saibam isso.
- Eu sei. - Tinha os olhos rasos de lgrimas quando os desviou dele. Repentinamente, sentiu-se emocionada por ir deix-lo, e quela casa, apesar de no viver ali 
h muito tempo. De certa forma, era-lhe mais difcil separar-se dele que da me, mais ocupada e mais objectiva, absorvida, nos ltimos momentos, a endireitar o vu 
de Diana, a ver se as crianas no lhe pisavam a cauda antes de seguir para a igreja. Mas agora no havia mais frenesins, apenas amor e esperana, e uma avalancha 
de sentimentos enquanto ela e o pai permaneciam na sala de estar.
- Vamos l. minha menina - disse ele finalmente, a voz brusca, mas afvel -. Temos de ir a um casamento. - Sorriu-lhe e deu-lhe o brao; depois, com o motorista, 
ajudou-a a entrar no carro com a sua longa cauda e o imenso vu, e em breve ela encontrava-se instalada no banco de trs, segurando o seu enorme ramo de rosas brancas. 
A imensido do vestido espalhava-se por todo o carro e, de sbito,

0 PREO DA VENTURA                            19
ficou aterrada quando arrancaram e surgiram crianas a acenar e a apontar para ela.
- Olha!... Olha!... Uma noiva!...
Tinha graa perceber que era ela a noiva, e sentiu~se estonteada de excitao quando o carro avanou. Subitamente, pde sentir o corao a latejar-lhe, enquanto 
ajeitava o vu e alisava o corpete de renda e as enormes mangas de cetim, to ajustadas durante as inmeras provas. o vestido era muito vitoriano no estilo, e extremamente 
formal.
A seguir  cerimnia, teriam um copo~d'gua para trezentas pessoas no Oakrnont Country Club. Ia l estar toda a gente - as suas antigas companheiras de escola, alguns 
amigos dos pais dela, parentes afastados, pessoas conhecidas da revista, os amigos de Andy, e uma hoste de convidados seus da empresa. 0 seu colega de trabalho mais 
ntimo, William Bennington, ia estar na cerimnia; no faltariam tambm algumas das estrelas com quem ele tinha trabalhado mais de perto. Os pais dele e os trs 
irmos tambm tinham vindo. Nick, que estivera na Esccia, trabalhava agora em Londres, e Greg e Alex, os gmeos, estavam na Harvard Bussiness School, mas nenhum 
dos trs deixara de vir. Os gmeos eram seis anos mais novos do que Andy, que estava agora com
32 anos e sempre fora o seu heri. Tambm eram loucos por Diana, a quem j agradava a expectativa de poder conhec-los melhor, t-los em sua casa durante as frias 
escolares, ou mesmo, quem sabe, convenc-los a virem viver na Califrnia. Mas ao contrrio de Andy, os outros Douglas preferiam o Leste, e Greg e Alex pensavam que 
provavelmente viriam a acabar em Nova lorque, em Boston, ou talvez at em Londres, como Nick.
- Ns no somos caadores de estrelas como o nosso irmo gracejara Nick ao jantar, na noite anterior. Mas era bvio que lhe admiravam o sucesso, e a sua escolha 
da noiva. Os trs rapazes tinham manifestamente orgulho no seu irmo mais velho.
Diana podia ouvir a msica do rgo no interior da igreja enquanto aguardavam c fora. Deu o brao ao pai, sentindo um ligeiro frmito de excitao percorrer~lhe 
o corpo. Fitou-o com uns olhos azuis e vibrantes que se pareciam com os dele, e apertou-lhe fortemente a mo quando comearam a subir os degraus da igreja.
- C vamos, Pap - murmurou.
- No te preocupes, vai correr tudo bem - tranquilizou-a o pai,

20                          DANIELLE STEEL
como fizera na noite da sua primeira pea... ou da vez que ela cara da bicicleta aos nove anos e partira o brao, e que ele a conduzira ao hospital, contando~lhe 
histrias cmicas e fazendo-a rir, e depois apertando~a contra si enquanto a tratavam.
- s uma rapariga maravilhosa e vais dar uma ptima esposa disse-lhe quanto pararam em frente da porta principal,  espera do sinal de um dos mestres~de-cerimnia.
- Gosto muito de si, Pap - murmurou-lhe ela, nervosa.
- Eu tambm gosto muito de ti, Diana -. Ele inclinou-se e beijou uma espuma de vu, enquanto o perfume penetrante das rosas pare~ cia envolv-los. Era um momento 
que ambos sabiam ir perdurar-lhes na memria para o resto da vida.
- Deus te abenoe - segredou-lhe quando surgiu o sinal, e as irms comearam a entrar lentamente na igreja, seguidas por trs das amigas mais antigas de Diana, vestidas 
nos mesmos tons de pssego e com grandes chapus de organza, e logo atrs por uma procisso de crianas adorveis. Houve uma pausa um tanto longa ao mesmo tempo 
que a msica se tomava mais imperiosa e, por fim, lentamente, muito lentamente, graciosa e com um ar majestoso, chegara ela, uma jovem rainha ao encontro do seu 
consorte, de vestido branco de cetim, de cintura muito justa e belas aplicaes de renda. 0 vu parecia envolv-la como uma nvoa suave, de forma que, por baixo 
dele, os convidados podiam admirar o cabelo cintilante, a pele delicada, os olhos azuis reluzentes, o sorriso meio nervoso, os lbios entreabertos. Ento ela ergueu 
o olhar e viu-o, alto, belo, loiro,  sua espera. A promessa de uma vida inteira.
Andrew tinha lgrimas nos olhos quando a viu chegar, Ela parecia uma viso, a deslizar com suavidade pelo corredor atapetado a cetim branco. E finalmente, segurando 
o ramo com as mos trmulas, parou diante dele.
Andy apertou-lhe ao de leve a mo, e o pastor dirigiu-se solenemente aos presente, lembrando-lhes por que estavam ali, a sua terrvel responsabilidade como famlia 
e amigos de apoiarem o jovem casal nos seus votos, para o melhor e para o pior, na sade e na doena, na riqueza e na pobreza, at que a morte os separasse. Lembrou 
a Andrew e a Diana que a estrada nem sempre seria plana, que o destino podia nem sempre ser sorridente, mas que deviam contar um com o outro,

0 PREO DA VENTURA                           21
em testemunho dos seus votos, fiis entre si e fortes no seu amor e no amor de Deus.
Trocaram os votos em voz firme e clara C, nesse momento, as mos de Diana j tinham cessado de tremer. j no estava assustada. Estava com Andy. No mundo a que pertencia. 
E nunca fora to feliz em toda a sua vida. A fina aliana de ouro que o marido lhe colocou no dedo cintilou na luz do Sol, e quando este se inclinou para beij~la, 
o amor nos olhos dele era to temo que a prpria me dela chorou finalmente.
0 pai j havia chorado muito antes, quando a deixara no altar diante do homem que ela amava, Sabia que nunca mais tornaria a ser a mesma coisa para eles... ela pertencia 
a uma outra pessoa.
Fizeram juntos o caminho entre o altar e a porta da igreja, radiantes e orgulhosos, e ainda sorriam quando entraram para o carro que os levava ao clube para o copo-d'gua. 
No final deste, danou-se at s seis horas. Diana tinha a impresso de que todos os seus conhecidos de sempre e vrias centenas de pessoas que jamais conhecera 
tinham sido convidados. E, ao fim da tarde, sentia~se como se tivesse danado com todos ali presentes, e ela e as irms tiveram um momento de ver~ dadeira histeria 
quando executaram o lmbo com Andy e os irmos. Os gmeos tiveram ambos de danar com Sam, porque os Douglas eram quatro e as irms Goode apenas trs, mas Sam pareceu 
gostar. Tinha s menos um ano que eles, e no final da festa j eram grandes amigos. Diana estava comovida ao ver a quantidade de colegas de Andy que tinham vindo; 
o prprio presidente da empresa apareceu com a mulher, embora ficassem apenas alguns instantes, mas o facto de terem vindo fora de qualquer modo simptico. 0 director 
da Tdays Home tambm compareceu, e danou vrias vezes com Diana e com a me dela.
Foi uma tarde maravilhosa, um dia perfeito, o incio duma vida com que sempre sonhara. Tudo se ajustara harmoniosamente na sua vida at ali. Andy cruzara o seu caminho 
no momento certo, tinham sido felizes nos ltimos dois anos e meio, ela adorara viver com ele, e agora parecia ter chegado a altura ideal para o casamento. Estavam 
seguros um do outro e de si prprios, e do que pretendiam da vida. Queriam estar juntos, partilhar as suas vidas e construir uma famlia  imagem da de cada um deles. 
Tinham tantas coisas para dar! Por instantes, Diana sentiu-se como se tudo fosse demasiado perfeito, parada a olhar para ele, una minutos antes de ir mudar de fato. 
Detestava a ideia de des-

22                           DANIELLE STEEL
pir o vestido de noiva, de nunca mais o tornar o usar, de converter a realidade em recordao. Olhava o seu marido e queria que aquele momento fosse interminvel.
- Ests linda - murmurou~lhe ele ao pux-la de novo para a pista de dana para uma ltima valsa antes de deixarem a festa e iniciarem a sua nova vida.
- Quem me dera que este dia no terminasse - disse ela, fechando os olhos, a pensar como tudo fora maravilhoso.
- E no vai terminar - prometeu ele serenamente, puxando-a mais para junto de si -. Ser sempre assim, Diana...  preciso lembrarmo-nos disto, se as coisas se tornarem 
dificeis entre ns...
- isso  um aviso? - ela afastou-se um pouco, sorrindo-lhe Agora vais comear a tornar-me a vida negra?
- Bastante! - Ele riu~se, colando-se mais a ela, que percebeu o sentido das suas palavras e soltou uma pequena gargalhada.,
- Devias ter vergonha! - e ria-se, enquanto continuavam a rodopiar na pista de dana.
- Vergonha, eu? Quem  que me deixou sozinho e voltou para casa dos paps para se armar em virgem?
- Uma noite! Andy!
- No foi uma noite... foi mais tempo... eu  que sei. - ele puxou-a mais para si, encostando o rosto ao vu, e ela tocava-lhe no pescoo com dedos delicados.
- Foi uma noite...
- De que vais ter de compensar-me durante uma semana, a comear... - espreitou para o relgio - daqui a meia hora.
Lentamente, a msica chegava ao fim e ele olhou-a com ternura.
- Pronta para sair? - Ela acenou com a cabea, triste por abandonar o seu casamento, mas eram horas, passava das seis e estavam ambos exaustos.
As damas de honor subiram com ela para a ajudar a mudar de roupa. Lentamente, Diana despiu o seu belo vestido e tirou o vu. A me pendurou-os com cuidado em cabides 
especiais almofadados, observando de longe, com um sorriso, a excitao das jovens. Ela amava as suas filhas mais que tudo neste mundo. Tinham-lhe trazido tanta 
alegria, e agora estava feliz por v~las a todas estabilizadas na vida, venturosamente casadas.

0 PREO DA VENTURA                           23
Diana ps o fato de saia e casaco, em seda cor de marfim, que a
me escolhera com ela na Chanel. Era debruado a azul-marinho, com uma carteira a condizer e grandes botes de madreprola. Tinha tambm comprado um chapu creme, 
e parecia extraordinariamente chique quando tomou a descer, com o ramo de rosas no brao, para juntar-se ao marido.
Os olhos reluziam-lhe ao entrar na sala. Momentos depois, ela atirava o seu ramo e ele atirava a liga dela, e em seguida, no meio de uma chuva de arroz e ptalas 
de rosas, correram para o carro, depois de beijarem os irmos e os pais. Prometeram telefonar-lhes durante a viagem e Diana agradeceu aos pais o maravilhoso casamento. 
Na longa limusina branca, partiram a caminho da sua noite de npcias no Bel Air Hotel, onde iam ficar numa enorme sute que dava para jardins primorosamente cuidados.
j com o carro em andamento, Andy ps o brao  volta dela, e os dois suspiraram de alvio e exausto.
- Uf! Que dia! --exclamou ele, e recostou-se no banco, olhando-a em silenciosa contemplao. - Estavas uma noiva deslumbrante! Era estranho pensar que tudo tinha 
terminado.
- Tu tambm estavas muito bem - ela sorriu~lhe. - Foi um casa~ mento lindo!
- Tu e a tua me fizeram um trabalho fantstico. Sempre que conversava com algum da empresa, diziam-me que era melhor do que tudo quanto j viram no cinema.
Fora enternecedor, e feliz, e repleto de familiares e amigos, mas sem ostentao.
- As tuas irms tambm estavam impagveis. Vocs... quando esto as trs juntas, deixa-me que diga, descontrolam-se,  ou no  verdade? - ele tentava espica-la, 
e ela empertigou-se imediatamente, fingindo-se ofendida,
- Ns' Ns?.. Pois eu diria que os Douglas no ficam nada atrs nesse sector! Vocs so simplesmente escandalosos!
- No digas disparates, - Andy ficou com um ar srio, fingindo-se concentrado a olhar para a janela, mas a sua recente esposa dava-lhe empurres, quase at ao cho, 
e ele desatou a rir.
- Ests a brincar? Perdo, mas tu no te lembras quando vocs quatro faziam o boogaloo com a minha me?

24                          DANIELLE STEEL
- No me lembro de nada disso. - E todo ele era inocncia, e os dois soltaram uma gargalhada.
- Ests bbedo!
- Devo estar, sim. - Virou-se e agarrou-a impetuosamente, prendendo-a nos braos enquanto a beijava. To longamente que ao apartarem-se estavam ambos sem respirao. 
- Santo Deus... estive o dia inteiro morto por fazer isto. No vejo a hora de chegarmos ao hotel e rasgar-te a roupa toda.
- 0 meu fato novo? - Ela parecia horrorizada, e ele ria com antecipada satisfao.
- E o chapu a condizer. Devo dizer que, por sinal, so bem bonitos.
-  Obrigada. - Deram~se as mos, sentindo-se como novos no seu amor. Estranhamente, era quase como se estivessem a comear do princpio, excepto que eram j velhos 
amigos e tudo o que faziam lhes era maravilhosamente familiar e abenoado pelo amor que sentiam um pelo outro.
Quando chegaram ao hotel, o groom guiou-os at ao edifcio prin~ cipal, e eles trocaram um sorriso ao passar por uma discreta tabuleta indicando o caminho para o 
casamento dos Mason-Winwood.
- Tem de ser um grande dia - segredava-lhe Andy, e ela sorriu. Admiraram de relance os jardins e os cisnes, e tanto ele como ela estremeceram ao ver o quarto. Ficava 
no segundo andar, com uma enorme sala de estar, uma pequena kitchenete e um quarto fabuloso todo decorado com tecidos estampados de flores e cetim cor-de-rosa. Parecia 
o lugar perfeito para a sua noite de npcias, com uma lareira na sala que fez Andy desejar uma noite bastante fria para poder acend-la.
-  lindo! - exclamou ela quando o groom saiu e fechou a porta.
- Tu tambm. - Delicadamente, tirou-lhe o chapu, que arremessou para cima de uma mesa e, com mos cautelosas, soltou-lhe os cabelos, pelos quais ia correndo os 
dedos  medida que estes lhe caam sobre os ombros. - s a mulher mais linda que j conheci... e s minha... para sempre, para todo o sempre... - Parecia uma criana, 
contando um conto de fadas, mas fora essa a promessa que tinham trocado. E a noiva e o noivo viveriam felizes para sempre...
- E tu tambm s meu - lembrou-lhe ela, mas ele no precisava que lho lembrassem, e no fez objeces. o elegante fato Chanel foi

0 PREO DA VENTURA                             25
apressadamente desabotoado no meio de um beijo, e o casaco tombou no cho quando ele a deitou no sof, junto ao qual, da a momentos, se encontravam tambm as roupas 
dele.
Os seus fatos jaziam em desalinho no cho, enquanto os seus corpos se alongavam, expectantes e hirtos como se pela primeira vez se descobrissem como homem e mulher. 
Toda a sua paixo, todas as suas promessas pareciam confluir num momento nico de abandono, e Diana colava-se-lhe como se jamais fosse deix~lo partir, por um instante 
ou por toda a vida. 0 seu xtase culminou, e ambos estremeceram de prazer, ficando ento serenamente nos braos um do outro durante longos instantes depois de tudo 
terminado. Era sol-posto naquele momento, e longos dedos de luz rosa e laranja insinuavam-se em estrias pelo quarto enquanto os dois jaziam unidos, meditando na 
vida que doravante iam partilhar para sempre.
- Nunca fui to feliz em toda a minha via - disse ela com voz doce.
- Espero que o sejas sempre - murmurou ele. - Espero fazer-te sempre feliz.
- Espero que cada um faa o outro feliz - acrescentou, e ento desprendeu os seus longos membros dos dela, levantou-se, sorrindo-lhe, e dirigiu~se lentamente para 
a janela. Os cisnes negros e brancos vogavam suavemente no lago, e os relvados pareciam muito cuidados. Em trajes de cores garridas, havia gente jovem que se dirigia 
para uma rea j fora do seu alcance, enquanto o ar da noite trazia at eles alguns acordes de msica.
- Deve ser o casamento dos Mason-Winwood. - Diana sorriu-lhe, ainda deitada no sof, e de sbito sentiu a esperana de que tivessem acabado de fazer um beb. Ultimamente 
no tinham tomado qualquer tipo de precauo, j no havia razo para isso. Tinham concordado no o fazer, e ver o que sucedia assim que estivessem casados. Ambas 
as irms haviam engravidado na lua~de-mel, por isso ela suspeitava que pudesse suceder~lhes outro tanto, o que lhe agradava sinceramente.
Alguns minutos depois, levantou-se para ir ter com ele e, abeirando~ -se da janela, viu uma jovem em traje de noiva a descer a alameda, com um vestido branco at 
ao joelho, um vu branco curto, e um pequeno ramo de flores. junto dela estava uma rapariga de vestido vermelho, talvez a sua dama de honor. A noiva aparentava a 
idade de Diana, ou

26                          DANIELLE STEEL
pelo menos muito prxima, uma loir oxigenada", deveras atraente e sensual, e o vestido seria talvez elaborado mas no podia dizer-se que parecesse caro. No entanto, 
alguma coisa no seu modo de olhar e a maneira nervosa como corria tocou-lhes o corao. Os sentimentos eram-lhes por demais familiares, e s puderam desejar-lhe 
o melhor, vendo-a correr para o seu casamento...
- Barbie, v l! - insistiu Judi, a rapariga do vestido vermelho, mas Brbara tinha tropeado e quase cara dos sapatos de salto alto de cetim branco comprados num 
supermercado barato nessa manh. Por aqui... cuidado, mida... - Judi estendia-lhe a mo a segur-la, e Barbara parou para respirar fundo, escondida dos convidados, 
enquanto Judi acenava ao padrinho do noivo, perguntando com um trejeito: "Est na hora?". Ele abanou a cabea e ps cinco dedos no ar, e a dama de honor acenou-lhe 
o seu entendimento. As duas mulheres eram amigas, embora no se conhecessem havia muito tempo. Ambas eram actrizes, chegadas a Los Angeles no ano anterior, depois 
de estarem em Las Vegas, onde tinham sido bailarinas. Para economizar os modestos ganhos, tinham resolvido partilhar o mesmo quarto.
Judi conseguira dois pequenos papis desde que chegara a Los Angeles, alguns trabalhos como modelo, e estivera prestes a obter um papel de figurante num filme de 
publicidade. Barbie participara no coro de uma nova encenao de ONaboma! quando esta passara na cidade, concorrera, sem sucesso, a todas as peas de revista, e, 
tal como Judi, passara o resto do tempo a trabalhar como criada de mesa. Arranjara um emprego formidvel no Hard Rock Caf quando chegara  cidade, e fora a que 
depois conseguira encaixar Judi. E foi no Hard Rock Caf que elas conheceram Charlie.
Judi foi a primeira a sair com ele, mas detestaram-se, no tinham nada a dizer, e foi para conversar com Barbie que ele continuou a ir assiduamente ao caf. Durante 
uns tempos, almoava l quase todos os dias, e ento, finalmente, encheu-se de coragem e convidou-a para sair, Com Judi, no precisara de metade dos rodeios para 
a convidar - des~ contrada como era, to mais terra~a-terra -, mas ele achava que Barbie era realmente especial.
Saram regularmente depois disso, e ao quarto encontro Charlie

0 PREO DA VENTURA                            27
estava preso pelo beio, mas tambm cheio de pavor de lho dizer. parou, inclusive, de ver Barbie durante uns dias, mas no foi capaz de manter-se longe muito tempo. 
Telefonou a Judi e pediu-lhe que fosse ter com ele. Precisava do conselho dela e queria que Judi lhe dissesse o que Barbie pensava dele.
- Ela  doida por ti, parvalho -. Espantava-a que um homem com 29 anos de idade pudesse ser to ingnuo a respeito das mulheres. Nunca tinha conhecido ningum como 
ele, e Barbie tambm no. No era propriamente bonito, mas era <giro>,, dentro do tipo agarotado, e to inocente, to correcto!
- 0 que te leva a pensar que ela gosta de mim? Ela disse-te alguma coisa? - perguntou incrdulo, mas Judi soltou outra gargalhada.
- Conheo-a melhor que tu.
Judi sabia que Barbie gostava da doura de Charlie, da sua generosidade, e achava que a tinha levado a lugares maravilhosos. Ele arranjara um bom modo de vida como 
representante de uma grande companhia de txteis, e ganhava uma bela maquia em comisses, gostava de levar raparigas a bons restaurantes e vivia muitssimo bem para 
um tipo solteiro. 0 lado agradvel da vida era muito importante para ele. Crescera num ambiente de pobreza em New Jersey, e por isso significava muito para ele poder 
ter agora uma vida boa. Esfalfara-se a trabalhar para isso e merecia-o.
- Ela acha que s um tipo incrvel - acrescentou Judi, e questionava-se se no fora um disparate no ter feito um pouco mais de esforo com ele, mas no era o seu 
tipo. Ela gostava de excitao, e Charlie era demasiado assptico. Era um sujeito simptico, mas ela preferia homens mais carismticos. Queria divertir-se, e ele 
causava-lhe tdio. Com Barbara, porm, a histria era outra. Judi sabia que tinha crescido numa pequena cidade, que ao terminar o liceu ganhara o concurso da "Miss-Ideal-da~Cidade"

, e que a seguir tivera um arrufo com a famlia e fugira para Las Vegas. Durante muito tempo pensara ir para Nova lorque, mas era muito longe de Salt Lake e Las 
Vegas ficava mais  mo. Mas a despeito dos homens que conhecera ali, e dos maus bocados, ainda existia algo decente e intacto em torno de Barbie que fizera Charlie 
am-la. Ela tambm gostava de Charlie. Lembrava-lhe certos rapazes da cidade onde crescera, e achava a sua ingenuidade reconf0rtane. Ele era o agradvel oposto dos 
homens que conhecera, que

28                           DANIELLE STEEL
pareciam esperar tudo deste mundo de uma rapariga, desde dinheiro a sexo, e o mais que pudesse ser. Charlie nao queria nada dela, excepto t-la a seu lado e mim-la, 
e era difcil no gostar disso. E no era de todo desengraado, embora no fosse excitante. Tinha cabelos ruivos, olhos azuis, e cada palmo do corpo estava coberto 
de sardas. Possua um dom de familiaridade que muitas mulheres consideravam a um tempo enternecedor e cativante, e que tambm comovia Barbie. Por vezes, esta pensava 
que ele podia ser a soluo para uma srie de problemas.
- Porque no lhe dizes tu o que pensas dela? - encorajara-o Judi, e ento, subitamente, trs semanas depois de terem comeado a sair, ficaram noivos. E seis meses 
mais tarde, Barbara estava ali especada atrs de uma sebe do Bel Air Hotel aguardando o sinal que daria incio ao seu casamento.
- Est tudo em ordem? - Judi examinou-a de alto a baixo, enquanto Barbie, nervosssima, saltitava ora num p ora no outro como um amedrontado cavalo de corridas.
- Parece-me que vou vomitar.
- No te atrevas! Depois de perder duas horas a meter-te o cabelo debaixo desse vu... matava-te!
- De acordo, de acordo... Meu Deus, Judi, estou velha de mais para isto.
Tinha 30 anos, s mais um ano que Charlie, mas por vezes sentia-se mil anos mais velha. Quando punha menos maquilhagem, e puxava simplesmente o cabelo para trs 
numa trana, parecia mais jovem do que ele. Mas vira muitssimo mais da vida, e estava bastante mais gasta. S Charlie via a doura e a pureza por debaixo do seu 
brilho fugaz; s ele era capaz de alcanar uma parte dela que Barbie julgara haver perdido para sempre. Convidava-a a ir ao seu apartamento para comer os pratos 
que ele prprio cozinhava, davam longos passeios, e ele falava-lhe em conhecer a famlia dela, mas sobre isso ela s abanava a cabea; e nunca respondia s suas 
perguntas. No gostava de falar deles, e dizia que nunca tinha tornado a Salt Lake City para os ver, mas nunca explicava porqu. Um dia ficou furiosa quando dois 
missionrios mrmones se apresentaram no apartamento que partilhava com Judi e tentaram traz-la de novo  sua igreja e convenc-la a regressar a Salt Lake City. 
Fechou-lhes violentamente a porta na cara,

0 PREO DA VENTURA                             29
berrando-lhes para nunca mais porem ali os ps. No queria guardar lembranas da vida que deixara atrs de si em Salt Lake City. Tudo o que Charlie sabia dela era 
que tinha oito irmos e irmas, e cerca de vinte sobrinhos e sobrinhas, mas era bvio para ele que alguma coisa devia ter-lhe sucedido ali, alm de tdio. Mas ela 
recusava-se absolutamente a falar disso.
Charlie era bem mais aberto a respeito do seu passado. Fora abandonado  nascena numa estao de comboios, rezavam os seus registos, e crescera numa srie de orfanatos 
em New Jersey. Estivera em casa de vrias famlias, e duas vezes fora considerado para adopo, mas era uma criana nervosa, muito atreita a alergias e a problemas 
de pele, e por volta dos seus cinco anos sofria horrivelmente de asma. Superara muita coisa com a idade, e a asma manteve-se controlada durante anos, mas quando 
isso aconteceu j era demasiado crescido para algum o adoptar. Deixou a instituio aos dezoito anos, apanhou uma camioneta para Los Angeles, e estava ali havia 
onze anos. Ps~se a estudar  noite, e o seu sonho era agora ir para uma escola de gesto, o que lhe permitiria arranjar um emprego melhor para sustentar a famlia 
por que sempre suspirara. Para ele, ter encontrado Barbie era como um sonho tornado realidade. Tudo o que desejava era casar com ela, dar-lhe um bom lar, e encher 
este de filhos que se parecessem com ela. Dissera-lhe isso uma vez, e ela desatara a rir.
- S teramos a ganhar se fossem parecidos contigo. - Ela era uma bonita rapariga, com uma figura espantosa, mas nunca pensara muito na sua imagem nem em si prpria, 
at conhecer Charlie. Ele era to bondoso para ela, to protector, to diferente dos homens que conhecera, e no obstante, havia momentos em que daria tudo para 
que fosse um pouco mais excitante. Tinha sonhado conhecer um actor quando chegara a Los Angeles, quem sabe se at alguma celebridade. Em vez disso, calhara~lhe Charlie. 
Por vezes ainda se interrogava se no devia esperar pelo seu prncipe encantado, ou pelo menos por um actor famoso. Levara Charlie s compras para lhe escolher roupas 
novas, e tentara inici-lo nos ltimos "estilos" para espevit-lo um pouco, mas por fim teve de concordar com ele, e que estes lhe ficavam simplesmente ridculos.
Era do tipo de homens que s se aguentam , paisana". Os cabe~ los ficavam espetados se os deixava crescer demasiado, e tinha de us-

30                          DANIELLE STEEL
-los curtos. Era impenSvel bronzear-se, pois "fritava" simplesmente, e a seguir empolava.
- No sou senhuma estampa, ests a perceber? - explicava-lhe ele, uma noite, muito srio, durante um jantar que cozinhara para ela. Uma especialidade sua, canelloni 
com osso buco, e uma farta salada de alface. Por acaso, tinha aprendido a receita numa das casas adoptivas onde estivera, explicou-lhe, e ela sentiu uma enorme ternura 
por ele quando o ouviu dizer aquilo. Havia momentos em que o amava verdadeiramente, e outros em que j no estava to segura, e ento questio~ nava-se. Seria o homem 
certo para ela? Realmente, realmente certo? Ou era apenas generoso e simptico e conveniente? Ela sabia que nenhum mal iria atingi-Ia com ele, mas tambm nenhum 
fascnio nem excitao.
Na sua vida nunca houvera nada linear, as opes tinham sido sempre terrivelmente difceis, os preos a pagar altssimos, os riscos muito grandes... excepto com 
Charlie. Este estava a oferecer-lhe tudo, tudo o que ela pensava ter querido anos atrs... ou que devia querer agora. Segurana, um lugar agradvel onde viver, um 
homem afectuoso para cuidar dela, sem apertos, sem dores de cabea, sem o terror de no ter dinheiro para pagar a renda ao fim do ms, sem o receio de que as coisas 
pudessem ir de mal a pior e ver-se forada a arranjar outro emprego como corista. 0 que ela queria no fundo era uma carreira de actriz, e os agentes com quem falara 
diziam-lhe que possua talento. Agora s precisava de uma oportunidade. E no tinha a certeza de que Charlie no fosse interpor-se no seu caminho. Casada com ele 
poderia continuar a trabalhar? No iria ele levantar objeces  sua carreira? Dizia que no, mas tambm passava o tempo a falar de filhos, e isso no estava nas 
suas cartas, no agora, no com ele, no por enquanto, nem talvez nunca. Ela no lhe dizia isso, claro, mas como seria se lhe surgisse a grande oportunidade? Se 
conseguisse um papel regular num espectculo semanal, ou at um grande papel num filme importante? Que faria ento da sua vida pacata? Mas se a grande oportunidade 
no chegasse... pelo menos no precisava de servir em cafs. Talvez aquela fosse uma forma incorrecta de ver as coisas. Isso causava-lhe por vezes remorsos, mas 
tinha de pensar em si. Aprendera essa lio muito tempo atrs, no seio da sua prpria famlia. Tinha aprendido uma srie de lies com eles, lies que no estava 
interessada em aprender outra vez, ou em recordar sequer.

0 PREO DA VENTURA                            31
Era dificil no se deixar influenciar pela constncia de Charlie, a
sua adorao, a sua devoo, a sua pureza, e por fim Barbie concluiu que o amava realmente. Mas agora, ali parada, tudo se afigurava de novo aterrador. E se estivessem 
a cometer um erro? Como seria se ao fim de dois anos de detestassem, ou se nem fosse preciso tanto tempo?
- Ento o que  que eu fazia? - murmurava ela para Judi.
- Agora  um pouco tarde para pensar nisso, no achas? - retor~ quiu a outra, alisando o seu vestido vermelho de renda. Judi tinha umas pernas interminveis e seios 
que lhe explodiam do colo. Fizera implantaes em Las Vegas, com um mdico seu conhecido que a guarnecera generosamente, e toda a gente com quem se dava achava que 
era fantstica. Excepto Barbie, que considerava uma tolice andar a comprar "rnamas" porque tinha as suas grandes, firmes e autnticas. Pois sim, dizia Judi para 
si prpria, mas de longe quem  que v a diferena?
Barbie tinha um corpo sensacional, cujo busto cheio fazia um acentuado contraste com a cintura finssima, to estreita que Charlie podia rode-la com as mos e quase 
tocar os dedos. No sendo alta, tinha contudo as pernas bem proporcionadas. Era uma rapariga espectacular, que mesmo metida num saco de sarapilheira arranjaria um 
modo de parecer "sexy". E era-o de facto, usasse o que usasse. E agora, no vestido de noiva curto e justo de cetim branco, ostentava um contraste irresistvel de 
inocncia e erotismo.
- Achas que o meu vestido est justo de mais? - e olhava de novo para Judi nervosamente. Sentia-se como se estivessem  espera h uma eternidade. No entendia por 
que no tinham simplesmente ido  Conservatria, mas Charlie insistira que queria um casamento a "rigor>,.
Aquele casamento tinha significado tudo para ele, e ela s o fazia em sua considerao. Estaria bastante mais feliz passando o fim-de-semana em Reno, mas Charlie 
planeara tudo e tinha convidado todos os seus amigos. Iam ter sessenta convidados, e ela sabia que aquele era o hotel mais elegante de Los Angeles - excepto talvez 
o Beverly HilIs Hotel, tinha ela argumentado, mas ele insistira que aquele era melhor. Escolheram o copo-d'gua menos dispendioso, a cerimnia mais simples, mas 
ele no prescindia do seu casamento ali, ainda que ficasse depenado de todas as suas economias.
- Tu mereces - dissera a Barbie.
- 0 teu vestido est ptimo - tranquilizava-a Judi, que pensava

32                          DANIELLE STEEL
sinceramente que a outra rapariga estava formidvel. Apavorada, mas muito bonita. - Vai correr tudo bem, garota. Descontra-te! - Ela comeava a interrogar-se que 
demora seria aquela, e ento, finalmente, apareceu o padrinho de Charlie e os msicos comearam a tocar. Charlie tinha contratado um baixo, um violino e um piano 
elctrico para a ocasio.
A msica anunciava a entrada da noiva e Judi reparou no pequeno palanque que fora expressamente montado para o casamento. Charlie tinha encontrado algures um pastor 
que no fizera muitas perguntas a Barbie pelo facto de esta ser mrmone, e ela acabou por concordar que fosse ele a cas-los.
Mark, o padrinho do noivo, ofereceu o brao a Barbie, olhando~a com um sorriso paternal. Tinha o dobro da idade de Charlie, e era entroncado, Fora durante dois anos 
o supervsor de Charlie no trabalho e, em certos aspectos, era quase como seu pai. Ainda era um homem bera-parecido, embora um pouco pesado, com pequenos rios de 
transpirao que lhe desciam das tmporas de cabelos grisalhos impecavelmente penteados.
Assumiu um ar muito compenetrado quando se dobrou para Barbie momentos antes de comearem a andar na direco do palanque.
- Boa sorte, Barbara... Vai correr tudo bem. - Dava-lhe palmadinhas na mo e ela procurava no ceder  tentao de pensar no pai.
- Obrigada, Mark. - Ele concordara em levar a noiva, e em ser
o padrinho. Oferecera tambm todo o champanhe, porque um cunhado seu conhecia um grossista com um manancial formidvel em Napa Valley, Queria tudo como devia ser 
para eles. Ele prprio era divorciado, com duas filhas, uma j casada e a outra ainda na Faculdade.
iniciaram o desfile e Barbara tentava no pensar no que tinha a sua frente, o casamento, os anos de compromisso. E ento, ele ali estava subitamente... Charlie... 
parecendo to carinhoso e inocente e jovem, com os olhos azuis e os cabelos ruivos e um doce sorriso. Trazia um smoking branco, com um cravo branco na lapela, e 
parecia um adolescente com o casaco do pai emprestado para o seu baile de finalistas. Era difcil ter medo dele, ou de entregar-lhe a sua vida. E quando Mark lhe 
apertou a mo querendo encoraj-la, ela percebeu de repente

0 PREO DA VENTURA                           33             r
que todos os seus temores eram inconcebivelmente idiotas. No corre-
ria nenhum perigo como mulher de Charlie. Estava a dar o passo certo, e subitamente sabia-o.
- Amo-te - murmurou-lhe ele, quando ela parou a seu lado, e ao olh-lo ela compreendeu que o amava. Estava a fazer algo de espantoso por ela, estava a dar-lhe uma 
vida nova maravilhosa, a oferecer-se para proteg-la para sempre. Nunca houvera ningum que tivesse feito alguma coisa por ela, e soube, quando o olhou, que ele 
nunca lhe faltaria. De repente, sentiu remorsos de todas as suas dvidas, de todos os receios, de todas as vezes que, intimamente, pensara poder ter arranjado melhor. 
Ele era a pessoa certa para si, um bom amigo, um bom homem, um bom marido, e fora uma idiota em ter desejado mais. Tinha
30 anos e o Prncipe Encantado estava obviamente virado para outro lado, algures num outro planeta. Para ela, Charlie Winwood tinha quanto bastava de prncipe, ela 
no precisava de muito mais, no que~ ria mais do que o que ele tinha para oferecer.
- Amo-te, Charlie - murmurou-lhe quando este lhe punha a aliana no dedo e, quando a beijou, estava a chorar, e ela puxou-o para si, querendo reparar toda a solido 
da sua vida, toda a amargura.
- Amo-te tanto, Barb... - No havia palavras para dizer-lhe                      T quanto.
- Prometo, serei uma boa esposa... a srio que sim-
- Eu sei que sers, minha linda. - Ele sorria-lhe, e mais tarde
bebeu  sade dela o champanhe de Mark, e por fim arrastou-a para a                  r pista de dana improvisada. Tinham montado um pequeno estrado em
cima do relvado, e havia um buffet perto do bar, mesmo por trs dos msicos.
. Era uma festa formidvel e toda a gente estava a gostar, sobretudo                r a noiva e o noivo, cada um dos quais bebeu generosamente do cham-
panhe de Mark, como de resto todos os convidados. E Mark parecia estar a divertir~se, danando com Judi. Os humores j iam bem animados quando a banda resolveu oferecer 
ritmos mais excitantes.
Depois, tomaram a msicas mais lentas, para acalmar os excessos e repr a compostura. Tocavam uma melodia romntica quando Mark convidou a noiva para danar, enquanto 
Charlie danava com Judi.
- Ests uma noiva lindissima, Barb - disse Mark enquanto vol~ teavam lentamente na pista. Havia milhares de estrelas no cu e estava

L)ANIELLE STEEL
calor. Era uma noite mgica. - Vocs os dois vo ter uma vida maravilhosa - observou com convico -, e um rancho de midos lindos para alegr-la! - rematou com 
segurana.
- Como pode ter tanta certeza? - inquiriu ela, sorrindo-lhe. Era um homem simptico, e um bom amigo.
- Porque sou muito velho, e sei muitas coisas. E sei como Char~ lie est desejoso de ter filhos. - Ela tambm sabia, mas dissera a Charlie que queria esperar alguns 
anos, de forma a poder prosseguir a sua carreira de actriz. Ele no vibrara muito com a ideia, mas concordaram em falar disso mais tarde. Charlie ainda no sabia 
porqu, mas ter filhos era uma coisa que a apavorava. E s o facto de ouvir Mark falar nisso causava-lhe uma sensao de nuseas na boca do estmago.
- Posso trocar? - interrompeu-os Charlie delicadamente, passando Judi para Mark e levando consigo a sua noiva para as ltimas danas da noite. Ambos tinham bebido 
bem, mas Barbie sentia-se como se estivesse num sonho, e toda a gente ali parecia muito feliz.
- Ests a divertir-te? - perguntou-lhe ele, acariciando~lhe o pescoo corri o nariz, sentindo os seios dela colados a si. Sempre que a tocava, ficava completamente 
louco, e ela gostava de divertir-se. Nunca dizia que no, nunca se opunha ao que ele quisesse fazer, era uma parceira fogosa e uma mulher diabolicamente "sexp,. 
Sentia-se o homem mais felizardo do mundo enquanto rodopiava com a noiva na pista de dana.
- Estou a gostar imenso. - Ela sorria~lhe feliz. - E tu?
- 0 melhor casamento que j tive. - Ele sorria-lhe. Tinham os dois quase a mesma altura, e ele olhava-a nos olhos, sentindo-se como que o dono do mundo.
- S tens isso a dizer. - Ela fingiu-se amuada, e ele puxou-a para si.
- Sabes como me sinto feliz, Barb... pelo menos espero que sabas. Para mim, isto  o sonho duma vida inteira. - Era o comeo de tudo aquilo que ele nunca possura. 
0 amor, o carinho, o lar, a famlia, tudo aquilo que tinha desejado desesperadamente.
- Eu sei. - murmurou ela, e sentiu a cabea andar-lhe vertiginosamente  roda quando ele a beijou. Tudo o que podia pensar de momento era imaginar-se deitada na 
praia de Waikiki com ele. Na manh seguinte, iam para o Hawai numa viagem de excurso com pti-

0 PREO DA VENTURA                           35
mas condies. E iam passar a sua noite de npcias no apartamento de Charlie. Chegaram a falar em ficar no Bel Air, mas era excessivamente caro para a sua bolsa, 
e Barbie no se importava. Ela j sabia que nunca, nunca mais iria esquecer aquela noite e aquele momento.
Em Santa Barbara, nessa noite, o cu estava igualmente cheio de estrelas quando um grupo de vinte cinco amigos observava emudecido Pilar Graham e Bradford Coleman 
beijando-se  luz do luar. Fez-se um longo silncio, e ento estes viraram~se para olhar os amigos, com uma
I expresso perplexa e feliz, e de todos os presentes rebentaram garga-
lhadas, vivas e aplausos. Marina Goletti, a juza que presidira  cerininia, declarou-os marido e mulher, e em breve eram rodeados pela pequena assistncia.
- Porque esperaram tanto tempo? - gracejou um amigo de Brad.
- Estvamos a praticar - retorquiu Pilar num tom muito digno, com o vestido branco de seda modelando a silhueta esbelta. Fazia natao e ginstica todos os dias 
e Brad gostava de dizer-lhe que tinha um corpo de dolescente. Era uma bonita mulher, muito orgulhosa dos seus cabelos grisalhos caindo-lhe volumosos e lisos at 
aos ombros. Tivera os primeiros cabelos brancos por volta dos vinte anos, e assim os dei-
xara continuar mais vinte anos at  sua idade actual.                              p
- Treze anos so muito tempo para praticar!
Uma das suas colegas, Alice Jackson, murmurou-lhe:
- Estamos felizes por teres finalmente resolvido casar coni Brad.
- Ela sorriu.
- Pois sim - interrompeu Bruce Herrimings, outro colega seu Eu sei que vocs no queriam era que houvesse um escndalo, agora que Brad  juiz.
- Adivinhaste - ouviram a voz cava de Brad, que veio colocar-se atrs de Pilar, apertando-lhe os ombros. - No queria que ningum a acusasse de dormir com o juiz 
para obter favores especiais.
- Como se fosses ter essa gentileza comigo! - respingou Pilar, reclinando-se contra ele. Entre os dois, tudo sugeria naturalidade, compreenso, intimidade.
E a curiosa verdade era que tinham sido inimigos mortais durante
trs anos, aps Pilar ter terminado o curso de Direito e ter vindo para             

36                           DANIELLE STEEL
Santa Barbara. Tinha conseguido um lugar de delegada de defesa do Ministrio Pblico, justamente quando Brad era o promotor de justia e cada caso criminal parecia 
op-los fatidicamente como adversrios. Ela detestava as suas ideias, as suas prticas, o seu estilo, a maneira implacvel como se fincava num caso at ganh-lo 
ou simplesmente desgastar o jri. E por mais de uma vez os seus nimos se inflamaram, travando acesas batalhas nos corredores do tribunal. Por mais de uma vez foram 
chamados  ordem pelo juiz, e Pilar esteve  beira de passar uma noite na priso por desrespeito ao tribunal, quando, uma ocasio, chamou sacana a Brad na frente 
do juiz. Mas dessa vez Brad divertira-se tanto com o seu insulto que ainda complicou mais as coisas ao convid~la para jantar quando a audincia fosse suspensa.
- o senhor est louco? Ouviu bem o que eu lhe disse? - perguntara~lhe, quando saram do tribunal. Ainda tremia de raiva pela maneira como ele estava a julgar um 
caso de estupro.
- De qualquer modo, voc tem de comer. E o seu cliente  cul~ pado, e voc sade disso.
Ela sabia-o, e no se sentia muito  vontade, mas algum teria de o defender, com a melhor das suas capacidades, e esse era o seu papel, agradasse ou no a Brad 
Coleman.
- No vou discutir a inocncia ou a culpa do meu cliente consigo, Sr. Coleman.  imprprio.  por isso que o senhor quer que eu v jan~ tar consigo? E entretanto 
levar-me a admitir coisas que o senhor iria usar contra mim? - Estava furiosa com ele, e que ele fosse    ou no um homem atraente no alterava as coisas. Coleman 
era o          Cary Grant daquele tribunal. Com cinquenta e muitos anos tinha uns belssimos cabelos brancos e o mulherio do seu gabinete no se cansava de comentar 
a sua beleza e o seu ar "sexy". Mas Pilar Graham no estava interessada nesses pormenores, no em relao a ele. Para ela tratava-se estritamente de uma questo 
de trabalho.
- Seria incapaz de descer to baixo - defendeu-se Bradford Coleman. - E creio que voc sabe disso. Queria t-la a trabalhar no nosso gabinete, em vez de estar na 
defesa. Gostava de ficar um dia do mesmo lado de um caso consigo. Podamos fazer a oposio passar um mau bocado.
Ela no pde deixar de sorrir, e sentiu-se lisonjeada com as palavras dele, mas no foi jantar. Sabia que era vivo, que tinha filhos

0 PREO DA VENTURA                             37
pequenos, e sabia principalmente que era um homem muito requestado. Mas para ela, era apenas o seu opositor. Nunca se permitira ver mais do que isso, pelo menos 
at ao dia em que, mais uma vez, se con~ frontavam num caso muito publicitado que todos os jornais vinham empolgando. Tratava~se de um homicdio de que a imprensa 
fazia um lamentvel fait-dvers e explorava o melhor que podia, e a coisa chegou a estar feia. Envolvia uma rapariguinha, a quem acusavam de ter assassinado o amante 
da me. A garota afirmava que o homem tentara viol-la, mas no havia provas e a me colocou-se contra ela. Os depoimentos foram particularmente longos e rduos 
naquele julgamento, as tcticas dos advogados brutais, e a meio de uma audincia Bradfrd Coleman foi ter com ela, serenamente, com naturalidade, para lhe dizer 
que, em virtude de dados novos, tinha acabado por acreditar que a sua cliente no era culpada. Pediu uma suspenso do julgamento e tornou-se o paladino da causa 
da rapariguinha. Foi graas  sua pericia e  sua escrupulosa investigao que a jovem saiu ilibada, afirmava sempre Pilar, e no ao trabalho dela. Ela nunca o conseguiria. 
E foi ento que tiveram finalmente o seu jantar. Aps trs longos anos. Com eles, nada sucedera nunca facilmente, nem rapidamente.
Os filhos dele tinham ento treze e dez anos. Nancy tinha treze anos e Tood dez, e desde o dia em que conheceram Pilar puseram objeces a que ela andasse com o 
pai. A me morrera havia cinco anos e durante todo esse tempo tinha tido com Brad exclusivamente para si. No tinham a menor inteno de abrir mo do pai, nem a 
meio-tempo, para uma outra mulher. No inicio os garotos tornaram-lhes a vida dificil; se bem que Brad e Pilar fossem na realidade simples amigos, os midos pressentiam 
que alguma coisa mais poderia nascer e queriam evit-lo. Brad estava profundamente desgostoso com a sua atitude, mas Pilar sentia unicamente pena dele. Ela ou outra 
qualquer, o certo  que ele precisava de mais alguma coisa alm do trabalho e dos filhos. E,  medida que o conhecia melhor, mais o respeitava, mais impressionada 
ficava com a sua inteligencia, a sua capacidade e a sua fora interior, o sentido infalvel de justia e integridade de que dava provas. Era ainda mais admirvel 
do que tudo o que lhe diziam a seu respeito.
E antes de o saber, estava profundamente apaixonada por ele e ele por ela, e no faziam ideia de qual o procedimento a tomar em relao aos filhos.

38                          DANIELLE STEEL
- 0 problema dos teus filhos  o menos, mas o meu trabalho? Eu no posso continuar a aceitar casos contra ti, Brad. No seria eticamente correcto nem bom para ns.
Finalmente ele concordou com ela e os dois alegaram a sua indisponibilidade quando foram de novo indicados para um caso que os iria opor; um ano depois, ela estava 
a exercer a advocacia a nvel privado e isso agradava-lhe. Por fim, Brad seguiu-lhe o exemplo e as suas vidas
- os prprios midos comeavam a habituar-se eram repletas e intensas,
 sua relao. Aos poucos, estes foram afeioando-se a ela e acabaram por aceit~la. Conquist-los exigira uma longa e dura batalha, mas quando Nancy atingiu os 
16 anos e Todd os 13, trs anos aps o incio do seu romance, Pilar Graham foi viver com Bradford Coleman.
Compraram uma casa nova em Montecito e os garotos cresceram. Naney foi para a Faculdade, Todd para o colgio interno, e, nessa altura, os amigos haviam desisitido 
de perguntar quando era que eles se casavam. Nenhum dos dois via necessidade disso. Tinham os filhos dele e Pilar nunca desejara ter um filho seu. No necessitava 
de nenhum pedao de papel comprovando fosse o que fosse, justificava-se sempre que a pressionavam. Estava casada com Brad no corao, e este era o nico lugar que 
contava.
Continuaram assim, confortavelmente, durante treze anos, e quando ele fazia os 61 anos e Pilar 42, Brad foi nomeado juiz para o Supremo Tribunal de justia de Santa 
Barbara. E subitamente aperceberam-se de como podia tomar-se embaraoso para ele o facto de viver com uma mulher com a qual no estava casado. Sobretudo se a imprensa 
resolvesse pegar no caso, o que era o mais provvel. j havia quem comentasse.
Pilar pareceu ficar de orelha murcha quando uma manh falavam disso ao pequeno almoo.
- Achas que devia ir-me embora?
Ele recostara-se na cadeira, com o New York Times na mo, olhando-a com uma expresso aparentemente divertida. Aos 42 anos Pilar continuava to bonita como aos 25, 
quando pela primeira vez o defrontara no tribunal.
- No te parece um pouco radical?
- Sei l, no quero criar-te problemas. - Parecia visivelmente contrariada enquanto servia os dois de mais caf.

0 PREO DA VENTURA                            39
- No s capaz de imaginar outra soluo, senhora delegada?
- Qual? - 0 seu desconhecimento parecia sincero. No estava de facto a enxergar nada.
- Ainda bem que voc no  o meu advogado, Mss Graham. j alguma vez te ocorreu que podamos casar? Ou, se continuas a abominar tal ideia, ento no entendo por 
que razo o facto de vivermos juntos ter de gerar um escndalo. Que eu saiba, os juizes tambm so autorizados a viver com pessoas. Afinal, so humanos.
- No teu caso, no acho que seja uma boa ideia. - Ele tinha uma reputao de tal modo intocvel que era uma tolice prejudic-la.
- E que tal o casamento?
Ela permaneceu algum tempo silenciosa, olhando o mar l fora.
- No sei. Nunca pensei realmente nisso... pelo menos longa~ mente. Tu pensaste?
- No, no pensei porque tu nunca quiseste. Mas podia ter pensado.
Brad sempre desejara casar com ela, mas Pilar mostrava-se sistematicamente determinada em continuarem livres, em formarem duas entidades distintas, lado a lado, 
ou enlaadas, mas nunca "sugados um pelo outro", nem "devorados", como costumava dizer. No comeo, obviamente, teriam enfrentado a objeco dos filhos, mas no naquele 
momento. Nancy casara-se no ano anterior e estava agora com 26 anos, Todd tinha 23, era um homem feito e trabalhava em Chicago.
- Seria assim to terrvel casarmos agora? - perguntou ele com um sorriso tmido, e Pilar hesitou antes de responder:
- Na nossa idade? - Parecia sinceramente chocada, como se ele estivesse a sugerir-lhe alguma coisa verdadeiramente excntrica, saltar de um avio de pra-quedas, 
por exemplo, algo que jamais lhe passasse pela cabea fazer.
- E agora existe algum limite de idade para isso? No fazia ideia!
- ironizou, e ela sorriu.                   1
- Pois sim, pois sim... - Pilar suspirou, tomando a reclinar-se na cadeira. - No sei... assusta-me, simplesmente. Tem sido tudo to maravilhoso nestes anos todos, 
porqu mudar agora? E se isso arruinar tudo?
- Dizes sempre isso. Mas por que diabo havia de arruinar? Tu mudavas, porventura? E eu, mudava?

40
DANIELLE STEEL
- No sei. - Ela olhou-o com um ar circunspecto. - No mudavas?
- Como podia eu mudar, Pilar? Eu amo-te! 0 que mais quero neste mundo  casar contigo, e talvez esta seja a desculpa de que precisvamos.
--Mas porqu? A no ser a tua nomeao para juiz, claro. Qual  a ideia? Que diferena faz isso para os outros? E porque  que h-de ser da conta dos outros?
- No  da conta dos outros.  da nossa. Mas ainda no perdi a esperana.. - Inclinou-se para ela e, prendendo-lhe as mos nas suas, beijou-a. __ Amo-te, Pilar Graham. 
Vou amar-te at ao dia da minha morte. Gostava que fosses minha mulher, independentemente de ser ou no ser juiz. 0 que pensas acerca disso?
- Penso que ests louco. - Sorriu-lhe, beijando-o por sua vez Demasiado stress no escritrio. Alm disso, gosto de fugir um bocado  regra. Gostei de ter cabelos 
brancos quando tinha 25 anos, nunca me importei de no ter filhos quando a maioria trazia um s costas e outro no carrinho, gosto de trabalhar para viver e no me 
incomoda no estar casada.
- Como no? Devias ter vergonha de viver assim, em pecado. No tens conscincia?
- Absolutamente nenhuma. Foraram-me a abdicar dela quando transpus a barra do tribunal.
- Sempre soube dessa tua faceta. Em todo o caso, pensa agora um pouco nisso - rematou, simulando um ar despreocupado. Aquilo fora exactamente antes do Natal. E nos 
seis meses seguintes tinham discutido e falado no assunto, at que, chegando mesmo a irritarem~se em algumas ocasies, ele jurou que no casaria com'ela mesmo que 
implorasse. E uma noite, em Maio, Pilar deixou-b completamente estupefacto.
- Estive a pensar naquilo - anunciou-lhe, enquanto lhe preparava um caf no fim do jantar.
- Naquilo o qu? - Ele no sabia do que ela estava a falar.
- Em ns. - Ele preparou-se para o pior, subitamente apreensivo. Pilar era de tal modo independente, to capaz de tudo, de decises loucas que de repente resolvia 
considerar importantes. - Acho que devamos casar. - concluiu com o ar mais pragmtico deste mundo,

0 PREO DA VENTURA                         41
enquanto lhe estendia o caf, mas ele estava demasiado siderado para pegar na chvena e olhou-a estupefacto.
- Tu o qu? Depois de todos aqueles argumentos com que me brindaste no Natal... que diabo te levou a mudar de ideias?
- Nada. Apenas conclu que s capaz de ter razo, e talvez esteja na hora. - Pensara bastante no assunto, mas era difcil confesar-lhe que algures no seu ntimo 
lhe surgira um desejo sbito... de ser dele... fazer parte dele... para sempre...
- 0 que te fez pensar assim?
- No sei. - Ela parecia reservada e ele riu-se.
- s louca, sabes? Completamente louca. E eu amo-te. - Deu a volta ao bar e, tomando-a nos braos, beijou-a. - Amo-te muito, muitssimo, independentemente de casares 
comigo ou no. No queres mais um tempo para pensar?
- Acho melhor no me dares muito tempo. - Ela ria-se. - Sou
e capaz de mudar de ideias. Penso que o melhor  despacharmos tudo
rapidamente. - E dizia-o num tom de quem se refere a algo difcil e
1 penoso.                                                                         
- Prometo tornar as coisas o mais fceis que me for possvel.
Estava extasiado. Escolheram uma data para junho, telefonaram aos           i filhos, que tambm ficaram muito entusiasmados, que prometeram vir
qualquer que fosse a data, e cuja felicidade lhes pareceu sincera; pensaram convidar dez casais com quem mantinham uma relao muito especial, bem como alguns amigos 
solteiros, colegas dela, dois colegas dele, incluindo Marina Goletti, a melhor amiga de Pilar e  qual pediriam para oficiar a cerimnia, e ainda a me de Pilar, 
evidentemente. Os pais de Brad j tinham morrido havia anos e a me de Pilar era viva, vivia e trabalhava em Nova lorque mas prometera vir ao casamento.
- Se forem realmente para a frente com isso! - insinuara cptica, o que irritou obviamente a filha.
Mas, fiel  sua palavra, Brad ocupara-se de tudo, pondo a secretria a enviar os convites. A nica coisa que Pilar tinha de fazer era descobrir um vestido, e a sua 
enteada Nancy e Marina Goletti foram compr-lo com ela. Pilar era to desprendida nesse tipo de coisas que as outras duas mulheres estiveram na iminncia de ter 
de provar os vestidos por ela. Mas por fim, l se decidiu por um de Mary McFadden, de

42                           DANIELLE STEEL
um lindssimo tom de marfim e delicamente plissado, e quando o vestiu parecia uma deusa grega. E no dia do casamento repuxou o cabelo para cima, com ligeiros caracis 
soltos nos lados do rosto e pequenssimas flores brancas entrelaadas numa espcie de grinalda. Tinha um ar delicadamente requintado e, ao virar-se para os convidados 
aps a cerimnia, parecia radiante.
- Vs, no foi to mau como isso - murmurou~lhe Brad numa altura em que ficaram praticamente ss, observando os amigos divertindo-se, mas entre os dois estabeleceu-se 
a mesma consonncia silenciosa e serena de sempre. Possuam um dom de entendimento mtuo que lhes servira para superar tudo e todos nos ltimos treze anos: oposio 
e stress, medo e solido, o dio. Como uma corrente de amor que um d ia os juntara e agora os sustinha ali, contra as intempries da vida, sos e salvos no porto 
um do outro.
- Fizeste-o por minha causa, ou por causa dos outros? - perguntou-lhe ele com doura.
-  engraado - disse, muito calma. - Fi~lo por mim mesma. No tencionava dizer~lho, mas agora parecia ser a verdade. - De repente, senti necessidade de casar contigo.
-  bom ouvir isso. - Aproximou-se mais dela, apertando-a contra si. - Eu tambm tinha necesidade de casar contigo, Pilar. H muito tempo. Mas no queria pressionar-te.
- Foste sempre to paciente comigo nesse aspecto!  to importante para mim! Creio que s precisava de tempo. - Sorriu timidamente e ele soltou uma gargalhada. Era 
uma sorte, ela no desejar ter filhos! Se para isso fosse preciso esperar outros treze anos, a coisa podia tornar-se problemtica.
- Esta  a altura certa - afirmou. - Foi quando se quis que fosse. Amo-te. - De repente, olhou-a intrigado: - Quem s tu, a propsito? A Sra. Coleman? Ou a Miss 
Graham?
- No tinha pensado nisso. No sei bem se na minha idade faz sentido mudar. Quarenta e dois anos como Graham so um pouco dificeis de apagar numa tarde. - Pilar 
viu-lhe nos olhos um misto de tristeza e resignao. - Mas por outro lado... talvez passados treze anos... pois , porque no subir um pouco na vida?
- Coleman? - Ele parecia admirado e comovido. Fora um dia extraordinrio.

0 PREO DA VENTURA                          43
- Sra. Coleman! - repetia em voz baixa. - Pilar Coleman! - Ela
sorria-lhe, com um ar de adolescente, e ele beijou-a, e ento levou-a para junto dos amigos em festa.
- Parabns, Pilar. - disse-lhe a me, sorrindo-lhe por cima de urna taa de champanhe que segurava numa mo graciosa. Elizabeth Graham era uma mulher bonita aos 
77 anos. Tinha exercido a sua carreira de neurologista em Nova lorque durante perto de quarenta anos e no tivera mais filhos. 0 pai de Pilar era magistrado no Supremo 
Tribunal de justia de Nova lorque mas tinha morrido, no auge da sua carreira, num desastre de avio, quando Pilar frequentava a Faculdade de Direito.
- Hoje surpreendeste-nos a todos! - observou-lhe a me friatriente, e Pilar sorriu~lhe, amadurecida o bastante ao longo dos anos para no se deixar abalar pelas 
piadas e o azedume que ja se vinham tornando frequentes na me.
- A vida  cheia de maravilhosas surpresas. - Pilar sorria na direco de Brad e, por cima do ombro deste, na de Marina. Desde que se conheceram, quando Pilar viera 
para Santa Barbara, Marina Goletti era para ela uma espcie de me, significando muito para si que tivesse sido ela a celebrar o seu casamento. Marina era uma das 
colegas de Brad, mas antes disso j era amiga de Pilar, Tinham trabalhado juntas durante seis meses como advogadas de defesa do Ministrio Pblico e, mesmo depois 
de Marina passar a juza, continuara a ser uma amiga muito querida e uma substituta para a me que Pilar nunca tivera a seu lado.
As suas relaes com a me haviam sido sempre terrivelmente ten~ sas, e no era segredo para ningum a pouca convivncia que sempre tivera com os pais. Ocupadssimos 
com os seus cargos, Pilar vira-se recambiada para um colgio interno com a idade de sete anos. Nas frias traziam-na para casa, mas, aparentemente, s para ser "espremda", 
-como descrevia a Brad, em interrogatrios cerrados sobre o que aprendera, como ia o seu francs, que se dignasse explicar a razo da sua ltima nota em matemtica, 
e por a fora. Eram uns estranhos para ela, embora o pai fizesse algum esforo. Mas mesmo ele no tinha grande coisa a dizer-lhe, sempre demasiado absorto no seu 
trabalho, assim como a me. Esta dera-lhe claramente a entender, desde muito cedo na sua meninice, que tudo o que fazia com os seus doentes era

44                           DANIELLE STEEL
bem mais importante do que o envolvimento que pudesse ter com a sua nica filha.
- Nunca percebi por que tiveram filhos - comentava com Brad desde o incio. - Nunca soube ao certo se fui um engano, ou simplesmente uma experincia que no resultou 
muito bem para eles. Mas fosse o que fosse, uma coisa ficou sempre bem clara; eu no era exactamente aquilo que eles haviam desejado. 0 meu pai sentiu-se de algum 
modo compensado quando resolvi ir para'Direito. Creio que foi a primeira vez que considerou no ser um erro assim to terrvel o terem-me tido. Antes disso, nem 
se davam ao incmodo de assistir s minhas festas de fim de ano. E a minha me, claro, estava furiosa por eu no me interessar pela Medicina, mas no posso dizer 
que se haja esforado alguma vez para torn-la atraente.
Com efeito, Pilar crescera em escolas. Uma ocasio, tinha comentado com urna das suas colegas em tom de brincadeira que era "institucionalizada", igualzinha a algumas 
das pessoas que defendia, criadas e crescidas em prises. E de certo modo, a frieza das relaes dos pais, a indiferena que lhe votavam e os conceitos da sua propria 
poca tinham feito do casamento uma coisa desinteressante, e da hiptese de ter filhos uma eventualidade que jamais consideraria. No desejava a ningum uma vida 
idntica a sua, e no fazia a menor ideia do que fosse criar uma criana. Nada a inspirara para isso na sua prpria infncia. Foi com verdadeiro espanto que viu 
pela primeira vez o relacionamento de Brad com os filhos; to natural, to aberto e ousado, falando de tudo com eles, e to admiravelmente expansivo, e capaz de 
deixar transparecer a emoo. Pilar no podia imaginar para si uma relaao semelhante com algum, com uma criana de certeza que no, mas aos poucos Brad ajudou-a 
a abrir-se aos seus prprios sentimentos e a partilh-los com os que lhe eram queridos. Com o tempo, tinha amadurecido o suficiente para sentir-se completamente 
 vontade com os midos e com ele, Mas isso nunca a levou a desejar ter filhos seus. E agora, o simples facto de ver a me, no prprio dia do seu casamento, lembrava-lhe 
a que extremo os pais lhe haviam faltado.
- Ests muito bonita hoje, Pilar. - observou-lhe a me com o ar de reserva de quem se dirige a um simples conhecido, ou a um estranho. Era totalmente incapaz de 
deixar os outros penetrarem no mistrio profundo dos seus sentimentos, ou suspeitarem sequer de

0 PREO DA VENTURA                             45
que os tinha. -  pena que tu e o Brad sejam velhos de mais para ter filhos.
Pilar lanou-lhe um olhar de completo espanto, incapaz de crer no que acabava de ouvir.
- No posso acreditar no que est a dizer! - ripostou Pilar, to baixo que nem o prprio Brad a ouviu. - Como  que se atreve a fazer suposies acerca da nossa 
vida, ou do nosso futuro? - Os olhos chispavam-lhe quando, de longe, Marina a observou.
- Sabes to bem como eu que, clinicamente, no seria razovel comeares a ter filhos na tua idade. - A me parecia fria e profissonal, mas Pilar cedia completamente 
s suas emoes.
- Todos os dias h mulheres da minha idade que tm crianas! explodiu, irritada consigo mesma por se haver, mais uma vez, melndrado. A ltima coisa que desejava 
no mundo era ter um beb, mas a me tambm no tinha o direito de presumir que ela no podia, ou, pior ainda, que no devia. Depois do pouco que fizera pela filha 
ao longo dos anos, o mnimo que podia oferecer-lhe naquele momento era respeitar a sua privacidade e o direito aos seus prprios critrios e opes.
- Talvez o faam na Califrnia, Pilar. Mas eu vejo diariamente esses bebs deficientes, atrasados, crianas com o sndroma de Down, alguns deles sofrendo de anomalias 
e complicaes graves. Acredita em mim, tu no queres isso.
- Tem razo. - Fixou a me nos olhos. - No quero, Nunca quis crianas... graas a si.e ao Pap- - E afastou-se para junto da pequena multido, ainda trmula enquanto 
procurava Brad. Este esca~ para-se diplomaticamente para falar com algum, quando percebera que Pilar discutia com a me.
- Tudo bem? - segredou-lhe Marina, com os cabelos j to brancos como a amiga, ligeiramente ondulados num penteado um tanto anti~ quado. Marina era a me que Pilar 
nunca tivera, a amiga por quem sempre suspirara. Uma mulher sbia a todos os ttulos.  semelhana de Pilar tambm ela tivera de fazer as suas opes, embora por 
razes diferentes. A mais velha de onze filhos, Marina tinha criado os seus dez irmos aps a morte da me, e tambm nunca se casara nem tivera filhos. "Dei-me toda 
ao escriffirio", costumava explicar, e sempre se soli~ darzara com as angstias de Pilar a respeito dos pas. Naqueles ltimos

46
DANIELLE STEEL
anos, a dor da mulher mais nova havia-se atenuado, excepto nas raras ocasies em que se encontrava com a me. "A Doutora", como lhe chamava Pilar, s vinha  Califrnia 
de dois ou de trs em trs anos, e a verdade era que nesses intervalos Pilar no lhe sentia a falta. Telefonava-lhe por uma questo de respeito, sistematicamente 
espantada por ver que nada tinha mudado desde os seus anos de infncia, que as chamadas continuavam a ser meros "interrogatrios".
- Pelos vistos, a Doutora estava a arreliar-te - Marina mirou-a carinhosamente, e Pilar sorriu. 0 facto de estar com Marina era suficiente para se reconciliar com 
o mundo. Era uma daquelas rarssimas pessoas, grandes almas, que embelezam as vidas de quantos as rodeiam.
- No, s queria certificar-se se eu e o Brad tnhamos a noo de que ramos demasiados velhos para ter filhos - respondeu-lhe Pilar com um sorriso, mas a voz soava 
surpreendentemente amarga. No era a ausncia de filhos que a incomodava, mas sim a ausncia de carinho e afabilidade da parte da me.
- Quem diz? - A juiza Goletti parecia irritada em defesa da amiga.
- A minha me tinha 52 anos quando lhe nasceu o ltimo.
- Bom, ento j h uma coisa a desejar. - Pilar fez um sorriso forado. - Promete-me que, comigo, no vai acontecer, seno dou j aqui um tiro na cabea.
- No dia do teu casamento? No sejas ridcula! - E, de chofre, surpreendeu Pilar com a pergunta: Esto os dois a pensar ter midos?
- Ela conhecia vrias pessoas mais velhas do que eles que tinham tido filhos recentemente, mas era curiosa, e sobretudo sentia-se suficientemente ntima de Pilar 
para lho perguntar. Ficara de tal modo siderada ao saber do casamento de Pilar com Brad, depois da sua insistncia em permanecer solteira para o resto da vida, que 
naquele momento todas as suas antigas decises pareciam estar em causa.
Pilar soltou uma gargalhada antes de responder:
- Parece-me que no precisas de preocupar-te com isso. A ltima coisa na minha agenda so midos, precisamente. Isso figura l to no fundo que nem o anoto, e nem 
tenciono faz-lo. - Quisera Brad, mas filhos, sabia pelo menos de certeza que no queria.
- No tencionas o qu? - Brad aproximara-se delas, passando o brao em redor da cintura da noiva com uma expresso de felicidade.
- No tenciono abandonar a advocacia - afirmou Pilar, recupe-

0 PREO DA VENTURA                             47
rando a calma. 0 efeito apaziguador dele f-la esquecer a irritao com a me.
- E quem  que pensou que o farias? - Parecia surpreendido que algum pudesse sequer aventar tal hiptese. Pilar era uma excelente advogada, e totalmente devotada 
 sua carreira. No conseguia imagin-Ia abandonando a profisso.
- Acho que ela devia juntar-se ao nosso grupo de juzes - acrescentou solenemente Marina Goletti, pensando corno at era verdade, e de seguida, atrada por algum, 
deixou-os e Pilar e Brad ficaram olhando-se nos olhos, sozinhos por um instante no turbilho dos bons amigos que os rodeavam.
- Amo-te, Sra. Coleman. S gostava de poder dizer-te quanto.
- Tens uma vida inteira para mo dizer... e eu a ti... amo-te, Brad
- murmurou.
- Valeste a espera, eras unia boa razo em cada minuto que ela durou. E esperaria outros cinquenta anos, se os tivesse ainda pela frente.
- Ento  que ias pr a minha me realmente nervosa - Pilar soltou uma gargalhada, de sbito com um ar jovial e malicioso.
- Ah? A tua me tem medo que eu seja velho de mais para ti? Afinal, ele era apenas alguns anos mais novo do que ela.
- No... tem medo que eu seja. Pensa que podamos ser loucos e resolver ter filhos imbecis, que passariam a ser doentes seus.
- Que simptico da parte dela! Foi isso o que ela te disse? - Ele pareceu irritado, mas no ia permitir que nada o perturbasse seriamente naquele dia especial pelo 
qual tanto suspirara.
-  verdade, foi isso mesmo. A boa mdica achou-se no dever de me avisar.
- Imagina quando a convidarmos para os nossos vinte cinco anos de casados! - observou ternamente enquanto a beijava.
Danaram um com o outro e com os amigos. E  meia-noite escaparam-se sorrateiramente para a sute que haviam reservado no Biltmore.
- Feliz? - perguntou-lhe quando ela se recostou contra ele na limusina que tinham alugado.
- Deslumbrada! - Sorriu, depois bocejou deitando a cabea no Ombro dele e apoiando os ps calados de cetim branco no assento do carro.

48
DANIELLE STEEL
- Oh, que desgraa... - olhou-o repentinamente muito sria esqueci-me de dizer adeus  minha me, e ela parte de manh! - Esta seguia dali para Los Angeles, onde 
ia participar num congresso mdico. Tinha ficado muito contente com o facto de a data do casamento de Pilar lhe ser bastante conveniente.
- Desta vez, tens uma desculpa.  o teu dia de casamento. Ela  que devia ter vindo dar-te um beijo e desejar~te felicidades - retorquiu Brad, e Pilar encolheu os 
ombros. Agora era-lhe indiferente. Levara tempo, mas para si a guerra estava terminada.
- Desejo-te eu felicidades - acrescentou Brad com ternura, e ela tomou a beij-lo, e sabia que vivera a vida inteira para aquele momento. Ele era tudo o que Pilar 
sempre quisera, e mais ainda, e por um instante lamentou no ter casado mais cedo.
0 seu passado j pouco a afectava, assim como os pais, ou o quanto a negligenciaram. Agora o importante era Brad, a vida que ia partiffiar com ele. E o seu nico 
pensamento, enquanto se dirigiam para o Biltmore naquela noite, ia para o seu futuro.

CAATULO 2
Na semana a seguir ao dia de Aco de Graas, Diana andava asso~ berbada na revista, coordenando o trabalho de fotografia para o nmero de Abril. Estavam a fazer 
longas reportagens sobre duas casas em New~ port Beach e uma outra em La Jolla. Ela prpria tinha querido ir a San Diego no seu carro para inspeccionar pessoalmente 
os trabalhos, e no final dessa tarde estava exausta. As pessoas eram difceis, a proprietria da casa desdenhava de tudo o que j tinham feito e a assistente editorial 
que Diana escolhera para a reportagem passava o tempo a chorar-se no seu ombro.
- Nada de dramas! - tentava Diana acalm-la, mas tambm estava impaciente e com uma terrvel dor de cabea desde o meio-dia. - Se ela pensa que esto contrariados, 
ainda  pior. Tentem trat-la como a uma garota. Quer estar na revista, ento muito bem, s tm que lhe fazer a vontade. - Mas pouco depois o fotgrafo tinha um 
acesso de fria e ameaava ir-se embora, e ao fim do dia estavam todos com os nervos em franja, sobretudo Diana.
Regressou ento ao Valencia Hotel, enfiou~se no quarto e estendeu~se em cima da cama sem acender as luzes. Estava cansada de mais para mexer-se, andar ou comer. 
Nem tinha foras para telefonar a Andy. Sabia que iria faz-lo mais cedo ou mais tarde, mas resolveu tomar primeiro um banho quente e pedir que lhe trouxessem ao 
quarto qualquer coisa de comer. Encomendou rapidamente, antes de enfiar-se na banheira, e s ento entrou na casa de banho. E ali, viu-a. A reveladora marca de sangue 
que todos os meses rezava para no encontrar, nias que sempre, matematicamente, vinha descobrindo, a despeito das

50                          DANIELLE STEEL
suas preces, no obstante as suas tentativas de programar  rigorosamente as suas noites de amor para engravidar. Tudo em vo. Outra vez. No estava. E durante seis 
meses, o que eles tinham tentado! Comeava a tornar~se urna frustao, para Diana e talvez para o prprio Andy.
Fechou os olhos ao ver aquilo, e as lgrimas corriam-lhe pelas faces quando entrou na banheira minutos depois. Porque seria to dificil? Por~ que teria de ser assim 
com ela? Fora to fcil com as irms!
Telefonou a Andy depois de sair do banho. Este tinha acabado de chegar a casa depois de uma reunio tardia na empresa,
- Ol, minha pequerrucha, que tal correu isso hoje? - na voz dele notava-se tambm algum cansao e, a princpio, Diana tinha resolvido no lhe dizer nada at chegar 
a casa, mas ele percebeu o seu tom de voz melanclico, interrogando-se sobre o que teria acontecido. - H algum problema?
- No... s um dia longussimo. - Ela esforava-se por parecer normal, mas sentia o corao dilacerado. Era como se alguma coisa morresse em cada ms, deixando-a 
numa imensa tristeza.
- Pela tua voz, deve haver mais do que isso. Problemas com a tua equipa, ou com os proprietrios da casa?
- No, no, tudo bem. A mulher  uma chata, o fotgrafo ameaou duas vezes demitir-se, mas nada que no seja j habitual. - Ela sorriu com amargura.
- Ento o que foi? 0 que  que no ests a querer dizer?
- Nada... eu... no  nada. S que estou com o perodo, apenas isso. Um pouco deprimida. - As lgrimas brotaram-lhe de novo dos olhos, mas ele pareceu-lhe impvido.
- No  grave, amorzinho. Isso s quer dizer que teremos de tentar outra vez. Que diabo, afinal so s seis meses. H pessoas com quem demora um ano ou dois. Acalma-te. 
No te apoquentes muito e aproveita a viagem. Amo-te, minha tontinha. - Ele ficava comovido ao ver como cada ms a deixava destroada, mas sabia que no existia 
nenhum problema. Alm do mais, estavam os dois sob uma tenso constante nos empregos, e isso no ajudava. Toda a gente o sabia.
- Porque no vamos uns dias para fora no prximo ms, na altura certa? Fazes os teus clculos e dizes-me.
- Amo-te, Andrew Douglas. - Sorria entre lgrimas, aproximando o telefone. Era um homem to afectuoso, to maravilhosamente com-

0 PREO DA VENTURA                            51
preensivo, com as suas tentativas para engravidar. - Gostava de Sentir a tua tranquilidade. Continuo a pensar que devia ir a um especialista, ou pelo menos falar 
com o Jack para ver o que ele pensa.
- No sejas parva! - Pela primeira vez, Andy parecia irritado. No queria que ela andasse a falar da sua vida sexual com o marido da irm.
- No h nada de anormal com nenhum de ns, pelo amor de Deus!
- Como  que sabes?
- Sei. Agora confia em mim.
- De acordo, de acordo. Desculpa... s que  uma tristeza  ...  todos os meses julgar... interpretar uma pontada, um sinal qualquer  ...  cada vez que estou cansada, 
ou que espirro, ou que tenho uma indigesto, pensar que estou grvida, e ento, zs... de repente, acaba tudo.
Era difcil explicar-lhe o desapontamento que sentia ms aps ms, a angstia, o medo, o desalento, o vazio, o terrvel anseio. Estavam juntos havia quase trs anos, 
casados havia seis meses, e agora ela queria o seu beb. At em casa, o andar vazio parecia subitamente urna acusao. Compraram-na com a ideia de ter filhos, e 
afinal isso no acontecia.
- Esquece isso agora, por enquanto, querida. H~de acontecer, d tempo ao tempo. Entretanto, quando  que pensas vir?
- Amanh  noite, espero, se esta gente no der comigo em doida primeiro. - Suspirou. De repente, a perspectiva de ter de enfrent~los no dia seguinte ainda a deprimiu 
mais. Tornar a perder as esperanas de cada vez que lhe chegava o perodo desmotivava-a para tudo. Cada ms equivalia a uma perda terrvel, um vazio que no era 
capaz de descrever a ningum, nem a Andy. Parecia absurdo, mas era incrivel como isso a afectava todos os meses, e depois procurar superar, reunir novas esperanas... 
para unicamente as ver soobrar no ms seguinte.
- Vou estar em casa  tua espera. Dorme bem esta noite, para estares melhor de manh -. Era to simples para ele, as respostas opor~ tunas, o encorajamento. Estranhamente, 
Diana queria v~lo to preocupado quanto ela. Queria que ele compartilhasse os seus temores e as suas angstias, mas talvez fosse melhor assim. - Amo-te, Di!
- Eu tambm te amo, meu querido. Sinto imenso a tua falta.
- Eu tambm sinto a tua falta. At amanh  noite.
Quando desligou, chegou a sopa, mas nem se deu ao incmodo de com~la. Apagou as luzes e deixou-se ficar ali, estendida no escuro,

52                          DANIELLE STEEL
pensando no beb que queria tanto, na estria rubra que mais uma vez e por mais um ms desfizera todas as expectativas. Mas ao mergulhar no sono nessa noite, ela 
tinha uma esperana de que fosse diferente no mes seguinte.
Sentada no seu gabinete, Pilar Graham, como ainda era conhecida profissionalmente, examinava com ateno um dosser que tinha sobre a mesa de trabalho, recolhendo 
as suas notas, quando a voz da secretria zumbiu no intercomunicador, e ela respondeu prontamente.
- Esto aqui os Robinsons.
- Obrigada. Mande-os entrar. - Pilar levantou-se, aguardando-os com manifesta curiosidade, e a secretria introduziu na sala um casal sorumbtico. A mulher devia 
ter j trinta e muitos anos, o cabelo preto cortado meio-curto e muito bem arranjado, o homem era alto e seco, no dispendiosamente vestido e um pouco mais velho. 
Foram~lhe recomendados por um outro advogado, e ela estivera toda a manh a estudar o seu caso antes de receb-los.
- Viva, eu sou Pilar Graham. - Apertou-lhes a mo, convidando-os a sentarem-se, e os dois recusaram ch ou caf. Adivinhava-se-lhes um certo nervosismo e pareciam 
ansiosos por ir directos ao assunto.
- Estive a ler os vossos dossers toda a manh - anunciou Pilar serenamente. Parecia sria, madura e inteligente, o tipo de pessoa em quem podiam confiar. Mas tambm 
conheciam a sua reputao, graas  qual tinham decidido procur-la. Pilar Graham tinha fama de ser um "carrasco" na sala do tribunal.
- Parece-lhe haver alguma coisa que possa fazer? - Emily Robinson olhava Pilar com um ar infeliz, e a advogada pde ver toda a sua angstia latente mas interrogava-se 
se haveria maneira de ajud-la.
- Espero poder auxiliar, mas, para ser honesta, ainda no tenho a certeza. Preciso de estudar melhor a questo. Quero discuti-Ia com alguns colegas, confidencialmente, 
claro. Devo confessar que  a primeira vez que trato de um caso de mes hospedeiras. As leis so um pouco difusas em certas reas, e variam incrivelmente de estado 
para estado. No  seguramente uma situao fcil, como sabem, e acontece que no disponho de respostas.
Lloyd. Robinson tinha entrado numa combinao com uma rapariga

0 PREO DA VENTURA                            53
de 17 anos para esta ser a me hospedeira do seu filho. A rapariga vivia numa regio montanhosa perto de Riverside, j tivera antes dois filhos ilegtimos e estava 
perfeitamente disposta a ter mais aquele. Ele soube da sua existncia atravs de uma escola onde estivera em tempos empregado e tudo foi feito por inseminao artificial, 
com a ajuda de um mdico local. Robinson pagou  rapariga cinco mil dlares, o suficiente para esta ir morar em Riverside no ano seguinte, viver decentemente e ingressar 
na Faculdade, que era, segundo afirmava, a sua aspirao. Sem o dinheiro que ele lhe pagara, jamais teria tal hiptese, e continuaria a marcar passo nas montanhas 
o resto vida.
Fora uma tolice, sabiam-no agora - ela era jovem, instvel, e os pais armaram um p de vento com as autoridades locais quando descobriram tudo. Lloyd enfrentou acusaes 
criminais, que felizmente foram retiradas, mas o tribunal tinha continuado reticente quanto  sua escolha da me: por algum tempo pairou a vaga possibilidade de 
delito de estupro de menores. Lloyd pde contudo provar que no houvera contactos sexuais. Por fim, a rapariga, Michelle, recusou~se a entregar a criana. Na altura 
do nascimento tinha-se casado com um rapaz da terra, e este mostrava-se igualmente inflexvel. E no momento em que Pilar conversava com os Robinsons, Michelle estava 
novamente grvida de um filho do marido. 0 beb de LJoyd Robinson tinha ento um ano, e os tribunais nem sequer lhe permitiam as visitas. Tinham-lhe explicado que, 
como <,dador", no gozava de nenhuns direitos. No parecer destes, ele teria exercido uma influncia indevida sobre uma menor, de forma que apenas lhe impuseram restries, 
sem qualquer direito ao prosseguimento da aco. Os Robinsons ficaram desolados com o facto. Agiam como se estivesse em jogo uma criana que conhecessem e amassem 
e lhes houvesse sido roubada. 0 beb era uma menina, que insistiam em chamar de Jeanne Marie. Tinham-lhe posto o nome das respectivas mes, embora Michelle lhe chamasse 
outra coisa totalmente diferente, e Pilar, ao olh~los, tinha a sensao de que os Robinsons viviam num mundo de sonho.
- No teria sido mais fcil adoptarem uma criana, mesmo que recorressem  adopo privada?
- Talvez - admitiu Emily, tristemente -, mas ns queramos o nosso filho. Sou eu quem no pode ter bebs, Miss Graham. - Esclareceu, como quem confessa um crime 
terrivel, e Pilar teve pena dela,

54                          DANIELLE STEEL
embora no pudesse deixar de considerar o caso fascinante e simulta~ neamente estranho, mas com uma coisa que permanecia bem clara aos seus olhos: a sua inabalvel 
obsesso em ter um beb.' - j somos muito velhos para poder adoptar legalmente - explicava Emily. - Eu tenho 41 anos e Lloyd quase 50. Tentmos anos a fio, o nosso 
rendimento no era bastante, Lloyd teve um problema de costas e ficou sem trabalhar durante muito tempo. Agora estamos melhor de vida. Vendemos o carro e tanto ele 
como eu procurmos segurar dois empregos ao mesmo tempo durante um ano a fim de juntar dinheiro para pagar a Michelle, e ficar com o beb. 0 resto foi para as custas 
legais. No nos sobrou muito - frisou honestamente a Pilar, mas Pilar no estava preocupada com isso. Estava intrigada com o caso. Uma assistente social tinha preparado 
um relatrio a respeito deles para o tribunal e, embora fossem incontestavelmente invulgares, no se lhes via vcios aparentes e pareciam ser pessoas muito correctas, 
segundo a opinio de quem os conhecia. No podiam simplesmente ter filhos e estavam desesperados por ter um beb. 0 desespero leva as pessoas a cometer coiss estranhas, 
e eles tinham-nas cometido, na opinio de Pilar.
- Estariam dispostos a concordar com o direito s visitas? - inquiriu Pilar.
Emily suspirou e assentiu com a cabea.
- Sim, se fosse a nica coisa que pudssemos obter. Mas no parece justo, Michelle entregou dois filhos quando era apenas uma garota, agora vai ter outro do rapaz 
com quem se casou. Com esse beb que lhe vai nascer, que necessidade tem ela de ficar com o de Lloyd? - queixava-se Ernily, mas havia mais do que isso, como o sabiam 
os trs.
- Tambm  o beb dela - atalhou Pilar delicadamente.
- Pensa que o mximo que conseguimos ' o direito s visitas? perguntou finalmente Lloyd, mas Pilar hesitou antes de responder.
-  possvel. Dada a posio actual do tribunal, talvez isso possa ser um passo. E com o tempo, se o comportamento de Michelle em relao  criana no for o mais 
adequado, ou se surgir algum problema entre ela e o marido, talvez os senhores estejam em condies de conseguir a custdia, mas no posso promet-lo, e levaria 
certamente muito tempo, anos, talvez. - Pilar costumava ser sempre honesta com os seus clientes.
- 0 ltimo advogado que consultmos disse que talvez pudesse

0 PREO DA VENTURA                            55
devolver-nos Jeanne Marie em seis meses - atalhou Emily em tom de crtica, mas Pilar no quis lembrar-lhe que no se tratava de uma questo de "devoluo,, uma vez 
que o beb nunca tinha vivido com eles.
- No me parece que ele esteja a ser honesto convosco, Mrs. Robinson! - E a eles tambm no parecia, aparentemente, ou teriam continuado com o mesmo advogado.
o casal assentiu com a cabea, trocando um olhar de desnimo. Havia neles uma solido e urna espcie de nsia desesperada deveras impressionantes.
Pilar e Brad tinham amigos que a certa altura empreenderani que precisavam de adoptar uma criana, e alguns at foram s Honduras,  Corcia, e  Romrria, mas nenhum 
tinha chegado a semelhante loucura, nem exprimia a desolao daquelas pessoas. Os Robinsons tinham tido nas mos uma oportunidade e haviam-na perdido, e estavam 
conscientes disso.
Pilar conversou com eles mais algum tempo, e disse-lhes que teria muito gosto em ocupar-se do caso, desde que quisessem continuar com ela. Podia tentar descobrir 
precedentes dentro do estado e depois inform-los-ia. Mas estes responderam que gostariam que ela esperasse, que mais tarde lhe telefonariam. Queriam pensar primeiro, 
No entanto, quando saram do gabinete, Pilar sabia que no telefonavam. Andavam em busca de algum que lhes prometesse a Lua, e isso ela nunca faria. Depois de sarem, 
ficou sentada a pensar neles durante alguns instan~ tes. Os Robinsons pareceram-lhe to perdidos, to desesperados, e to terrivelmente desejosos do seu beb desconhecido... 
Nunca o tinham visto desde que nascera, e no entanto, para eles aquela criana era Jearme Marie, algum que pensavam ter conhecido e amado. Pilar no sabia bem porqu, 
mas lamentava no poder ajud-los, Era um caso que a intrigava deveras, e olhava pensativa para a janela quando Alice Jackson, a sua colega, espreitou  porta do 
gabinete com um sorriso, e logo a seguir uma expresso de curiosidade.
- Ui! Ui, doutora... que ar to duro! No te via assim desde o tribunal, quando um dos teus rus estava a ser acusado de homicdio. Quem foi que matou desta vez?
- Ningum. - Pilar sorriu ao lembrar-se daquela poca. Um outro colega delas ali no escritrio, Bruce Hemmings, tambm tinha sido advogado de defesa no tribunal; 
depois, Bruce e Alice casaram-se e tiverani filhos. Pilar e Alice foram sempre boas amigas, embora menos con-

56                         DANIELLE STEEL
fidentes e ntimas do que Pilar era com Marina. Fora maravilhoso trabalhar com ela nos ltimos dez anos. - Desta vez, o buslis no  um crime - declarou Pilar com 
um sorriso pensativo, fazendo-lhe sinal para se sentar. -  uma coisa to estranha! - Em palavras breves explicou-lhe o caso e Alice abanava a cabea de espanto.
- Nem vale a pena tentar fazer uma nova lei para isso. Posso afianar-te desde j, o mximo que eles obtm de qualquer juiz so as visitas. No te lembras? Ted Murphy 
teve um caso semelhante o ano passado, a me hospedeira recusou-se a devolver a criana no ltimo momento. A coisa transitou para o Supremo Tribunal e, mesmo assim, 
o pai s conseguiu a custdia a meias, a me a fsica e ele as visitas,
- Lembro-me disso, mas esta gente  to... - Repugnava~a diz~lo, mas eles tinham-se revelado patticos,
- 0 nico caso que li e em que o juiz no foi muito favorvel para a me hospedeira referia-se a uma situao em que tinham implantado um vulo da potencial me 
adoptiva. Neste caso, no me recordo agora onde foi mas posso descobrir, se quiseres - acrescentou com um ar srio -, o juiz decidiu que no existia nenhuma relao 
de sangue com a me hospedeira, o esperma e o vulo haviam sido doados pelos pais adoptivos. E ela entregou-lhes a criana. Mas no caso presente, no tens as mesmas 
circunstncias, e o tipo foi um grande idiota em negociar com urna menor.
- Eu sei. Mas por vezes as pessoas cometem loucuras quando querem desesperadamente ter filhos.
- Nem me fales! - Alice recostou-se na cadeira, soltando um gemido. - Durante anos, tomei tantas hormonas que pensei que iam matar-me. Deixavam-me to enjoada! Parecia-me 
que estava a fazer quimoterapia, em vez de tomar hormonas, para ter um beb. - E sorrindo para a colega com um erguer de ombros que lhe deu subitamente um ar jovem, 
vangloriou-se: - Mas consegui dois midos formidveis, por isso acho que valeu a pena. - E os Robinsons no conseguiram nada. Um beb que fingiam chamar-se Jeanne 
Marie, que jamais tinham visto, e talvez nem chegassem a ver.
- Porque ser que as pessoas chegam a tais extremos, Ali? Por vezes, -nos impossvel fazer seja o que for a no ser espantarmo-nos. Eu sei, os teus rapazes so 
formidveis... mas se no tivessem tido filhos, seria assim to horrivel?

0 PREO DA VENTURA                             57
- Era, - disse pausadamente - para mim... e para o Bruce tam-
bm- Sabamos que desejvamos urna famlia. - Colocou uma perna no brao da cadeira, observando com um ar solene a sua amiga de longa data. - A maioria das pessoas 
no  corajosa como tu - Alice sempre admirara Pilar pela sua firmeza e as suas convices.
- Mas eu no sou corajosa... Como podes afirmar uma coisa dessas?
- s, sim senhor. Sabias que no querias filhos, por isso deste um rumo  tua vida que se coaduna contigo, e nunca os tiveste. Muitas pessoas tm medo de que no 
seja "justo> fazer isso, de forma que os tm, no importa como e, intimamente, detestam-nos. No fazes ideia do nmero de mes que conheci nos Escuteiros, nas aulas 
de karate, na escola e que na verdade no gostam dos seus midos e nunca os deviam ter tido.
- Os meus pais eram desse gnero. Desconfio que foi isso o que me deu sempre tanta certeza. Jamais quereria um filho meu passando o que eu passei. Senti-me sempre 
urna estranha, uma intrusa, uma imposio terrivel para duas pessoas que tinham coisas mais importantes a fazer do que conversas com uma garota, ou at talvez am-la. 
Era duro, mas i falara disso antes. No era nenhuma revelao mas entristecia sempre Alice. E tambm lhe custava saber que Pilar se privara intencionalmente de 
filhos, os quas para Alice eram uma das poucas coisas importantes na vida.
- Tu nunca serias como esse tipo de pais, Pilar. Talvez agora, casada com Brad, devesses repensar as tuas opes,
- Oh, por favor... na minha idade? - Pilar parecia divertida. Porque seria que toda a gente estava to ansiosa em saber se ela e Brad iam ter um beb?
- 0 mundo das hormonas tambm pode ser teu! - gracejou Alice, levantando-se da cadeira e olhando~a por cima da secretria. Eram boas amigas, e as duas mulheres sabiam 
que o seriam sempre. - Aqui para ns, com a tua sorte, eras capaz de engravidar  primeira tentativa. E no me venhas com essa merda da "idade". Afinal, s tens 
42 anos, No me impressionas, avozinha Coleman!
- Muito agradecida. Mas julgo que, mesmo assim, me pouparia a esse tipo de dor de cabea. Pobre Brad... ia ficar atordoado... e eu tambm! - Riu~se para a colega, 
depois j de p, olhou o relgio. Tinha

58                          DANIELLE STEEL
combinado almoar com a enteada e, Se no se apressasse, ia chegar atrasada.
- Sempre queres que faa algumas investigaes sobre as mes hospedeiras? - Alice estava sempre disposta a fazer pesquisas. - Vou ter tempo livre esta tarde e amanh 
de manh.
- Obrigada, mas eu no perderia tempo com isso. Acho que eles no vo telefonar. Nem sei se iro fazer presses para conseguir as visitas. Parece-me que querem o 
bolo todo ou nada. Posso estar enganada, mas acho que vo procurar algum que lhes cobre menos do que ns e lhes prometa a Lua, e no fim acabe por oferecer-lhes 
as visitas, com um bocado de sorte.
- Muito bem. Avisa-me, se eles telefonarem.
- Aviso... e obrigada pelo oferecimento.
As duas mulheres trocaram um sorriso e Alice voltou para o seu gabinete no outro lado do corredor. Era menos activa do que Pilar, menos apaixonada, sem a mesma inclinao 
para os litgios, Gostava de casos interessantes que envolvessem aspectos inusitados da lei. Se tivesse seguido medicina, faria sem dvida investigao. E naquele 
momento Alice trabalhava apenas uma parte do dia; ficava em casa dois dias por semana com os filhos, mas isso no causava nenhum transtomo a Pilar. Cada um tinha 
o seu estilo prprio de trabalhar, e Bruce fazia mais do que lhe era devido no escritrio. Gostava do Direito Civil, dos casos que era preciso encaminhar para os 
tribunais. Adorava trabalhar com instituies, e Pilar com pessoas. faziam uma boa equipa, aconselhando-se mutuamente nos casos mais srios e, sempre que necessrio, 
contratavam assistentes. Eram exactamente os termos em que Pilar sempre quisera praticar a advocacia. Sentia-se apta, indepen~ dente e livre para escolher os casos 
que mais a interessavam, e agradavam-lhe sobretudo as pessoas com quem tinha de colaborar no campo profissional. Tambm apreciava os colegas de Brad no tribunal. 
Tinham os dois um crculo interessante de amigos, embora uma vez por outra ela se lamentasse de no conviverem com ningum a no ser juzes ou advogados. Mas a verdade 
 que gostava.
Pilar era incapaz de conceber uma vida sem trabalho, ou sem a sua actividade jurdica. Ao volante do carro, a caminho da parte baixa da cidade para se encontrar 
com Nancy, ia precisamente a pensar - e j o fizera noutras vezes - como podia a enteada suportar uma vida de

0 PREO DA VENTURA                            59
0ciosidade, sem trabalhar. Depois do casamento no ano anterior, Nancy no tivera nenhum emprego, e na opinio de Pilar devia ter. Mas, j que Brad insistia que os 
filhos deviam levar a vida que entendessem, Pilar procurava no interferir, e muito menos contradiz-lo. No entanto, nem sempre era fcil. Ela tambm tinha as suas 
opinies, uma tabela pessoal para as coisas importantes, e o trabalho ocupava nesta um priIncifissimo lugar. Mas no, aparentemente, na de Nancy.
Quando Pilar chegou ao Paradise, com um atraso de dez minutos, Nancy j estava  sua espera, bonita, como sempre, com um vestido preto de malha, botas e um casaco 
vermelho, os longos cabelos loiros presos atrs por uma fita de veludo.
- Ol querida. Ests com um aspecto magnfico! - Pilar sentou~se rapidamente, passou os olhos pela lista, encomendou assim que o criado apareceu, e s ento virou 
todas as atenes para Nancy. Teve a vaga sensao de que havia alguma coisa a aborrec-la, mas no quis intrometer-se, preferindo esperar e ver o que brotava durante 
o almoo. No estava, contudo, preparada para as novidades de Nancy, que no irromperam antes da sobremesa, uma enorme fatia de bolo de choco~ late inundado com 
cbantilly Pilar ficou impressionada com a escolha quando ela fez,,0 pedido ao criado, e mais ainda quando a viu na mesa. Nancy estava certamente de ptima sade 
e a comer muito bem, mas pelo menos no se notava, continuava magra como sempre.
- Tenho urna coisa para te contar - Nancy sorria-lhe radiante, enquanto comia picas garfadas de bolo e cbantilly perante o olhar estupefacto de Pilar.
- Eu tambm tenho uma coisa para te dizer. Se comeres muitas vezes sobremesas como essa, vais pesar uma brutalidade no Natal! Pilar estava horrorizada mas ao mesmo 
tempo divertida; em muitas das suas facetas, Nancy ainda parecia uma mida, e era exactamente como Pilar a via, sorrindo enquanto devorava outra pratada de bolo, 
e atrs desta uma outra.
- Vou estar gorda, de qualquer maneira - insinuou, perversa, enquanto Pilar bebia o caf.
- Ah, ? E como? Dezenas de bombons e televiso todo o dia, no? Continuo a dizer-te, embora o teu pai afirme que devo meter~me na minha vida, que devias trabalhar. 
Fazer alguma coisa... nem que fosse obras de caridade... sair de casa... estar ocupada. 4.

60                          DANIELLE STEEL
- Vou ter um beb - interrompeu-a Nancy delicadamente, dirigindo  madrasta um sorriso vitorioso. Como se fosse um tremendo mistrio que acabava de revelar, ou um 
segredo que s ela guardava, e Pilar olhou-a boquiaberta.
- Vais? - Era uma coisa em que Pilar nunca tinha pensado. Ela mesma j era to infantil que ningum a diria preparada para ter o seu prprio filho, no obstante 
estar j com 26 anos, a idade de Pilar quando conhecera Brac[ford, dezasseis anos antes, quase metade de uma vida. - Tu, grvida? - Porque lhe parecia to inconcebvel? 
Interrogou-se mais tarde. Mas era-o. E absurdo. E impossvel de imaginar.
- Deve ser para Junho. Queramos ter a certeza de que tudo estava bem antes de te contar. Estou grvida de trs meses.
- Ena! - Pilar reclinou-se na cadeira, olhando-a espantada. Dexaste-me sem fala! - Bebs eram uma daquelas coisas que faziam to pouco parte da sua vida que raramente 
pensava neles, ou nunca tinha pensado at quela manh. - E ests feliz, querida? - Ou apavorada? Ou exasperada? 0 que sentiria uma pessoa? Era semelhante a qu? 
No podia imaginar, nem nunca o quisera. jamais fora capaz de compreender uma sede to peculiar, da qual talvez pudesse apenas intuir aluma coisa atravs do seu 
desejo de no os ter.
- Estou felicssima, e Tominy tem sido um amor. - 0 marido tinha 28 anos e trabalhava na IBM. Ocupava um bom cargo, daria provavelmente um bom pai, mas para Pilar 
e Brad pareciam sempre os dois to acrianados. Apesar de ser mais novo do que a irm, Todd mostrava, de certa forma, mais maturidade do que eles.
-  verdadeiramente maravilhoso. Excepto no incio, que enjoava horrivelmente, mas agora estou ptima - acrescentava com naturalidade, rapando os restos do prato 
perante o olhar fascinado de Pilar.
- Queres comer outro? - zombou Pilar, e Nancy acenou com a cabea.
- Claro!
- Nancy Coleman, no te atrevas! Vais pesar centenas de quilos quando chegar a hora do beb nascer!
- Estou desejosa. -  mulher mais nova sorria radiante e Pilar deu uma gargalhada, enquanto puxava um cheque, inclinando-se a seguir para beij-la.

0 PREO DA VENTURA                            61
- Ainda bem, querida. Estou feliz pelos dois. 0 teu pai vai ficar
certamente comovido.  o seu primeiro neto.                                             .r
- Eu sei. Pensmos ir l no fim de semana para lhe dizer. Entre-
tanto, no lhe digas nada, est bem?
t
- Claro que no. Ia estragar a surpresa. - Achava estranho, no                      P entanto, que a rapariguinha que em tempos a repudiara com tanta vee-
inncia viesse agora confiar-lhe os seus mais ntimos segredos. Havia unia espcie de simetria em tudo aquilo, ou no mnimo ironia. Tinham, na verdade, fechado o 
crculo.
Separaram-se  sada do restaurante e Pilar voltou para o escritrio, sorrindo consigo mesma. As pessoas to desejosas de saber se ela e Brad queriam filhos e, em 
vez disso, iam ter um neto. Por fim, esqueceu completamente as novidades de Nancy e concentrou-se no trabalho.
Foi um dia longo e cansativo, e sentiu um enorme alvio quando Brad a veio buscar e props lev-la a jantar fora.
Pilar deixou o carro na garagem, satisfeitssima por no ter de ir para casa cozinhar. jantaram tranquilamente no Louies Restaurante ele estava de excelente humor 
no momento de encomendar os pratos.
- 0 que te aconteceu hoje? - inquiriu ela com um sorriso, recostando-se na cadeira, comeando finalmente a descontrair~se. Fora um dia estranho para si, cheio de 
trabalho, de perguntas interminveis da parte dos clientes, de momentos singulares e algumas sensaes insli~ tas. Ainda no estava totalmente refeita da notcia 
de Nancy, nem da
k perspectiva do seu beb.
- Terminei hoje o caso mais longo da histria actual, estava capaz de danar, sinto-me to aliviado. - Brad tivera um caso no tribunal
a
que se havia arrastado durante dois meses, deveras enfadonho e por
vezes extremamente incmodo.
- E aconteceu o qu?
- 0 jri absolveu o ru, e acho que fizeram bem.
- Deve sentir-se esta noite um homem feliz. - Recordava-lhe os seus clientes, os seus tempos de defensora do Ministrio Pblico.
- Tambm eu me sinto um homem feliz. - Brad sorriu-lhe, parecendo imensamente aliviado. - Sem trabalho de casa para fazer. E tu?
Pelos vistos, foi um dia longo.                                                         1 Se foi! Longo e estranho. Tive esta manh no meu escritrio
urnas pessoas por causa de um problema com uma me hospedeira e

62                          1DANIELLE STEEL
os problemas com a adopo. 0 marido fez a tolice de pagar a uma menor para lhe gerar o filho, e no fim ela recusou-se a entregar---lhe a criana. 0 tribunal local 
instaurou um processo criminal contra ele em virtude da idade da rapariga, depois retirou-o mas no o deixam ver o beb. Faziam um par esquisito, percebendo~se nos 
dois uma especie de desespero silencioso, uma ligao irracional  criana que nunca viram mas  qual chamam "Jeanne Marie>,. Era tudo to incompreensvel e deprimente! 
Pensei neles o dia inteiro, e no creio que haja algum que possa fazer grande coisa por eles. Talvez o direito s visitas, eventualmente, mas no muito mais do 
que isso, a menos que a me no se comporte bem com a criana. No sei...  difcil imaginar o que eles sentem. Estavam to desej   .osos daquele beb. Tentaram 
tudo o que puderam durante anos para ter um filho, depois correram todas as agncias de adopo, e por fim isto...  lamentvel que ele tenha recorrido
a uma menor.
- Provavelmente teria sempre problemas. Sabes no que do essas coisas. Pensa no caso do beb M., e posso citar~te- dezenas de outros idnticos. No me parece que 
a me hospedeira seja a soluo.,
- Para algumas pessoas  capaz de ser...
- Porqu? Porque no ho-de simplesmente adoptar? - Ele adorava conversar com ela, raciocionarem juntos, explorar ideias, discutir casos. Em geral eram muito discretos, 
mas falar acerca dos seus trabalhos era uma maneira de ele recordar os seus anos de adversrios no tribunal, e como ela sempre soubera ser uma opositora extraordinria. 
Por vezes sentia saudades.
- Para certas pessoas a adopo  impossvel. Ou so demasiado pobres, ou demasiado idosas, e por a adiante. E no encontras bebs com essa facilidade. Alm disso, 
estas pessoas pareciam fazer questo de que fosse o beb dele. A mulher quase que me pediu desculpa por ser ela quem no podia ter filhos. - Fora to estranho observ-la, 
e ao mesmo tempo to pattico. Naquela mulher tudo revelava a dor e o fracasso.
- Achas que vais ter mais alguma noticia deles?
- No, no creio. Disse-lhes o que pensava do caso, e julgo que no lhes agradou. Disse-lhes que provavelmente demorava tempo, e o mais certo era eu no poder fazer 
grande coisa. No quis dar-lhes falsas esperanas. Seria cruel.

0 PREO DA VENTURA                             63
- Eis bem o estilo da minha mulherzinha, soma e segue! - Deu
urna gargalhada enquanto terminavam o primeiro prato e ela tentava protestar. Mas Brad apreciava a sua constante honestidade.
- Tinha de ser directa com eles - explicava, sabendo contudo que no precisava de dar justificaes. 0 marido conhecia-a to bem.
- Eles queriam tanto aquele beb! s vezes  difcil entender. - Era dificil entender uma srie de coisas, at o prazer bvio e pleno de Naney em relao ao seu 
beb. Pilar podia v~lo mas no podia imaginar-se a experiment-lo. E enquanto a contemplava, sentia-se como uma estranha olhando atravs de uma janela intensamente 
iluminada. Gostava do que via do outro lado, mas no fazia ideia de como ali entrar, ou se aquele seria o seu mundo. Todas essas sensaes de prazer em torno de 
um filho eram-lhe totalmente estranhas.
- Ests to pensativa porqu? - Ele observava-a e ela sorriu. Ento Brad esticou-se para lhe pegar na mo por cima da mesa.
- No sei... talvez esteja a ficar velha e filosfica... s vezes penso que estou a mudar, e isso assusta-me um bocado.
- Deve ser o choque de ter casado - gracejou ele. - Isso tambm me fez mudar. Sinto-me cinquenta anos mais novo. - Brad estava com 62 e ainda fazia a cobia do tribunal. 
Mas este tomou um ar srio quando a olhou nos olhos:  0 que  que te leva a pensar que estejas a mudar?
- No sei. - Pilar no pod      ia falar-lhe do beb de Naney- antes que a filha lhe contasse. - Almocei com uma amiga. Est grvida, e vi-a to excitada, parecia 
ela prpria uma criana.
- 0 primeiro filho? - Ela respondeu com a cabea. - Isso  excitante - observou ele -, mas os bebs so sempre excitantes, mesmo que tenhas dez, parece existir sempre 
lugar para mais um. E ainda que no sintas nenhuma emoo quando descobres,  sempre excitante quando chegam. Quem era essa amiga?
- Oh, algum que trabalha para ns no escritrio. Talvez seja por a ter visto a seguir quelas pessoas que perderam a criana. Parecem todos to seguros, to ansiosos 
por um filho... Como  que sabem se querem tanto um beb? Como  que sabem se vo, inclusive, gostar dele depois de crescido, ou se querem ser seus amigos? Meu Deus, 
Brad,  uma priso para a vida inteira, sem comutao possvel. Como  que as pessoas fazem isso?

04                          DANIELLE STEEL
-  a natureza, creio eu. No podes pr tantas questes. Foi talvez mais fcil para ti teres-te poupado. - Em todos aqueles anos nunca a vira suspirar por um filho, 
e no se importava, tinha os seus, Tinham o seu trabalho, as suas vidas, os filhos dele nas ocasies em que os viam; tinham interesses, actividades, amigos, viajavam 
para Los Angeles, Nova lorque, para a Europa quando dispunham de tempo. Teria sido muito mais dific1 com uma criana, no impossvel, mas mais complicado de conciliar. 
Mas ele sabia que no existia em Pilar qualquer anseio nesse sentido.
- Como sabes que me poupei? - perguntou-lhe ela, serenamente, e fitava-o por cima da mesa.
- Ests a querer dizer-me alguma coisa, Pilar? - atalhou, surpreendido com a expresso do seu olhar. Havia nele uma sombra de infelicidade, algo de insatisfao 
que nunca lhe vira antes, mas subitamente desvaneceu-se. Durou um breve e fugaz instante. Tomava a ser a Pilar de sempre e ele concluiu que estava simplesmente cansada.
- S estou a dizer-te que no compreendo. No compreendo o que sentem e por que razo... por que razo eu nunca o senti.
- Talvez o sintas um dia - atalhou Brad com ternura, mas desta vez ela soltou uma gargalhada.
- . Quando tiver 50 anos. Se hoje j me parece to tarde para isso! - Ela recordava os avisos da me no seu casamento.
- No obrigatoriamente, no o seria se realmente quisesses. Comigo, porm, a questo j  totalmente diferente. Terias de arranjar~ -me uma cadeira de rodas e um 
prtese auditiva como presentes, se tivesses um beb.
- No  provvel, meu amor. - Como tambm no era provvel um beb. Ela no queria um filho, apenas ficara surpreendida quando Nancy lhe contara que estava grvida. 
Pela primeira vez na vida, sentira uma ntima amargura, um longnquo vazio, a mais breve das dvidas, e ento lembrou-se de tudo o que tinha e disse para consigo 
que estava louca.

CAPTULO 3                                               11
0 Natal em casa dos Goodes era sempre uma poca intensa. Gay1e e jack costumavam vir todos os anos com as suas trs raparigas, porque os pais dele, muito idosos, 
j tinham morrido; e nos ltimos tempos Sam e o marido tambm apareciam quase todos os anos com o seu casalinho, sobretudo desde que Seamus tinha a famlia longe 
e no lhes era muito fcil irem  Irlanda para os ver. Seamus preferia ficar em casa e passar a noite e o dia de Natal em Pasadena com os sogros. E, em geral, as 
trs irms passavam bons momentos. Nesse ano estavam presentes Diana e Andy, naturalmente. E quando as trs irms preparavam a mesa para a ceia, Gayle, dando-lhe 
uma cotovelada, lanou a Diana um olhar que esta sempre odiara. Exactamente o mesmo olhar que Gay1e lhe dirigia quando sabia que Diana tinha apanhado uma nota m, 
ou que deixara queimar os biscoitos que devia levar ao passeio dos escuteiros. Era um olhar que dizia falbaste... ardeu, no fo? Algo que s as duas entendiam e 
que Diana tentou fingir no perceber, continuando a dobrar escrupulosamente os guardanapos.
- Ento? - perguntou-lhe Gay1e bruscamente, quando colocava os pratos na mesa. - Diz l... - No podia crer que a irm mais nova fosse to estpida. Sabia de certeza 
a que estava a referir-se, mas quando a pressionou pela segunda vez, Sam comeou a ficar aflita. No queria v-Ias engalfinhadas no dia de Natal. - Ainda no ests 
grvida?
- resolveu Gay1e ser mais explcita. Era outra vez a m nota. Ardera de facto desta vez, e a mo de Diana tremia ao colocar o ltimo guardanapo de renda num dos 
pratos da mesa de Natal. Estavam a usar a loua que a me costumava pr a servir todos os anos, para a conso-

66                          DANIELLE STEEL
ada, e com a qual fazia urn bonito conjunto o grande centro de mesa composto de tlipas vermelhas.
- No, ainda no estou grvida, no temos tido tempo. - No, Tinham to-s feito amor no momento certo de cada ms durante seis meses a fio, mas Deus a livrasse 
de admitir isso  irm. - Andamos os dois muito ocupados.
- Com qu? Com a vossa profisso? - desdenhou, como se o emprego de Diana fosse algo de que esta devesse ter vergonha. Na opinio de Gayle, as mulheres autnticas 
ficavam em casa a tomar conta dos filhos. - No  assim que vais encher to cedo aquela vosa casa enorme, sabes perfeitamente. Farias melhor em andar com isso para 
diante, filha. 0 tempo foge.
A srio? Pensava Diana. Foge a quem? Que diabo de pressa era a delas? E porque tinham de lho perguntar? Era o que temia naquele ano. At sugerira a Andy irem que 
desta vez a casa dos DougIas, mas este no tinha possibilidades de se afastar da empresa e, ficando em Los Angeles, no podiam deixar de vir. Os Pais dela ficariam 
magoados e no entenderiam.
- Que mal h nisso? - interveio Sam, querendo deitar gua na fervura, como sempre fazia - Tm muito tempo. So os dois jovens. Provavelmente vais ficar grvida no 
ano que vem.
- Quem  que est grvida? Outra vez, no! - interrompeu-as Seamus, de passagem para a cozinha. - Vocs, meninas, ficam grvidas s de um homem as olhar! - E revirava 
os olhos, e arrepiava-se todo diante dos olhares e das risadas delas, mas quando fugia para a cozinha, parou de repente  porta. -  a noiva que est grvida? - 
perguntou. Ocorrera-lhe de sbito, e Diana apressou-se a abanar a cabea, arrependida de ter vindo. As perguntas deles eram verdadeiras facadas no seu corao e, 
pela primeira vez na vida, odiou-os a todos, espe~ cialmente s irms.
- No, no estou, Seamus. Lamento desapontar-te.
- Ento tenta outra vez, minha querida... tenta... tenta... vai tentando... 0 que vocs se vo divertir! Felizardo do Andy!! - Tornou a desaparecer, Sam e Gay1e 
riam s gargalhadas, mas Diana no, dirigindo-se por sua vez para a cozinha, sem dizer palavra, pondo-se a ajudar a me.
S depois do jantar se tornou a tocar no assunto, mas dessa vez foi

0 PREO DA VENTURA                            67
Diana quem fez perguntas. Estava sentada sozinha com Jack no escri~ trio; os outros tinham ficado na sala a jogar s charadas, mas ela quisera estar uns momentos 
com o pai junto da lareira. Entretanto este tinha ido para a cama e Diana balanava-se tranquilamente na sua cadeira preferida quando Jack entrou e foi sentar-se 
ao lado dela.
- Tudo bem contigo? - perguntou~lhe com voz afvel enquanto acendia o cachimbo. Estivera a observ-la durante o jantar e no lhe parecera muito feliz.
- Vou indo. - E no mesmo instante virou-se para ele com um olhar preocupado, mas por fim resoluta: - No digas nada a Gayle, mas eu queria... Tenho pensado se no 
seria bom ir falar contigo... Quanto tempo pensas que  normal para uma pessoa engravidar? Ele no podia ajudar, mas sorriu  pergunta.
- Duas semanas... cinco segundos... dois anos... difere de pessoa para pessoa, Diana. Vocs s se casaram h seis meses, andam ambos ocupadssimos, vidas cheias 
de stress. No me parece que devas pensar nisso pelo menos durante um ano. H pessoas que dizem que dois anos sem se usar contraceptivos e sem nenhuma gravidez significam 
que existe algum problema, outras consideram que j se justifica ver o que se passa ao fim de um ano. A maioria dos casais, em condies ideais, leva cerca de um 
ano a engravidar. Se fosses mais velha, ento j era caso para te preocupares ao fim de seis meses. Mas na tua idade, eu dava-te  vontade um ano, at talvez mais, 
antes de comeares a ter qualquer receio. - Ela parecia imensamente aliviada, e agradeceu-lhe justamente antes de Andy entrar no escritrio para se juntar a eles. 
Sentaram-se e ficaram a conversar durante muito tempo; da economia mundial, dos constantes problemas no Mdio Oriente, dos seus empregos, do ano que ia principiar. 
E pela primeira vez aps muitos de meses Diana sentia-se serena e feliz. Talvez existisse uma esperana, apesar de tudo, pensava para consigo quando estavam para 
sair, e agradeceu  me, e especialmente a Jack. Abraou-o, e este sabia porqu, e sorriu-lhe.
- Tem cuidado contigo - disse-lhe em voz baixa, e eles saram. Os outros iam passar ali a noite para as crianas poderem festejar o Natal com os avs na manh seguinte. 
Mas Diana, naquele ano, no queria dormir l; estava dansiosa para ir para casa com Andy.

68                          DANIELLE STEEL
- Ests bem, minha querida? - perguntou-lhe Andy quando seguiam de carro na auto~estrada deserta.
- Estou ptima. - Sorriu. E pela primeira vez naqueles ltimos meses era exactamente como se sentia. Aninhou-se contra ele e fizeram todo o resto do caminho em idlico 
silncio. Fora um dia longo, mas bom. E quando chegaram a casa foram para a cama, permanecendo acordados durante algum tempo a conversar tranquilamente sobre os 
sonhos que partilhavam. Dana estava feliz, descontrada, e pela primeira vez em muitos meses no pensou em engravidar quando fizeram amor nessa noite. No era a 
altura certa do ms, de qualquer modo, mas foi um alvio fazerem amor simplesmente porque queriam, indiferentes a datas e a horas, com o pensamento distante dos 
seus sonhos e das suas intenes.
- Oh Deus, amo-te... - murmurava Charlie, a voz rouca, puxando Barb para si no sof, e tornaram a fazer amor, com as luzes da rvore de Natal piscando intensamente 
por cima deles.
- 0 que te deu? - gracejou ela. - As rvores de Natal deixam~ -te aluado, ou qu? - Era a terceira vez que faziam amor naquela noite, mas ele dificilmente lhe resistia. 
E ela, saracoteando-se permanentemente pela casa sem roupas e com o corpo fabuloso que tinha, atraa-o at  loucura.
-  que tu fazes-me perder a cabea - murmurava contra os cabelos dela, deitados lado a lado no sof depois de terem feito amor. Char~ lie j lhe dera o presente 
naquela noite, um fio de ouro com uma ame~ tista, e sabia que ia adorar, pois era a sua pedra da sorte. Ela deu-lhe uma camisola e uma gravata, uma garrafa de champanhe 
francs e uma almofada para o assento do caro, muito til para os seus percursos dirios entre a casa e o emprego. Charlie gostou dos seus presentes, embora no 
tanto como ela dos seus; este tambm lhe tinha comprado uma saia preta de couro e urna camisola preta deveras ertica.
- Que tal se bebssemos um pouco do teu champanhe? --- Barbie soerguera-se sobre um cotovelo e olhava~o com fatigado prazer.
- Oh, ob! - deitou-a de costas junto de si - Estou a guard-lo.
- Para qu? - Mostrou-se desapontada. Era doida Por champanhe, e por isso lho tinha oferecido.

0 PREO DA VENTURA                           69
- Estou a guard-lo para uma coisa mais importante.
- 0 qu, por exemplo? Pela maneira como tens agido esta noite, eu diria que o Natal  bem importante!
Ele soltou uma gargalhada, abanando de novo a cabea:
- Nah, nah! Refiro-me a mportante. Como quando ganhares um Oscar, ou pelo menos um papel num filme de Steven Spielberg... ou a tua prpria srie... ou talvez no 
nosso dcimo aniversrio... ou - e saboreou com volpia a ltima sugesto - quando tivermos um beb. A expresso dela era de visvel enfado quando se sentou:
- Bom, felizmente que nenhum desses acontecimentos me corta a respirao. Porque, por esse andar, no vais beb-lo nunca.
- Tenho a certeza de que vou.
- Sim? Quando? Espero que no estejas a guard-lo para um beb!
- Ela ficava furiosa quando ele tocava no assunto. No queria ser pressionada.
- Porque no, Barb? - Estava to ansioso por ter um filho! Queria tanto que constitussem uma famlia, e ela no fazia nada por isso.
- Porque no quero ter. Acredita, cresci rodeada de crianas, e so
uma estopada.  porque tu nunca viste nenhuma. - Nos ltimos tempos, era bastante mais franca com ele na sua recusa de ter filhos do que antes do casamento.
-j vi crianas, sim senhor. Eu tambm fui criana. - Charlie tentava brincar, mas ela no achava-graa. Para ela, os bebs no tinham a menor piada.
- Alm disso, at somos capazes de no poder ter nenhum acrescentou, na esperana de assust~lo, ou pelo menos dissuadi-lo para os tempos mais prximos.
- Porqu? - ele olhou~a estupefacto. Era a primeira vez que a ouvia dizer aquilo. Pelo menos de uma forma to cruel. - H algum problema? Porque no me falaste nisso?
- No sei se h algum problema, mas nunca fui to desleixada corno agora com os contraceptivos, e tu sempre sorrateiro atrs de mim sem me dares tempo a tomar cautela... 
e apesar disso, ao fim de ano e meio, nunca engravide, - Ele tinha vontade de perguntar-lhe se j engravidara com mais algum, mas preferia no saber, por isso 
no insistiu.
- Isso no quer dizer nada. Provavelmente no fazemos a coisa na altura certa. No podes fazer essas coisas ao acaso, ests a perce~

/U                          DANIELLE STEEL
ber, e esperar que vais ficar grvida. - Mas j lhe sucedera anteriormente, trs vezes antes de sair de Salt Lake City e duas em Las Vegas. Nunca tivera Muita sorte, 
excepto com Charlie, e j tinha pensado nisso por mais de uma vez. Ou era a combinao dos dois, ou era por causa dele, mas, conhecendo a sua tendncia para engravidar, 
as suas suspeitas recaam em Charlie, o que de resto no a incomodava por a alm. Estava contentssima. Percebeu, contudo, ao olh~lo, que no devia ter dito nada, 
pelo menos na noite de Natal. Ele parecia profundamente desgostoso.
- Alguma vez engravidaste algum? - perguntou enquanto dei~ tava vinho nos copos, estendendo-lhe depois o dele. Continuava despida, e o simples facto de v-Ia assim 
provocou-lhe uma ereco, Que as suas reaces eram saudveis, disso no restavam dvidas.
- Que algum mo tivesse dito, no - respondeu pensativo, saboreando o vinho e observando-a.
- Isso no quer dizer nada - atalhou ela carinhosamente, arre~ pendida de ter tocado no assunto. Parecia injusto estar a preocup-lo no Natal. - As raparigas nem 
sempre confessam.
- No? - Ele bebeu mais um copo de vinho, depois outro, e ao terceiro estava de novo excitado, mas dessa vez j bem bebido. Barbara levou~o para a cama, deitando~se 
ao lado dele. - Amo-te - murmurava, puxando-a para si, sentindo-lhe os seios fartos colados ao seu corpo, exactamente como gostava. Era to sensual, e to incrvel 
e fogosa! Era a rapariga perfeita e ele sabia que a amava.
- Eu tambm te amo. - Ela alisava-lhe os cabelos como a um gar oto enquanto o via caindo no sono, e ento abraou-o, interrogando~se por que razo significava tanto 
para ele ter um beb. Era verdade que sabia da histria da orfandade, e ela prpria tivera os seus Pro~ blemas, mas a ltima coisa que pretendia na vida era outra 
vez uma famlia, ou a dor de cabea que era um beb. - V se sossegas. murmurou-lhe, beijando-o, mas ele j dormia profundamente nos seus braos, sonhando com o 
dia de Natal.

CAPITULO 4
Em Maio, Pilar convidou Nancy para almoar l em casa. Brad ia jogar golfe e o marido de Nancy ausentara-se da cidade por uns dias, de modo que era uma agradvel 
oportunidade para as duas mulheres passarem algum tempo juntas.
Pilar preparou o almoo enquanto a enteada ficava de molho ao sol, sentada no terrao. Imensamente grvida na altura, s a quatro semanas da data prevista, esta 
parecia a Pilar simplesmente descomunal. Nancy entreabriu um olho, torrando ao sol, quando Pilar reapareceu com um tabuleiro nas mos. E, a despeito do seu volume, 
Naney levantou~se rapidamente para ajud-la. Trazia vestidos uns cales bran~ cos  mam e uma enorme camisa cor-de~rosa, e at  semana anterior ela e o marido 
ainda jogavam tnis.
- D-me licena, Pilar, aqui... deixa-me ajudar... - Tirou-lhe o tabuleiro, que ajudou a colocar sobre a mesa de vidro. Pilar tinha feito uma farta salada e um prato 
de massa  italiana. - Oh! Isto tem um ptimo aspecto! - 0 apetite tornara-se-lhe voraz nos ltimos oito meses, se bem que no tivesse adquirido um peso excessivo 
e permanecesse bonita como sempre. Com efeito, comentara Pilar recentemente com Brad, dr-se-ia que depois de grvida ainda estava mais bonita. Havia no seu rosto 
qualquer coisa de mais delicado e menos angular, algo de sereno no seu olhar.  sua volta existia agora uma espcie de aura, o que intrigava Pilar. Notara isso antes 
noutras mulheres, mas no tinha ideia de como fosse sentir-se assim. Em Nancy, porm, era algo que subitamente a intrigava. E que a assustava ao mesmo tempo. E mais 
do que isso assustavam-na os seus prprios sentimentos. De repente,

72                          DANIELLE STEEL
ela parecia to mudada. E tudo em Nancy a fascinava. Estava mais gentil, menos custica, "mais macia", como observava o marido. Curiosamente, ela tinha crescido 
nos ltimos oito meses, lembrando menos a garota mimada de outrora.
As duas mulheres sentaram~se a comer, e Pilar sorria ao olh-la. Nancy estava como se tivesse uma grande bola de praia escondida por baixo da camisa cor-de-rosa; 
e mal podia esticar-se para chegar s coi-
sas na mesa.
- Uma pessoa sente-se como? - interrogava Pilar com um olhar perplexo. Era tudo to enigmtico para ela. j tivera amigas grvidas, mas nenhuma to chegada, e em 
geral nunca prestava muita ateno. A maioria das suas amigas pertencia  gerao que optara por uma profisso em vez de filhos; e as que tinham sucumbido ao apelo 
da natureza fizeram-no demasiado tarde na vida, e ento pareciam evaporar~se dos crculos de Pilar. -  uma sensao esquisita ou maravilhosa? insistia, enquanto 
comiam a salada, e Pilar fitava~a nos olhos como se buscasse ali o segredo da vida.
- No sei. - Nancy sorriu. - s vezes e esquisito. Depois uma pessoa habitua-se. Agora esqueo~me completamente. Por vezes sinto-me como se este fosse o meu estado 
de sempre. Ao fim de algumas semanas j no era capaz de apertar os sapatos, tinha de ser Tommy a faz-lo. Mas penso que a parte mais estranha  saber que h aqui 
uma pessoa, algum que vai chegar e viver connosco nos proximos vinte anos: que vai depender de ns, e esperar coisas de ns durante o resto da sua vida. No consigo 
imaginar como seja.
- Nem eu - concordou Pilar pensativa, embora soubesse, de certa forma; tanto Nancy como Todd tinham esperado alguma coisa dela ao longo daqueles ltimos catorze 
anos. Mas nesse caso fora uma questo de opo. No eram os seus filhos, e se porventura ela e Brad tivessem rompido, pelo menos no incio ela podia ter resolvido 
no tornar a v~los, ainda que o mais provvel fosse querer faz-lo. Mas no era obrigada, no eram seus. Este beb ia ser de Nancy para sempre. Ia ser uma parte 
dela, e uma parte de Tom, e uma pessoa senhora de si mesma. Ia ser algum importante para eles durante o resto das suas vidas. Este mero pensamento sempre aterrorizara 
Pilar, e agora, de sbito, achava deveras comovente.
- Penso que  maravilhoso.  toda uma vida nova, um mundo

0 PREO DA VENTURA                            73
totalmente novo, uma relao com algum que faz parte de ns, que pode ter um milho de coisas em comum connosco, ou absolutamente nada.  fascinante, no ? - Tudo 
aquilo a intrigava profundamente, erabora tivesse de admitir que continuava a achar uma responsabilidade tremenda, e longe dela ter de passar por um parto para entender 
como era. Esse era o aspecto que menos a seduzia, e olhando para o perfil imenso da enteada, no a invejava pelo que teria de suportar. Pilar vira uma vez um filme 
sobre um parto, e a sua nica reaco fora dar-se por feliz por jamais ter de fazer algo de semelhante; estava absolutamente segura de que nunca ia ter um beb.
- Tem piada - prosseguia Nancy, reclinando-se na cadeira e olhando ao longe o mar -, a maior parte do tempo no penso na relao que teremos, nem se o beb vai gostar 
muito ou pouco de ns, penso, isso sim, em como deve ser amoroso, pequeno, to dependente de ns... e Tommy est to excitado. - Tambm ela estava, era a coisa mais 
excitante que j lhe havia sucedido. E estava nervosa por causa do parto, mas o que mais a absorvia agora era o beb. E ento, olhou para a madrasta e fez a pergunta 
que sempre quisera fazer mas para a qual nunca tinha tido coragem: - Como foi que tu e o Pap... quer dizer... como  que foi que nunca tiveste filhos? - Mas de 
repente preferia no t-la feito. E se Pilar no pudesse? Esta, porm, apenas sorriu, encolhendo os ombros:
- Nunca quis. A minha-infncia foi bastante estranha, por isso no queria que uma outra pessoa passasse pelo mesmo. E alm disso tinha~ mos-te a ti e ao Todd. Mas 
na verdade nunca quis crianas enquanto fui nova. Creio que, de certo modo, era uma falha qualquer na minha bagagem psicolgica. Via as mulheres minhas conhecidas 
que se casavam mal saam da escola, via-as manietadas com dois ou trs filhos, em casas e vidas que detestavam. Todas elas me pareciam de tal modo tolhidas... Nunca 
fizeram nada. Para mim, julgo que foi sempre uma questo de opo, e as coisas que pretendia da vida no incluam filhos. Depois fui estudar Direito e, para dizer 
a verdade, nunca pensava nisso. Tinha a minha profisso, depois conheci o teu pai, e no mudei de ideias. As mulheres que tiveram crianas h vinte anos esto neste 
momento sentadas em casa, com os filhos crescidos e ausentes, perguntando-se o que foi feito das suas vidas pessoais. Estou feliz por no

DANIELLE STEEL
flIC ter sucedido o mesmo. Odlo-ia a cada mintuo, odiava-me a mim mesma, e ao homem que me, tivesse condenado a isso.
- Mas no tinha de ser forosamente assim - atalhou Nancy, afvel. Esta adquirira nos ltimos meses urna nova maturidade, e uma viso mais ampla das coisas; o seu 
mundo,  semelhana do seu ventre, ia crescendo aos poucos. - Tenho amigas que fazem as duas coisas, tm profisses e filhos. Um monte delas; de facto, algumas so 
mdicas, advogadas, psiclogas, escritoras. No tem de ser uma opo, quando no se quer que seja.
- Nesse aspecto, a tua gerao  bastante melhor do que a minha. Para ns, a maior parte, das vezes impunha-se uma opo. Agarrava-se o grande emprego, a grande 
oportunidade, e ento entregvamo-nos de corpo e alma at atingir o topo, ou ia viver-se para os subrbios e tinha-se filhos. Normalmente,era to simples como isso. 
Hoje, parece que as pessoas conseguem fazer malabarismos e conciliar tudo, mas uma boa parte tem de ser feita conso ante a maior ou menor capacidade de ajuda dos 
maridos, consoante a sua maior ou menor flexibilidade, ou depen~ dendo de estes quereram ou no tudo isso. Tens de abdicar de uma srie de coisas se queres ter urna 
famlia e uma carreira. Talvez at nem precisasse de fazer essas escolhas. julgo que o teu pai seria, de qualquer maneira, formidvel nesse aspecto, mesmo se tivssemos 
filhos. Ele
 to extraordinrio com vocs os dois! Mas parece-me que foi sobretudo porque nunca senti necessidade. Nunca tive esse desejo ardente que vi em certas mulheres, 
essa nostalgia interminvel se no tm filhos. Ouvi mulheres falarem disso, como unia doena, mas, graas a Deus, nunca passei por isso. - Ao afirm-lo, porm, ela 
sentia agora como que uma estranha ferroada, Como o prenncio tmido de uma dor de dentes.
- No tens pena, Pilar? No pensas se vais sentir a falta, se olhas para trs e vs que afinal gostavas de ser me? Ainda no  tarde, sabes? Conheo duas mulheres 
que tiveram bebs e so mais velhas do que tu.
- Sim? Quem? A Sara da Biblia, e a outra quem ? - Pilar ria-se e Nancy insistia que ela ainda no era muito velha. Mas algo lhe dizia que sim, era demasiado tarde 
para si. Fizera as suas opbes havia muito tempo, e no era infeliz com elas. Tinha de admitir que ultimamente pensara nisso urna ou duas vezes, sobretudo desde 
que Nancy estava grvida, mas suspeitava de que, fossem to somente os primeiros fr_

0 PREO DA VENTURA                            75
mitos da velhice, o tiquetaque do relgio biolgico marcando os seus derradeiros momentos. No ia permitir-se vacilar por causa disso, por muito comovente que lhe 
parecesse e por mais encantadora que achasse a barriga de Nancy. Vinha apenas cedendo um pouco com a idade, mas no significava necessariamente que quisesse um beb. 
Lembrava-o a si prpria enquanto levantava a mesa.
- No, no me parece que lamente mais tarde. Claro, seria agradvel ter ento um filho, ter algum com quem conversar, algum para amar e por quem ser amada, quando, 
daqui a trinta anos, estivesse sentada na minha cadeira de baloio na varanda, mas tenho-te a ti, e julgo que isso me basta. No tenho remorsos pela minha vida. 
Fiz exactamente o que queria, da maneira que determinei e no momento em que quis faz-lo. No se pode exigir mais da vida. - Ou podia?... o mal era que subitamente 
emergiam esses ecos vagos. Sempre se sentira to segura de si a vida inteira, to firme quanto s suas convenincias e ainda estava segura... ou no estaria?
- No estou exactamente a ver-te sentada numa cadeira de baloio daqui a trinta anos. Nem vejo o meu pai a fazer isso nessa altura. Este teria ento 92 anos. - Talvez 
devesses pensar nisso outra vez. Nancy considerava que estar  espera de um beb era to maravilhoso que toda a gente devia tentar.
- Estou muito velha para pensar nisso agora - disse Pilar, categrica, como se pretendesse convencer-se a si mesma. - Tenho 43 anos. Uma idade bastante mais adequada 
para ser av, quando o teu beb nas~ cer. - Mas esta afirmao trazia-lhe alguma tristeza, e isso espantou-a. De repente, saltara as pginas do meio. Fora jovem 
e agora era velha; nunca tivera os seus prprios filhos e agora ia ser av. Tinha a sensao de ter perdido a festa.
- No sei por que pensas que s velha de mais. Ter 43 anos j no  ser velha. Montes de mulheres tm bebs na tua idade - insistia Nancy.
-  verdade, mas montes de mulheres no tm. julgo que devo ser uma delas.  falta de outro argumento, porque me  mais familiar. Foi para dentro fazer caf para 
as duas. Conversaram mais um pouco durante a tarde e depois Nancy saiu, Tinha umas compras a fazer e ia jantar nessa noite com amigos. Parecia estar realmente a 
fruir com gosto a sua gravidez, e Pilar ficara fascinada a v-Ia conversar, esfregando o

76
DANIELLE STEEL
estmago com as mos como se estivesse a falar Com ele, e por mais de uma vez Pilar vira a camisa cor-de-rosa agitar-se, quando o beb se  mexia ou dava pontaps, 
e Nancy ria-se. Dizia que o beb era inutO vivo-
Mas depois de Nancy sair, Pilar andou vagueando pela casa sem destino. Lavou os pratos do almoo, sentou~se por instantes  secretria, onde ficou de olhos fitos 
na janela. Trouxera alguns dossers do escritrio, mas no era capaz de concentrar o esprito no trabalho, ocu~ pando-lhe unicamente o pensamento as coisas que ela 
e Nancy tinham dito naquela tarde... as perguntas que a enteada lhe fizera... teria pena, um dia?... iria arrepender-se de no ter filhos quando fosse velha?... 
e como seria quando Brad morresse, oxal no, mas se isso sucedesse e nada lhe restasse do marido a no ser as suas recordaes e os filhos de uma outra mulher? 
Mas, Santo Deus, como isso era ridculo, ningum tem bebs apenas para ficar ligado a algum, para conservar uma parte da pessoa quando esta fecha os olhos! Mas 
ento por que motivo tinham as pessoas filhos? E se at ali nunca quisera nenhum, porque se vinha tomando uma pergunta to dolorosa? E porqu agora? A que pro~ psito, 
aps todos aqueles anos? Eram unicamente cimes de Nancy, um desejo de ser jovem, alguma ideia louca no limiar da menopausa? Seria o princpio do fim, ou o princpio 
do princpio? Ou, pura e simplesmente, no era nada? No vislumbrava nenhuma resposta.
Por fim, aps uma longa batalha consigo mesma, Pilar ps de parte os dossiers e telefonou a Marina. Achou uma tolice mal marcou o nmero, mas sabia que precisava 
de falar com algum. Sara por demais transtornada do seu almoo com Nancy.
- Est l? - Marna ps a sua voz oficial e Pilar sorriu ao ouvi-Ia.
- Sou eu, no te assustes. Onde estavas? Levaste sculos para atender. - Por instantes, receara que a amiga mais velha no estivesse em casa, e foi um alvio quando 
finalmente lhe ouviu a voz do outro lado do fio.
- Desculpa, estava no jardim a podar rosas.
- Posso desafiar-te para uma volta at  praia?
Marina hesitou, mas s por instantes. Era verdade que estava a saber-lhe bem o seu trabalho de jardinagem, mas tambm sabia que Pilar nunca a convidava a passear 
na praia a no ser quando algo a perturbava profundamente.
- Algum problema?

0 PREO DA VENTURA                          77
- No propriamente. No sei. Acho que estou s a arrumar um
pouco as coisas na minha cabea.  a velha histria de sempre, s que estou a desviar-me para lugares diferentes. - Era uma forma esquisita de explicar os seus sentimentos, 
mas Pilar ainda no tinha encontrado os termos adequados.
- Desde que ainda haja um lugar onde me sentar. - Marina sorriu e pousou as luvas de jardinagen na mesa da cozinha. - Queres que passe a buscar-te?
- Adorava. - Pilar suspirou, Marina estava sempre ao seu dispor, sempre acessvel, e carinhosa, e afvel. Os irmos e as irms ainda lhe telefonavam a meio da noite 
com todos os seus problemas, e era fcil perceber porqu, Era to sagaz e inteligente, e to incrivelmente amorosa. Oferecia a Pilar tudo o que os pais no possuam, 
pelo menos a capacidade de escutar em certos momentos, ou ajudar numa deciso difcil. A maior parte das vezes Pilar desabafava com Brad, mas de vez em quando havia 
coisas que apenas outra mulher entenderia, embora Pilar, desta vez, estivesse certa de que Marina ia chamar-lhe louca.
Em menos de meia hora estava-lhe  porta, e as duas, lentamente, seguirarn de carro na direco do mar; Pilar, a quem Marina olhava de vez em quando de soslaio, 
parecia perfeitamente normal, embora fosse bvio que alguma coisa a preocupava.
- Ento, o que se passa nessa cabea? - perguntou quando finalmente parou o carro. - 0 nosso assunto  trabalho, prazer... ou falta deste? - Pilar sorriu e abanou 
a cabea enquanto saam do carro. Tu e o Brad discutiram,
- No, nada disso. - apressou-se Pilar a tranquiliz-la. Na verdade, nunca as coisas tinham caminhado to bem entre os dois. 0 casamento fora a melhor coisa que 
poderiam ter feito e, mais do que nunca, lamentava no t-lo feito mais cedo. - Por acaso - respirou fundo enquanto comeavam a caminhar na areia -, curiosamente 
 por causa da Nancy.
- Outra vez? Depois destes anos todos? - Marina mostrava-se surpreendida - Pensava que tinha aprendido a comportar-se nestes ltimos dez anos. Desaponta-me ouvir 
isso.
Mas Pilar riu-se, tornando a abanar a cabea:
- No, tambm no  isso. Ela est ptima. Vai ter o beb daqui a poucas semanas, e aparentemente s pensa nisso.

78                           DANIELLE STEEL
- Provavelmente era o que tu pensavas se tivesses uma melancia com sei l quantos quilos na barriga... saber quando ias ver-te livre dela tomava-se com certeza uma 
pergunta monopolizadora. Pelo menos para mim, que odeio carregar tudo quanto pese mais de meio quilo.
- Oh, cala-te! - Pilar soltou outra gargalhada. - No me faas rir, Mina. - Era como os sobrinhos e as sobrinhas lhe chamavam havia anos, e Pilar tratava-a assim 
em momentos especiais. - A grande loucura  que nem sei ao certo o que te quero dizer... ou porque me sinto desta maneira... No sei sequer o que sinto, se  real, 
se  uma iluso.
- Meu Deus, parece grave! - Marina estava meio a brincar, mas perscrutava o rosto de Pilar, o seu olhar, reconhecendo que esta estava profundamente perturbada e 
confusa. Sabia tambm que a mulher mais jovem acabaria por dizer o que a afligia. Marina no tinha pressa, podia dex-la levar o tempo que quisesse a descobrir 
as palavras certas para os seus sentimentos,
Pilar olhava-a timidamente, procurando a melhor maneira de formular o emaranhado das suas emoes.
- Nem sei por onde comear... julgo que foi h cinco meses, quando Nancy me contou que estava grvida... ou talvez fosse depois disso... No sei... j no sei nada... 
excepto que me ponho a pensar se no cometi um erro... talvez at um erro enorme... - Parecia torturar-se e Marina olhava-a, francamente surpreendida com as suas 
palavras.
- Referes-te a ter casado com Brad?
- No, claro que no. - Pilar apressou-se a abanar a cabea. Refiro-me  minha renitncia em ter filhos. E se acontecesse eu estar errada? E se um dia me arrepender? 
Se fossem afinal os outros quem tinha razo e o erro fosse meu porque sou uma neurtica pelo facto de os meus pais terem sido to mesquinhos comigo... E se, no fim 
de contas, tivesse dado uma me excelente? - Parecia angustiada quando se virou para Marina. Esta apontou para uma duna, onde se sentaram abrigadas do vento, e a 
mulher mais velha colocou-lhe um brao em redor dos ombros.
- Tenho a certeza de que darias uma boa me, se fosse essa a tua inteno. Mas ser-se bom numa coisa, ou potencialmente bom, no  suficiente para a fazer, a menos 
que se queira. Tenho a certeza de que darias tambm um ptimo bombeiro, e no entanto no estou a ver-te a escolher essa profisso. Deixa-me lembrar-te que no interessa 
se so

0 PREO DA VENTURA                        79
fnuitas ou poucas as pessoas que o fazem; o facto  que continua a flo ser obrigatrio ter filhos. Isso no faz de ti uma pessoa hedionda, ,,em significa que sejas 
esquisita, ou perigosa, ou excntrica s porque optaste por no os ter. H pessoas que, pura e simplesmente, no querern filhos. Pronto. Est certo, se  isso o 
que a pessoa acha melhor.
- Nunca te interrogaste se fizeste a coisa certa? Nunca tiveste pena de no ter filhos? - Ela precisava de saber, estava a enveredar por guas inexploradas e Marina 
j as tinha percorrido antes dela.
- Claro que sim, - afirmou Marina honestamente. - Urna oca~ sio ou outra. De cada vez que uma das minhas irmas, ou irmos, ou sobrinhas, ou sobrinhos me punham 
um beb nos braos, sentia um aperto no corao, e pensava... merda, quero um igual!.... mas, no meu caso, essas sensaes desvaneciam-se em dez minutos. Passei 
vinte anos a assoar narizes ranhosos, a mudar fraldas, a limpar vomitados, a lavar quilos de roupa por dia, a lev-los  escola, a passe-los no jardim, a tap~los 
de noite, a ensinar-lhes a fazer as camas. Meu Deus, s comecei a faculdade aos 25 anos, e a estudar Direito aos 30. Mas, pelo menos, fiz tudo isso e amo-os a todos, 
excepto talvez um ou dois, mas a verdade  que tambm os amo... Passei momentos maravilhosos com eles, alguns momentos incrivelmente preciosos, mas no queria voltar 
a faz-lo. Queria tempo para mim, para estudar, trabalhar, tempo, tempo para os amigos, para os homens. Teria casado eventualmente, se tivesse aparecido o homem 
certo. E o tipo certo apareceu, uma ou duas vezes, mas tive sempre uma boa razo para no cair em dar o n naquele determinado momento. Amava o meu trabalho, amava 
os midos. Claro, seria formidvel ter uma filha ou um filho que se preocupasse com o que acontecesse quando eu fosse velha, mas e da? Tenho-te a ti, e dez irmos 
e irms e respectivos filhos. - Estava a ser o mais honesta que lhe era possvel, e Pilar ficava-lhe grata.
- E se um dia no for o bastante? Se no for a mesma coisa? Amigos  irmos no so a mesma coisa que um filho, ou so?
- Ento, o erro  meu. Mas no me queixo, por enquanto. Marina estava com 65 anos, e cheia de vigor. Adorava o seu trabalho no tribunal e tinha mais amigos do que 
qualquer outro conhecido de Pilar. E sempre que surgia uma oportunidade, no deixava de viajar fosse para onde fosse, para ver algum, sobrinhas, sobrinhos, irms,

pilar se julgava ser...
*42, pensando para consigo & confuso e infelicidade
WoM,,War? Porqu todas essas ida?Ests a perguntar-me
abanav*-[w~z4~Iamente. - Estou a per-
amigos. Era uma mulher,feIt_ ~~ at recentemente.            X
- E tu? - Marina vir~, ~ppa qual seria a razo,de ser de.,to ~W~
da amiga. - 0 que  que es interrogaes a respeito
o que penso de um aborto._,"
- No. - Pilar
guntar-te o que pensas:de.jI"no, no estou grvida. Nem tinha a certeza se quere&-'", ~',te porm, pela primeira vez na vida, sentia dvi                     
o que escolhera.
- Penso que seria                            queres. E Brad o que que pensa?
- No fao ideia. Naturalmetite,".dizfa queestava doida, e era capaz de ter razo. Mostrei-me sempre to gura de que no queria filhos. Sobretudo porque no queria 
ser igual  minha me.
- Nunca o podias ser, Pelo menos isso, espero que saibas. Vocs so duas pessoas totalmente diferentes,
- Graas a Deus!
- Ou talvez deva antes dizer que uma de vocs  uma pessoa, e a outra um fenmeno.   - Nunca compreendera as situaes que Pilar lhe descrevera ao longo dos anos. 
Mas num-ponto tinha de concordar com a amiga: os pais desta nunca deviam ter tido filhos. - Foi a nica coisa que te inibiu? o teu receio de seres igual a eles?
- Em parte era isso, mas no s. Foi tudo uma questo de no sentir necessidade, Mas tambm nunca senti necessidade de casar, e agora lamento no t-lo feito mais 
cedo.
- Esse tipo de remorsos  uma perda de tempo. Agora s tens de aproveitar, no estragues nada a olhar para trs,
- No, no o fao. Mas no sei o que est a acontecer-me... Sinto~me como se de repente estivesse a mudar.
- E isso no  nada mau. Seria muito pior se permanecesses inflexvel e imutvel. Talvez seja a melhor coisa que podia acontecer-te, Pilar. Talvez devesses ter um 
beb.
- Mas se depois no gostar? Se for unicamente porque tenho ci~ mes de Nancy, ou outra loucura qualquer? E se a minha me tiver razo

0 PREO DA VENTURA                           81
e o beb nascer com trs cabeas por ser to velha? - Eram tantas as perguntas para as quais a prpria Marina no tinha resposta.
- E se houvesse vida humana em Vnus? Tu no podes saber tudo, Pilar. S podes seguir o teu corao e a tua cabea, e fazeres o melhor que te for possvel. E se 
reconheces que queres ter agora um beb, pe de lado uma srie de pensamentos tenebrosos, e no te preocupes demasiado com o resultado. Por amor de Deus, se toda 
a gente se preocupasse tanto, ningum teria filhos.
- Mas olha o teu exemplo. Se tu no s infeliz por no ter filhos, talvez eu tambm no devesse ser.
- Isso  um disparate, bem sabes. Somos duas pessoas diferentes. As nossas experincias de vida nunca foram um instante sequer as mesmas. A minha vida tem sido preenchida 
com crianas durante sessenta anos, tu no tiveste nenhuma a no ser os midos de Brad, e estes deram gua pela barba quando lhes apareceste. Alm disso, tu casaste 
e eu no. E tambm estou contente por isso. Deixa-me tempo livre para disfrutar de uma variedade de pessoas, seja qual for a minha escolha, e esse  um estilo de 
vida que condiz com a minha personalidade. Tu s feliz casada com Brad, e talvez um dia lamentes no ter filhos.
Pilar continuou sentada em silncio durante um bom bocado, os olhos fitos na areia, depois tomou a ergu-los para a amiga, confortada com as palavras mas permanecendo 
sem resposta.
- Mina, o que farias no meu lugar?
- Descontraa-me, para j. Isso fazia-te viver num mar de rosas. Em seguida ia para casa e falava disso tudo com Brad, mas sem fazer um cavalo de batalha. Ele tambm 
no vai encontrar todas as respos~ tas. Ningum iria, nem tu mesma. Em certa medida, uma pessoa deve correr uns quantos riscos na vida. Tens de proteger~te o mais 
que puderes, mas, ainda assim, no te livras da necessidade de, mais cedo ou mais tarde, saltar do trampolim. E espero que no caias de barriga no vazio.
- A sua eloquncia deslumbra-me, mertssima!
- Obrigada. - a mulher mais velha riu-se, virando-se de novo para Pilar: - E, sem qualquer garantia, se fosse a ti, atirava-me de cabea e tinha um beb, e que fosse 
para o diabo todo esse disparate de ser velha. Parece-me que  o que realmente queres, e tens medo de confess-lo a ti prpria.

82                           DANIELLE STEEL
- Penso que s capaz de ter razo. - Geralmente tinha, mas Pilar no fazia ideia do que diria Brad se ela lhe contasse que queria um beb. Todavia, pela primeira 
vez na vida sentia um vazio, um sofrimento que nunca conhecera antes, e isso comeava a torn-la atrozmente infeliz.
Devagar, dirgiram-se para o carro, falando pouqussimo durante o caminho para casa. Para Pilar, era uma das coisas que lhe agradavam na sua companhia. No sentia 
que tivesse de fazer um esforo enorme, e prezava o que a amiga lhe dissera. S precisava de tempo para pensar.
- Coragem, mida. Acabars por saber o que queres. Limita-te a ouvir-te a ti mesma. No teu ntimo, vais descobrir o que queres. No te enganars, se o seguires  
risca.
- obrigada. - Abraou ternamente Marina, acenando-lhe enquanto esta se afastava com o carro. Era incrvel como ela estava sempre disposta a ouvi-Ia. E, ao dirigir-se 
lentamente Para casa, Pilar sorria.
Brad estava em casa quando ela chegou, arrumava os tacos do golfe, muito queimado do sol e descontrado, com um ar feliz quando a viu.
- Onde estiveste? Pensava que Nancy vinha c hoje. - Ps um brao em redor de Pilar e beijou-a enquanto se dirigiam para o terrao.
- E veio. Veio almoar comigo. Agora fui s dar uma volta pela praia com Marna, depois dela sair.
- Oh, oh! - exclamou ele, olhando para a mulher que conhecia to bem. - Isso significa problemas.
- 0 que queres dizer com isso? - ela riu-se e ele puxou-a para o colo, e Pilar ficou sentada sobre os seus joelhos, feliz pela primeira vez nas ltimas horas. Tinha 
uma verdadeira paixo por Brad, e era bvio que este tambm a adorava.
- Nunca ds passeios na praia excepto quando alguma coisa te est a moer. A ltima vez que o fizeste, estavas a tentar resolver se ias ou no aceitar um novo scio; 
antes disso, foi para decidir se desistias ou no de um caso que te parecia envolver fraude, e antes, creio que foi para pensar se casavas comigo ou no. Esse foi 
um ptimo passeio.
- Ela riu~se, embora no pudesse dizer que o marido andava longe da verdade. Estava certo em todos os seus clculos. - Ento e hoje qual foi o motivo do passeio? 
Nancy aborreceu-te? - T-lo-ia contudo sur-

0 PREO DA VENTURA                           83
preendido, era um captulo j encerrado h tantos anos, e sobretudo agora que as duas mulheres eram to boas amigas. - Ou  alguma coisa grave no escritrio? - Pilar 
acabara justamente de ganhar uma importante aco civil em Los Angeles, o que muito o orgulhava, mas tambm reconhecia como o trabalho dela era exigente e quantas 
decises dificeis tinha de tomar, muitas vezes de um dia para o outro. Gostava de ajud-la sempre que possvel, mas havia circunstncias em que nem ele prprio lhe 
era muito til. Tinha de ser ela a tomar as suas prprias decises.
- No, nada disso, est tudo bem. E hoje Nancy foi adorvel. Adorvel e dolorosa. Abrira uma parte do corao de Pilar de cuja existncia ela nem suspeitava. Suspeitara 
uma vez ou outra no ltimo ano, mas dizia para si mesma que eram simples murmrios sem importncia. Agora no estava to segura, e no sabia como diz-lo a Brad. 
Este pensaria que estava louca. Mas Marina tinha razo. Devia contar~lhe. No sei... so assuntos de mulheres, queria pr umas coisas em ordem, por isso fui at 
 praia com Marina, que disse uma srie de coisas acertadas, como  costume.
- E disse o qu? - perguntou delicadamente, desejando tambm ajud-la. Respeitava muito a amiga, mas Pilar era a sua mulher e queria que ela contasse com ele.
- Sinto-me to idiota - disse vagamente.
Quando Brad a olhou de relance, viu-a com lgrimas nos olhos, o que o surpreendeu. Era to raro ela chorar. Poucas vezes a tinha visto perder o controlo, mas de 
repente percebeu que estava profundamente perturbada.
- Parece coisa grave, para um sbado  tarde. No seria melhor eu voltar contigo  praia? - Dizia-o quase com convico.
- Talvez - ela sorriu, limpando as lgrimas enquanto ele a puxava para si.
0 que est a incomodar-te, amorzinho? Gostava que me dissesses.    Sabia que devia ser importante, para ela ter chamado Marina. Se te contasse, no ias acreditar. 
Faz-me sentir to idiota.
Deixa-me tentar. oio todos os dias um chorrilho de idiotices, j estou habituado, tenho as costas largas.
Ela aninhou-se contra ele, as pernas estendidas nas dele, o rosto encostado ao seu, a voz quase inaudvel:

84
DANIELLE STEEL
- No sei... Julgo que ver a Nancy tocou um nervo que nem sabia que tinha... algo em que tenho pensado de vez em quando neste ltimo ano.... em que nunca tinha pensado 
antes, ou pelo menos a que desse importncia, ou que soubesse que me era necessrio. Mas Nancy perguntou-me se eu no pensava que podia vir a lamentar o facto de 
no ter filhos. - E comeou a chorar diante do olhar estupefacto do marido. Era inacreditvel de mais para ele. - Estive sempre to segura de que no queria crianas. 
Mas j no tenho a certeza. De repente, dei comigo a pensar nisso. E se ela tiver razo, e eu um dia me arrepender? E se for a grande mgoa da minha vida quando 
envelhecer? Como  se...
- era-lhe insuportvel falar nisso, mas reconhecia que tinha de o fazer
- imagina se te acontece alguma coisa, e... no tiver um filho teu? Continuava a chorar e ele s podia abanar a cabea. Deixara-o atordoado. Estava preparado para 
tudo menos isso. Pilar era a ltima pessoa que podia imaginar suspirando por um filho.
- Ests a falar a srio? Ests realmente preocupada com essas coisas? - No podia crer.
- Acho que sim. Essa  a parte terrvel. Como  se de repente resolver que quero ter filhos? - Parecia apavorada e ele teve de fazer um tremendo esforo para no 
rir.
- Podes Precisar de chamar os bombeiros se tal acontecer, para me ressuscitarem. Pilar, ests realmente a falar a srio? Ests a pensar em ter filhos, agora? - Depois 
daqueles anos todos? Ele j no pensava em mais crianas havia mais de vinte anos, e Pilar fora sempre to clara nos seus desejos.
- Achas que sou demasiado velha? - inquiriu, amuada, mas ele riu-se.
- Tu, no. Mas eu, de certeza que sou. Tenho 62 anos, vou ser av dentro de semanas. Imagina como ia parecer ridculo. - A ideia deixava-o simplesmente atarantado.
- No ias nada. H uma quantidade de homens da tua idade que hoje refazem a sua famlia, alguns bem mais velhos que tu.
- E eu j envelheci mais s neste instante - atalhou, mas, ao olh-Ia, percebeu que ela estava a atravessar uma espcie de crise. - Pilar, h quanto tempo andas 
a pensar nisso?
- No sei bem - respondeu honestamente. - Talvez me viesse  ideia pela primeira vez depois de nos casarmos. Ento conclu que

0 PREO DA VENTURA                           85
era uma aberrao, depois apareceram-me aquelas pessoas, com o caso da me hospedeira. Fiquei a pensar como eram estranhos, na sua obsesso de terem um beb que 
nem sequer conheciam; mas o pior de tudo era que uma parte de mim entendia-os. No sei, talvez estivesse afinal a ficar velha, e um pouco excntrica. Julgo que me 
abalou um bocado o facto de Nancy estar grvida. Ela sempre pareceu to agarotada, e agora vejo-a to realizada e independente. Como se finalmente tivesse descoberto 
a verdadeira razo de ser da sua vida. E se eu tivesse andado longe da razo todos estes anos? E se o facto de ser uma boa advogada e uma pessoa decente, uma boa 
esposa e uma boa madrasta no fosse o suficiente? E se fosse unicamente porque existiam os teus filhos?
- Meu Deus! - Ele suspirou, longa e profundamente. Via a mulher num tal estado, e no entanto no podia deixar de lhe dar razo. Mas era tarde para pensarem em ter 
filhos. - Quem me dera que tivesses pensado nisso um pouco mais cedo!
A, ela olhou-o seriamente, e foi com o corao nos olhos que lhe perguntou:
- Se eu resolvesse que no podia viver sem o meu proprio filho, tu querias? - Custou-lhe todas as suas foras pr~lhe essa questo, mas precisava de saber. Precisava 
de conhecer a posio dele, e se era uma opo. E se a resposta fosse <no", Pilar sabia que teria de viver com ela. Amava-o mais do que a qualquer filho, mas no 
entanto comeava a pensar que podia perfeitamente querer um filho dele.
- No sei - respondeu Brad sinceramente. - Passou-se muito tempo sem pensar nisso. Teria de reflectir melhor.
Ela sorriu-lhe, aliviada por no ouvir um "no". Existia uma possibilidade, e ambos precisavam de pensar bastante; na responsabilidade, no fardo, nas mudanas que 
isso traria as suas vidas. Mas Pilar comeava a pensar que valia a pena.
-  bom que penses depressa! - Ria-se, mas o marido estava com um ar deplorvel.
- Porqu?
-   Porque estou a ficar mais velha neste instante.
-   Tu... seu monstro! - Beijou-a inesperadamente nos lbios, depois com ardor, com uma profunda ternura, os dois  beira da excitao, sentados ao sol no terrao. 
- Eu sabia que alguma coisa de

86                          DANIELLE STEEL
medonho me esperava se te forasse a casar comigo - resmungou, e ela riu-se. - Quem me dera ter sabido disso h treze anos. Obrigava~te a casar comigo e ento podias 
ter pelo menos uma dzia de filhos.
- Deixa-me ver - ela sentou-se no colo dele, olhando-o pensativa -, se comearmos agora... ora eu tenho 43... talvez ainda possamos tentar uns seis ou sete...
- Pouco adianta... seria um milagre se eu sobrevivesse a um... mas quero que entendas, ainda no disse que concordava, preciso de pensar.
Ela fingia-se cordata quando se ps de p e o puxou pela mo.
- Tenho uma ptima ideia para uma coisa que podias fazer enquanto estiveres a pensar, Brad... vem... - Este ria-se e ela arrastava~o lentamente para o quarto. Mas 
ele era uma presa fcil para ela, sempre o fora, como ela para ele. E sentia o coraao mais leve enquanto ele a beijava e se deixava conduzir para a cama.

CAPITULO 5
Diana sentou~se na marquesa depois de o mdico a ter examinado. Fora ao seu ginecologista para fazer o cbeck-up anual e a colheita citolgica.
- Parece estar tudo bem - declarou este com um sorriso amvel. Era um homem bastante jovem, que Jack lhe havia recomendado dois anos atrs, uma vez que seria embaraoso 
ser o prprio cunhado a observ-la. Mas Jack considerava Arthur Jones um mdico excelente.
- Algumas queixas? Corrimento, sensao de peso, dores esquisitas, fluxo anormal? - perguntou, concludo o exame, mas Diana abanou a cabea com um ar infeliz. Tornara 
a aparecer-lhe o perodo na semana anterior, e por isso sabia mais uma vez que no estava grvida.
- A minha nica queixa  que andamos h onze meses a tentar engravidar e at agora no aconteceu nada.
- Talvez estejam a forar de mais - observou o mdico, fazendo eco do que as irms lhe diziam. Todas as pessoas ao corrente bombardeavam-na com comentrios estpidos, 
do estilo nopensem nisso, esto a forar de mais, esqueam e pronto, ou parem de cismar, no sabendo nada, contudo, da angstia, da amargura, da decepo que representava, 
em cada ms, que no conseguira nada. Tinha 28 anos, estava casada havia quase um ano, tinha um marido que amava, um erfiprego que a satisfazia, e agora queria um 
filho.
- Um ano no  propriamente muito tempo - quis ele tranquiliz-la.

88
- Para mim
areceriso melanclico.
- E o seu maridcL> este tinha alguma
vezes os homens c blemas no passado, tivas.
j
- Ele passa o t~
acontecer mais cedo ou tof..
- E capaz de ter w9.', lho dele? - Este
dos, ou toxinas que
-  advogado 4em e o mdico pareceu
- E a senhora nh4",1 a cabea. - Tm os
W ter alguma influncia. -       - - 1 no so uma demora-    =     -    -
fim de um ano, nw.h-
S frias, um deste d!a&' Diana s
- Vamos        urq pa de combinar, TaW
11 _J
- d n- -  '. 1 1 viu~lhe a anseda
- Vamos fazer 0_. -          1 1 , 1 1 grvida, podemos
umas anlises, Ou
homem, norneadriie .             --fiana. E uma pessOa-~ ticulosa. Cha" atenta e me
cunhado o conhece.  ltn  de facto do assunto, e- n','~ necessrios.
- Gostava realmente        . de. esperana. Talvez engravidasSe:existia pelo menos uma
Agradeceu ao mdico as sua.-,
coa, um sor~ ela
_w~u ssivelmente o
P desconhecia. Por ram proque tive
L"_           Ser significapodem
- Cocupar-rios, que
Qual  o trabaqumicos envolvi-0.
'2Iect
Ela disse-lhe qual,
sentiu com Diana as
ntes, que podem _ ,         que onze meses '; __,.1, . ' 1
- 1.   -atinge a gravidez ao tjnpo, Que tal umas ,,.que esto a precisar.
Acabmos exactamente z'
OT esperanosa, e ele
vir que no est M
Posso fazer-lhe preferir. H um vtin a maior con~
1 - "
4,*         tambm muito WZ
,  .6` creio que o seu Ils, mas percebe de exames des-
com renovada
., , ;'  1 no acontecesse recorrer. encoraamento, vol-

0 PREO DA VENTURA                           89
tou ao escritrio e, nessa noite, quis contar tudo a Andy. Falou-lhe no especialista, disse que fazia tenes de perguntar a Jack o que pensava dele, mas Andy surpreendeu-a 
quando a interrompeu intempestivamente. Estava assoberbado de trabalho, tivera um dia terrivel no escritrio, comeava a ficar farto das presses dela para fazerem 
amor num determinado dia, a determinadas horas, e depois acabar histrica quando lhe aparecia o perodo e descobria que no tinha engravidado. Eram ambos saudveis 
e jovens, filhos de famlias numerosas, e para ele era bvio que aconteceria eventualmente, e que teriam uma ninhada de filhos. Mas no era a atorment-lo com a 
sua insistncia nem a chorar a todo o momento que a situao se resolveria.
- Por amor de Deus, Di, deixa-me respirar! Que raio de necessidade temos ns de um especialista, s precisamos de sair daqui por uns tempos para descansar. Pra 
de pressionar!
- Desculpa... - Tinha lgrimas nos olhos quando os desviou dele. Andy no percebia como estava apreensiva, o seu receio de que existisse de facto algum problema. 
- S pensei... pensei que o especialista podia ajudar... - e saiu da sala a chorar, e ele foi ter com ela minutos depois.
- Pronto, querida... desculpa. No vs que estou tremendamente cansado e tenso. Tenho tido um monte de problemas no trabalho nestas ltimas semanas. Teremos um beb, 
no te apoquentes. - Em certos momentos, porm, a sua persistncia aborrecia-o. Era to grande a sua obstinao em ter um filho! Por vezes, Andy tinha a sensao 
de que era esse o seu nico objectivo, ou de que apenas queria competir com as irms.
- 0 mdico pensa que talvez umas frias... - arriscou, como quem deseja redimir-se, sem querer aborrec~lo. E Andy, com um suspiro, apertou~a nos braos.
- o mdico tem razo.  dumas frias que estamos a precisar. Entretanto, promete-me que por uns tempos no vais cismar nisso. Aposto que ele tambm te disse que 
no era anormal o facto de no acontecer nada at agora.
Ela sorriu, envergonhada, acenando com a cabea:
- Sim, disse.
- Ento tudo bem - rematou Andy com firmeza, e beijou-a.
E quando foram para a cama nessa noite, Diana parecia um pouco

90                           DANIELLE STEEL
mais calma. Talvez os outros tivessem razo. Talvez fosse idiota em preocupar-Se.
inclinou-se sobre Andy para dar-lhe um beijo de boas-noites, mas ele j tinha adormecido, ressonando de leve. Ficou a observ-lo uns instantes, e por fim deitou-se. 
Era espantoso como o desejo de um beb a fazia sentir-se por vezes to solitria. Como se ningum fosse capaz de entender a que ponto era lancinante esse desejo, 
quo avassaladora a necessidade, nem mesmo o prprio Andy.
A viagem  Europa foi esplndida. Estiveram em Paris e no Sul de Frana, depois deram um salto a Londres para ver o irmo de Andy. E, segundo os clculos mais rigorosos 
que Diana conseguia fazer, se engravidara, s podia ter sido no Hotel de Paris, em Monte Carlo. Com dias seguidos de magnficos cus azuis e um hotel divinal, Andy 
dizia que era impossvel existir outro local mais propcio para fazer um beb.
Tambm gostaram de rever Nck em Londres, e o resto da viagem foi calma e divertida - justamente aquilo de que o jovem casal estava a precisar. Nenhum dos dois se 
tinha apercebido de como andavam ten~ sos e exaustos antes de se libertarem das presses de Los Angeles e redescobrirem a maravilha que era passar o tempo juntos 
e descansar. Calcorrearam restaurantes, museus, igrejas; espojaram-se na praia, e at passaram um fim de semana a pescar na Esccia com Nick e a namorada. Quando 
regressaram a Los Angeles, sentiam-se como novos. ,
Andy saiu de casa para o seu primeiro dia de trabalho com um sorriso nos lbios, e Diana inventou uma desculpa para ter mais um dia livre poder desfazer as malas 
e arranjar o cabelo. De qualquer modo era sexta-feira, por isso pensou que se a revista tinha sobrevivido sem ela todo aquele tempo, tambm podia esperar at segunda-feira 
de manh. No estava particularmente ansiosa por regressar  histeria das publicaes e tentou convencer Andy a ficar tambm em casa, mas este tinha mesmo de ir, 
embora lamentasse. j os compensava a perspectiva do fim de semana.
No sbado de manh, Andy foi jogar tnis com Bill Bennington, encantado por poder relaxar e falar da viagem. Os dois tinham estudado Direito juntos na Universidade 
em Los Angeles e Andy conseguira-lhe um lugar na sua empresa. Eram bons amigos e Bill era uma daque-

0 PREO DA VIENTURA                          91
Ias pessoas com quem se tomava por vezes reconfortante Conversar. Alis, ele estivera no casamento deles.
- Como est o Nick? - quis saber BilI, quando pararam para beber qualquer coisa fresca no final do jogo.
- ptimo. Anda com uma rapariga muito interessante. Passmos um fim de semana com eles, na Esccia a pescar. - Bill tambm tinha um irmo mais novo, da mesma idade 
dos gmeos. Havia entre os dois uma srie de coisas em comum. - Gostmos bastante dela. - Era inglesa, bonita, com humor, e Diana achava que Nick estava seriamente 
envolvido, mais do que quisera mostrar ao irmo.
- Eu tambm ando com uma rapariga muito interessante - con~ fessou subitamente BilI, um tanto envergonhado, quando se sentou para beber.
- Ests a dar-me alguma novidade, Bermington? - Andy mirou~o de alto a baixo, divertido e interessado -, ou  apenas a notcia do costume? - Bill passava o tempo 
a conquistar raparigas bonitas. Tinha uma inclinao muito peculiar por modelos e starlets. Ele prprio era um homem atraente, mas parecia, na maior parte dos casos, 
preferir variar a envolver-se em qualquer tipo de ligao mais sria.
- Ainda no sei bem. No entanto, ela  espantosamente bonita. Quero apresentar-ta.
- 0 que  que ela faz, ou isso  redundante? - Andy ria, divertido com o ar agarotado de excitao do amigo.
- No vais acreditar:  advogada de uma rede nossa concorrente. Acabou de formar-se.  de facto uma rapariga invulgar.
- Ena, ena! - Andy tinha um prazer irresistivel em arreli-lo, mas estava contente pelo amigo. Bill Bermington era um dos seus amigos mais ntimos e uma das pessoas 
que mais estimava. - Parece ser srio!
- Nunca- se sabe. - Bermington sorriu misteriosamente, e os dois homens dirigiram-se para o parque de estacionamento do clube onde jogavam tnis. Em geral, encontravam-se 
todos os sbados, quando no tinham outros planos, e num ou dois fins de tarde da semana, se o trabalho no os retivesse no -escritrio. E das ltimas vezes, sobretudo 
antes da viagem, Bill achara_ o amigo muito tenso. Agradava-lhe ver que Andy tinha agora um aspecto bastante mais descontrado. - Como est a minha directora editorial 
preferida, a propsito? Continua a matar-se a trabalhar?

92
- At  nossa via                           tirou um dia, o que
j  um bom sinal. Parece-me, -`                relaxada e com uma viso mais optimista sobti '" -                idava trernendamente e_3U
nervosa antes de viajarmos                    k.'
- Como tu. Come                              e oso, a pensar se era algum problema de - i                          lesmente preocu pado com outras coisas.     . 
. .         1.-.1Lv.   ito feliz, no mas                       u(-) rnu
senhor.                    .1 1            ..
rj
- No sei. - Andy e%~.        '     - . " se (Ic\ a ou no falar-lhe dos problemas de Diria'.ab       - . idez. - Creio que era
--x-- ..    -
cansao. Diana tinha oN nervaqli  Giliffig, u - >S <Ia viagem e parece-me que me pegou a dc)en2.
- Nada de grave, espero.              j0,, -
- No... no propna~                      ansiosa por ter uma criana, mas creio que a sua                    prematura.
- Vocs mal se a~Mwo~ ~ 1foi? Isso comeou h quanto tempo? - Parecia surp~-fi~~. -" j a pensar em filhos. -Faz hoje um ano que iios"s~,r A-ndy,sorriu-lhe. -Parece 
incrvel, no ?            : _ 1'_2   1 -1
- Deus, no posso crer. BomiffioAdes      a ter midos cedo de mais. Nunca mais querias jogar tnis comigo. Tinhas de correr para casa, para ajudar a Di a mudar 
as fraldas.-' ---, -, - ,
- Por enquanto,  uma ideia..-. Talvez a convena a esquec-la por mais um ano.
- E no o fazes porqu? Assina, talvek pudssemos estar os dois a empurrar baloios daqui a um par de anos.
- Que perspectiva! - Andy olhava para o amigo com um sorriso forado quando pararam junto do Porsche dourado de BilI, -  dificil. imaginar tudo isso, no ? Ainda 
me lembro do meu pai a carregar os gmeos, um em cada ombro. De certa maneira, ainda no me sinto preparado para isso. Mas Diana sim. Est de facto ansiosa por esse 
dia. No queria confessar que tinham passado um ano inteiro a lutar por isso, sem acontecer nada.
- Bem, no estejam muito apressados, meu velho, os filhos so para sempre.
- Vou contar  Diana que disseste isso.
Acenou a Bill quando este se afastava com o carro e durante todo

0 PREO DA VEN~                              93
o caminho at casa pensava para consigo quanto tempo iria durar a nova namorada do amigo. Diana estava de bom humor quando chegou; foi encontr-la a fazer umas batidas 
de golfe no jardim e ela sorriu-lhe quando o viu aproximar~se, bonita e elegante nos seus cales brancos de tnis, e ele dobrou-se para beij~la.
- Feliz aniversrio, Mrs. Douglas. - Havia uma caxa da Tiffany escondida no bolso dos cales dele, e dentro desta um anel de ouro com uma pequena safira; era um 
anel muito bonito, o tipo de objecto que sabia que Diana iria usar constantemente. Esta ergueu os olhos para ele, estremeceu e beijou-o.
-  lindo!
- Ainda bem. - Ele parecia contente. - julgo que no primeiro aniversrio costuma ser uma coisa de plstico, papel, ou barro, uma coisa grande como... Bom, calculei 
que no te importavas por me ter antecipado alguns anos.
- Desta vez, ests perdoado... mas na prxima quero a coisa autntica, sei l, alumnio ou cobre. - Diana sorria-lhe, com um ptimo aspecto, bronzeada e descontrada 
no seu jardim.
- Querida, tu mereces! - Arrebatou-a e foram para dentro, e ela deu-lhe o seu presente. Tinha comprado um elegante conjunto de malas de viagem em couro. Andy passara 
o ano a cob-lo, ficando estupefacto quando desfez o embrulho. Os dois eram generosos nos seus presentes, no s nas datas especiais como ao longo de todo o ano. 
Andy tinha um prazer imenso em comprar-lhe pequenas coisas sem nenhuma razo especial, ou chegar a casa com um enorme ramo de flores para a mulher. E ela fazia o 
mesmo; ganhavam bem e podiam dar-se ao luxo de se estragarem mutuamente com pequenos mimos.
E por isso, Andy tinha reservado uma mesa em nome dos dois no L'Orangerie para aquela noite, um local extravagante mas que certamente iria recordar-lhes a sua viagem 
pela Europa. Tinham comido em restaurantes fabulosos, conheceram lugares lindssimos, de forma que pensava que seria engraado rodearem-se de um certo espavento 
no seu aniversrio.
Diana estreou nessa noite um vestido novo para sair. De seda branca, muito decotado, que ela havia comprado em Londres e reservado para aquela ocasio muito especial.
- Pensei que, de certo modo, devia vestir-me outra vez de branco

94                          DANIELLE STEEL
- gracejou quando o marido a viu com ele vestido pela primeira vez nessa noite,
- Espero que no signifique que ainda te sentes virgem.
- Seria difcil. - Ela riu-se. E saram de casa cedo porque queriam passar pela inaugurao da ltima exposio de Seamus nas Adamson~Duvannes Galleries. Diana tinha 
prometido  irm dar ali um salto no caminho para o jantar. Estavam os dois elegantssimos e bronzeados quando entraram no carro de Andy, que se inclinou para beij-la.
- Ests absolutamente deslumbrante! - exclamou embevecido, e ela riu-se.
- Tu tambm. - Diana ainda ostentava a plenitude que adquirira na viagem e Andy, sem lhe dizer nada, pensou de repente se no estaria grvida.
Trazia o anel novo e no caminho para a galeria Andy atazanava-a em ar de brincadeira, dizendo~lhe que precisavam de fazer outra viagem para ele poder estrear as 
malas. Fora um dia ameno e tinham passado a tarde na cama, a fazer amor, antes de se vestirem para o jantar. At quele momento o aniversrio estava a ser perfeito. 
Quando se dirigiam para as Adamson-Duvannes, Andy resolveu contar-lhe a histria da nova namorada de Bill.
- Uma advogada? - Diana mostrou-se espantada, depois sorriu, pensando no amigo. - Bom, isso no vai durar mais que dez minutos.
- Olha que no sei. - Andy abanava a cabea, lembrando-se de
tudo o que Bill lhe contara. - Ele pareceu-me bastante entusiasmado.
- Parece sempre, at a prxima lhe bater  porta. Ele tem a mesma capacidade de concentrao do meu sobrinho de trs anos.
- Ora, v l Di, faz justia, o Bill  uma jia de um tipo! - Mas no podia negar que havia uma certa dose de verdade naquilo que ela dizia. E Diana ria-se, forando 
Andy a concordar.
- Nunca disse o contrrio. S pretendo insinuar que ele  incapaz de se fixar numa coisa ou numa pessoa durante mais de cinco minutos.
-  Talvez desta vez seja diferente - aventou Andy, e entretanto virara para um parque de estacionamento no San Vicente Boulevard, mesmo por trs da galeria. Ajudou 
Diana a sair do carro e seguiu-a at  galeria; deram imediatamente com Seamus embrenhado numa acalo-

0 PREO DA VENTURA                            95
rada conversa com um homem asitico todo vestido de negro, mesmo  porta da entrada.
- Meu Deus... vejam como ela vem... uma estrela de cinema, chegadinha da Europa! - exclamou para a cunhada, e apresentou~os a um artista japons muito conhecido. 
- Estvamos a discutir o potencial irripacte da arte na actual decadente e comatosa cultura. As nossas concluses no so exactamente das mais optimistas - devaneava 
Seamus, irreverente, e como de costume cheio de energia. Adorava gracejar, com as pessoas, com as palavras, com os quadros, com as ideias, com tudo aquilo em que 
pudesse pousar o esprito ou as mos. - Viste a Sam?
- perguntou a Diana, e entretanto arrastava Andy para o bar, apontando  cunhada onde se encontrava a irm. Sam estava no meio de um grupo de mulheres, em frente 
de um quadro enorme na parede do fundo, com os dois filhos agarrados s pernas e debatendo-se furiosamente, embora a me parecesse no dar por nada,  conversa com 
as mulheres.
- Ol - disse Diana calmamente, ao aproximar-se.
- Ena, olha s como tu ests! - exclamou Sam, encantada. Esta sempre achara que Diana era a mais bonita das trs irms. A mais interessante e a mais culta... provavelmente 
a mais inteligente. Parecia tudo o que faltava s outras, pelo menos no que tocava a Sam, mas Diana protestaria invariavelmente se Sam lho fosse dizer. E se o fizesse 
trataria imediatamente de lhe lembrar a vantagem dos seus dois filhos. Ests com um aspecto magnfico. E a Europa, que tal?
- Bastante bom. Divertimo-nos imenso. - Sam apresentou 'Diana s amigas, as quais se foram aos poucos afastando, para procurarem os homens ou as mulheres com quem 
tinham vindo. E ento, olhando seriamente para Diana, Sam baixou a voz para lhe perguntar.
- Ento... ficaste grvida na viagem? - fez um ar muito srio e interessado, mas, por instantes, olhando-a de repente, Diana odiou-a por falar nisso.
-  s nisso que todos pensam? Ser que nunca tm outro assunto? De cada vez que vejo Gay[Q,,-pergunta-me exactamente a mesma coisa. Meu Deus, vocs nunca tm mais 
nada em que pensar?
- 0 pior era que ela prpria tambm no era capaz de pensar noutra coisa. Dava a impresso de que na sua famlia uma pessoa no tinha

96                           DANIELLE STEEL
valor enquanto no ficasse grvida ou tivesse filhos. Pois bem: ela fizera o melhor que podia, que diabo! E at agora, fora simplesmente em vo.
- Desculpa! Era s uma suposio. No te vejo h que tempos, e Por isso julguei...
- Sim, eu sei... - Pelo tom de voz, Diana parecia deprimida. A inteno da irm era boa, mas passavam o tempo em cima dela. As suas perguntas eram como uma permanente 
acusao. No estava a esforar-se o suficiente? Tinham algum problema? Algum deles seria anormal? Diana tambm se interrogava sobre esse tipo de coisas, e no encontrava 
a resposta, nem para si, nem para as irms, nem para os pais.
- Presumo que isso quer dizer que no - disse Sam delicadamente, mas insistindo mais uma vez, e Diana fulminou-a com o olhar.
- Quer dizer que me deixem em paz, Sam. E tambm quer dizer
que ainda no sei. Ests satisfeita? Queres que te telefone no momento em que me aparecer o perodo, ou preferes um fax? ou talvez antes um bonito anncio no Sunset; 
assim, a me j no precisava de telefonar s amigas e dizer~lhes, at agora, nada feito com a pobre da Diana.
- Estava  beira das lgrimas descarregando toda a sua clera, e Sam sentiu pena dela. Tinha sido to fcil para elas, mas pelos vistos no estava a ser nem para 
Andy nem para Dana.
- No sejas to susceptvel, Di. Ns s queremos saber o que se passa contigo, apenas isso. Ns arnamos-te.
- Obrigada. No se passa nada. Isto satisfaz-te? - Ou, pelo menos, ainda no sabia. Mas a discusso com a irm j a tinha posto fora de si quando Seamus e Andy vieram 
ter com elas. Seamus trazia o filho aos ombros.
- Os novos quadros so magnificos - disse Andy com entusiasmo, notando imediatamente a tenso no rosto de Dana, e minutos depois saram. Ela manteve-se calada no 
caminho para o restaurante e ele no disse nada. Como de costume, as perguntas da irm tinham-na enervado profundamente,
- Algum problema? - perguntou Andy finalmente. Va-a to mais taciturna do que era habitual, e no entanto na Europa estivera sempre to bem. - A tua irm disse-te 
alguma cosa que te aborrecesse?
- 0 mesmo de sempre - respondeu secamente, - Perguntou-me se estava grvida ou no.
Ele olhou-a de soslaio, observando calmatuente:

0 PREO DA VENTURA                            97
- Diz-lhe simplesmente que se meta na sua vida. - Inclinou-se
para beij-la e Diana sorriu contrafeita. Ele era to meigo, e ela sentia-se uma idiota por deixar a irm aborrec-la.
- Detesto que mo perguntem. Porque no ho-de esperar para ver?
- Provavelmente porque te amam e fazem-no com boa inteno. Alm disso, at s capaz de estar. Eu no sei, aquela ltima noite em Monte Carlo, pelo menos para mim 
foi incrvel, que te parece? - Ela sorria enquanto ele lhe recordava aquele momento, e ento inclinou~se para o beijar no pescoo.
- Parece-me que s incrvel. Feliz aniversrio, Mr, Douglas. - Era dificil. acreditar que tivesse passado um ano desde o casamento. Ela adorava estar casada com 
ele, e fora um ano repleto para ambos. S lamentava no ter engravidado. Mas existiam outras coisas tambm importantes nas suas vidas, o trabalho, os amigos, as 
famlias; ter um beb no era o seu nico interesse. Mas no havia como negar que era importante para eles, sobretudo para Diana.
- Achas que sou estpida em interessar-me tanto... por ter um filho, no ? - perguntou meigamente a Andy quando seguiam para o L'Orangeile.
- No, s no queria que isso fosse uma obsesso. No me parece que ajude grande coisa.
-  to difcil evit~lo. Por vezes penso que toda a minha vida gira em tomo do meu ciclo.
- No deixes. Tenta esquecer-te o mais possvel. Passo a vida a dizer-te - ele sorria enquanto deixava o carro a cargo do arrumador -, s que tu no queres ouvir. 
- Beijou-a mais uma vez, abraados durante longos instantes. - No te esqueas, no entanto, de quem so as pessoas realmente importantes... tu--- e eu... o resto 
vir quando tiver que ser.
- Gostava de poder ter o teu desprendimento - invejou-o. Andy era to sensato e to calmo!
- Aposto que se fosses capaz de relaxar um pouco em relao a isso, ficavas grvida assim... - e fez um estalido com os dedos, e ela riu~se, olhando-o enquanto ele 
lhe dava'--o-brao.
- Vou tentar.
Entraram no restaurante e um cortejo de cabeas virou-se para admirar o elegante casal. Conduziram~nos a uma a mesa de canto muito

98                          DANIELLE STEEL
tranquila, conversaram sobre banalidades enquanto ele encomendava o vinho, consultaram a lista para escolher o jantar, e ela sentia-se refeita do arrufo com Sam. 
E Andy encomendou os pratos, os dois de ptimo humor.
Como primeiro prato comeram caviar com ovos mexidos, servidos em cascas de ovos com cebolinho; a seguir, lagosta e champanhe, e s depois da sobremesa, pedindo desculpa, 
Diana quis ir  casa de banho das senhoras para retocar a maquilhagem. Estava linda no seu vestido ingls, e os cabelos brilharam quando os penteou. E depois de 
pr bton nos lbios foi ao W.C. antes de voltar para a sala, e a deparou com o sinal fatdico, um fluxo vermelho-rubro de sangue anunciando~lhe que a sua noite 
de amor em Monte Carlo fora infrutfera. Ficou por momentos sem respirao ali sentada, o pequeno cubculo rodopiando  sua volta. Tentou recuperar a calma, superar 
tudo, mas quando se dirigiu ao lavatrio para lavar as mos sentia-se acabrunhada e vazia.
Estava decidida a no deixar que Andy percebesse, mas este viu-lhe qualquer coisa nos olhos quando caminhava na sua direco e, mesmo sem perguntar, sabia. Sabia 
que estava na altura dela, e soubera semanas antes que aquele fim-de-semana iria dizer-lhes se a sua misso  Europa tivera ou no sucesso. Sabia agora, olhando-a 
simplesmente, que no.
- Ms surpresas? - perguntou-lhe, cauteloso enquanto ela se sentava. Agora ele conhecia-a to bem, e isso comovia-a, mas estava dema~ siado destroada para atentar 
nos sentimentos dele. Tambm era deprimente para ele e, aos poucos, ela fazia-o sentir-se um fracasso,
- Sim, ms surpresas - respondeu desviando o olhar. Para si toda a viagem fora uma mera perda de tempo, e naquele momento era o que ela pensava de toda a sua vida. 
,
- No quer dizer nada, amor. Podemos tentar outra vez. - E outra vez... e outra vez... e sempre para nada. Porqu? E porque no desis~ tir at de tentar? Quem lhe 
garantia que no era uma idiota ao preocupar-se?
- Quero ir ao especialista - afirmou num tom sombrio quando o criado lhes servia o caf. Mas a sua noite estava estragada, pelo menos para ela. Todo o seu objectivo 
na vida se centrara naquele beb. Nada mais era importante comparado com isso, nem o emprego, nem os amigos, nem to pouco, por vezes, o prprio marido. No obstante 
as suas

0 PREO DA VENTURA                           99
afirmaes de que o beb no era a sua nica perspectiva, era-o de facto, e ambos o sabiam.
- Porque no falamos disso noutra altura? - Sugeriu Andy calInarnente. - No h nenhuma urgncia. No estamos desesperados. Afinal foi s um ano. H pessoas que 
que no vem necessidade de um especialista at aos dois anos. - Tentava tranquiliz-la, mas as lgrimas estavam prestes a rebentar-lhe e o seu nervosismo era evidente.
- No quero esperar tanto tempo - disse, tensa, sentindo cibras e abominando o que estas significavam. Abominava todos aqueles sintomas.
- Muito bem. Iremos daqui a dois meses. No temos necessidade de correrias, e deves informar-te acerca do tipo antes de o consultares.
- j me informei. o Jack diz que  um dos melhores do pas.
- Formidvel! Ento andas novamente a contar os nossos proble~
mas ao Jack. 0 que lhe disseste? Que no sou capaz de mant-lo de p, ou que tive papeira em pequeno, ou que simplesmente no funciona? - Estava furioso com ela 
por fazer um drama de tudo aquilo, e coloc-lo em cheque, e faz~lo sentir~se como se a culpa fosse sua. Para j no falar do que estava a fazer do seu aniversrio 
e da sua noite.
- S lhe falei do que me dizia respeito, e que o meu ginecologista me tinha dado aquele nome. Ele no fez nenhumas perguntas. No sejas to susceptvel! - Procurava 
acalm~lo, mas Andy estava furioso e desapontado. E, intimamente, sentia-se com se a tivesse decepcionado.
- Como no hei-de ser susceptvel, Santo Deus? Todos os meses a ver-te agir como se fosses morrer quando te aparece essa porcaria, e a olhares-me com esses olhos 
tristes como a pretender dizer que a culpa  toda minha e por que raio de azar no te acerto com uma boa. Pois bem, para dizer a verdade, no percebo porqu. Talvez 
a culpa seja minha, talvez sejas tu que ests a pr-nos loucos. Mas se isso vai aju~ dar, consulta o especialista, faz o que te der na gana, e se for preciso ir 
contigo, vou...
- 0 que queres dizer com "se forpreciso ir"? - Ela ficou magoada com as palavras dele, e era bvio para ambos que a sua noite estava estragada. - o problema no 
e so meu. Est a acontecer aos dois.
- Sim, est, graas a ti. Mas tambm te digo: podia perfeitamente no acontecer. Talvez estejas afinal a criar toda esta tenso porque s urja raio de uma histrica 
e de uma neurtica com essa tua ideia de

100                         DANIELLE STEEL
teres um beb. E sabes que mais? Estou-me borrifando se as tuas irms engravidaram no altar. Ns no, e depois? Entretanto, porque no deixas as coisas correr por 
uns tempos, para ver se podemos ter uma vida capaz, como dois seres humanos normais?
Ela chorava quando saram do restaurante e durante todo o caminho de casa no trocaram palavra. Diana trancou-se na casa de banho, demorando-se ali sentada muito 
tempo, chorando amargamente o beb que no concebia e o aniversrio que tinha soobrado. E perguntava-se se o que Andy dissera seria verdade. Estaria de facto neurtica 
com tudo aquilo? Estaria errada? Queria simplesmente competir com Gay1e e Sam? Ou era a srio? E por que razo no lhe valia de nada tentar com tanto afinco, e nunca 
conseguir ser to boa como elas?
Andy estava na cama  sua espera quando ela finalmente apareceu. Trazia vestida uma camisa de noite nova de cetim branco que ele lhe comprara em Paris.
- Desculpa - disse com doura quando ela se aproximou da cama. - Creio que tambm fiquei desapontado. No devia ter dito aquelas coisas. - Ps os braos  volta 
dela, puxando-a para si, e percebeu que tinha estado a chorar. - No tem importncia, querida. No tem importncia se nunca tivermos midos. E a ti que eu amo. Es 
tu que s importante. - Ela queria dizer-lhe que sentia o mesmo mas, na verdade, uma parte de si no o sentia. Amava-o mas queria o seu beb, e sabia que at ser 
preenchida essa necessidade haveria sempre alguma coisa a menos no seu casamento. - Amo-te, Di - murmurou~lhe, deitando-a junto de si, e apertando-a suavemente nos 
braos.
- Eu tambm te amo... Tenho sempre a sensao de que te decepcionei.
- Que grande disparate! - protestou, e ela sorriu. - No decepcionaste ningum. E provavelmente ainda vais acabar com gmeos depois de tudo isto, e fazer as tuas 
irms roerem-se de inveja.
- Amo~te. - Ela tornou a sorrir, e sentia o corao mais leve. Tinha pena de ter arruinado a sua noite.
- Feliz aniversrio, querida.
- Feliz aniversrio - murmurou ela. Andy apagou a luz e reteve-a nos braos durante muito tempo, pensando no seu futuro e no que seria dela se nunca tivessem um 
filho.

0 PREO DA VENTURA                           101              !
Bradford e Pilar passaram a noite do seu aniversrio de casamento
i
efn casa. Tinham planeado ir ao El Encanto, mas Tommy telefonara~lhes
precisamente quando iam a sair para os informar de que Nancy tinha entrado em trabalho de parto. Falaram com ela alguns minutos, e Pilar
disse~lhe que iam ficar em casa  espera de notcias. Brad, porm, pare-              i cia desapontado quando desligaram.
- Porque lhe disseste isso? Pode demorar horas. At  possvel que o beb no nasa antes do amanhecer.
- Ora, querido! Podemos sair amanh  noite.  o nosso primeiro                   j neto, e devemos estar aqui, para o caso de precisarem de ns.
1,
- A coisa de que uma mulher menos precisa quando lhe nasce o
primeiro filho  do pai.
- Mas acho que devemos ficar. E se surgir algum problema?
- De acordo, de acordo... ficamos em casa. - Desfez o n da gravata, olhando-a desconsolado, grato pela sua constante ateno para com os filhos dele, ao longo de 
tantos anos.
Tinham sorte em t-la como madrasta, e Brad regozijava por sabe-                  1 rem finalmente reconhec-lo.
Pilar foi para a cozinha preparar-lhe o jantar, e comeram um prato de massa  italiana e beberam vinho, sentados ao luar no terrao.
- Pensando bem - observava ele, sorrindo-lhe -, aqui  capaz de ser melhor que no El Encanto. Mais romntico , de certeza. Tenho-te dito nestes ltimos tempos o 
quanto te amo? - Ele ficava com um ar atraente e jovem  luz do luar, e ela estava lindssima com um vestido de seda do mesmo azul suave dos olhos.
- Nas ltimas duas horas, no. Comeava a ficar preocupada. Continuaram no terrao depois de ela levantar a mesa. Brad contava-lhe como estava nervoso quando Nancy 
nascera. Tinha 35 anos, o que naqueles tempos no podia ser considerado propriamente jovem para comear a ser pai, mas sentira-se aterrorizado como UM garoto, a 
andar de um lado para o outro da sala do hospital,  espera do seu beb. No caso de Todd, dizia, j se comportara como um veterano na matria, e distribura charutos 
por- toda a gente da cidade; estava to orgulhoso! Confessou-lhe ento que tinha comprado alguns charutos
uns dias antes e ia fazer exactamente o mesmo quando o beb de                        'os, r Nancy nascesse.
Pilar sentia-se feliz por eles ao meditar sobre tudo aquilo, sabia                i :

102                          DANIELLE STEEL
COMO estavam excitados e desejava que tudo corresse bem. Foi com um sobressalto que ambos ouviram o telefone tocar, pouco depois das dez e meia. Ainda estavam no 
terrao e Pilar foi atender. Era Tommy, e depois Nancy, cujas vozes transbordavam de felicidade, de excitao. Tinham tido um rapaz, com trs quilos e oitocentos 
de peso.
- E s demorou trs horas e meia - anunciava Tommy orgulhosamente, como se Nancy acabasse de realizar uma proeza que mais ningum tinha conseguido.
-  parecido com quem? Comigo, espero! - gracejou Pilar, e eles riram-se.
- Por acaso - dizia Nancy, parecendo imensamente satisfeita  parecido com o Pap.
- Graas a Deus! - interps-se na linha a voz de Brad, que entretanto tinha ido atender na extenso do quarto. - Deve ser um tipo lindo.
- E  - confirmou Tommy, vaidoso.
Brad quis saber se tinha corrido tudo bem e eles responderam que fora perfeito, que Nancy no tivera qualquer anestesia, tinha tido o beb naturalmente e Tommy ajudara-a. 
Minutos depois desligavam, e Brad levava Pilar outra vez para o terrao, com um sorriso de orgulho. Tinha um neto.
- As coisas tm mudado realmente - murmurava, enquanto se sentavam. -,Se algum me pedisse para estar l quando os meus filhos nasceram, provavelmente teria desmaiado.
- Eu tambm. - Pilar sorriu. - Essa parte nunca me atraiu particulannente. Mas eles pareciam to felizes, no ? Como uns garotos, todos excitados, e orgulhosos, 
e satisfeitos. - Sentiu os olhos inundarem-se-lhe de lgrimas enquanto    falava. Era uma sensao que nunca experimentara, e provavelmente    jamais experimentaria. 
E de repente, erguendo os olhos para ele com um sorriso: - Engraado. No pareces nada um av - gracejou.
-  bom ouvir isso! Queres um charuto?
- Parece~me que dispenso. - Mas sabia muito bem o que no dispensaria, ali sentada, os olhos fitos na escurido do mar.
- Estavas a pensar em qu? - Brad reparou na expresso do seu olhar, e comoveu-se. Havia nos seus olhos um misto de solido e amargura que nunca lhes vira antes. 
Mas estavam ali naquele instante, unia

0 PREO DA VENTURA                            103
inegvel avalanche de sentimentos. Sentimentos de tal modo profundos que nem com ele Pilar ousava trazer  tona.
- No estava a pensar em nada - mentiu.
- No  verdade. Pensavas nalguma coisa importante. Nunca te vi assim, Pilar. Diz~me o que era... - A sua expresso era idntica  da noite em que concordara casar 
com ele, bem como a uma ou outra que lhe surpreendera em anos anteriores. Prendeu-lhe as mos nas suas, aproximando-se mais dela. - Pilar... o que ? - Ficou alarmado 
ao ver que estava a chorar quando se virou para ele. Havia rios de lgrimas silenciosas nas suas faces e uma expresso to envelhecida no olhar que ele se ergueu 
para abra-la, para a ter protegida da dor que a oprimia.
- Estava s a pensar...  idiota da minha parte... eles so jovens e merecem tudo isso... estava s a pensar como fui tonta. - Ele mal lhe ouvia a voz na escurido 
suave. - Estava s a pensar como gostava de ter um filho teu... - A voz fugiu-lhe e Brad no disse nada durante uns momentos, limitando~se a segurar-lhe as mos 
e a contempl-la.
- Querias mesmo, no era? - perguntou-lhe enternecido. Lamentava sinceramente que ela no o tivesse descoberto mais cedo, para bem dos dois, mas era impossvel ignorar 
o desejo indisfarado nos seus olhos, o modo como o dissera.
- Sim, queria - respondeu, fazendo~o recordar o dia em que aceitara a sua proposta de casamento, ao fim de insistir durante anos a fio que desejava ficar solteira. 
E agora, aps todos aqueles anos e a extrema convico com que sempre recusara a maternidade, agora  ltima hora... queria ter um filho dele.
Brad enlaou-a contra si. Custava-lhe saber que algures, no seu ntimo mais profundo, ela se sentia to vazia.
- No me agrada que no tenhas o que queres... sobretudo quando  importante... - disse, tristemente. - Mas, por outro lado, estou terrivelmente velho para recomear 
a ter filhos. Posso at nem viver para os ver crescer - acrescentou num tom solene e Pilar sorriu. Ela compreendia. No estava a tentar for~lo
- Preciso de ti aqui at eu crescer, e isso pode levar bastante tempo - disse, enxugando as lgrimas.
Brad riu~se com ternura.

104                          DANIELLE STEEL
- s capaz de ter razo. - Reclnou-se na cadeira, fitou-a e, limpando-lhe as lgrimas das faces com mos carinhosas, perguntou: Vamos ento fazer o qu a respeito 
desse beb? - e mostrava uma expresso divertida.
- Qual beb? 0 da Nancy?
- No. 0 teu. 0 meu... o nosso... esse que pareces querer to ansiosamente.
- E temos de fazer alguma coisa? - ela olhava-o com espanto. No tinha querido falar~lhe do que sentia, no fosse ele julgar-se pressionado, e s lhe contara porque 
ele tinha insistido.
-  uma coisa que queres realmente, no ? - insistiu num tom srio, e ela assentiu com a cabea, os olhos repletos de amor. - Ento vamos tentar. No posso prometer 
nada na minha idade. Pelo que sei, os mecanismos j no funcionam muito bem, de qualquer modo, pelo menos para fazer bebs. Mas podemos com certeza tentar...  capaz 
de ter a sua piada... - Riu maliciosamente e ela ps-lhe os braos  volta do pescoo. Apanhara-a completamente de surpresa com a sua reaco, embora no tanto como 
ela se surpreendera a si mesma, ou a ele. Se algum lhe tivesse dito alguma vez que um dia ia querer um filho, Pilar ter-se-ia rido at s lgrimas. E agora, finalmente, 
desejava to ansiosamente um filho que estava a chorar. - Tens a certeza? - olhava para o marido com ternura. - No s obrigado!
- Claro que tenho... H muito tempo que queria ter filhos contigo, sabes bem. S que tu gostas de fazer-me esperar pelas coisas, no ?
- obrigada pela tua espera - murmurou ela, com a esperana de que no fosse tarde de mais para eles. Era possvel que fosse, e no haveria maneira de o saber. Restava-lhes 
tentarem, e ver o que sucedia.
Charlie tinha comprado champanhe e um pequeno anel muito gracioso para oferecer a Barbie no dia do aniversrio do seu casamento, No sabia bem porqu, mas tinha 
a impresso de que ela se esquecera de que dia era. No quis dizer nada, para ser ele a fazer-lhe a surpresa. Planeou cozinhar-lhe o jantar, ench-la de champanhe 
o oferecer-lhe o anel. Em forma de corao, com um pequeno rubi no centro, tinha-o

0 PREO DA VENTURA                           105
comprado no Zale's e estava convencido de que ela iria gostar. Barbie era louca por jias, assim como por roupas e coisas bonitas, e Charlie adorava comprar-lhe 
pequenas lembranas. Adorava comprar-lhe tudo o que podia, era to maravilhosa, e amava-a tanto, e pelo menos com respeito a ele, ela merecia-o.
Tinha-lhe dito que ia nessa manh a uma audio por causa de um anncio de detergentes,  tarde ia encontrar-se com Judi e a sua companhera de quarto; iam fazer 
umas compras na Broadway Plaza, mas contava estar em casa  hora do jantar. Charlie no fez objeces, por~ que no queria estragar a surpresa que planeara para 
ela. Mas, por volta das seis e meia comeou a entrar em pnico. Em geral podia confiar-se na sua palavra, mas quando saa com Judi e as amigas, punham-se a beber 
e esquecia-se completamente das horas. Pelas suas contas, j devia estar em casa havia muito tempo. Provavelmente, a audio tinha sido cansativa, era to importante 
para ela, e Barbie queria tanto ser actriz!
Naquele ano, s conseguira unia meia dzia de papis, todos eles sem importncia, excepto um em que aparecia a danar e a cantar vestida de cacho de uvas da Califrnia. 
Mas aquilo a que ela chamava a sua grande oportunidade no havia meio de chegar, e a almejada carreira em Hollywood, tardava a vislumbrar-se. Fazia uns trabalhos 
espordicos como modelo, a maior parte das vezes passando fatos de banho, e Charlie tinha grande vaidade nela. No se importava que representasse ou que trabalhasse 
como modelo, mas no queria de maneira nenhuma v-Ia servir como criada de mesa, nem a trabalhar numa loja, como Judi fazia. Esta estava empregada havia seis meses 
na seco de cosmticos da Neiman-Marcus, onde tentava meter Barbie, mas Charlie no queria isso para a sua mulher. Tinham o suficiente com as suas comisses para 
viver desafogadamente a maior parte do tempo, e se uma vez por outra as coisas ficavam um pouco mais negras, ele cozinhava macarro com queijo, ficavam em casa a 
ver televiso, at que por fim l surgia outra comisso e aparecia em casa com um grande ramo de flores para Barbie. Era sempre to bom para ela, de uma gentileza 
to grande que por vezes a fazia sentir remorsos.
Tentava explicar tudo isso a Judi. No achava justo ficar sentada em casa, arranjando as unhas, telefonando ao seu agente, ir  Baixa encontrar-se com Judi para 
almoar quando sabia que Charlie se matava

106                         DANIELLE STEEL
a trabalhar para sustent-la. Mas Judi achava muito natural, dizia-lhe que era urna mulher com sorte, e Barbie tinha de admitir que lhe agradava, Aps anos de trabalho 
como corista, criada, numa bomba de gasolina em Las Vegas at arranjar outro emprego, sentia-se agora uma verdadera senhora. E tambm era boa para ele, pelo menos 
tentava, embora ainda lhe parecesse esquisito ver~se casada. Era estranho ter de dar contas a algum dos seus passos, do que fazia, estar presa a um nico homem, 
ficar em casa o dia inteiro, em vez de sair e divertir-se. Em certas ocasies, ainda tinha saudades dos velhos tempos, sobretudo quando estava comjudi e as outras 
raparigas e as ouvia contar as suas proezas. Mas, por fim, voltava a casa, para junto de Charlie, e ele era to meigo e maravilhoso que era impossvel no o amar. 
S lamentava que no fosse um pouco mais excitante. Mas era estvel e podia con~ tar com ele. Fosse no que fosse, Barbie sabia que t-lo-ia sempre a seu lado. 0 
que, de resto a assustava de certa maneira, como se jamais pudesse escapar-lhe. Mas nesses momentos perguntava a si mesma por que razo haveria de faz-lo.
s sete horas Charlie tinha o jantar pronto, a mesa estava posta e ele foi tomar um duche e preparar-se para Barbie. Vestiu o seu fato azul e retirou o presente 
dela da gaveta onde o tinha escondido.
0 champanhe estava no frigorfico, j gelado, e s sete e meia s lhe restava esperar. Ligou a televiso, e pelas oito horas o seu assado comeou a esturrcar nas 
bordas. s nove, Charlie estava absolutamente frentico. Alguma coisa tinha sucedido. Provavelmente sofrera um acidente, dizia para consigo, sabendo como Judi era 
urna azelha a guiar, constantemente metida em sarilhos. Telefonou-lhe mas no estava ningum, e s nove e meio tornou a telefonar. Respondeu-lhe o atendedor de chamadas, 
de forma que s pde deixar-lhe uma mensagem. Mas s dez horas, quando ligou, Judi atendeu, um pouco surpreendida quando ouviu que era Charfie.
- onde est Barb? - perguntou assim que ouviu a voz dela. Ela est bem?
- Est ptima, Charlie, acabou de sair h instantes. Deve estar a chegar a casa. Porqu essa excitao? - Judi parecia irritada e Charlie desesperadamente preocupado.
- Como  que ela vem para casa? - Porque no a trazia Judi de carro?

0 PREO DA VENTURA                            107
- Apanhou um txi. Talvez demore um pedao, mas h-de che-
gar, Charlie. Sossega o esprito! Ultimamente no lhe tens dado trguas, pois no.
-  o nosso aniversrio - disse, desconsolado.
- Oh! - Fez-se um longo silncio do outro lado. - Desculpa. Tinham sado para tomar umas bebidas, tal como ele supusera, e ela esquecera-se das horas, at quase 
s nove e meia.
-  Obrigado. - Charlie desligou e foi desligar o forno. Que tinha ela que ter sado outra vez com Judi e as raparigas? Porqu naquela noite, no aniversrio deles? 
E no lhe dissera nada porqu? Ele queria apenas fazer~lhe uma surpresa, com um pouco de champanhe e um jantar cozinhado em casa. Teria sido tudo mais simples se 
lhe tivesse falado dos seus planos. Sabia como Barbie era distrada, como gostava de laurear e visitar as amigas. Fora realmente estpido querer fazer-lhe uma surpresa.
Ouviu-a meter a chave  porta s dez horas e quarenta e cinco minutos, estava a ver as notcias, pondo-se imediatamente de p quando ela entrou. Vinha com um vestido 
preto muito justo, sapatos de salto alto, e parecia terrivelmente sexy.
- Onde estavas? - perguntou ansioso.
- Eu avisei-te. Fui s compras com a Judi.
- Isso foi h onze horas. Porque foi que no me telefonaste? Tinha ido buscar-te.
- No quis incomodar~te, querido. - Deu-lhe um beijo apressado na face e ento reparou na mesa. Parecia espantada, e de repente profundamente arrependida. - 0 que 
 isto? Que estiveste a fazer?
- Esta noite  o nosso aniversrio - disse ele suavemente. - Fiz-te um jantar. Pelos vistos, foi uma patetice querer fazer-te uma surpresa.
- Oh, Charlie... - Os olhos encheram~se-lhe de lgrimas quando
olhou para ele. Sentia~se uma verdadeira megera, sobretudo quando ele serviu o champanhe e trouxe os destroos da carne assada e do Yorksh ire puddng.
- Est um bocado passada,,de mais - ele riu-se, envergonhado, e ela soltou uma gargalhada, beijando-o.
- s impagvel - disse ela, e era o que realmente pensava. Desculpa querido. Mas no me lembrei. Foi uma estupidez minha.
- Tudo bem. Para o prximo ano j sei. Marco um encontro con~

108                         DANIELLE STEEL
tigo e vamos a um restaurante. Um lugar bem extravagante como o Cbasen's.
- Mas para mim isto parece extravagante. - Grande parte do seu jantar estava queimado, mas o champanhe soube-lhe bem. j vinha razoavelmente bem bebida, mas estava 
sempre pronta para mais. E ins~ tantes depois, estavam no sof a fazer amor, e eram trs horas da manh quando finalmente foram para o quarto. No acordaram no dia 
seguinte antes do meio-dia, com Barbie queixando-se duma terrvel dor de cabea. Mal conseguia ver quando ele correu as persianas, e ento Charlie lembrou-se do 
presente que tencionava dar-lhe na noite anterior, a pequena caixa do Zale's. Foi busc-lo e entregou-lho, com ela ainda deitada na cama, queixando~se da sua dor 
de cabea.
- No sei Por que hei-de gostar tanto de champanhe. Faz^me sentir, na manh seguinte, como se tivesse martelos dentro da cabea.
-  das borbulhas. Ou Pelo menos  o que toda a gente diz. Ele raramente bebia ao ponto de sentir-se mal, mas Barbie fazia-o com frequncia, incapaz de resistir 
quando lhe punham uma garrafa de espumante nas mos.
- 0 que  isto? - Ela ia rasgando lentamente o papel de embrulho da caixinha, olhando-o   de soslaio, estendida na cama em todo o seu desnudado esplendor. Era uma 
rapariga espantosamente atraente, de cujo corpo ele no conseguia despegar os olhos, nem as mos.
-  um presente de,aniversrio, mas se demorares a abri-lo, posso ter de interromper-te! - Era quase doloroso olhar para ela; v-Ia simplesmente daquele jeito era 
o bastante para desej-la. Naquele ltimo ano, ela tomara-se uma sria dependncia. Por fim, abriu a caixa, descobriu o anel, guinchando de adn-rao e disse que 
adorava. Ele fazia tanta coisa por ela. Ningum em toda a sua vida fora to bondoso con~ sigo, e no entanto havia ainda momentos em que lhe era penoso, pensando 
no seu passado, abrir-se e conflar-se-lhe inteira. Mas aqueles seus gestos despertavam-lhe sempre um sentimento de culpa.
- Desculpa aquilo de ontem  noite - implorou-lhe baixando a voz, e lentamente virou-se na cama para ele, fazendo-o esquecer tudo excepto as suas pernas, as suas 
ancas, as suas coxas e Os seios incrveis que nunca cessavam de deslumbr-lo.
No saram da cama at s duas da tarde, e ento foram tomar um

0 PREO DA VENTURA                           109
duche juntos e voltaram a fazer amor. Charlie estava em grande forma e bastante mais animado.
- Para falar a verdade, apesar do comeo chocho, eu diria que foi um magnfico aniversrio. - E ria-se, quando foram finalmente vestir-se para o jantar. Iam sair 
com amigos e talvez ao cinema.
- Eu tambm acho - admitiu ela, sorrindo para o seu anel, e beijou Charlie. Mas observando-o melhor, pde ver-lhe uma certa hesitao, A mesma expresso que punha 
quando desejava perguntar-lhe uma coisa mas tinha receio de aborrec-la... - 0 que h?... deixa l... j sei... pergunta idiota.
Ele riu~se, surpreendido por ver como ela o conhecia to bem.
- 0 que  que est a moer~te? Tens o ar de quem quer perguntar-me alguma coisa. - Enquanto falava, deslizava para dentro de uma saia preta de couro muito justa, 
enfiou os sapatos de salto alto, depois foi ao armrio buscar uma camisola. Tinha os cabelos louros apanhados no alto da cabea, parecendo-se espantosamente com 
uma Olivia Newton-John mais rolia e sensual diante do olhar de Charlie, que a admirava sentado enquanto ela se vestia. Era um homem de aspecto agradvel, mas que 
parecia completamente deslocado quando estava com Barbie.
- 0 que te leva a pensar que quero perguntar~te alguma coisa? arriscou, hesitante. Sentia~se sempre inepto a expressar-lhe os seus sentimentos.
- Ora v l! - Nela, contudo, no havia nenhum acanhamento, parada na sua frente, a camisola muito justa moldando~lhe ostensiva~ mente os seios. Charlie tinha reservado 
a pergunta para a noite anterior, aps o champanhe e o anel, e talvez antes de fazerem amor, ou mesmo depois. Mas os acontecimentos da vspera tinham alterado ligeiramente 
a ordem das coisas. Tinham feito amor a noite inteira sem toca-
rem sequer no jantar.
- V l, o que ? - insistiu ela, impaciente, e ele comeava a parecer nervoso. No queria perguntar-lhe num momento inoportuno, no fosse ela irritar-se. Sabia 
que era algo de que Barbie no gostava de falar, mas significava tanto para ele. Reconhecia que tinha de o fazer.
- No sei se este ser o momento certo. - Continuava a hesitar, receoso de deitar tudo a perder.
- A minha me costumava dizer: "Quem no se aventurou, no

110                         DANIELLE STEEL
perdeu nem ganhou", portanto diz l o que e que tens na cabea, Charlie.
Ele sentou-se em cima da cama, procurando encontrar as palavras certas. Era to importante para si, no queria de forma nenhuma irrit-Ia. E sabia que ela tinha 
as suas opinies prprias sobre o assunto. Mas os sentimentos dele eram igualmente fortes e, pelo menos, queria tentar discuti-lo com ela.
- No sei bem como dizer... nem como explicar-te como  importante para mim, Barb... mas... Quero a srio ter um filho.
- 0 qu? - Ela virou-se bruscamente e fitou-o. Como uma gata assanhada na sua camisola preta de angor. E continuou a olh-lo com manifesta contrariedade. - Tu sabes 
que no quero midos, Charlie. No agora. Jesus! Eu quase a conseguir um anncio esta semana! Se fico grvida, l se vai a minha carreira pela janela fora, e bem 
posso acabar a vender btons na Neiman-Marcus com a Judi!
Ele no quis lembrar-lhe que a sua "carreira" consistia em meros papis de figurante, num turbilho de audies para anncios que no ganhava, num lugar mais que 
secundrio no coro de 0k1aboma.. para j no falar de um desgraado ano em Las Vegas. 0 seu nico sucesso fora a expor~se por tuta-e-meia, em bikns.
- Eu sei - tentou mostrar-se compreensivo. - Mas podias fazer uma pausa na tua carreira. E no estou a dizer que temos de o fazer neste momento. Mas queria que soubesses 
como  importante para mim. Quero uma famlia, Barb. Quero filhos. Quero dar a algum aquilo que nunca tive, uma me, um pai, um lar, uma vida. Podamos. Podamos 
tomar diferentes as vidas dos nossos filhos. Quero realmente fazer isso. Casmo-nos h um ano e pensei que estava na hora de dizer-te,
- Ento vai para o Peace Corps, se queres brincar com midos. Por mim no estou preparada para isso. Tenho quase 32 anos, e se no tentar a sorte agora, esta no 
estar  minha espera quando l chegar.
- Eu tenho trinta, Barbie. Trinta anos. E quero uma famlia. - Os seus olhos suplicavam-lhe, e ela pareceu subitamente nervosa.
- Uma famlia? - comentou, franzindo o sobrolho, encostada  parede na sua saia justa de couro preto, incrivelmente sexy. - E isso quantos filhos so? Dez? Vivi 
numa igual. Fede. Acredita em mim, posso garantir-te - Mais do que ele sabia, mais do que poderia vir a saber, ou ela a dizer-lhe.

0 PREO DA VENTURA                           111
- No  foroso que seja dessa maneira. Talvez a tua famlia fosse assim. Mas a nossa no ser, querida. - Ele tinha lgrimas nos olhos.
- Preciso disso na minha vida... no vai ser perfeita enquanto no o tivermos. Podemos ao menos tentar agora? - Tinham falado nisso antes, mas nunca, pelo menos 
at ao casamento, tinham chegado a vias de facto. Charlie mostrara-se sempre muito franco quanto ao desejo de ter filhos, e Barbie vacilara durante todo esse tempo 
entre ser honesta com ele e dizer~lhe que no queria de todo em todo, ou tentar mantAo feliz com uni simples ,taIvez mais tarde". Esse mais tarde, porm, estava 
a antecipar-se para eles, mais do que Barbie desejava.
Ela parecia infeliz, o olhar perdido no janela antes de o encarar novamente. Havia lembranas que no queria partilhar com ele, sobre~ tudo no tinha o mnimo desejo 
de tornar a fazer parte de uma farnilia, ou de preencher a sua vida com filhos. Isso, sabia ela, era uma coisa que no queria. Tentara dizer-lho quando se conheceram, 
mas Charlie nunca quisera ouvi-Ia e ela sabia que ele continuava a no acreditar quando lhe dizia que no queria ter filhos. - Porqu agora? S se passou um ano. 
Est tudo ptimo corno est, porqu estragar as coisas?
- No estragava nada, s melhorava. Por favor, Barb... pensa s nisso! - Ele estava a implorar-lhe, e ela percebia-o na sua voz, mas isso s a fazia odi-lo. Estava 
a pression-la, e no era justo para ela. Sobretudo naquele aspecto.
- De qualquer maneira, talvez nem chegue a acontecer - ela procurava desencoraj-lo por todos os meios ao seu alcance. - s vezes pergunto a mim mesma se no haver 
qualquer coisa estranha connosco. Metade do tempo, no usamos nada. Nunca fui to descuidada na vida como sou contigo, Charlie, e nunca aconteceu nada. - Olhavao 
intencionalmente, depois sorriu. - Talvez no sejamos feitos para ter filhos. - E beijou-o, tentando excit-lo, o que nunca era difcil. - Eu serei o teu beb, Charlie 
- dizia-lhe numa voz que o desarmava completamente,
- No  a mesma coisa  ele sorria, eficazmente perturbado. Em todo o caso,  agradvel..   . bastante agradvel, at l. - Para Barbie, porm, no existia nenhum 
<,at l". Mas ele enquanto a beijava, interrogava-se se no poderia engan-la, lev-la a tornar-se ainda mais descuidada. Quem sabe se no momento certo do ms; 
era capaz de fazer mais sentido do que tentar convenc-la, e Charfie sabia que, no

112                          DANIELLE STEEL
momento em que tivesse um beb, ela certamente o amaria. E, com tais pensamentos, resolveu ficar mais atento ao ciclo dela. Depois de descobrir qual era o momento 
certo, podia trazer para casa uma garrafa de champanhe e truz... tinham o seu beb. A ideia animou-o sobremaneira, enquanto acabavam de preparar-se para sair. E 
longe de sonhar at que ponto ele estava firme no seu plano, Barbe mostrava-se de excelente humor, supondo que Charlie teria finalmente resolvido ser razovel e 
esquecer por uns tempos as suas ideias de constituir famlia. Na verdade, ela nunca lhe dissera que no teria filhos, mas tambm nunca lhe tinha dito que os teria. 
E urna coisa era certa, pelo menos da sua parte: por muito que ele desejasse um filho, ela nunca teria nenhum.

CAPITULO 6
No feriado de 4 de Julho, Nancy e Tommy levaram o beb a casa de Brad e Pilar, e era extraordinrio verificar como todos se haviam modificado por causa dele. Nancy 
e Tommy pareciam de sbito terri~ velmente adultos e responsveis; Brad, por sua vez, estava a cada instante a pegar no neto e a fazer-lhe enternecedores cu-cu. 
j era impossvel imaginar uma vida sem ele. Pilar tambm gostava de pegar no beb, espantando-a deveras o facto de pensar que um dia ela poderia ter o seu. Era 
uma sensao incflvel.
Adam era gorducho e rolio, dormia perfeitamente feliz nos braos de qualquer pessoa, observava tudo com uns olhos azuis enormes quando estava desperto, e pegar-lhe 
ao colo era um infinito prazer.
- Fica-te bem - comentou Brad enternecido, quando se aproximou de Pilar no final dessa tarde enquanto ela pegava no beb. - Talvez ele v ter em breve uma nova tia 
ou um tio - gracejou, sorrindo para ela. Tinham trabalhado nesse sentido na semana a seguir ao aniversrio, e Pilar estava ansiosa por ver o que sucederia naquele 
fim de semana.
Mas ficou alarmada nessa noite, depois de o jovem casal voltar para casa, quando descobriu que no estava grvida. Saiu da casa de banho surpreendida e desapontada. 
Estava habituada a alcanar  primeira tudo aquilo que pretendia.
- Amor, o que se passa?         Brad olhou-a e julgou que estava doente. Parecia um fantasma, mas quando se sentou na cama junto dele percebeu que tinha estado a 
chorar.
- No estou grvida.

IIIi                       DANIELLE STEEL
- Oh, por amor de Deus! - Ele fez um sorriso. - Pensava que tinha acontecido uma coisa terrvel.
- E achas pouco? - Parecia atordoada. Era to raro o sucesso escapulir-se-lhe das mos! Mas Brad encarava as coisas de um modo mais sensato.
- Ao fim de catorze anos? S porque tentaste uma vez, no quer dizer que obtenhas imediatamente o que queres. Podes precisar de um pouco mais de esforo. - Inclinou~se 
para beij-la e ela sorriu, mas ainda parecia frustrada. - Pensa s como vai ser divertido o que ainda teremos de tentar.
- E se no resultar? - interrogava, desta vez apavorada. No era to fcil como parecia. Brad olhava~a atentamente, interrogando-se como iria ela resistir se no 
desse certo.
- Se no resultar, Pilar, teremos de viver com isso. Mas vamos esforar-nos o mais possvel. No podemos fazer mais nada - afirmou calmamente.
- Na minha idade, devia talvez comear por ir a um especialista
- aventou, apreensiva.
- Na tua idade, as mulheres tm bebs a todo o momento, sem especialistas nem grandes herosmos. Descontrai-te. No podes contro~ lar o mundo inteiro. S porque 
decidiste que querias um beb h trs semanas, no significa que possas fazer isso acontecer de um dia para o outro. D tempo. Relaxa... - Ele puxou-a para si na 
cama, e abraou-a, e em breve ela descontraiu-se e conversaram tranquilamente durante algum tempo sobre os seus planos e o bebe que esperavam ter. Se tivessem algum.
Brad achava demasiado cedo para pensar num especialista, e disse-lho nessa noite, mas tambm lhe garantiu, ao ver a insistncia dela, que no caso de se confirmar 
a necessidade de um especialista, estava disposto a acompanh-la.
- Mas por enquanto no - frisou-lhe quando apagou a luz. Creio que o que precisamos fazer realmente - dizia em voz suave, enroscando-se nela por baixo dos lenis 
-  bastante mais prtico.
Para Diana, o piquenique dos Goodes no feriado de 4 de julho foi um pesadelo. Descobrira dois dias antes, mais uma vez, que no estava

0 PREO DA VENTURA                           115
grvida e as irms perseguiam-na impiedosamente com perguntas. Porque era que no acontecia nada, se achava que Andy tinha algum problema, e por a fora...
- Claro que no - defendia-o, e sempre que elas se aproximavam, tinha a sensao de quem est a ser comprimido por um cilindro at  perda da respirao. - S que 
leva tempo,
- Connosco no levou, e tu s nossa irm - anunciou Gay1e. Talvez ele tenha um nvel baixo de esperma - sugeriu, aliviada por poder responsabiliz-lo, j dissera 
o mesmo ao marido.
- Porque no lhe perguntas? - ripostou Diana, e Gay1e fez um ar de ofendida.
- S estava a tentar ajudar. Talvez devesses dizer-lhe para consultar algum. - Diana no contou  irm mais velha que tinha uma consulta marcada com um especialista 
para o dia seguinte. Como Andy dizia, no era da sua conta.
Mas foi sobretudo a sua irm Sam quem a deixou sem respirao, desferindo o golpe de misericrdia com o seu anncio inesperado, Proclamou-o perante todos durante 
o almoo, e Diana pensou que ia vomitar quando a ouviu.
- Bom, minha gente... - comeou a dizer, olhando timidamente para o marido, e este riu~se. - Devo dizer-lhes?
- N! - Seamus soltou uma gargalhada. - Todos adoravam o seu sotaque irlands e a sua bonornia. Era muito estimado na famlia desde que casara com Samantha.
- V l! - reclamava Gay1e. - Conta-nos!
- Muito bem. - Sam ria-se, felicissima. - Estou grvida. 0 beb vai nascer no dia de S. Valentim.
- Que maravilha! - exclamou a me, e o pai pareceu ficar igualmente deliciado. Estava a conversar com Andy e levantou a cabea para felicitar a filha e o genro. 
Com mais aquele, seriam seis netos, trs da filha mais velha, outros trs da mais nova, e nenhum de Diana.
- Que bom - comentou Diana apaticamente, e foi beijar a irm, que a apanhou de surpresa ao sussurrar-lhe a piada suprema da noite.
- Pensava que ias ganhar-me, mas estou a ver que no! - Pela
primeira vez na vida, Diana teve vontade de esbofete-la. Odiou-a ao ouvi-Ia rir-se, e vangloriando-se, e sendo o alvo dos gracejos de todos, que a felicitavam num 
tremendo rebolio. Mas pior que todas

110                          DANIELLE STEEL
as palavras e gestos foi saber que era Sam quem ia ter um beb, e no Diana.
No disse uma palavra a Andy durante o caminho para casa, mas quando chegaram ele explodiu.
- Que diabo, a culpa no  minha, no a atirem para cima de mim! - Ele sabia exactamente o motivo do seu aborrecimento, percebera-o no momento em que Sam fizera 
o anncio e os olhos de Diana se encheram de silenciosas acusaes.
- Como sabes que a culpa no  tua? Possivelmente, ! - mas arrependeu~se assim que as palavras lhe saram da boca. Sentou~se no sof com um ar de desespero, e Andy 
estava visivelmente arrasado. Olha, desculpa... no sei o que estou a dizer. Mas eles aborrecem-me, No fazem de propsito, mas dizem disparates, e Sam descontrolou-se 
completamente quando me disse que estava grvida.
- Eu sei, querida. - Sentou-se junto dela. - Eu sei. Vamos fazer tudo o que pudermos. - Ele sabia da sua ida ao mdico no dia seguinte. - Descontrai-te. - Mas Dana 
Ia comeava a odiar aquela palavra mais do que qualquer outra.
-  isso... claro... - levantou-se e foi tomar um duche. Mas s pensava nas irms. "Estou grvida"... "Talvez ele tenba um nvel baixo de esperma,>... "Pensei que 
ias engravidar primeiro, mas ganbe-to,     ... "Etou grvd... Estou grvida... estou grvda ... nvel baixo esperma ... Ficou a chorar no duche durante meia 
hora, e s ento foi para a cama, sem dizer uma palavra a Andy.
0 dia seguinte amanheceu radioso e soalheiro. Era quase uma afronta, um tempo to imensamente agradvel quando ela se sentia to miservel. Pedira um dia de dispensa 
no emprego. Ultimamente o trabalho enfadava-a, as presses, os prazos a cumprir, as discusses, as pessoas. Antes, chegava a diverti-Ia, mas actualmente at isso 
lhe pare~ cia penoso sem um beb.
Mesmo uma das suas amigas mais chegadas no trabalho vinha notando que Diana perdera muito da sua centelha. Eloise Stein era a redactora da seco de culinria da 
revista e, na semana anterior, resolvera finalmente tocar no assunto durante um almoo rpido  secretria, quando as duas quiseram experimentar os resultados de 
algumas receitas francesas menos usuais que Eloise desencantara em Paris.
- Tens andado aborrecida com alguma coisa nestes ltimos dias?

0 PREO DA VENTURA                          117
- perguntou-lhe, sem rodeios. Eloise era inteligente, bastante bonita e muito perspicaz. Frequentara Yale, fazendo a seguir um trabalho de ps~graduao em Harvard. 
Natural de Los Angeles, tinha acabado por regressar  cidade, ao seu poleiro, como ela dizia. Com 28 anos, estava a viver num pequeno apartamento ao lado da casa 
dos pais em Bel Air. Mas apesar da sua vontade frrea de se valorizar, era espantosamente simples, uma rapariga maravilhosa que desde a sua entrada na revista, uns 
meses atrs, se tornara uma boa amiga para Diana e com a qual era um prazer conviver. Diana e Andy tentaram a dada altura impingiIa a BlI Bennington, mas Eloise 
atemorizou~o, to capaz, to adulta, embora este preferisse justificar-se dizendo que era demasiado magricela e muito alta para o seu gosto. Ela tinha ar de modelo.
- No, estou ptima - Diana tentou esquivar~se, apressando-se a felicit-la pelas delcias que estavam a comer, umas Kllettes e uma receita de dobrada que fazia 
Diana recordar os seus tempos de Paris.
- Custa a acreditar que costumes comer - observou Diana, olhando para ela. Era magrssima, de grandes olhos azuis e cabelos loiros, compridos e lisos,
- Era anorctica na Faculdade - explicava Eloise -, ou pelo menos tentava ser. Mas no fundo, parece que, para quem queria man~ ter a anorexia, gostava demasiado 
de comer, e a minha av da Florida passava o tempo a mandar-me bolinhos. - Mas tomou a olhar para Diana; no era pessoa que desistisse facilmente do que intentava, 
por isso estava a dar-se bem na revista, e ento voltou  carga: - No respondeste  minha pergunta.
- Acerca de qu? - Diana fingia-se distrada, embora soubesse
z
exactamente o que a outra desejava descobrir. E gostava daquela rapariga, mas no tinha a certeza se queria confiar a algum os problemas da sua vida. 0 nico que 
conhecia todo o seu desespero era Andy.
- Andas aborrecida com alguma coisa! A minha inteno no  intrometer-me, mas ests a ter o ar daquelas pessoas que se escondem pelos cantos mas vo afirmando que 
esto ptimas.
- E isso  mau? - escandalizou-se Diana, e de repente desatou a rir da descrio da outra.
- No propriamente, mas chamou-me a ateno. No  da minha Conta, ou ests a precisar de um ombro?
- De facto... no... eu... - Ia comear a dizer-lhe que estava

118                           DANIELLE STEEL
ptima, mas de sbito deu consigo a chorar. No podia fazer mais nada seno abanar a cabea, com as lgrimas a correrem-lhe pelas faces, e soluava descontroladamente 
enquanto a jovem loira lhe acariciava os ombros, estendendo-lhe guardanapos de papel para se assoar. Levou tempo antes que Diana conseguisse parar de chorar. - Desculpa... 
no tinha inteno de... - Olhou-a com o nariz vermelhssimo, e os olhos vermelhos ainda molhados, mas sentia-se melhor. Era um alvio despir a mscara. - No sei 
o que aconteceu.
- Sabes, sim senhora, estavas a precisar disso desesperadamente.
- Eloise deu-lhe um abrao afectuoso e serviu-lhe uma chvena de caf fortssimo,
- Parece~me que tens razo. - Diana respirou fundo e encarou~ ~a. - Ando com problemas... familiares, julgo que se lhe pode chamar assim. Nada de terminal, apenas 
certas coisas que preciso de acertar.
- Com o teu marido? - perguntou Eloise, parecendo cheio de pena dela. Gostava bastante de Diana, e tambm simpatizava com Andy. Era penoso saber que estavam a atravessar 
uma crise. Pareciam to feli~ zes da ltima vez que jantaram todos juntos...
- No, no posso propriamente culp-lo por isto. Creio que  mais por culpa minha. Tenho estado a exercer sobre ele uma tremenda presso... andamos h cerca de um 
ano a tentar ter um beb, s que no acontece nada. E sei que pode parecer estpido, mas todos os meses  como uma morte na famlia, uma terrvel desgraa que tenho 
de enfrentar, e isso apavora-me. Todos os meses tenho a esperana de que dessa vez tenha resultado, e quando torno a descobrir que no, fico com o corao despedaado. 
No  estpido? - Recomeou a chorar, assoando-se a outro guardanapo de papel.
- No, no  estpido - tranquilizava-a Eloise. - Eu nunca quis ter um filho, mas provavelmente  normal. Por outro lado, para pes~ soas como ns, habituadas a decidir 
coisas, a ter tudo sob controlo,  muito posvel que assuste um bocado quando as coisas no correm como queremos. Sabes, essa terrvel palavra "controlo", naturalmente 
tem tambm um pouco a ver com o sofrimento: a perda total de pode-r, no podemos influir no ter ou no ter um beb.
- Talvez. Mas  mais do que isso...  dificil explicar...  este incrvel vazio... esta nostalgia terrvel. Leva-me por vezes a desejar a morte. No posso dizer 
isso a ningum, nem ao prprio Andy. Mas vou mor-

0 PREO DA VENTURA                          119
rendo por dentro, e quero isolar-me de tudo fechando-me na minha concha.  a pior sensao de solido que conheo. No sei mesmo corno descrev-la.
- Deve ser horrvel - disse Eloise compreensivamente, e isso explicava o seu comportamento no escritrio. Diana tinha comeado a evitar toda a gente, fechava-se 
cada vez mais, sendo quase impossvel abord-la. No seria surpresa nenhuma se isso no acabasse por afectar-lhe o casamento. - Foste a algum especialista? - Ela 
queria per~ guntar~lhe se j tinha consultado um psiquiatra, mas no teve coragem; estava to comovida por Diana lhe haver confidenciado tanta coisa. Sentia-se honrada.
- Vou consultar um na prxima semana. Um Alexander Johnston.
- No sabia a que propsito estava a dizer-lhe o nome do mdico, mas j que lhe confiara tanta coisa, achava natural falar~lhe dele, e Diana ficou deveras surpreendida 
quando a viu sorrir, enquanto lhe servia outro caf.
- j ouviste falar dele?
- Algumas vezes.  colega do meu pai. 0 meu pai  endocrinologista de fertilidade. Se as coisas se complicam, normalmente mandam-te para ele, ou se fizeres, por 
exemplo, inseminao in vitro, ento o Pap recomenda-to. De resto, j no aceita doentes novos a no ser quando so recomendados pelo Alex Johnston. - Diana sentia-se 
aliviada, olhando~a com espanto. 0 mundo era mais pequeno do que se imaginava, at naquele campo.       Queres que lhe diga alguma coisa, que te conheo, por exemplo? 
perguntou cautelosamente Eloise, pouco segura de como Diana encararia isso.
- Preferia que no. Penso que devo ser eu a enfrentar a coisa, mas agrada~me saber que bati na porta certa.
- A melhor. Eles vo ver isso. As estatsticas so hoje em dia impressionantes. Cresci nesse meio, percebes. Tenho a impresso de que nunca pensei que as pessoas 
podiam simplesmente "faz-lo- e ficarem logo grvidas. Achei sempre que o meu pai tinha de intervir para ajud-las. - Era uma ideia estranha, e Diana ria-se da imagem 
que Eloise fazia das coisas.
Por fim Eloise perguntou-lhe, enquanto comiam deliciosas tartes de ma com natas, porque no tirava uns dias no escritrio para tratar de tudo. Era certamente mais 
fcil para ela, e mesmo para Andy, mas

1 /U                        DANIELLE STEEL
Diana respondeu que no sabia se podia, e por fim confessou que no queria.
- No posso deixar assim o trabalho. Alm disso, depois fazia o qu? As minhas duas irms fizeram isso, e agora esto em casa com os filhos. Mas sabes, no sei se 
era capaz de ficar em casa, pelo menos agora. Talvez, se tivesse um beb. Neste momento j me ocupa demasiado o esprito ter de contar os dias, ver a temperatura 
todas as manhs.
- No sei se aguentava tudo isso. Como  que consegues?
- Quero desesperadamente ter um beb. Desconfio que uma pessoa  capaz de fazer as coisas mais incrveis quando  necessrio. Pelo que teria ouvido do pai a respeito 
dos mtodos, e os exames que este efectuava, Eloise devia saber bastante mais do assunto do que Diana,
Dana ia a pensar nela quando seguia de carro para o Wilshire carthay Building; era muito capaz de ver o pai de Eloise. Ainda lhe pareca espantoso que, por mera 
coincidncia, tivesse marcado uma consulta justamente com um colega do seu pai, E toda a gente com quem tinha falado lhe dissera que Alex Johnston era muito bom, 
mas quando Diana subia no elevador sentiu-se subitamente nervosa e apavorada.
A sala de espera era tranquila mas muito elegante, decorada em tons de creme e amarelos de aveia, com quadros caros de arte moderna nas paredes e urna grande palmeira 
num dos cantos. Mandaram Diana sentar-se e, minutos depois, era conduzida ao recinto dos consultrios. Havia um longo corredor, com mais quadros e uma alta clarabia, 
e ao fundo deste a enfermeira f-la entrar numa sala com lambris de madeira crua, um bonito tapete no cho e, num dos cantos, uma graciosa escultura de uma mulher 
com uma criana. inexplicavelmente, at a viso de uma pea de arte retratando uma me com o seu filho lhe agudizava o sofrimento.
Agradeceu  enfermeira e sentou-se, esforando-se por manter a calma e pensando em Andy. Estava aterrorizada com o que lhe iriam fazer, ou o que viriam a descobrir, 
mas, instantes depois, ficou agradavelmente surpreendida quando viu o mdico. Alto, ruivo, com longas mos elegantes e uns olhos azuis inteligentes, lembrava-lhe 
de certa maneira o pai.

0 PREO DA VENTURA                          121
- Viva. - Ele sorriu calorosamente e apertou-lhe a mo. - Alex
johnston. Prazer em conhec-la. - E parecia diz-lo com convico. Conversou com ela durante alguns minutos sobre o que fazia, de onde era, h quanto tempo estava 
casada, e finalmente puxou para junto de si uma ficha em branco e pegou numa caneta, fitando Diana afavelmente. - Porque no vamos tomando aqui umas notas para estudar 
o nosso problema? Ento o que a traz por c, Mrs. Douglas?
- Eu... ns... tenho estado a tentar engravidar h cerca de um ano, treze meses para ser mais exacta, e at agora no aconteceu nada. Admitiu tambm que, em certa 
medida, no tomavam igualmente grandes precaues antes do casamento e no entanto nunca engravidara.
- j tinha engravidado alguma vez? Algum parto prematuro ou algum nado-morto? Algum aborto?
- Nada - respondeu ela solenemente. Sem o conhecer, sentia por ele um enorme respeito, e uma f profunda em como seria capaz de lhes resolver o problema.
- j tinha tido antes algum "descuido" em matria de contracepo? - perguntou-lhe, observando-a atentamente.
- No. Fui sempre muito cautelosa.
- E que mtodos usou? - As perguntas alongavam-se sobre os mtodos de contracepo que ela utilizara. Quis saber particularmente se alguma vez tinha usado um DIU, 
e ela usara-o de facto quando estava na Faculdade, ou se tomara a plula, e por quanto tempo. Quis saber de doenas venreas - que ela nunca tivera -, de quistos, 
tumores, dores, hemorragias, acidentes, infeces graves de qualquer tipo, operaes, ou alguma histria de cancro, ou doenas hereditrias, como diabetes. Quis 
saber tudo a respeito dela. E no final do seu longo rosrio de tudo o que ela nunca tivera, ele garantiu-lhe que um ano no era um prazo excessivo para alcanar 
a gravidez, embora pudesse compreensivelmente parecer muito tempo tanto para ela como para o marido. Mas no havia nenhuma razo para pnicos. Disse-lhe, inclusive, 
que, se ela o desejasse, na sua idade ele estava completamente  vontade para deix-los tentar naturalmente mais uns seis meses, ou mesmo um ano, antes de entrar 
numa investigao mais sria, embora afirmando que, pessoalmente, preferia fazer exames s aps um ano sem concepo.
- Porque no fazemos agora umas simples anlises, como primeiro passo? Posso fazer-lhe um exame prelin-iinar, para verificarmos se no

DANIELLE STEEL
tem um pequena infeco que possa estar a prejudc-la. - Ele sorriu-lhe, e ela concordou que devia comear desde j, em vez de esperar mais tempo. Diana sabia que 
no aguentava outros seis meses de expectativa e frustao. Queria saber por que motivo no acontecia nada. No podia crer que no existisse uma explicao simples, 
e preferia obt-la agora em vez de da a um ano, de modo a poderem encar-la e suport-Ia, e explicou tudo isso ao Dr. Johnston.
- H tambm uma ntida possibilidade - e ele sorria-lhe - de no haver nada a encarar, e que a senhora esteja no fim de contas de perfeita sade e s precise de 
ser paciente. Ou ento, se houver uma base para preocupaes, podemos comear a examinar o seu marido.
- Ela e Andy tinham combinado que iam comear por ela, e ento veriam o que o mdico dizia quanto a v-lo a ele.
- Espero que no encontre nada - disse Diana calmamente, e ele manifestou~lhe a mesma esperana, mencionando vagamente que, at quele momento, apenas o preocupava 
o facto de ela ter usado um DIU. Ento levantou-se e conduziu-a a uma outra sala, onde podia despir-se para ele a examinar. Seria uma simples observao plvica. 
Explicou~lhe que os exames mais importantes teriam de ser efectuados mais ou menos no momento da ovulao. Analisariam ento a sua mucosa cervical a fim de verificar 
se esta era suficientemente "convidativa" para o esperma ou se no seria hostil; impunham-se outros testes, como o da compatibilidade. Mas na altura da ovulao 
fariam um ultra-som, para ver o nvel de maturao do seu folculo ovrico antes da ovulao, e um teste ps-coito, que era um simples teste de clculo para avaliar 
a sua mucosa e o esperma de Andy em termos de mobilidade e nmero.
Por enquanto, porm, limitava-se ao exame plvico e  recolha citolgica a fim de detectar se havia eventuais neoplasias, quistos, infeces ou malformaes, e ento 
extraam sangue para uma anlise de HIV, pequenas infeces e verificao da sua imunidade  rubola. Queria tambm uma anlise de sangue completa e a recolha do 
exsudado cervical para se certificar de que no existia nenhuma infeco. s vezes uma simples infeco era a chave de todo o problema.
Dir-se-ia que ele tinha todo um plano traado, apesar dos exames daquele dia serem extremamente simples, mas pelo menos ela tinha a sensao de que alguma coisa 
estava finalmente a ser feita para desco-

0 PREO DA VENTURA                           123
brir o que se passava com o seu corpo. Diana sorriu consigo mesma ao recordar o que Andy lhe dissera na noite anterior. Falara-lhe de um problema que tivera com 
o nariz quando era criana. Um dia, este ficara-lhe terrivelmente obstrudo, a ponto de lhe custar a respirar, e a me levara~o a um especialista para ver como estavam 
as adenides e as amgdalas.
- E sabes o que era afinal? - perguntara ele solenemente, deitado na cama com um brao  volta dela.
- Sei l... sinusite?
- Muito mais simples do que isso. Uvas, Tinha empurrado uma inteira para dentro do nariz uns dias antes e, pelos vistos, ficaram ali muitos quentes e aconchegadas, 
e cresceram, e eu tive medo de dizer  minha me. Por isso, quando amanh fores ao mdico, querida... no te esqueas de dizer-lhe para ver se h uvas. - Ela tornou 
a sorrir ao pensar na histria enquanto o mdico a observava, e isso veio lembrar-lhe mais uma vez o quanto amava Andy-
No entanto, o Dr. Johnston no encontrou nenhumas uvas. Nem descobriu qualquer malformao, tumor ou quisto, nem nenhum sinal de infeco. Tudo se revelou perfeito 
e Diana estava aliviada, e ento apareceu um tcnico para lhe extrair sangue.
j vestida, o mdico explicou-lhe que queria v-Ia novamente dali a dez dias para fazer os testes que j tinham combinado, e que ento lhe diria exactamente a altura 
em que deviam fazer amor naquele ms, no perodo frtil, e queria que ela usasse um tubo de ovulao na semana seguinte para verificar a subida na urina da LH, a 
hormona luteinizante que ocorre justamente antes da ovulao. Parecia deveras complicado, mas, na verdade, no o era. Tratava-se apenas de uma novidade. E queria 
que continuasse a ver a temperatura, o que alis vinha fazendo havia seis meses e que, por sinal, comeava a deixar Andy completamente louco, queixando-se de que 
era corno viver com uma hipocondraca, com um, termmetro enfiado na boca todas as manhs. Mas, como sempre, era espantosamente compreensivo, se isso a levava a 
pensar que podia ser uma ajuda para engravidar.
Antes de sair, o mdico sugeriu ainda a Diana que tanto ela corno Andy deviam reduzir um pouco o seu ritmo de vida, caso pudessem, roubar mais tempo ao trabalho, 
ocuparem-se a fazer coisas de que gos-

124                         DANIELLE STEEL
tassem, ainda que isso implicasse terem de sacrificar as horas passadas com os amigos ou alguns projectos relacionados com o trabalho.
- 0 stress pode ter tambm um papel importante na infertilidade. Tentem abrandar o mais possvel, os dois. Apanhar bastante ar puro, comer bem, dormir. - No mundo 
moderno, era mais fcil diz-lo, e ele sabia-o, mas tambm pensava que valia a pena lembr-lo, apesar de tudo. E tomara a afirmar que o mais provvel era no existir 
nenhum problema com eles e necessitarem apenas de um pouco mais de tempo, e as coisas aconteceriam por si. Mas se houvesse algum problema, garantia-lhe ele, haviam 
de descobrir. Ao sair do consultrio, cheia de esperana e excitada e nervosa, ela recordava, contudo, uma outra coisa de que ele falara: que aproximadamente 50 
por cento dos casais submetidos a tratamento de fertilidade tinham bebs saudveis, embora houvesse outros, totalmente saudveis, sem nenhum problema a afect-los, 
que nunca engravidavam. Era algo que ela teria de enfrentar, se porventura fosse o seu caso, mas Diana no sabia o que ento seria dela. S o facto de estar ali, 
falando com o mdico das inmeras pos~ sibilidades, dos testes a que poderia ser submetida, f-la aperceber-se, pela primeira vez, das coisas que estava disposta 
a fazer para ter um filho. Faria qualquer coisa, menos roubar.
Estava exausta quando ia a guiar para casa, e por momentos sentiu-se tentada a passar pelo escritrio, mas de qualquer maneira tinha tirado o dia; alm do mais j 
passava da uma da tarde e, sobretudo, lembrou-se do que o mdico lhe dissera quanto a no exagerar. Resolveu portanto, em vez disso, ir fazer compras, com uma deliciosa 
sensao de culpa enquanto passeava pelo Saks. Telefonou a Andy da loja, mas ele tinha sado para almoar e ela acabou por ir para casa, decidida a fazer-lhe um 
jantar extravagante.
Ele telefonou-lhe s trs horas, notando imediatamente o seu tom de voz mais alegre; por enquanto no lhe tinham encontrado nada de grave, talvez o problema fosse 
dele e, na realidade, Andy j tinha pensado nisso nos ltimos meses.
- Ento? - perguntou-lhe, num tom de voz terno e malicioso. Eles encontraram?
- Encontraram o qu? - ela parecia intrigada.
- As uvas. No lhe contaste?
- s tonto... - Ela falou-lhe das perguntas que lhe fizeram, dos

0 PREO DA VENTURA                          125
exames que tinham efectuado e dos testes que iam Seguir-se, mas nenhum parecia particularmente desagradvel. o receio dela era, de facto, que o tratamento pudesse 
envolver mtodos horripilantes, mas pelo menos at quele momento no havia nada aparentemente assustador.
- Ento voltas l daqui a duas semanas?
- Dez dias, e entretanto continuo a tirar a temperatura todas as manhs e vou comear a analisar a urina com um aparelho na semana que vem.
-  demasiado complicado para mim - disse ele, pensando no que o futuro lhes reservaria, especialmente para si. Provavelmente os testes seriam bastantes piores para 
ele quando chegasse a altura de os fazer. Continuava a achar tudo aquilo desnecessario e que a ansiedade de Diana no passava de simples pavor. Mas estava disposto 
a ir para a frente por causa dela.
- A propsito - acrescentou ele depois de todas as suas explicaes e dela lhe falar de tudo acerca do Dr. Johnston, mesmo dos sapatos que trazia calados e da srie 
de diplomas que tinha nas paredes do consultrio -, no vais acreditar no que tenho para dizer-te.
- Foste aumentado - interrompeu-o esperanosa; Andy trabalhava para a empresa como um escravo.
- No, mas est a chegar, segundo as fontes l de cima. Mas isto tambm  bastante bom. Diz outra.
- o chefe foi preso porque estava nu na cafetaria - aventou, fechando os olhos corri ar sonhador.
- Muito engraado... tenho de ver se no h nada por detrs disso... No, vou dizer-te, seno nunca adivinhas e eu tenho uma reunio daqui a dois minutos. Bill Bermingtom 
vai casar-se com a sua querida advogada no dia do Trabalhador, na casa de Vero dos pais dela em Lake Tahoe. Acreditas? Eu fiquei quase sem fala quando ele me disse, 
Estava a comer uma sanduche de fiambre com ele l em baixo e julguei que era brincadeira, at ver a cara d.C. Consegues acreditar?
- Bam, sabes, sou capaz de acreditar. Tem piada, mas parece-me que ele est preparado.
- Espero que sim. Era o melhor que ele tinha a fazer, alis, 0 casaMento  j daqui a sete semanas. Vo pescar para o Alasca na lua-de-mel.

1/_O                         DANIELLE STEEL
- Credo! 0 melhor que tens a fazer  falar com ele!
- 0 melhor que tenho a fazer  pr-me a mexer para a reunio. At logo, querida. Devo chegar por volta das sete. - E, como sempre, cumpriu a sua palavra e ela tinha 
um jantar magnfico  sua espera, Usou uma das receitas francesas da Eloise, com um toque seu aqui e ali, e preparou uma perna de cabrito com molho de alho, feijo 
verde e cogumelos. E para a sobremesa, um souffl de damasco que estava fantstico,
- Hum! Que fiz eu para merecer tudo isto? - interrogava, deliciado, no final da sobremesa, enquanto ela lhe servia o caf. Diana estava melhor do que nos ltimos 
tempos, e ele via-o perfeitamente.
- S pensei que era diferente termos um jantar simptico, j que hoje vesti a pele de uma mulher ociosa.
- Talvez devesses ficar em casa mais vezes. - Ela gostava de o fazer, mas tambm gostava de trabalhar. Ao contrrio das irms, j tivera os seus conflitos por causa 
disso, e sabia que estava sujeita a t-los a qualquer momento, mesmo se lhes nascesse um beb. Mas por enquanto no se punha esse problema; s devia "relaxar e abrandar 
o ritmo>,, segundo a opinio do mdico. E tambm disse o mesmo a Andy, que gostou da ideia e sugeriu imediatamente que fossem a Santa Barbara no fim de semana.
- Bem gostava! - Ele tambm tinha combinado encontrar-se com Bill Bennington e a sua futura noiva naquela semana. De repente, a vida adquiria um novo sabor cuja 
causa ela no sabia explicar, excepto a sua confiana em que o mdico havia de descobrir um meio de ajud-los a terem o seu beb, e isso animava-a.
Divertiram-se nessa semana, e estavam encantados com a noiva de BilI, Denise Smith, que era tudo o que este descrevera e os convidou para jantarem em sua casa na 
semana seguinte. Andy ficou porm sur~ preendido quando Diana comeou a esquivar-se com desculpas vagas, explicando-lhe mais tarde que seria a altura da sua ovulao; 
precisava de ir ao Dr. Johnston para fazer exames e ela e Andy tinham de fazer amor segundo um determinado calendrio. No desejava juntar a tudo isso a tenso de 
um calendrio social.
- Talvez fosse mais um alvio do que uma tenso - comentou Andy de mau humor, mas Diana continuou a no querer ir e combinaram o jantar com Denise e Bill para a 
outra semana, embora Andy

0 PREO DA VENTURA                           127
se mostrasse irritado. Mas Diana estava muito ocupada na conquista do seu beb.
Tirava religiosamente a temperatura todas as manhs antes de se levantar; tinha comeado a usar o dispositivo da LH corno lhe fora recomendado, e o teste deu um 
resultado azul exactamente no dia que o mdico previra, e nessa tarde ela foi ao consultrio para este lhe observar a mucosa cervical. Ele disse-lhe que lhe parecia 
satisfatrio, "muito simptico e amigo,,, como o definira, e Diana riu-se nervosamente, o mdico sugeriu que Andy e Diana deviam fazer amor na manh seguinte e que 
Diana devia ir ao consultrio imediatamente a seguir para o teste ps-coito, o qual revelaria como estava a comportar-se o esperma de Andy.
Diana voltou para o escritrio quase ao fim da tarde, tomou caf com Eloise e, nessa noite, aps ter posto Andy a par do andamento das coisas, anunciou-lhe que tinham 
de fazer amor na manh seguinte.
- Mas que calvrio! - observou ele em tom de graa, mas na verdade era mesmo. Sentira-se mal disposto do estmago na noite anterior e, ao acordar, no estava nada 
bem; achava que estava a chocar uma gripe e no lhe parecia que "as coisas fossem funcionar", como ele dizia.
- Mas tem de ser - insistia Diana, tensa, deitada ao lado dele, disposta a ajud-lo. - Hoje  o dia da minha ovulao e preciso do teste ps~coito. Tirei a temperatura, 
ela desceu, o que quer dizer que deve ser hoje a ovulao... Andy... tem de ser. - Olhava-o com ar crtico e ele queria mand-la para o diabo, mas no mandou.
- ptimo. Obrigado pelo importante recado do meu patrocinador.
- Virou-lhe as costas na cama, masturbou-se durante uns momentos, avivando finalmente as coisas um pouco e ento virou-se e fez amor com a mulher, mas sem nada de 
romntico, nem excitante, na histria. Nem to pouco um prazer completo. E em seguida saiu da cama sem dizer palavra e foi tomar banho. Daquele modo, no. Sob a 
tremenda presso do dia e da hora certa para fazer amor, e at a melhor maneira de o fazer. Ao pequeno-almoo, estavam ambos tensos e calados.
- Desculpa - disse Diana suavemente.,
- No tens de qu - respondeu do outro lado do jornal. - S que hoje no me sinto grande coisa, nada mais. Esquece. - Detestava fazer ambr daquele modo, sob comando, 
e continuava nervoso sem saber o que lhe iam fazer, nem o que iriam descobrir.

128                          DANIELLE STEEL
0 teste ps-coito revelou contudo que o esperma era aparentemente normal. Os espermatozides propalavam-se prazenteiramente e podia dizer-se que ele tinha uma densa 
populao, assim como uma elevada mobilidade, o que era excelente, segundo o mdico.
0 Dr. Johnston   queria ainda fazer a Diana um ultra~som, para clarificar uma srie de pontos importantes que eram cruciais para a sua avaliao; precisava de conhecer 
a sua musculatura uterina, o tamanho do seu folculo e se o corpo dela respondia adequadamente  sua prpria produo hormonal. Garantiu~lhe que a ecografia no 
era muito incmoda, e no foi, de facto; e ela estava aliviada pelo facto de tudo parecer normal at quele momento.
Quando Diana voltou ao consultrio dois dias depois para outra ecografia, a fim de verificar se o folculo se havia rompido e libertado o vulo, o mdico estava 
em condies de lhe dizer que sim, e tinham avanado mais um passo.
Bill e Denise convidaram-nos de novo para jantar no dia seguinte, mas Diana estava to exausta da tenso dos ltimos exames, forada a ir ao mdico trs vezes naquela 
semana para testes e ecografias, que no se sentia capaz de sair; por fim, insistiu para que Andy fosse sem ela. Queria apenas ficar na cama e descansar, e rezava 
para que naquele ms tivesse realmente engravidado. Dir-se-ia que nada j a interessava a no ser isso. 0 prprio trabalho perdera importncia, embora no emprego 
houvesse pelo menos Elose para conversar. Mas at os amigos e a famlia lhe pareciam menos importantes  medida que ficavam cada vez mais dependentes do mdico. 
Toda a sua vida parecia destinar-se exclusivamente a esse objectivo, mais ainda do que at ali. Por vezes tinha a sensao de que vinha perdendo Andy de vista.
Na segunda-feira foi de novo ao mdico e     tiraram-lhe sangue para verificar os seus nveis de progesterona durante  a fase mdioluteal, sete dias aps a ovulao. 
A temperatura tinha-lhe subido aps o aumento da LH, o que era normal e um indcio de que a ovulao tivera lugar. E agora restava-lhes esperar para ver se estava 
grvida.
Pareceram dez dias interminveis; no era capaz de concentrar~se fosse no que fosse, e ao mesmo tempo parecia uma loucura imaginar que as coisas pudessem ser diferentes 
nesse mes, quando no lhe haviam recomendado nenhum tipo de medicao, e se limitavam a recolher dados. Mas ela tinha uma esperana enorme, apesar de tudo, e dois

0 PREO DA VENTURA                          129
dias antes da data em que devia chegar-lhe o perodo, comeou a sentir nuseas e essa esperana aumentou vertiginosamente na manh em que aquele devia aparecer-lhe 
e no apareceu.
Telefonou nesse dia do escritrio ao Dr. Johnston, mas ele acon~ selhou-a esperar mais um dia ou dois; o seu corpo no era unia mquina, e normalmente havia variaes. 
E nessa noite ela teve o periodo e soluou amargamente deitada na cama, depois de descobrir. Ficou destroada, interrogando~se que outros testes teriam eles na manga 
para si, quando tudo estava a tornar-se cada vez mais desanimador.
Quando telefonou ao mdico no dia seguinte, ele sugeriu que Andy devia marcar uma consulta. At  data todos os testes dela estavam aparentemente normais.
- Lindo! Isso quer dizer o qu? - perguntou Andy irritadssimo quando ela lhe disse nessa noite que precisava de telefonar ao Dr. Jolinston para marcar uma consulta. 
- Que ele pensa que a culpa  minha?
- Que importncia tem de quem  a culpa desde que verifiquemos que est tudo bem? No me interessa se a culpa  tua ou minha, talvez no seja de ningum, talvez 
no exista nenhum problema. Quem sabe se os outros no tinham razo e s precisemos de tempo. No fiques to nervoso! - dizia-lhe, meigamente, mas a sua irritao 
aumentou quando telefonou a marcar a consulta e lhe disseram que devia levar um frasco de smen; recomendaram~lhe que no tivesse relaes nos trs dias anteriores 
 recolha da amostra.
- Muito bem! - queixava~se nessa noite a Diana. - Esperam que faa o qu? Que fique de repente entesoado no escritrio e corra a seguir para o mdico? As minhas 
secretrias iam adorar!
- E achas que me agrada correr para l algumas trs vezes para fazer ecografias? Pra de piorar as coisas ainda mais. - Mas era horrvel, e ambos o sabiam.
- Est bem, est bem! - No disse absol   'utamente mais nada sobre o assunto, mas as coisas estavam tensas entre os dois e Andy foi rude para ela na manh em que 
devia ir ao Dr. Johnston, e mostrou-se claramente hostil com o mdico quando se sentou no seu consultrio. No, nunca tivera gonorreia, nem sfilis, nem clamidia, 
nem herpes nem nenhuma das doenas que o mdico mencionava. Nunca tivera infec-

lio                        DANIELLE STEEL
es, nem tumores, nem problemas com as suas ereces, nem impotncia ou outras doenas graves em toda a sua vida.
0 mdico estava consciente da sua hostilidade, mas j se habituara com os outros doentes. Era urna situao constrangedora para qualquer pessoa, e afinal ele estava 
a lanar um repto  virilidade de Andy.
Explicou que iam extrair-lhe sangue naquele dia para verificar os seus nveis hormonais, e com o smen que trouxera consigo iriam fazer algumas anlises e culturas. 
Ia ser efectuada uma contagem do esperma, bem como um perfil hormonal completo, e era possvel que tivesse de l voltar para tirar mais sangue porque os nveis hormonais 
masculinos variavam extremamente, dependendo por vezes da hora do dia ou da sade momentnea do homem.
Uma vez feita a colheita de sangue, o mdico quis examin-lo para ver se havia varicoceles, veias varicosas nos testculos, que podiam interferir na fertilidade 
e constituir um problema grave.
E exactamente como Diana, quando concluiu os exames Andy estava exausto. Nenhum destes fora particularmente extenuante, mas a simples tenso emocional era suficiente 
Para arrasar uma pessoa.
Quando chegaram os resultados, Andy ficou aliviado ao descobrir que eram completamente normais. 0 seu nvel de esperma rondava os duzentos milhes, o que o mdico 
afirmava ser extremamente saudvel, e a concentrao de esperma de 180 milhes por milmetro. E todos os testes hormonas eram regulares.
- E agora? - perguntou Andy timidamente, mas com um alvio enorme, quando o Dr. Johnston lhe telefonou trs dias depois com os resultados. De certa forma, agradava-lhe 
saber que no havia nada de errado consigo mas, subitamente, comeou a preocupar-se com Diana.
- isso quer dizer que estamos os dois ptimos e que  apenas uma questo de tempo? - Se assim fosse, tinha valido a pena todo o stress, pelo menos pela informao, 
Mas o Dr. Johnston no estava aparentemente disposto a dispens-los, agora que tinham comeado.
- E possvel que sim. Mas eu gostava de avanar mais uns passos com Diana, Continua a preocupar-me o facto de ela ter usado o DIU h vrios anos, e gostava de lhe 
fazer um histerossalpingograma este ms, antes da ovulao.  um estudo do tracto reprodutor superior, no qual introduzimos uma tinta radiopaca, e fazemos um raio 
X - Parecia um exame extremamente vulgar, mas Andy tinha as suas suspeitas.

0 PREO DA VENTURA                           131
 doloroso?
s vezes - admitiu honestamente -, nem sempre.  desconfortvel. - Esta era a palavra que ele menos gostava de ouvir da boca de um mdico. "Desconfortvel" significava 
em geral que, mesmo sem a pessoa ficar propriamente a contorcer-se no cho, andava muito perto disso. - Podemos dar~lhe alguns analgsicos no hospital. Antes, ela 
ter de tomar doxiciclina durante uns dias, s para ter a certeza de que no h infeces. Nem todos costumam receitar antibiticos para este tipo de exame, mas 
eu prefiro,  mais seguro. Em muitos casos, o prprio exame estimula as trompas e as pessoas engravidam nos seis meses seguintes.
- Parece valer a pena experimentar - arriscou Andy.
- Penso que sim - disse o Dr. johnston num tom tranquilo. Eu vou telefonar-lhe.
Quando telefonou, Diana no estava contudo muito segura. Ouvira contar coisas horrendas do teste s mulheres do escritrio. Diziam que era doloroso, uma delas tinha 
feito uma alergia  soluo de tinta que utilizavam e tivera uma reaco terrvel. Perguntou a Eloise o que sa'bia acerca disso, mas esta no adiantou grande coisa. 
Era bvio porem, que por muito suave que fosse, o histerossalpingograma no seria nenhum petisco. Mas por outro lado, oferecia informaes preciosas pelas quais 
eles ansiavam. A tinta era colocada dentro dela e eles viam~na mover-se atravs das trompas num cran de televiso. Isso revelaria eventuais malformaes do tero, 
tumores que tivessem escapado ao scan e bloqueio nas trompas, o que era, de momento, a vaga suspeita do Dr. johns~ ton como possvel causa do problema. Este dissera 
a Diana que, uma vez feito o exame e se tudo estivesse normal, no havia necessidade de prosseguir com novos testes. Ela podia presumir que acabaria provavelmente 
por conceber sem necessidade de preocupar-se mais, nem ela nem Andy, com os seus rgos reprodutores, Se no entanto o HSG mostrasse alguma coisa de anormal, podiam 
fazer uma laparoscopia mais para o fim do ms, e ento teriam todas as respostas finais. No via vantagem em torturar os doentes durante meses com testes desnecessrios 
ou respostas que se arrastassem indefinidamente. Como as suas ovulaes eram comprovadamente normais, e a sua mucosa e o esperma dele absolutamente normais e compatveis, 
a nica coisa que

132                           DANIELLE STEEL
queria ver agora era se as suas trompas estavam de facto obstruidas, e depois disso daria por terminados todos os exames.
- Que lhe parece? - perguntou o Dr. Johnston a Diana pelo telefone. - Quer fazer o HSG este ms, ou prefere esperar e tentar novamente? Claro que podemos esperar. 
- Mas a verdade  que ele no recomendava mais esperas. No era adepto de fazer as pessoas sofrer decepes atrs de decepes, uma e outra vez, quando no existia 
uma esperana concreta ou se havia de facto um problema insolvel.
- Preciso de pensar melhor esta noite - disse ela, nervosa. Amanh telefono-lhe.
- Muito bem.
- Diana tinha a sensao de que nunca mais ia libertar-se dele. Naquele ltimo ms raramente tinham estado com amigos, no era capaz de concentrar-se no trabalho, 
no queria ver a familia. E Andy tambm j no telefonava aos irmos. Consagravam todo o seu tempo a tirar temperaturas, a fazer grficos, a preparar testes, a correr 
para os mdicos. 0 Dr. Johnston tinha-os avisado de que ia ser assim, e que um psiquiatra podia constituir uma ajuda preciosa. Mas tambm no tinham tempo para isso. 
Andavam demasiado ocupados a trabalhar, a fazer exames, a tentarem suportar-se um ao outro no que vinha tomando contornos de uma crise constante.
- Que te parece, querida?   - perguntou~lhe Andy ternamente nessa noite. - Queres fazer o bingograma ou l como eles lhe chamam? Ela sorriu-lhe; continuava a querer 
saber por que razo no engravi~ dava; no entanto aquele teste assustava-a terrivelmente.
- Ias comigo? - perguntou-lhe com ansiedade, e ele assentiu com a cabea.
- Claro, se eles deixarem.
- 0 Dr. Johnston disse que deviam deixar. Ele quer fazer o exame na sexta-feira.
- Calha-me bem esse dia - disse Andy maquinalmente. - No tenho nenhuma reunio importante.
- Perfeito. Ento no h motivo para no se fazer - observou ela num tom rispido, e Andy virou costas e foi fazer caf para os dois. Quando voltou, ela olhou-o 
desconsolada. Tinha decidido. Valia a pena, pelo menos pela informao.
- Est resolvido. Vou fazer.

0 PREO DA VENTURA                            133
- s uma rapariga corajosa, Di. - No sabia COMO se sentiria no
lugar dela. At ali, a sua contribuio nos testes tinha sido muito fcil. Na sexta-feira de manh foram ter com o mdico ao hospital, e este explicou-lhes todo 
o processo numa pequena sala de observaes, dando em seguida dois comprimidos a Diana para as dores. Uma enfermeira aplicou uma soluo de iodo na regio que ia 
ser observada, uma outra administrou-lhe atropina e glucanon para relaxar os msculos, e Minutos depois a tinta foi cuidadosamente inserida. Diana podia ver as imagens 
no monitor, embora no lhe dissessem grande coisa. Quinze minutos depois, estava concludo. Os joelhos tremiam-lhe, sentia cibras, mas estava aliviada por tudo 
ter terminado, assim como Andy, que durante todo o exame lhe admirava a coragem, chegando a desejar estar no lugar dela; e por mais de uma vez se interrogou se tudo 
aquilo valeria a pena. Comeava a ter dvidas. Que necessidade havia de terem um beb, Santo Deus?
- Ests bem? - perguntou a Diana num tom inquieto, quando ela se contorceu, e por fim se sentou. Mas ela fez que sim com a cabea. Sobrevivera, e tudo o que desejava 
agora era saber o que havia descoberto o Dr. Johnston. Este conferenciava com dois tcnicos ali presentes, e depois ficou a observar atentamente uma das imagens 
com o radiologista. Havia uma rea sem tinta que parecia prender-lhes a ateno.
- 0 que se passa? - perguntou Andy em voz baixa.
- Bom, captmos aqui qualquer coisa interessante. - Johnston virou-se para os dois. - Veremos. Falaremos disso mais tarde. - Andy e uma enfermeira ajudaram Diana 
a limpar-se, enquanto Johnston e o colega voltavam a consultar o monitor, e por fim Diana sentou-se vagarosamente com as pernas j fora da marquesa, meio coberta 
com as roupas. Ainda estava um pouco plida, mas parecia calma quando Johnston se lhes dirigiu.
- Como se sente? - perguntou este afavelmente, e ela encolheu os ombros.
- Como se me tivessem atropelado com uma bulldozer - respondeu, e Andy ps os braos em redor dela, apertando-a contra si.
- Parece-me que valeu bastante a pena fazer o teste - observou
Johnston serenamente. - Talvez tenhamos descoberto o nosso culpado. A sua trompa direita parece obstruda, Diana, e a esquerda tambm est um pouco turva. Gostava 
realmente de marcar consigo uma laparosco~

134                        DANIELLE STEEL
pia para a prxima semana, de forma a podermos ver o que se passa. Talvez tenhamos encontrado a nossa resposta.
- E se estiverem obstruidas? - Diana parecia estarrecida. - o senhor pode abri-Ias?
- Possivelmente. Ainda no sei. Vou saber melhor depois da laparoscopia.
- Merda! - exclamou ela, ficando a olh-los fixamente para logo em seguida fitar Andy. No estava preparada para ms motcias. Poder finalmente saber que havia de 
facto um problema no a aliviava tanto
como esperava.
Marcou a laparoscopia com o mdico para a semana seguinte. Tratava-se de um processo cirrgico que envolvia uma pequena inciso junto do umbigo, atravs da qual 
inseriam um telescpio que lhes permitiria ver as trompas, o tero, a regio em redor e algumas possveis obstrues. E dessa vez, ele prometia que no envolveria 
a menor dor. Era feito com anestesia geral.
- E ento? Depois disso? - inquiria ela, querendo agora saber tudo.
- Ficaremos a saber em que p estamos, Diana. Mas o HSG confirmou-me que fizemos bem em insistir teimosamente. - Ela no sabia se lhe estava grata ou se o odiava, 
mas agradeceram-lhe e deixaram o hospital meia hora depois. E em vez do alivio que esperara de um teste doloroso, tinha agora  sua frente a perspectiva de um cirurgia 
na semana seguinte. Queria evit-lo, mas o desnimo era mais forte. E sentia-se milhares de anos mais velha quando entrou em casa e atendeu maquinalmente o telefone, 
que estava a tocar.
Era a irm, Sam, que queria saber como ela estava, A ltima pessoa  superficie da Terra com quem Dana desejava falar.
- ol, Sam. Estou ptima. E tu, como ests?
- Gorda - queixouse a irm, Ficava sempre enorme durante a gravidez, e naquele momento j tinha passado dos trs meses - Pareces pssima. H algum problema?
- Constipei-me.  melhor desligar.
- Est bem, querida, tem cuidado. Eu telefortwte urri destes dias,
- No o faas, murmurava Diana para consigo mesma ao desligar o telefone... no voltes a telefonar... nunca mais... no me digas conio ests gorda ... como ests 
grvida- no me fales dos teus filhos nem do teu beb ...

0 PREO DA VENTURA                          135
- Quem era? -Andyacabara de entrar atrs dela,
- Sam - respondeu apaticamente.
- Oh! - Ele compreendeu imediatamente. - No devias falar com ela. No atendas mais o telefone. Eu digo~lhe que saste. Mas o irmo de Andy, Greg, no teve melhor 
sorte quando lhes telefonou nessa noite e se lembrou de perguntar quando teriam um beb.
- Quando tu prprio cresceres - gracejou Andy, mas a observao tambm o ferira. Quanto a Dana, t-la-ia desfeito.
- Ento bem podes esperar - ripostou o irmo.
- j calculava.
Greg propunha-se visit-los no dia do Trabalhor, mas Andy achou melhor que no o fizesse. No sabia como ela iria sentir-se aps a laparoscopia na semana seguinte, 
e o feriado caia justamente mais ou menos nessa altura. Talvez estivesse ento deprimida... ou em plena operao... ou mesmo grvida. j era impossvel fazer planos, 
levar, inclusive, uma vida normal, Por vezes Andy pensava como podiam tantas outras pessoas aguentar aquilo, ou mesmo se teriam recursos. At ali os testes tinham 
sido incrivelmente caros, e a laparoscopia seria certamente bastante mais.
Greg disse que compreendia, que viria noutra altura. Andy deu a desculpa de que andava muito ocupado com o trabalho para ter hspedes, o que pareceu ao irmo muito 
pouco corts. Mas era preferivel a ter de lhe confessar o inferno que era a sua vida naquele momento.
- Est a fazer da nossa vida uma merda, no ? - observou Diana tristemente quando jantavam na cozinha naquela noite. At a casa parecia agora grande para eles; 
havia divises a mais que no utilizavam, um andar inteiro com quartos que possivelmente nunca seriam utilizados.
- No podemos deixar que isso acontea, meu amor - insistia Andy, fazendo-se valente. - E o mdico tem razo, no final de Agosto saberemos tudo e ento, a partir 
da, podemos chegar a uma concluso. Se houver algum problema, eles hode poder com certeza resolv~ ~lo rapidamente.
E se no puderem?
Temos de viver corri isso, no  verdade? H uma srie de possibilidades.  Andara ultimairiente a ler bastante sobre a fecundao n vitro.
Nunca permitiria que tivesses de "viver com isso" - disse ela, e

150                         DANIELLE STEEL
os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. - Preferia divorciar-me e dei~ xar-te casar com algum que pudesse ter filhos.
- No sejas parva! - Ouvi-Ia dizer aquilo, sabendo como ela se sentia, entristeceu-o profundamente. - Podemos adoptar, se no houver outra soluo.
- Porque  que havias de fazer isso? No tens necessidade. 0 problema no  teu.  meu.
- Provavelmente no  de ningum. Talvez ele esteja enganado. Talvez a obstruo que ele viu seja alguma coisa que comeste ao almoo, por amor de Deus! Entendido? 
Porque no te limitas a esperar at se descobrir? - Levantara a voz e abanava a cabea. Ela tinha razo. Aquilo estava a fazer das suas vidas um inferno. E a tenso 
ia~se apoderando dos dois.
-  - disse ela tristemente -, talvez sejam uvas. - Mas desta vez Andy no sorriu, era~lhe impossvel.

CAPITULO 7
Os dia anteriores  laparoscopia pareceram arrastar-se, mas subitamente era sexta-feira. Diana no tinha comido nem bebido nada desde a noite anterior e Andy levou~a 
de carro ao hospital de manh cedo.
Deram-lhe uma injeco quando ali chegaram, e minutos depois levavam-na numa cadeira de rodas, Diana fitando Andy com um olhar sonolento e acenando-lhe. Quando lha 
trouxeram de novo por volta do meio-dia, ainda estava muito atordoada. Mas Alex Johnston j viera falar com ele, e Andy ficou a par de todas as ms notcias antes 
dela. Andy no lhe disse nada quando ela chegou, mas o Dr. Johnston veio v-los nessa tarde e fez-lhes o relatrio completo.
- Qual  o aspecto? - perguntou ela muito nervosa, sentando-se na cama quando o mdico entrou no quarto. Por instantes, ele no respondeu. Olhou Andy de soslaio, 
e ento sentou-se e fitou-a. No tinha boas notcias para ela, e ao olh~lo ela j o sabia. - No est bem, pois no?
- No, no est - respondeu num tom sereno. - As duas trom~ pas esto seriamente cauterizadas, uma delas est aparentemente bloqueada e a outra danificada. H aderncias 
graves nos dois ovrios. Tenho as minhas dvidas de que alguma vez um vulo seja capaz de passar para as trompas. No tivemos boas notcias hoje, Diana. - Ela olhava-o 
incrdula, incapaz de aceitar o que ouvia. No podia ser to mau como dizia, ou podia?
- E o senhor pode remediar? - perguntou com a voz enrouquecida.
Ele abanou a cabea. .

138                         DANIELLE STEEL
- No h absolutamente nada que possamos fazer. Uma das trompas ainda podia sugerir algumas possibilidades, mas voc tem aderncias graves nos dois ovrios e no 
intestino, Os danos so to grandes que no vejo como poderamos remedi-los. No  totalmente inipossvel que um vulo conseguisse passar, mas  extremamente improvvel. 
Bem sei que vm acontecendo coisas estranhas. Mas eu diria que voc tem uma em dez mil probabilidades de vir um dia a engravdar. E as aderncias nos ovrios so 
de tal modo considerveis que uma tentativa de recuperao do vulo podia danificar o intestino. Isto exclui desde j a fecundao n vtro. Penso que, se fizssemos 
alguma coisa, teramos de ir para um transplante ovular, utilizando o vulo de outra mulher fecundado com o esperma de Andy e colocado no seu tero, mas tambm no 
h garantias de xito. Pelo aspecto, parece que todo o seu sistema reprodutvo foi traurnatizado por uma grave infeco, provavelmente causada pelo seu DIU, uma 
infeco "silenciosa", como lhe chamamos, sem nenhuns sintomas, nenhum aviso.
- Creio que se voc engravidasse - prosseguiu o mdico - seria um autntico lance de sorte, e no vemos muitos casos desse tipo neste ramo. No h realmente grande 
coisa que possamos fazer, a no ser a doao de um vulo, ou a adopo.
Havia lgrimas correndo pelas faces dela e Andy tambm chorava. Aproximou-se dela, apertando-lhe a mo com todas as suas foras. Mas no tinha meios de afastar a 
dor que ela sentia, nem a verdade daquilo que tinham descoberto, Tudo quanto podia fazer era desejar que as coisas tivessem sido diferentes.
- Como  que isto aconteceu comigo? Porque  que eu no sabia? Porque nunca o senti? - Toda uma parte de si havia morrido e ela desconhecera-o at agora. Parecia 
impossvel que uma coisa to cruel pudesse ter sucedido,
-  a natureza de uma infeco silenciosa - explicava o Dr, Johnston -, e uni DIU , na maior parte dos casos, o culpado, Infelizmente no  invulgar. Nenhuma dor, 
nenhum sinal, nenhuma descarga, nenhuma febre, mas unia nfeco to grave que destri as trom pas, e neste caso ternos ainda os ovrios com aderncias. No posso 
dizer-lhe quantas mulheres jovens observamos na mesma situao, S lamento que tenha sucedido consigo. No  justo, mas tem outras alter

0 PREO DA VENTURA                          139
nativas. - Queria dar-lhe esperanas, mas estava unicamente a trazer~ -lhe o desespero. 0 sonho de ter o seu proprio beb estava desfeito,
- No quero o vulo    de outra mulher! Prefiro no ter filhos.
- Diz isso agora, Mas   pode querer pensar no assunto mais tarde.
- No, nunca, e no quero adoptar! - gritava. - Quero o meu prprio beb! - Porque tinham as irms concebido to facilmente? Como era possvel com as outras e com 
ela no? E quem a mandara usar o maldito DIU? Queria descarregar sobre algum e no existia ningum para recriminar, ningum de quem se vingar, nenhuma forma de 
suster a dor e de superar as coisas. Andy abraou-a enquanto ela soluava e, por fim, o mdico deixou~os entregues um ao outro. No havia mais nada que pudesse fazer 
naquele momento.
- Minha querida, lamento tanto, tenho tanta pena de ti! - dizia-lhe Andy, e repetia-o, e tornava a repetir, apertando~a nos braos. E pouco depois foram para casa, 
Diana com a barriga dorida, o ventre no s vazio como estril.
- No posso crer - dizia para Andy ao chegarem  porta de casa. E ento olhou  sua volta com horror. Subitamente, odiava aquela casa.
- Quero vender esta casa - anunciou quando entraram no quarto. Aqueles quartos l em cima so como uma acusao. "Es estril!,>, gritam eles. "Nunca ters um beb". 
- Queria morrer quando pensava nas palavras do mdico.
- Porque no pensamos no que ele disse, a respeito das outras alternativas? - sugeria Andy num esforo de serenidade. Procurava no a entristecer ainda mais, mas 
ele prprio estava desolado. Fora um dia extenuante para ambos e agora tinham de olhar em frente, encarar o que iam fazer de uma vida inteira. Nada correspondia 
ao que haviam planeado 'e a perspectiva de alterarem os seus projectos no era fcil nem animadora. - Essa coisa do vulo doado pode ser formidvel,
- No  formidvel! - grtou~lhe, e de repente Andy desconhe ceua,  No existe nada de formidvel nesse processo repugnante, Formidvel  ter o seu prprio filho, 
e eu no posso, No ouviste?  Soluava histericamente, e ele no sabia o que fazer para acalm4a. Tambm era deprimente para si, embora fosse pior para ela porque 
era no seu corpo que se alojava o defeito fatal.
- E se falssemos di"o noutra altura? - disse carinhosamente

140                         DANIELLE STEEL
enquanto lhe abria a cama para ela se poder deitar, Sabia que devia estar com dores por causa da inciso.
- No quero tomar a falar nesse assunto. E se quiseres divorciar-te, tudo bem - rematou, ainda entre soluos, quando subia para a cama, parecendo destroada.
Ele sorriu-lhe tristemente. Ela estava um farrapo mas tinha todas as razes do mundo para isso, e ele amava-a mais do que nunca.
- No quero divorciar-me, Di. Amo-te E se dormisses um pouco? Amanh estaremos os dois bastante mais lcidos para conversar.
- Que diferena faz? - murmurou ela desconsoladamente enquanto se deitava. - j no h amanhs. Nem a semana que vem, nem testes azuis, nem temperaturas. No h 
nada. - A expectativa tinha acabado, mas ficara-lhes o desgosto permanente. Talvez no fosse to mau como parecia, dizia para consigo quando correu os estores e 
saiu do quarto, na esperana de ela adormecer. Mas Diana no fez outra coisa seno chorar durante todo o fim de semana. E na segunda-feira foi para o emprego como 
quem tivesse perdido algum de famlia. E a nica coisa de lcido que fez foi recusar-se a atender todas e quaisquer chamadas das irms.
Parecia um zornbe na semana seguinte, sem que Andy, a despeito de todos os seus esforos, pudesse fazer alguma coisa para consol-la. No escritrio, Eloise tentou 
lev-la a almoar, mas Diana esquivou-se. No queria ver nem falar com ninguem - nem mesmo com Andy.
Antes do dia do Trabalhor, tentou convenc-la a irem ao casamento de Bill e Denise em Lake Tahoe, mas Diana recusou-se categoricamente e, aps uma semana de luta, 
ele acabou por ir sem ela. Aparentemente no se importou, mas ele tambm no se divertiu, embora sentisse que era bom estar longe do seu frenesim e da constante 
dor surda do seu dia-a-dia. Era uma permanente agonia e ele no fazia ideia de como convenc-la de que a vida no tinha terminado para eles.
- Nem tu morreste, nem eu - disse-lhe finalmente -, nem temos doenas mortais. A nica coisa que h de diferente  sabermos que no vamos ter um beb. Mas recuso-me 
a desistir do meu casamento por causa disso. Claro que quero midos. E talvez um dia adoptemos alguns. Mas neste momento, existes tu e eu. E vamos destruir-nos um 
ao outro se no reagirmos juntos. - Estava decidido a repor a normalidade nas suas vidas, mas Diana j nem mesmo se lembrava do que isso era,

0 PREO DA VENTURA                           141
Discutia constantemente com ele, barafustava por tudo e por nada,
ou passava dias sem lhe falar. Os seus nicos momentos de aparente equilbrio eram quando ia trabalhar, mas regressava sistematicamente a casa num estado de semiloucura, 
levando~o por vezes a pensar se no estaria a tentar destruir-lhes o casamento. j no estava segura de nada, dele, de si mesma, dos amigos, do trabalho, e sobretudo 
do seu futuro.
No sbado do dia do Trabalhador, Mark, o velho amigo de Charlie, levou-o a jantar fora. A sua actual namorada ausentara~se por uns dias para visitar os pais na Costa 
Oriental e ele tinha descoberto que Charlie tambm estava sozinho durante o fim de semana.
Nessa tarde haviam estado os dois a jogar bowlng, depois foram beber umas cervejas e ver o jogo de futebol no bar preferido de Mark. Era o tipo de tarde que ambos 
apreciavam, embora raramente tivessem tempo para isso. Um e outro trabalhavam imenso e na maioria dos fins-de-semana Charfie fazia o que Barbe queria fazer, normalmente 
ir s compras ou estar com amigos. E uma coisa que ela detestava fazer com ele era jogar bow1ing.
- Ento, novidades, mido? - perguntou Mark num tom afectuoso, quando os Mets marcaram. Apreciava a companhia de Charlie e preocupava-se sinceramente com o bem~estar 
do jovem amigo. Nunca tivera um filho, apenas duas raparigas, e pensava muitas vezes que a sua afeio por Charlie era igual  que sentiria por um filho, se o tivesse. 
- Onde foi Barbie? A Salt Lake City ver os parentes? - Mark sabia que ela tinha nascido ali, mas no certamente que Barbie preferia morrer a tornar a ver a famlia. 
Charlie nunca deixava escapar nenhum dos segredos da mulher.
- Foi a Las vegas com uma amiga - informou-o Charlie com a maior das naturalidades, e sorriu ao amigo. Tambm gostava muito de Mark; era extremamente bondoso para 
si no trabalho e nos ltimos trs anos tnham-se tornado amigos leais e bons camaradas.
- Ests a brincar! - Mark parecia chocado. - Que espcie de amiga?
- A sua antiga companheira de quarto, a Judi. Foram rever velhos camaradas. Elas viveram l.
- E deixaste-a ir sozinha?

142                        DANIELLE STEEL
- j te disse... foi com a Judi. - A sua preocupao divertia Charlie.
- s louco, Judi desaparece num abrir e fechar de olhos com um tipo qualquer, e o que  que pensas que vai acontecer com Barbie?
- Ela j  crescida. Sabe cuidar de si. E se tiver algum problema,
telefona-me. - Tinha a certeza de que estava bem, e tinha ficado to excitada com a ideia da viagem; estivera quase dois anos sem voltar a Las Vegas e as tristes 
marcas desse tempo j se lhe haviam apagado do esprito. Agora apenas conservava as recordaes das pndegas e da animao,
- E tu, porque no foste? - perguntou-lhe Mark enquanto encomendava uma pzza pepperon.
- Oh... no  o meu meio. - Charlie encolheu os ombros. Detesto essas coisas. 0 barulho, aquela loucura, no gosto de jogar, posso apanhar a minha pielazinha aqui 
em casa se for isso o que me apetece fazer - mas raramente era isso -. Qual a necessidade de ir a Las Vegas? Ela vai dvertr~se mais com as amigas, sem me ter pendurado 
nas saias, nem eu de aturar-lhe as risadinhas e os guinchinhos, conversando sobre namorados e produtos de beleza.
- Ainda no se libertou dessas trapalhadas, pois no? - Mark parecia seriamente preocupado, e Charlie sorriu, comovido com o interesse do amigo.
- Que trapalhadas? Namorados e produtos de beleza? - gracejou Charlie. Ele confiava totalmente em Barbie. - Ela  formidvel. Gosta, l isso  verdade, de parecer 
de vez em quando atraente, dar nas vistas, f-la sentir~se como se ainda fosse actriz. Este ano no tem tido grande trabalho, e a nossa vida  um bocado pacata. 
- Ele gostava, mas reconhecia que a ela fazia falta a animao do seu antigo estilo de vida, embora se afirmasse sempre satisfeita por se haver libertado de tudo 
graas a Charlie.
- E que mal h em ser pacata? - resmungou Mark, e o homem mais novo soltou uma gargalhada.
- Pareces meu pai... se tivesse tido algum. - Charlie no podia negar que lhe agradava o facto de Mark se preocupar daquela maneira consigo. Ningum o fizera antes, 
excepto Barbie, claro.
- No devias t-la deixado ir a Las Vegas. Uma mulher casada no faz essa sujeira, 0 seu dever  ficar em casa com o marido. 0 que 

0 PREO DA VENTURA                          143
que tu sabes? Nunca tiveste uma me em criana. Mas se a minha inulher me fizesse isso, divorciava-me num instante.
- E foi o que fizeste, de qualquer maneira - espicaou-o Charlie, e Mark riu-se envergonhado.
- Foi diferente. Eu divorciei-me porque ela tinha um caso com outro. - 0 melhor amigo de Mark na altura, soubera Charlie. E levara~lhe as duas filhas e sara de 
New Jersey para ir viver em Los Angeles, por isso ele viera para a Califrnia. Para estar mais perto das filhas.
- No te preocupes tanto. Estamos bem. Ela tem necessidade de um pouco de diverso, s isso. E eu entendo.
- s um bonacheiro. Deixa-me que te diga! - e punha o dedo em riste em jeito de advertncia, no momento em que chegava a pzza:
- Eu era assim, mas aprendi... agora sou duro! - Simulava um ar severo, mas ambos sabiam do seu fraco por mulheres. Faziam dele o que queriam, desde que no andassem 
metidas com outros tipos. Era a nica coisa que no tolerava. Mas tambm estava a ser sincero com Charlie. Nunca consentiria que uma namorada sua o abandonasse num 
fim de semana para ir a Las Vegas.
- E tu, que novidades tens? - foi a vez de Charlie perguntar, enquanto iam comendo a gigantesca pzza. - Como esto a Marjorie e a Helen? - Eram as filhas, uma delas 
j casada e a outra ainda na Faculdade, e faziam o orgulho da sua vida. Era louco pelas duas, e ai de quem se atrevesse a no ach-las sensacionais: era escorraado 
da vida de Mark, sobretudo se fosse mulher.
- Esto ptimas. J te disse que a Marjorie est  espera de beb para Maro? Custa~me a crer... o meu primeiro neto. j sabem que  rapaz. As coisas mudaram realmente 
desde os meus tempos. - E subitamente ficou muito srio, pensando quando  que Charlie se resolveria a fazer o mesmo. Talvez fosse disso que Barbie estava a precisar, 
para a prender em casa e acabar com as idas a Las Vegas. - E tu? No vem nada a caminho? Est mais ou menos na altura, no te parece? Vocs casaram-se, deixa-me 
ver... catorze, quinze meses? isso sossegava a menina num instante.
-  disso que ela tem medo - atalhou Charlie tristemente, mas o problema no era querer ou no querer, e sim o que no estava a acon~ tecer. Segundo os livros que 
lera sobre essa matria, e tinham sido mui~ tos nos ltimos tempos, estavam a fazer amor exactamente no momento

144                          DANIELLE STEEL
certo de cada ms para gerar um beb. No entanto, aps quatro meses de intensa observncia do seu plano, no acontecera absolutamente nada. E Charlie corneava a 
ficar preocupado.
- Ela no quer crianas?
- Isso  o que ela diz agora - respondeu Charlie, nada ntimidado com as palavras dela e procurando transmiti-]o a Mark. - Mas acabar por mudar de ideias. Ningum 
resiste a uma criana. Ela s tem medo que lhe estrague a carreira, um dia que fique grvida, que lhe surja a sua grande oportunidade e no possa aproveit~la,
- Talvez nem venha a surgir. No se pode sacrificar os filhos a isso - observou Mark com firmeza. Este no era muito complacente com os caprichos de Barbie. Considerava-a 
uma fulaninha mimada, lamentando ver Charlie a entrar no jogo. - devias engravid-la, qui~ sesse ela ou no - rematou Mark, redinando-se no assento com ar satisfeito, 
e Charlie suspirou.
- As coisas nem sempre so to simples.
- Ela toma a pilula?
- No. Pelo menos julgo que no. - Ele no tinha sequer pensado nisso, mas no lhe parecia que Barbie fosse to falsa a esse ponto. No queria uma criana naquele 
momento, s isso, e usava o seu diafragma, pelo menos quando no lhe chegava a preguia de se levantar, o que alis, para felicidade de Charlie, no era raro. 0 
desleixo de ambos em tomar precaues era de tal ordem que Charlie comeava a ficar cada vez mais apreensivo com a falta de resultados. E ela prpria tocara no assunto 
uns meses atrs, quando lhe confessara a sua admirao, descuidados como eram, por nunca ter engravidado. - No fao ideia - prosseguiu Charlie olhando envergonhado 
para o amigo -, mas at agora, no tem resultado. - 0 seu tom de voz era de desnimo e Mark parecia compadecido e preocupado. Sabia como Charlie desejava um filho, 
e considerava que era a melhor coisa que podia acontecer-lhe, alm de ser a grande oportunidade para pr Barbie na ordem, que era o que estava a pedir.
- Naturalmente no o fazem na altura certa. Sabes que no pode ser como antigamente, a coisa tem a sua cincia. Devias falar com o teu mdico. - Ele prprio no 
servia exactamente de exemplo, a primeira filha fora concebida no banco traseiro do carro quando tinha dezanove anos e ainda nem estava casado com a mulher, e a 
segunda

0 PREO DA VENTURA                         145
nascera dez meses depois da primeira. Ento a mulher laqueara as trompas, e a actual namorada tomava a plula. Mas sabia perfeitamente que havia momentos certos 
e errados para fazer a coisa, e no tinha a certeza se Charlie estava a par disso.
- Temos feito na altura certa, segundo os livros que estive a ler.
- Talvez seja ento melhor no se ralarem - sugeriu num tom de cumplicidade. - Vocs so saudveis e novos, h-de acontecer mais cedo ou mais tarde.
- Talvez. - Mas comeava a deprimi-lo o facto de no ter acontecido, e a sua preocupao aumentava.
- Achas que possa haver algum problema?
- No sei. - A apreenso no olhar de Charlie comoveu Mark, que lhe bateu amigavelmente no ombro e encomendou outra rodada de cervejas. 0 sero estava a ser agradvel 
e repousante para os dois.
- Tiveste papeira em pequeno, ou apanhaste muitas doenas venreas quando andavas por a na pardia?
- No. - Charlie sorriu s perguntas zelosas. - Nem uma coisa
nem outra.
Muito srio, Mark olhou para o amigo com preocupao.
- Sabes, a minha irm e o marido tiveram uma srie de dificuldades em ter filhos. Estavam casados havia sete anos, e nada. Vivem em San Diego. E ele foi a um mdico 
formidvel. A minha irm teve de tomar hormonas, ou injeces, ou l o que foi, e no estou bem certo do que fizeram ao meu cunhado, mas pelo menos sei que tinha 
de usar cales Jockey com cubos de gelo l dentro durante algum tempo. Parece esquisito, no ? Mas bam, bam, bam... tiveram trs midos, isso  que eu sei! Dois 
rapazes e uma rapariga. Hei-de perguntar-lhe o nome do mdico na prxima vez que falar com ela. Era um tipo famoso de Beverly Hills, custou-lhes uma fortuna, mas 
valeu a pena. Os midos so formidveis,
Charlie ainda sorria, a imaginar a figura do cunhado de Mark com cales Jockey cheios de cubos de gelo, quando chegaram as suas cervejas, e os dois desataram a 
rir. A vida tinha por vezes momentos agradveis, poder estar com um amigo, passar um sero despreocupado. Ele adorava estar com a mulher, mas no podia conversar 
com ela de coisas que lhe interessavam, as motivaes de Barbie eram to diferentes!

14                         DANIELLE STEEL
Ele e Mark tinham muitas coisas em comum, e Charlie apreciava profundamente a sua amizade.
- No sei se era capaz de pr cubos de gelo nos cales, sabes?
- Escuta, se resulta, que diabo... certo?
-  pena no estar casado contigo - gracejou Charlie -. Gosto da maneira como encaras as crianas - e sorria ao amigo.
- So o mximo. Vou arranjar-te o nome do mdico - insistiu, decidido a ajudar, como sempre.
- No sei se h algum problema, possivelmente ainda no tentmos o tempo suficiente, s em junho  que comecei a encarar isso a srio. Dizem que pode levar um ano, 
mesmo com um casal normal.
- Quem me dera ter tido essa sorte, pelo menos uma vez. - Mark revirava os olhos e ambos soltaram uma gargalhada. - De qualquer modo, que mal h em verificar? A, 
os tipos dizem-te que ests em grande forma, tu sentes-te um garanho, chegas a casa, atiras a mulher ao cho e, truz, fica grvida!  isso o que o mdico faz... 
levantar a moral s tropas, certo?
- s um tipo louco.--- - Charlie estava mais comovido com a sua preocupao do que deixava transparecer,
- Eu, louco? Fui eu que deixei a mulher ir a Las Vegas? Se h aqui algum louco, s tu.
- Sim. Talvez seja. - Charlie sorriu, mas sentia-se bem melhor, e os Mets estavam a ganhar quando terminaram as suas cervejas. Eram dez horas antes de Mark o levar 
a casa de carro, e depois de o amigo o deixar, Charlie seguiu lentamente a p para o apartamento, interrogando-se se devia ir ao mdico. Parecia um pouco exagerado 
ir a um especialista to cedo, e provavelmente nem existiria nenhum problema da sua parte, mas, por outro lado, talvez fosse tranquilizador. No deixava, contudo, 
de parecer estranho pensar nisso, quando Barbie nem sonhava que ele estivesse a empenhar todos os seus esforos para engravid-la. No tinha a menor suspeita. Na 
verdade, eJe seria a ltima coisa a ocupar-lhe o esprito naquela noite, divertindo-se com velhos amigos em Las Vegas e encontrando tipos que no via havia anos.
No fim de semana do dia do Trabalhador, Pilar descobriu pela terceira vez em trs meses que no estava grvida. A descoberta deixou-a

0 PREO DA VENTURA                         147
deprimida, mas filosfica. Ela e Brad j haviam concordado em consultar um mdico se no acontecesse nada naquele ms. Andara a fazer algumas indagaes discretas 
e Marina falara-lhe numa especialista em fertilidade de 13everly Hills, a qual, a ser to boa como assegurava a fonte da amiga, justificava a deslocao; Los Angeles 
ficava apenas a duas horas de viagem e os mdicos a quem telefonara a pedir conselho foram unnimes em afirmar que ela era uma especialista estupenda e valia a pena 
v~la.
No dia a seguir ao feriado, Pilar mareou uma consulta para a semana seguinte. Normalmente, teria que esperar meses, mas a amiga de Marina interviera, pedindo-lhe 
que a recebesse o mais cedo possvel e a especialista acedeu. E Brad, por sua vez, concordou em acompanh-la.
No sabia se lhe agradava a ideia de Marina lhes ter arranjado uma mdica; mas Pilar mostrava-se categrica e ele pensou que era impor~ tante para ela sentir-se 
 vontade com quem ia examin-la.
- 0 que iro fazer comigo? - interrogava, nervoso, durante o caminho. Brad tivera de suspender o caso que tinha entre mos nessa tarde, algo que raramente fazia.
- Provavelmente vo cortar-to, examin-lo e cos-lo de novo. Uma coisa de nada. Certamente no vo pegar no mais importante at  prxima consulta.
- Que animadora que tu s! - resmungou, e ela riu-se, grata por ele ter vindo. Tambm estava nervosa, sem a menor ideia do que a esperava. Mas no momento em que 
viram a Dra. Helen Ward, uma mulher baixa, de aspecto distinto, com uns olhos muito azuis e os cabe~ los mesclados de branco e preto, reconheceram que haviam batido 
na poria certa. Era inteligente e calma, objectivamente atenta quilo que eles queriam de si e clara nas informaes que lhes prestou. No incio, Brad achou-a um 
pouco fria, e excessivamente clnica, mas  medida que a conversa prosseguia, pareceu-lhes mais calorosa, e possua uni agradvel senso de humor. Exercia a Medicina 
da mesma forma que Pilar exercia o Direito, com humanidade e inteligncia, mas tambm com imensa pericia e rigor profissional. E tranquilizou-os saber que tinha 
frequentado a Escola Mdica de Harvard e que andava nos seus cinquenta e poucos anos, o que agradava tanto a Brad como a Pilar. Pilar fora particularmente clara 
em no querer um mdico jovem, infla-

mado e revolucionrio; desejava uma pessoa sria e calma, que escolhesse as vias tradicionais, embora fazendo tudo ao seu alcance para ajud-los.
Aps uma conversa inicial, comeou a preencher as suas fichas, fazendo a cada um perguntas pertinentes acerca da sua sade, os problemas clnicos passados e presentes. 
Brad estava satisfeito por ver como Pilar se mostrava  vontade com ela, sobretudo quando lhe falou do aborto que fizera aos dezanove anos. No gostava de falar 
no assunto, embora o tivesse contado a Brad num final de noite j bem bebida, sem deixar contudo de lhe confessar que ainda sentia remorsos. Tivera todas as razes 
do mundo para no deixar nascer aquele beb; era o seu primeiro caso amoroso e o tipo recusara-se simplesmente a ajud-la. Os pais t-la-iam no minimo renegado, 
ou pelo menos assim o pensava. E estava aterrorizada e desesperada o suficiente para acabar por fazer um aborto ilegal em Harlem. E agora, por mais de uma vez Pilar 
j tinha pensado se no seria aquele aborto o que a impedia de engravidar. Mas a Dra. Ward assegurou-lhe que no era muito provvel.
- Muitas das mulheres que fizeram vrios abortos tm em seguida filhos saudveis, e no h provas de que uma mulher que faa um aborto tenha mais dificuldades em 
engravidar. Se houver a seguir uma infeco grave, isso j  outra histria, mas por aquilo que me descreveu, parece bastante normal. - Aquilo tranquilizou imensamente 
Pilar.
Falaram dos filhos de Brad, dos mtodos contraceptivos que usaram nos ltimos catorze anos, depois ela quis saber das doenas de famlia, e ento fez uma exame a 
Pilar e no encontrou problemas aparentes. Como sempre, em relao  fertilidade, ela era muito cautelosa com as infeces.
- H alguma razo particular para quererem vir aqui? Nenhum dos senhores tem qualquer antecedente que sugira complicaes, e trs meses a tentar conceber  de facto 
pouco tempo para suscitar preocupaes - afirmou num tom encorajador, com um sorriso afvel, e Pilar ficou imediatamente a gostar dela.
- Tudo isso  ptimo quando se tem dezasseis anos, Dra. Ward. Eu tenho 43. No me parece que possa perder muito tempo.
- Isso  verdade. Podemos examinar algumas coisas, a sua FSH e os nveis de progesterona, que podem afectar a sua capacidade de engravidar, a tiride e a prolactina, 
pelas mesmas razes. Queremos ver

0 PREO DA VENTURA                           149
os seus nveis de progesterona acima de determinado nvel para assegurar a concepo. Podemos verificar a sua temperatura todas as manhs para fazer um grfico de 
BBT. E podamos dar-lhe um pequeno reforo com clomifenes s para ver se isso ajuda. 0 Clomifene nem sempre  eficaz nas mulheres de 40 anos, mas talvez valha a 
pena expe~ rimentarl. se estiver disposta.  uma hormona que vai induzir o seu corpo a produzir nveis excepcionalmente elevados de progesterona, a fim de ajud~la 
a engravidar.
- Isso no faz crescer plos no queixo? - perguntou ela abruptamente e a mdica riu-se.
- Que eu tenha visto, no. Pode, no entanto, torn-la um pouco mais tensa, dar-lhe uma sensao de stress durante os cinco dias de aplicao, e um pouco a seguir. 
Provoca em certas pessoas pequenas perturbaes visuais, por vezes dores de cabea ligeiras, e pode causar nuseas, oscilaes no humor, e mesmo quistos nos ovrios, 
mas, em geral, nada de significativo.
- Sou capaz de querer experimentar - disse Pilar, confiante. E qualquer coisa mais forte? Um choque hormonal?
- No vejo razo para isso, por enquanto. No queremos alimentar um entusiasmo excessivo em intervir na natureza.
Ela no queria ir longe de mais com uma mulher sem problemas aparentes. A Dra. Ward suspeitava que Pilar, se ela lho deixasse, teria pedido medidas mais drsticas, 
uma fecundao n vitro, incitando-lhe os ovrios a produzirem vrios vulos com o uso de hormonas, depois retirar vrios vulos dos ovrios, fecund-los num disco 
de Petri com o esperma do marido e por fim coloc-los no tero e esperar que ficasse grvida. Conseguia-se, em alguns casos, fecundar com xito o vulo, se o esperma 
e os vulos fossem saudveis, mas isso no garantia que a doente pudesse ficar grvida. No entanto, na idade de Pilar, no havia hipteses de fazer a fecundao 
in vitro. A maioria dos centros recusava-se a faz-la com mulheres perto dos 50 anos. E no era um pro~ cesso fcil; requeria doses macias de hormonas, uma extraco 
cautelosa dos vulos por mos experientes, e o mtodo oferecia unicamente urna taxa de sucesso de 10 a 20 por cento, Mas para as rarssimas e flizardas pessoas 
que o conseguiam, era uma ddiva dos cus.
Por fim a Dra. Ward fez algumas anlises de sangue a Pilar, passou-lhe uma receita de Clornifene, pediu-lhe que comeasse a tirar a

150                        DANIELLE STEEL
temperatura todas as manhs antes de sair da cama, e finalmente deu-lhe um estojo de tubos que serviriam para detectar a subida de LH antes da ovulao.
- Sinto-me como se me tivesse alistado nos MaHnes - comentava Pilar para Brad  sada, equipada com o seu estojo e todas as nstru~ es da Dra. Ward sobre quando 
fazer amor, quando no fazer, e quantas vezes fazer.
- Espero que no! Gostei dela, Que te parece? - Brad ficara impressionado com os seus argumentos inteligentes, as suas posies conservadoras. No estava para ir 
longe de mais s porque Pilar era uma pessoa lida e tinha alguns conhecimentos acerca das alternativas mais sofisticadas.
- Tambm gostei dela, - Pilar estava contudo decepcionada com o facto de ela no ter nenhum milagre na manga. Aparentemente optava por mtodos conservadores, mas 
era isso exactamente o que eles queriam. E, de qualquer modo, as suas opes estavam limitadas pela idade de Pilar. j tinha idade de mais para a fecundao n vitro, 
mesmo que esta fosse necessria, e possivelmente at para o Clornifene, embora ela o fosse tornar.
A Dra. Ward sugerira a inseminao intra-uterina; considerava que podia oferecer~lhes uma maior probabilidade de conceberem, se Pilar no o conseguisse naturalmente 
com o Clomifene.
- Parece tudo to complexo para uma coisa que devia ser to simples - observava Brad, ainda surpreendido com os elaborados testes e remdios e aparelhagem que se 
ofereciam  mulher infrtil,
- Nada  simples na minha idade - lamentava Pilar -, at maquilhar-me d-me um trabalho muito maior do que antigamente, - Riu~se, e ele inclinou-se para beij~la.
- Tens a certeza de que queres fazer tudo isso? Esse remdio no me parece muito convidativo. j tens presses suficientes no escritrio mesmo sem tomar nada, e 
isso vai tomar-te mais tensa...
- E, por acaso pensei nisso. Mas no quero perder nenhuma oportunidade. Gostava de experimentar essa. - Agora que tomara a sua deciso, estava disposta a fazer tudo 
para ter um filho.
- De acordo. A senhora manda!        disse Brad carinhosamente.
- No, no mando. Mas amo-te,         Beijaram-se e entraram no carro para regressar a Santa Barbara, depois de terem jantado em Los

0 PREO DA VENTURA                          151
Angeles, no Bistro. Foi uma noite agradvel para eles, e teria sido uma pena no aproveitar a oportunidade de estar ali. E quando chegaram a casa, Pilar guardou 
todos os seus novos tesouros na casa de banho, o estojo LH, o termmetro, o grfico. No caminho para casa, tinham parado para aviar a receita. Teria de esperar mais 
trs semanas antes de comear a tomar o remdio, e s o faria se no engravidasse durante esse ciclo. Entretanto, tinha de comear a tirar a temperatura e a usar 
o estojo no dia seguinte, e na semana seguinte ia tentar engravidar.
- Parece um arsenal de esperana, no ? - Pilar sorria para Brad enquanto lavava os dentes, apontando-lhe com a cabea toda a parafernlia que enchia o seu toucador.
- Tudo bem, se  isso que temos de fazer. Ningum disse que tinha de ser fcil, ou simples. 0 que conta  o resultado, no final. Ficou uns instantes pensativo, depois 
inclinou-se para beij-la, acrescentando: - E se o resultado for acabarmos sozinhos, e tudo isto no servir de nada, no h problema, e quero que o saibas. Quero 
que penses nisso, Pilar, e que tambm tu mantenhas a tua tranquilidade de esprito. Era maravilhoso que resultasse, mas se no resultar, ainda nos temos um ao outro, 
e uma vida repleta de pessoas que amamos e que se interessam por ns. No temos de ter esse beb.
- No, mas gostava - disse ela tristemente, olhando-o, e ele ps-lhe o brao em redor dos ombros.
- Tambm eu. Mas no arriscaria o que temos por causa disso. E tambm no quero que o faas. - Brad sabia da boca de outras pes~ soas que o processo podia tornar-se 
obsessivo ao ponto de destruir um casamento, e isso era a ltima coisa que ele queria depois de esperar tanto tempo para casar com Pilar. 0 que possuam era demasiado 
precioso.
Na manh seguinte, sentada  secretria com um ar abstracto, Pilar ainda pensava no que ele lhe dissera. Tinha tirado zelosamente a temperatura assim que acordara 
e antes de ir para a casa de banho, anotando-a em seguida com cuidado no grfico que       acompanhava o termmetro; antes de sair de casa fez toda a operaao recomendada 
com o estojo da LH, o que a atrasou um pouco, pois exigia todo um malabarismo para recolher a urina numa taa e em seguida distribu~la por uma dzia de pequenssimos 
tubos de qumicos ordenados na sua casa de banho. Mas os resultados revelaram que a subida de LH ainda no

152                          DANIELLE STEEL
tinha ocorrido, o que significava que no estava em fase de ovulao. Brad tinha razo. Era algo demasiado complexo para uma coisa que devia ser to simples.
- Que olhar  esse to infeliz? - inquiriu Alice Jackson ao passar pelo gabinete de Pilar.
- Ob... nada... s estava a pensar... - Endireitou-se na cadeira, tentando esquecer as suas cogitaes, mas no era fcil. Todo o seu pensamento parecia centrar-se, 
naqueles ltimos dias, em engravidar.
- Pelos vistos, no era um pensamento muito agradvel. - Alice tinha parado por uns instantes, os braos carregados de dossiers. Estava a investigar um caso dificil 
para o marido.
-  um pensamento agradvel, mas nada fcil - disse Pilar num tom suave. - Como vai o vosso caso?
- Estamos quase prontos para o julgamento, graas a Deus! No sei se aguentava outros seis meses com isto. - Mas ambas sabiam que aguentaria, se fosse necessrio. 
Alice adorava trabalhar com Bruce, fazer pesquisas para ele. Por vezes Pilar pensava como seria trabalhar com Brad. Mas no conseguia imaginar-se a faz-lo, por 
rntii* que apre~ ciasse os pareceres dele. Eram os dois profundamente inabalveis nos seus estilos, firmes nas opinies; eram formidveis como marido e mulher, mas 
desconfiava que s-lo-iam consideravelmente menos como scios. Pilar era irremediavelmente mais sensvel do que Brad, gostava sobretudo de casos dificeis, quase 
impossveis, e por fim ganh-los, de preferncia para o mais desfavorecido. Ainda conservava uma forte faceta de defensora pblica, ao passo que Brad nunca deixara 
de ser um promotor pblico, ou pelo menos era o que ela dizia quando discutiam assuntos de Direito. A maioria das vezes, contudo, eram discusses muito amigveis.
0 telefone tocou antes que ela pudesse continuar a conversa com Alice Jackson sobre o caso e, no intercomunicador, a recepcionista anunciou-lhe que era a me.
- Oh, Deus! - exclamou, e hesitou, interrogando-se se devia atender a chamada. Alice despediu-se e saiu, os braos cheios de papelada para Bruce. - Est bem, eu 
atendo - respondeu no intercomunicador, carregando em seguida no boto de linha. Era meio-dia em Nova lorque e Pilar sabia que a me devia ter estado at quele 
momento a trabalhar cinco horas no hospital; provavelmente preparava-se para um

0 PREO DA VENTURA
153
almoo rpido, a seguir ao qual passaria outras cinco ou seis horas a ver doentes. Era infatigvel, capaz de mater um ritmo espantosamente estafante, apesar da idade. 
Brad comentara por mais de uma vez que isso constitua um encorajador augrio para Pilar, ao que esta contrapunha invariavelmente e com bastante menos benevolncia 
que a me era demasiado ambiciosa para abrandar o seu ritmo, e demasiado mesquinha para desistir; no tinha nada a ver com augurios.
- Ol, mam - disse distraidamente, pensando a que propsito estaria a telefonar. Em geral, costumava esperar que Pilar telefonasse, mesmo com intervalos de um ms 
ou mais; ser que vinha a outra conveno? - Como ests?
- Bem. H uma onda de calor hoje em Nova lorque. Est terrivelmente quente. Graas a Deux que o ar condicionado do nosso consultrio ainda est a funcionar. E tu 
e o Brad como esto?
- Atolados em trabalho, como  costume. - E tentando ter um beb. A viso da cara da me, se esta realmente soubesse, f-la sorrir.
- Ternos andado bastante ocupados. Brad tem um caso longussimo, e quanto a mim... parece que meia Califrnia me caiu este ms no escri~ trio.
- Na tua idade, devias antes lutar pela magistratura, como o teu pai e o Brad. No tens necessidade de andar a resolver os casos de toda a ral liberal da Califrnia. 
- Obrigadinba, me. A chamada era tpica dos seus dilogos habituais: perguntas, recriminaes, acusaes veladas, reprovao indisfarada. - Pois fica sabendo que 
o teu pai foi para juiz quando era pouco mais novo que tu. E foi nomeado para o Supremo com a tua idade, foi uma verdadeira honra.
- Sim, me, eu sei que foi. Mas eu gosto daquilo que fao. E no sei se esta famlia estaria preparada para dois juizes, Alm disso, muitos dos meus clientes no 
so "ral liberal". - Mas irritou-se consigo prpria por estar a tentar defender-se, a me levava-a sistematicamente a faz-lo.
- Pelo que posso perceber, continuas a defender as mesmas pessoas que defendias no Ministrio Pblico.
- No, felizmente, a maioria destes tem mais dinheiro. E tu? Muito ocupada no consultrio?
- Bastante. Recentemente tambm andei no tribunal, fui testemunha nuns casos que envolviam leses neurolgicas. Foi muito interessante.

154                       1 DANIELLE STEEL
E, claro, ganhmos os dois casos. - Modstia nao era propriamente o prato forte de Elizabeth Grafiani, nem nunca fora, mas pelo menos era uma pessoa previsvel, 
o que a tomava mais fcil de enfrentar.
- Claro... - disse Pilar vagamente. - Desculpa... tenho mesmo que atirar-me ao trabalho, Telefono-te em breve.... Cuida de ti. - Apressou-se a desligar o telefone 
com a mesma sensao de derrota que experimentava sempre que falava com a me. Nunca ganhava, a me nunca aprovava, Pilar nunca chegava onde queria. A estupidez 
crassa, porm, era que ela sabia disso havia anos; a psiquiatria ensinara-lho. A me era como era e jamais iria ru. udar. Era Pilar que devia mudar as suas expectativas. 
E tinfia-o feito, em grande parte, apesar de haver ainda momentos, como quando telefonava, em que Pilar esperava dela uma pessoa diferente, Mas nunca seria a me 
acolhedora, compreensiva e generosa que Pilar sempre quisera. E com o pai fora a mesma coisa. Mas para isso ela tinha agora Brad, para todo o amor e apoio e bondade 
por que sempre suspirara e nunca tivera, E quando precisava da iluso de uma me de braos abertos, tinha Marina ao seu lado, a at  data nenhum dos dois lhe falhara.
Telefonou a Marina nessa tarde, num intervalo do tribunal, a agradecer-lhe a indicao de Helen Ward, e Marina ficou contente por ela ter gostado da mdica.
- 0 que  que ela disse? Foi animadora?
- Bastante, Pelo menos no disse o mesmo que a minha me, que eu era demasiado velha e que teramos filhos deformados. Disse que podia ser preciso algum tempo e 
um pouco de esforo.
- Tenho a certeza de que Brad ficar feliz em oferecer os seus prstimos - gracejou a mulher mais velha, num contraste gritante com a represlia que Pilar teria 
recebido da me.
- Ele prpro insinuou a mesma coisa. - Pilar riu-se. - E deu~me umas plulas, mas tanto podem resultar como no. 0 principal de tudo isto  que existem esperanas, 
mas eu j no sou uma criana,
- E quem diz que s? Pensa na minha me... o ltimo beb aos 52...
- Pra com isso. Ests constantemente a lembrar-me, assustas-me. promete-me que, pelo menos, ser antes dos 50.
- No te prometo eu outra coisa! - Marina ria-se com jovialidade, E se a vontade de Deus for engravidares aos 90, engravidas. L mas  o Enquirer, por amor de Deus!

0 PREO DA VENTURA                             155
- Que grande ajuda que tu s! Isto no so veleidades, Juza
Goletti,  a minha vida... ou no ? A minha me telefonou hoje, d-me sempre vontade de rir.
- E que migalhas de alegria repartiu ela hoje contigo?
- Pouca coisa. Uma onda de calor em Nova lorque e lembrar-me que o meu pai tinha a minha idade quando foi nomeado para o Supremo Tribunal.
- Oh, sua vergonha da famlia! No fazia ideia... Que simptico ela lembrar-to!
- Pensei o mesmo, Ela acha que eu devia tentar um lugar igual ao teu, a propsito.
- Tambm eu. Mas isso  outra conversa, e agora tenho de pr-me a mexer, aguarda-me o meu papel de juiz. Tenho esta tarde um caso de homicdio por embriaguez do 
condutor que tomara eu poder dispensar. 0 ru saiu ileso da sua viatura completamente destruda, matando nada menos que uma mulher grvida de 30 anos e os outros 
trs filhos. Felizmente h um jri, eles  que vo decidir.
- Coitada de ti! - disse Pilar com corniserao, Ela adorava os seus telefonemas, as suas conversas, a sua amizade. Nunca se sentia desapontada com Marina.
- Coitada de mim, sim! Cuida de ti. Em breve fato contigo. Talvez pudssemos almoar, se no estiveres muito ocupada.
- Eu telefono-te.
- obrigada. Adeus. - desligaram e retomaram ambas o trabalho. No tiveram tempo para almoar nessa semana, nem na seguinte, foi um perodo de muito trabalho, Pilar 
tambm andava assoberbada, at que Brad sugeriu que sassem por alguns dias; ficariam num hotelzinho muito romntico que ele conhecia em Carmel Valley. Como Brad 
a definia, aquel7 ia ser a "sernana azul>,. A LH dela estava em vias de subir, ia ter a ovulao dentro de um ou dois dias e Brad pensava que podia ser mais agradvel 
sair para se ocuparem do acontecimento, em lugar de ficarem em casa ou amparando crises no tribunal e no escritrio dela.
Mas quando chegaram ao hotel, depois de dias to terrveis de trabalho, estavam ambos exaustos. E foi um alvio verem-se ss num anibiente luxuriante, unicamente 
para estarem juntos e conversarem e pensarem, -sem a interrupo dos telefones, nem urna avalanche de papis e memorandos.

DANIELLE STEEL
A despeito dos dias frenticos que antecederam a viagem, passaram bons momentos percorrendo os antjqLirjos de Carmel. Ele comprou-lhe um pequeno quadro lindssimo, 
uma me com o filho numa praia ao crepsculo, um tipo de pintura com um forte sabor impressionista que ela adorou. Sabia que se engravdasse naquela altura, o quadro 
teria sempre para si um significado muito especial.
Regressaram a Santa Barbara dois dias depois, felizes e repousados, convencidos de que daquela vez tinham conseguido, Ela tinha quase a certeza, e disse-o a Brad. 
At chegar-lhe de novo o perodo no ms seguinte e ser forada a tomar Clornifene, E este fazia o que a mdica descrevera. Sentia-se tensa e comprimida como a mola 
de um relgio; estava permanentemente pronta a arremeter contra tudo o que Brad dizia e, pelo menos seis vezes por dia, sentia uma vontade cega de esganar a secretria. 
Tinha de controlar-se para no vociferar com os clientes e um dia quase perdeu o controle ao discutir com o juiz no tribunal. Refrear o mau humor tornara-se subitamente 
um trabalho a tempo inteiro. E dominava-a uma sensao constante de exausto provocada pelo medicamento.
-  divertido, no ? - comentava com Brad. - Deves estar a gostar imenso. - Foi hedionda para ele naquelas duas semanas, quase sem poder suportar-se a si mesma, 
quanto mais reconhecer corno ele a suportava. Era pior do que tinha pensado, mas valia a pena, se tudo isso fosse para ter um beb.
- Vale a pena se ajudar - tranquilizava-a ele. Mas o pior foi que, mais uma vez, no ajudou. Tinham andado a tentar cinco meses e por fim a Dra. Ward marcou uma 
consulta no ms seguinte para a inseminao artificial, na semana anterior ao dia de Aco de Graas.
Discutiram longamente a questo com a mdica antes de decidirem, mas esta assegurou-lhes que as coisas se modificariam. 0 que pretendia fazer era aumentar naquele 
ms a dose de Clomifene para o dobro da que Pilar estava a tomar - o que no era uma boa notcia para esta -, fazer um ultra-som antes da ovulao para verificar 
o desenvolvimento do seu folculo, administrar-lhe urna hormona, a coriogonadotrofina, na noite anterior  ovulao, e finalmente efectuar uma inseminao intra-uterina, 
colocando o esperma directamente no tero, tornando assim a combinao do esperma com o vulo bastante mais fcil, e talvez bastante melhor.

0 PREO DA VENTURA                          1-57
Pilar no ficou propriamente entusiasmada com a ideia de ter de
tomar mais drogas; j andava numa tenso insuportvel com a dose actual, embora Helen Ward lhe garantisse que valia a pensa experimentar, e ento reservaram um quarto 
no Bel Air para as datas que julgavam serem as indicadas segundo os efeitos previstos dos medicamentos, e pelo que sabiam das suas temperaturas. E a Dra. Ward queria 
que no fizessem amor durante os trs dias anteriores, de forma a evitar descidas nos nveis de esperma de Brad.
- Sinto-me como um cavalo de corridas em treinos - gracejava este quando se dirigiam de carro para Los Angeles. Mas Pilar sentia-se naquele momento de novo quase 
humana; tomara a sua ltima dose de Clomifene cinco dias antes e comeava a sentir-se ela prpria outra vez, um pequeno milagre naqueles ltimos tempos. Ter um dia 
sem a sen~ sao de a cabea lhe estoirar, sem lutas com Brad, tornara-se subitamente importante.
Foram direitos ao consultrio assim que chegaram a Los Angeles e a mdica fez-lhe um ultra-som transvaginal para lhe examinar os ovrios, cujo resultado pareceu 
satisfaz-la. Em seguida deu-lhe uma injeco de coriogonadotrofina e pediu-lhes que voltassem no dia seguinte ao meio-dia, o que lhes deixava uma tarde inteira 
e uma noite totalmente livres para fazerem o que quisessem, excepto amor. E muito os surpreendeu descobrirem que estavam excitados e se desejavam.
- Talvez amanh fique grvida - murmurava Pilar, e nessa tarde ele comprou-lhe um lindssimo alfinete antigo de diamantes em forma de corao no David OrgelI, em 
Rodeo Drive, e a seguir desceram a rua para fazer compras no Fred Hayman. Foi uma tarde extravagante, mas sentiam-se num paraso que temiam ver convertido em inferno 
antes que dessem por isso.
Tomaram uma bebida no Beverly HilIs Hotel, jantaram no Spago e regressaram ao Bel Air, em cujos jardins se passearam tranquilamente, contemplando os cisnes antes 
de irem para a cama. E permaneceram acordados durante algum tempo, pensando corno seria no dia seguinte.
De manh estavam os dois nervosos quando saram do hotel, e Pilar tremia ao subir o elevador do prdio de Helen Ward.
- Isto no  estpido? - murmurava para Brad. - Sinto-me como uma,grota que vai perder a virgindade - e sorriu~lhe. Ele tambm estava impaciente. No lhe agradava 
a ideia de ser forado a produzir

158                           DANIELLE STEEL
smen no consultrio da mdica. Esta garantira-lhes que Brad podia levar o tempo que quisesse, e que Pilar era bem-vinda para ajudar. No entanto, a ideia parecia 
terrivelmente embaraosa, e apavorava-os. Mas ficaram surpreendidos com a facilidade com que tudo decorreu quando chegaram ao consultrio.
Foram conduzidos por uma porta exterior a um quarto particular que lembrava mais o quarto de um hotel bem equipado; havia uma cama, um aparelho de televiso com 
vdeotapes erticos, uma pilha de revistas para estimular os "hspedes", vrios instrumentos erticos, vibradores, tudo destinado a tornar a tarefa mais fcil do 
que eventualmente seria sem to preciosas ajudas. E em cima da mesa estava um frasco para a colheita.
No lhes disseram nada sobre quando deviam sair, nem de quanto tempo dispunham e, antes de deix-los, a enfermeira perguntou se desejavam um caf, um ch ou algum 
refresco. E ento, de repente, Pilar comeou a rir ao olhar para ele. Estava com um ar muito srio, muito bem comportado, mas ela prpria no podia fazer nada pelo 
marido de sbito to ridiculamente cmico.
- Parece um motel, no ? - Soltava risadinhas e Brad tambm comeou a rir.
- Como  que sabes?
- Tenho lido nas revistas. - Ela riu-se outra vez e ele Puxou-a para junto de si com um sorriso nervoso.
- Como  que eu fui consentir que me arrastasses para isto? disse, olhando-a.
- Nem sei. Vinha a pensar o mesmo no caminho. E sabes que mais? - olhou-o muito sria. - Se no quiseres, eu no me importo. Tens sido maravilhoso nesta histria 
toda, e talvez eu esteja a ir longe de mais... no era a minha inteno... no queria de forma nenhuma que te sentisses incomodado... - Estava com remorsos de coloc-lo 
naquele tipo de situao. No tinha culpa de ela ser to velha. 0 seu esperma era perfeito, era o corpo dela que vinha falhando. E se o tivesse deixado pensar em 
filhos mais cedo, nunca teriam tido necessidade de passar por tudo aquilo.
- Ainda queres um beb, Pilar? - perguntou~lhe com carinho, deitado com ela ao lado na cama, e ela acenou tristemente que sim com a cabea. - Muito bem, ento pra 
com as lamentaes e vamos apro~

0 PREO DA VEN 1 U KA
19,-1
veitar. - Levantou-se, ps na televiso um filme escabroso, que a embaraou, mas que tambm a divertiu, e ento ajudou-o a despir-se. Ela prpria tirou as roupas, 
e comeou a provoc-lo enquanto ele olhava para o ecr, mas em breve estava excitado, e ela tambm, e quase lamentava que fosse um desperdcio. Ele vibrava de desejo 
de penetr-la enquanto ela segurava o frasco o mais perto possvel de si, acariciando-o, excitando-o, fazendo-lhe ccegas, beijando-o, e finalmente alcanaram os 
resultados desejados e ele sossegou, esgotado, nos seu braos. Fora diferente para ambos, mas no tinha sido desagradvel, no entanto.
Tomaram um duche rpido, vestiram-se e tocaram a chamar a enfermeira, entregando-lhe o frasco quando esta apareceu. E a enfermeira pediu para Pilar a acompanhar,
- Tambm posso ir? - perguntou Brad, hesitante. Afinal no houvera nada em todo o processo que no tivessem partilhado, por isso queria estar com ela para o caso 
de o tratamento ser doloroso.
A enfermeira respondeu que podia acompanh-la e Pilar tornou a despir-se, vestiu a bata e deitou-se nervosamente na marquesa para a inseminao. Momentos depois 
a Dra. Ward apareceu e transferiu o esperma sado de fresco para uma seringa. Um pequeno tubo foi ento introduzido no tero, de Pilar, e o esperma cuidadosamente 
injectado na seringa, e em pouo  minutos estava concludo; o tubo foi retirado e a Dra. Ward pediu-lhe  que se mantivesse deitada durante meia hora antes de sair. 
A mdica deixou-os sozinhos, Pilar e Brad conversaram serenamente e este, em  tom de brincadeira, disse-lhe de repente que julgava que fossem usar uma colher de 
regar perus assados.
- Um peru sinto-me eu aqui deitada - resmungou ela. Todo o processo tinha sido espantosamente simples, mas parecia provocar uma enorme fadiga. Era emocionalmente 
esgotante tentar to intensamente e lutar com tanto afinco por aquilo que se desejava.
- Aposto que vai resultar - afirmou Brad esperanoso, e ento soltou uma gargalhada ao lembrar-se do filme que tinham estado a ver no outro quarto. - Havemos de 
arranjar alguns iguais - gracejou e ela riu-se. Pilar tinha-se mostrado uma companheira espantosa em tudo aquilo, mas ele no o fora menos. E no fora fcil para 
nenhum dos dois. Mas por-vezes as coisas boas no o so.

160                           DANIELLE STEEL
- Pronto. temos tudo assente. - A mdica tinha parado para v-]os antes de sarem e lembrou-lhes que todos os seus testes hormonais estavam normais, e os nveis 
de progesterona tinham subido bastante desde que comeara a tornar o Clomifene; mas tambm os avisou de que podia ser preciso fazer o mesmo umas seis a dez vezes 
antes que "colasse". - Vo ter que me ver bastante, mais do que aos amigos ou  famlia - alertou-os. Mas os Colemans responderam que no se importavam.
Desejou-lhes  sada um dia de Aco de Graas feliz e disse a Pilar para a manter informada. Queria um telefonema seu da a duas semanas a dizer se lhe aparecera 
ou no o perodo.
- No se preocupe - Pilar sorriu. - Vai ouvir~me de uma maneira ou doutra! - Sobretudo se engravidasse. E se tal no sucedesse, teriam de voltar ali para outra inseminao 
artificial.--- e outra... e mais outra... at "colar" ou desistirem. 0 que sucedesse primeiro, e ela esperava que no fosse a ltima hiptese.
Quis falar  mdica do GIFT, um processo sobre o qual tinba lido alguma coisa, a transfernca intra-falopiana da gmeta, muito semelhante ao mtodo in vtro, mas 
com melhores resultados nas mulheres de 40 anos. Mas a Dra. Ward no gostaria de discutir isso.
- Vamos dar primeiro uma oportunidade  inseminao intra-uterina, de acordo? - disse firmemente. Frisou-lhes que era muito prematuro pensar em medidas to drsticas. 
E, alm disso, estava optimista em relao  insemnao artificial. Com o Clornifene, os nveis de progesterona de Pilar estavam muito elevados e isso ajud-la~ia 
decerto a engravidar.
Foi uma longa e tranquila viagem de regresso a casa, e eles sentiam-se mais prximos aps aqueles ltimos dias. Toda a semana que antecedeu o dia de Aco de Graas 
foi para eles um perodo de serenidade; Pilar procurava no se esforar demasiado no escritrio,
Naquele ano, Nancy, Tommy e Adam vinham passar o dia de Aco de Graas com eles; Tocid fora fazer esqui com a namorada para Denver, mas prometera vir para o Natal, 
de modo que j no tinham razes para protestar por no estar presente naquela data.
0 pequeno Adam tinha ento cinco meses. Palrava imenso, estavam a nascer-lhe dois dentes a meio da gengiva inferior e era indisfarvel a loucura de Brad por ele. 
Pilar tambm lhe pegou vrias vezes,

0 PREO DA VENTURA                         161
COM os comentrios habituais de Nancy de que ele lhe ficava muito bem, o que sempre a surpreendia, sendo Pilar uma pessoa que nunca tivera filhos.
- instinto, calculo eu - gracejava Pilar, mas nem ela nem Brad lhes falaram dos seus planos, nem dos seus esforos para terem um beb. Era deveras importante para 
eles, demasiado secreto para partilhar com algum. E Pilar estava em pulgas para saber se engravidara. Mal tinha cabea para pensar no dia de Aco de Graas.
Foi um alvio ver-se de novo sozinha, depois do jovem casal sair, podendo ento desabafar  vontade a sua enorme esperana no xito da inseminao.
- Vamos ver - disse Brad. Mas notara~lhe uma expresso estranha no olhar que lhe fez vibrar uma corda da memria. Um olhar sonolento, se bem que ela no tivesse 
nenhuns sintomas, nenhum pressen~ timento de que algo houvesse mudado, e ele concluiu que, tal como Pilar, estava to-somente excessivamente esperanoso.


CAPTULO 8
0 dia de Aco de Graas de Diana e Andy adquiriu naquele ano um carcter de pesadelo. A sua vida fora durante trs meses um verdadeiro inferno, que Andy julgava 
por vezes no aguentar. No podia falar com ela, no suportava o seu azedume, a autocomiscrao, o dio. Ela odiava tudo e todos; passava o tempo zangada. Zangada 
com a vida, com o destino que a maltratara de uma forma to cruel, e no havia nada que Andy pudesse fazer; tambm para ele tinha sido um golpe, tambm ele era atingido, 
uma vez que a tinha escolhido para mulher. Mas havia dias em que se interrogava durante quanto tempo mais se suportariam um ao outro.
As coisas s tinham piorado em Outubro, quando Bill e Denise anun~ ciaram que ela estava grvida, acontecera literalmente na noite do casa~ mento, Diana ficou chocada 
com semelhanta ironia, recusando-se categoricamente a v-los, o que tomava a vida de Andy ainda mais solitria.
A maior parte das vezes tambm se recusava a falar com Eloise de tudo o que no fosse estritamente assunto de trabalho; cessou por com~ pleto de tocar no nome do 
Dr. Johnston, e Eloise j no falava deste nem do pai; percebera havia muito tempo que algo de devastador devia ter sucedido.
Diana no tornara a ver nenhum dos seus amigos, e por fim a maioria destes desistiu de telefonar-lhes. Por altura da festa de Aco de Graas, Diana tinha conseguido 
isol-los completamente; para Andy, a vida nunca fora to lgubre como naquele momento.
E Diana ainda complicou mais as coisas quando concordou em passar o dia de Aco de Graas com os Goodes em Pasadena. Andy quis

164                           DANIELLE STEEL
for-la a desmarcar mas, para seu grande desespero, ela insistia. Eram as nicas pessoas que iam ver naqueles meses, e precisamente as menos indicadas.
- Por amor de Deus! - protestava Andy -, porque fizeste uma coisa dessas?
- Eles so a minha famlia! 0 que esperavas que eu fizesse? Que lhes dissesse que j no queremos ver ningum porque sou estril?
- Isso no tem nada a ver, S que l em casa  to difcil para ti,
as tuas irms a toda a hora a fazerem-te perguntas sobre a gravidez, e a Sam grvida de seis meses, por amor de Deus! Tinhas alguma necessidade de te expor a isso? 
- Ou de expor qualquer dos dois... pensou. Mas no lhe disse.
- Ela  minha irm.
j no a compreendia, e tinha dvidas se voltaria a compreend-la alguma vez. Diana parecia ter uma necessidade de punir-se por tudo o que lhe acontecera. Tinha 
escolhido anos atrs o mtodo anticoncepcional errado e estava a pagar por isso um preo terrvel, e no havia nada que algum pudesse fazer. Fora um azar ignbil, 
mas isso no significava que tivesse de transformar-se num farrapo.
- No me parece nada aconselhvel - argumentava ele quando estavam para sair, tentando demov-la, mas ela no o faria. E no momento em que chegaram, Diana apercebeu-se 
do seu erro. Gay1e estava nos seus dias de implicncia, tinha apanhado uma constipao e os filhos andavam a esgotar-lhe a pacincia. Tivera uma pega com a me quando 
esta insinuara que Gay1e devia disciplin-los, e ficara irritada porque Jack no viera em sua defesa. Em concluso, descarregou tudo isso em cima de Diana no momento 
em que esta chegava, e a vontade de Andy era nunca terem posto ali os ps. Ia ser um sero desastroso.
- Obrigadinha por teres vindo cedo para ajudar - acirrou-a enquanto ela despia o casaco. - Estiveste a arranjar as unhas esta tarde ou a dormir a sesta?
- Oh, por amor de Deus, o que foi que te deixou to abespinhada?
- retribuiu-lhe Diana no mesmo tom, e quando Sam entrou na sala Andy quase gemeu. No estavam juntos desde o 4 de julho e a cunhada parecia um ca1oon de-- uma mulher 
grvida. E Andy pde ver, pela expresso crispada do seu rosto, que Sam tinha chocado profundamente Diana.

0 PREO DA VENTURA                           165
- Gay1e est fora de si porque a mam lhe disse que os filhos
eram pssimos. E tem razo. Os meus tambm. E tu, como ests? perguntou a Diana, descansando as mos no enorme estmago.
- Estou ptima - respondeu Diana friamente. - E posso ver como tu ests!
- , Gorda. Seamus diz que pareo um Buda. - Diana tentou um sorriso, saindo logo de seguida para ir ter com a me  cozinha. Achou a me melhor do que nunca naquele 
ano, e esta estava felicssima por ver a filha. Organizando tudo e todos, como era seu costume, e adorando cada minuto que isso a ocupava, e andara to atarefada 
naqueles ltimos dois meses que nem percebera como a filha a vinha evitando. Pressups que Diana estivesse ocupada com a revista, mas notou-lhe no olhar qualquer 
coisa de que no gostou, e de repente pareceu-lhe bastante mais magra.
- Ainda bem que pudeste vir - disse, feliz por se ver rodeada pelas trs filhas e pelos netos. Sempre gostara de os ter ali, apesar das cenas com Gay1e por causa 
dos filhos. - E tu ests bem? - perguntou a Diana.
- Estou ptima - esquivou-se Diana. Amava a me, mas no tinha coragem de lhe falar na laparoscopia nem no inferno que estava a viver. Nem sabia se o faria algum 
dia. Por enquanto no estava preparada. No podia tomar a iniciativa de chegar junto de algum e dizer-lhe que era estril. Tinha-se tristemente na conta de uma 
fracassada.
- Trabalhas de mais - ralhou-lhe a me, esperando que fosse stress do trabalho o que estava a ver no rosto da filha enquanto vigiava o Peru. Era uma ave gigantesca 
de   -um castanho dourado e que cheirava deliciosamente.
- Ao contrrio das irms - completou o pai, que entrara naquele momento na cozinha.
- Elas tm muito trabalho com os filhos - defendeu-as a me. Amava as suas trs raparigas e sabia que o pai tambm as adorava. Mas j era um velho hbito seu, e 
pelava-se por isso, por fazer esse tipo de comentrios, alm de que sempre fora particularmente amigo de Dana e tambm tinha reparado no seu ar cansado e infeliz, 
o que o deixara preocupado.
- Como vai a tua revista? - perguntou-lhe, como se fosse ela a dona, e Diana sorriu.

166                          DANIELLE STEEL
- Excelente. As nossas tiragens esto a aumentar.
-  uma revista muito agradvel. Vi um nmero no ms passado, Ele sempre apreciara o que ela fazia, e isso levava s vezes Diana a pensar que no tinha o direito 
de se sentir to inferorizada. Mas agora tinha uma boa razo. Fracassara na coisa que mais contava para todos eles. Ter filhos.
- Obrigada, Pap.
Entretanto os cunhados entraram na cozinha, querendo saber quando estaria o jantar pronto.
- Pacincia, rapazes. - A sogra sorru-lhes e enxotou toda a gente para a sala, excepto Diana. - Ests realmente bem, querida? - olhou-a seriamente. Via a filha 
com um ar to cansado e to plida, e uma expresso infeliz, quase devastada, no olhar, que pensou se as coisas iriam bem com Andy.
Aproximou-se lentamente da sua filha do meio, recordando a criana brilhante que ela sempre fora, e to conscienciosa. - H algum problema?
- No, mam - mentiu, e virou-se para que a me no lhe visse as lgrimas nos olhos. - Estou ptima. - Milagrosamente, as crianas irromperam pela cozinha e Diana 
levou-as dali para fora para junto das suas mes, sob o olhar atento de Andy. Desde o final daquela tarde que no estava a agradar-lhe a expresso do seu olhar. 
Ela vinha morrendo por dentro, e procurava algum que pudesse recriminar. Tinha o ar de quem est  beira de explodir, mas ele agora sabia que no havia maneira 
de ajud-la.
0 pai pronunciou a orao quando se sentaram  mesa; Diana ficou entre os cunhados e Andy sentou-se no lado oposto da mesa, na frente dela, no meio das irms. Gay1e 
monopolizou-o imediatamente numa conversa animada, como sempre fazia, a propsito de nada em particular - a Associao de Pais, queixas do pouco dinheiro que ganhavam 
os mdicos, referncias veladas ao facto de ainda no terem filhos. Andy limitava-se a concordar amavelmente com ela, fazendo de vez em quando um esforo para conversar 
com Sam, cujo tema preferido eram os filhos e o seu novo beb. Finalmente seguiu-se o relatrio da vizinhana: quem estava para casar, quem tinha morrido, quem ia 
ter um beb. At que, a meio do jantar, Diana olhou para todos no auge da irritao,

0 PREO DA VENTURA                           10/
- Vocs no sabem falar de mais nada seno de partos e gravi-
dez? Estou farta de ouvir histrias de pessoas que deram  luz, de hemorragias, de quanto tempo durou o trabalho de parto, e quantos bebs j tm, e quantos faz 
com este... Jesus,  um milagre no falarmos das suas citologias cervicais!
0 pai olhou para ela do outro lado da mesa, em seguida olhou de soslaio para a mulher com o sobrolho franzido de preocupao. Algo de muito grave estava a suceder 
com Diana.
- 0 que ocasionou isso? - perguntava Sam, reclinando-se na cadeira, segurando as costas com uma das mo e o        estomago com a outra. - Meu Deus... se este beb 
no pra de me dar pontaps...
- Por amor de Deus! - gritou-lhe Diana, e desviou a cadeira da mesa. - Estou~me borrifando se a porcaria do teu beb te faz cair os dentes com pontaps. Podes calar-te 
com isso pelo menos dez minutos? - Sam ficou chocada a olhar para ela, depois comeou a chorar, e por fim saiu da mesa; mas Diana j estava de casaco vestido e pedia 
desculpa aos pais, - Perdoa-me, Mam... Pap... Mas no posso aguentar isto. 0 melhor era no ter vindo. - Mas a sua irm mais velha j estava a sair rapidamente 
da sala de jantar, indo postar-se no ball da entrada, com uma expresso de raiva no rosto que Diana no lhe via desde que lhe queimara o seu novo frisador elctrico 
nos seus tempos de liceu.
- Como te atreves a comportar-te desse modo na casa dos teus pais e a falar dessa maneira? Quem pensas tu que s?
- - Gayle, por favor... no faas isso. Desculpa. Diana est aborrecida. No deviamos ter vindo. - Andy tentava acalmar as duas mulheres, mas era intil. E Seamus 
sara a correr para ir cuidar dos sentimentos feridos de Sam, enquanto esta chorava na casa de banho. Os pais estavam perturbados por ver as filhas discutindo como 
rufias, como a me dizia, e os garotos estavam a ficar impossveis e a sarem da mesa.
Mas Gay1e no ia desistir facilmente. Estava furiosa e todos os seus cimes de longa data encontraram finalmente um escape.
- Que raio de coisa tem ela para estar aborrecida? 0 seu empreg& A sua carrera? A Miss Adogncia, que  esperta de mais e muito importante para ter filhos como 
todas ns. No, ela  a grande profissional, a senhora doutora de Stanford! Pois bem, sabem que mais? Estou~me cagando. Que tal, Miss Rainha das Profisses?

lOb                         DANIELLE STEEL
- Adeus, vou-me j embora - anunciava Diana aos pais, apertando o cinto do casaco e olhando freneticamente para Andy. Ouvia tudo o que a irm lhe dizia, mas receava 
no ser capaz de responder por si se quisesse ripostar. Sabia que isso a faria perder completamente o controlo, e no queria. - Mam, desculpa - exclamou, e viu 
o pai a olh-la. A expresso no rosto deste dilacerou-lhe o corao, mas no podia ajud-lo. Era como se ela o tivesse trado.
- Deves pedir desculpa! - afirmou Gayle, quando Sam voltava finalmente da casa de banho e entrava no corredor. - olha o que fizeste no nosso dia de Aco de Graas! 
- prosseguia Gay1e num tom de acusao, e no estava   errada mas, sem o saber, tinham sido elas quem provocara tudo.
- No devia ter vindo - admitiu Diana serenamente, com a mo na porta e Andy atrs dela.
- E por que raio no o fizeste' Devias calar essa boca! - insistia Gay1e quando subitamente, rugindo de raiva, Diana precipitou-se para dentro do ball e atirou as 
mos  garganta da irm, apertando-a com fora.
- Se no te calas imediatamente, mato-te, ests a ouvir? Tu no sabes nada de mim, da minha vida, nem se vou ter ou se no vou ter ou se posso ter filhos. Ests 
a perceber, sua grande estpida, sua vaca insensvel... No tenho bebs porque sou estril, sua atrasada mental... Queres que te explique melhor? Entendes agora? 
No posso ter filhos. H muito que o meu corpo ficou uma merda por dentro por causa de um DIU e eu nunca o soube. Entendes agora, Gayle? Queres falar do meu emprego 
para o qual j me estou borrifando? Ou da porcaria da minha casa que  grande de mais para duas pessoas que nunca vo ter midos, ou talvez queiras agora falar do 
beb dos Murphy, dos gmeos dos MacWilliarnses, ou podamos simplesmente ficar aqui sentados a ver a Sam coando a barriga. Boa-noite a todos! - Olhou de relance 
para os rostos chocados de todos, que entretanto tinham ficado imveis a assistir e, pelo canto do olho, podia ver que a irm mais nova e a me estavam a chorar. 
E no ball s ficou Gayle, especada de boca aberta, enquanto Diana se precipitava para a porta em direco ao carro e Andy os olhava de lado com um ar enfiado de 
desculpas, correndo atrs dela.
Deixavam para trs um verdadeiro drama, mas Diana insistia que j no se importava. E intimamente, Andy pensava que a exploso podia

0 PREO DA VENTURA                            169
ter-lhe feito bem. Ela tinha necessidade de desabafar, de chorar, gritar, invectivar algum, e se no fosse com a famlia, com quem mais poderia ser? Se bem que 
ele tivesse de admitir que o dia de Aco de Gra-
1
as terminara num inferno.
No caminho para casa, ele olhou~a com urn sorriso, e ela no estava sequer a chorar.
- Queres ir a algum lado comer uma sanduche de peru? - dizia-o meio a brincar, e ela riu-se. A despeito de tudo, no perdera completamente o sentido de humor.
- Achas que estou a ficar louca com esta porcaria toda? - Os lti~ mos tempos haviam sido para ela um pesadelo tal que talvez fosse bom estar tudo terminado.
- No, mas penso que precisavas de tirar isso da tua vida. Que tal um psiquiatra para os dois? Podia ajudar. - Recentemente, ele tinha pensado ir a um, s para ter 
algum com quem conversar, detestava a ideia de contar aos amigos o que vinha acontecendo. Tentara conversar com BilI, mas agora, com Denise grvida, era um pouco 
embaraoso falar do facto de Diana ser estril. Tinha irmos, mas que ajuda podiam dar, jovens como eram? A verdade  que tambm ele, tal como Diana, se sentia isolado, 
deprimido e derrotado. - Tambem ja pensei numas frias.
- No preciso de frias! - ripostou ela imediatamente, e ele riu-se.
- Certo. Tudo bem. E que tal se te levasse outra vez a Pasadena, neste momento, e ento podiamos discutir isso? Ou talvez prefiras esperar pelo Natal e experimentar 
um segundo round? Aposto que as tuas irms ficavam felizes em fazer-te esse favor. Quanto a ti, no sei - acrescentou, srio -, mas eu, pelo menos, no tenciono 
passar o Natal este ano em Pasadena. - E ela teve de admitir que tambm no queria.
- No sei se poderia largar o trabalho para ir a algum lado. Andara tanto tempo desorientado, considerava-se de certo modo em dvida para com eles.
- Pergunta, pelo menos. Uma semana j era bom para ns. Pensei que podamos ir ao Mauna Kea, no Hawai. Metade da empresa vai l estar, mas muitos deles ficam no 
Mauna Loa. Estou a falar a srio, D. - Ele olhava-a enquanto guiava, e ela podia ver que estava to infeliz quanto-ela. - No me parece que no actual estado de 
coisas cheguemos a algum lugar, a menos que faamos alguma coisa impor-

170                         DAINIELLE STEEL
tante pelas nossas baterias, os nossos motores, seja o que for. j no sei corno lidar com isso, nem contigo, nem fao ideia do que sentes. Sei unicamente que estamos 
em perigo. - Ela sabia-o, mas o seu estado nos ltimos tempos no lhe permitia sequer aproximar-se dele. Perdida nas suas prprias agonias, no podia fazer nada 
para ajud-lo. Nem tinha a certeza se queria passar frias com ele, mas aprovava a sugesto de procurarem um psiquiatra.
- Est bem, vou ver se arranjo um tempo - disse vagamente. Mas ele tinha razo, Diana reconhecia-o. E de repente, virou-se para ele com uma expresso triste: - Andy, 
se quiseres deixar-me... eu entendo. Tens direito a muito mais do que te posso dar.
- No - atalhou ele, e os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Tenho direito quilo que me prometeste... para o melhor e para o pior, na doena e na sade... at que 
a morte nos separe. No foi dito nada em contrrio- se no pudesses ter filhos. De acordo,  terrivel. Admito. Eu tambm sofro com isso. Mas casei configo... E  
a t que eu amo. E se no podemos ter midos, e assim que ter de ser. Talvez um dia adoptemos um, talvez encontremos outra coisa qualquer, quem sabe se no descobrem 
um novo laser fantstico que tome as coisas diferentes para ti, quem sabe se no descobrem nada, mas isso no me interessa, Di- - Havia lgrimas nas suas faces quando 
lhe apertou as mos, Quero unicamente ter outra vez a minha mulher,
- Amo-te - disse ela, carinhosa. Eram tempos terrveis para ambos, aqueles, os piores da sua vida, e ela sabia que no tinham terminado. Ainda havia muitas lgrimas 
a chorar, e talvez nem tornasse a ser a mesma. Ainda no podia diz-lo. - j no tenho a certeza de quem sou... o que isto significa... o que vai ser de mim - Continuava 
a sentir-se uma falhada,
- Neste momento, s uma mulher que no pode ter filhos, uma mulher com um marido que a ama profundamente, urna mulher a quem estava a acontecer uma coisa terrvel 
e ela no o sabia...  isso o que tu s. s a mesma pessoa que sempre foste. Ningum mudou. A nica coisa que mudou foi um pedao nfimo do futuro,
- Como podes dizer que  nfimo? - parecia outra vez zangada, mas Andy apertou-lhe as mos mais intensamente para a despertar para a realidade.
- Pra com isso, Di.  nfimo. E se tivssemos um filho e ele rnor~

0 PREO DA VENTURA                           171
resse? Seria terrivel, mas nem tu nem eu acabvamos. Continuvamos, no havia outro remdio.
- E se no fssemos capazes? - interrogava tristemente.
- Que alternativa nos restava? Arruinar duas vidas, destruir um bom casamento? Que sentido faz isso? Di, no quero perder-te. j perdemos bastante, da maneira como 
as coisas esto... por favor,.. por favor... ajuda-me a salvar o nosso casamento---
- De acordo... vou tentar... - murmurou, mas j no sabia por onde comear, corno tornar a ser o que fora, e ele percebia-o. Diana j nem sequer estava a fazer um 
trabalho capaz na revista, ela tinha a conscincia disso.
- 0 que tens de fazer, Di,  tentar. Dia aps dia, passo a passo, milmetro a milmetro... e talvez um destes, dias cheguemos l. - Inclinou-se e beijou-a nos lbios, 
mas no esperava muito mais. No faziam amor desde o Dia do Trabalhador e ele j nem ousava tocar-lhe. Diana dizia-lhe que j no havia razo para fazerem amor; 
nada lhe interessava; a sua vida tinha acabado. Naquela noite, porm, ele pde ver um vislumbre de esperana, uma sombra tnue do que ela fora at  sentena final 
do Dr. Johnston.
Tornou a beij~la, ajudou-a a sair do carro e entraram em casa de brao dado. Era a maior intimidade que se permitiam havia meses e ele tinha vontade de chorar, 
to aliviado se sentia. Talvez existisse uma esperana para eles... talvez afinal o dia de Aco de Graas no tivesse sido assim to terrvel- Sorria-)he enquanto 
ela despia o casaco, e Diana inesperadamente soltou uma gargalhada ao lembrar-se da cara de Gayle, confessando a Andy que fora de facto horrivel mas que uma pequena 
parte de si tinha gostado.
- E capaz de lhe ter feito bem - e, a rir, levou-a para a cozinha.
- Ouve, porque no telefonas  tua me a dizer que ests bem? E entretanto eu preparo uma sanduche de bologna. Urna coisa Yealmente festiva.
- Amo-te - disse Diana com ternura, e ele voltou a beij-la lentamente. Ela mareou o nmero dos pais. Atendeu o pai, ouvindo-se ao fundo o barulho infernal das crianas.
- Pai, sou eu- desculpa---
- Estou muito preocupado contigo - disse este sinceramente. No
1
me conformo por no ter sabido do sofrimento em que tens andado.

172                         DANJELLE STEEL
- Ele conhecia-a suficientemente bem para perceber que a sua exploso fora a culminncia de toda a sua angstia, e ter assistido fazia-o sofrer como se houvesse 
falhado no seu papel de pai.
- julgo que agora estou ptima. Talvez esta noite me tivesse feito bem. Mas lamento imenso ter estragado o vosso dia de Aco de Graas,
- No tem importncia. - Ele sorria prra a mulher no outro lado do balI, a qual tinha acabado de entrar para saber quem era, e o marido tentava dar-lhe a entender 
que era Dana. - Pelo menos trouxe alguma coisa de novo para as pessoas conversarem.  bom variar - gracejou, e a me de Diana olhava-o tristemente. Pelo menos ela 
tinha telefonado. Suspeitara que alguma coisa no estava bem mas no fazia ideia do qu, e Diana nunca lhes contara. - Quero que me telefones sem-
- quero que faas isso daqui pre que precisares de mim--- ou da tua me,
para o futuro. Prometes?
- Prometo - disse Diana, sentindo-se como se tivesse voltado  infncia e olhou para o marido no outro lado da cozinha, de casaco despido, as mangas arregaadas 
e ocupadissimo. E pela primeira vez em muito tempo, parecia feliz,
- Podes contar connosco, Diana, para tudo o que precisares de ns. - os olhos de Diana inundaram-se de lgrimas, tal como os da me ao ouvir o marido.
- Eu sei disso, Pap. Obrigada. E diz tambm  Mam e s raparigas que peo desculpa, fazes-me isso, Pap?
- Claro que fao. Agora tem cuidado contigo. - Os olhos dele estavam hmidos. Amava-a com tanta ternura, e custava-lhe imagin-la a sofrer.
- Vou ter, Pap, E tu tambm... Amo-te... - Ao desligar, ela lembrou-se subitamente do dia do seu casamento. Ela e o pai haviam sido sempre to ligados, e ainda 
eram, apesar de no lhe ter contado nada. Mas sabia que, se o tivesse desejado, podia faz-lo. E o que afirmava era verdade: podia contar com eles,
- Preparada para um salame, um pastram e bologna com po de centeio? - perguntou-lhe Andy muito cerimonioso, com um pano da loua no brao e um prato enorme de 
sanduches para ela. Subitamente, era como se tivessem alguma coisa a celebrar, o que era estranho. E tinham, de certo modo. Reencontravam-se, o que no era pouco. 
Fora

0 PREO DA VENTURA                           173
quase tarde de mais, mas tinham escapado a tempo do precipcio. Era um dia de Aco de Graas.
Charlie cozinhou para Barbie um peru perfeito. E desta vez ela estava ali com ele. No foi a lugar nenhum, nem chegou atrasada. Ainda sentia remorsos pelo dia do 
seu aniversrio, Mas Charlie tambm teve a sensao, quando se sentaram  mesa para jantar juntos naquela noite, de que alguma coisa se estava a deteriorar entre 
os dois. Havia algum tempo que vinha notando isso, possivelmente desde que ela passara o dia do Trabalhador em Las Vegas, ou talvez mesmo antes. Barbie voltara outra 
vez ansiosa por excitao, falando dos espectculos que haviam visto, dos amigos com quem tinham estado, e queria que Char~ lie sasse com ela para danar. Mas em 
geral ele chegava a casa muito cansado, e tambm no tinha muito jeito para danar. Notava, contudo, que subitamente ela passava o tempo a queixar-se das coisas 
que ele no lhe fazia, de como era antiquado, at do modo como se vestia, que no era, de facto, de louvar, j que raramente comprava roupas novas para si e apenas 
o fazia para Barbie. Talvez Mark tivesse razo, cismava Charlie, no devia t-la deixado ir a Las Vegas.
Desde ento ela passava a maior parte do tempo com as amigas, ia ao cinema e jantava com elas, e de vez em quando at lhe telefonava a dizer que estava muito cansada 
para voltar para casa e por isso resolvera dormir em casa de Judi. Ele no se queixava, mas tambm no lhe agradava. Falou nisso com Mark, que tornou a avis~lo 
de que o melhor era no lhe dar rdea solta, caso contrrio ainda viria a arrepender-se.
E Charlie continuava a dizer para consigo que se tivessem um filho tudo seria diferente. Ela modificar-se-ia, ficaria mais assente. Deixaria de pensar 'em luxos 
e ostentao, e quem sabe se no desistiria da ideia de ser actriz. Nunca mais falara na questo de criarem uma farnilia desde junho, embora continuasse atento aos 
seus ciclos. Mas no acontecia nada; de vez em quando chegava a casa com uma garrafa de champanhe, sempre cuidadoso em fazer amor com ela na altura certa do ms, 
e se conseguia deix-la razoavelmente embriagada, Barbie no o alertava para precauo de espcie alguma. No entanto, a despeito dos seus melhores esforos, em certas 
ocasies to supremos como duas vezes na mesma noite, s para se certificar, ela no engravidava. Uma

174                         DANIELLE STEEL
ocasio, perguntou-lhe mesmo se tomava a plula, uma ideia que Mark lhe metera na cabea, e ela mostrou-se surpreendida, perguntando-lhe se queria que a tomasse. 
Charlie desculpou-se imediatamente com um artigo que tinha lido sobre os perigos da plula para as mulheres fumadoras, e como ela fumava, estava preocupado, Mas 
ela garantiu-lhe que no tomava. E, apesar disso, no engravidava.
Mark dera-lhe entretanto o nome do especialista do cunhado, e Charlie tinha uma consulta marcada para a segunda-feira a seguir ao Dia de Aco de Graas. Estava 
seriamente preocupado. 0 comentrio dela acerca de nunca ter engravidado com ele, apesar dos seus descuidos, martelava-lhe a cabea e agora queria investigar.
- 0 peru est magnfico! - observou ela, e ele ficou deliciado. Fizera um recheio, um molho de arando com ervilhas-de-cheiro e ce~ bolinhos e para acompanhar, batatas 
doces com malvaisco por cima. E para a sobremesa tinha comprado uma tarte de ma e um bolo de passas; serviu os bolos com gelado de baunilha.
- Devias abrir um restaurante - cumprimentou-o, e ele sorriu enquanto servia o caf e ela acendia um cigarro, mas o seu pensamento estava aparentemente a milhas 
de distncia enquanto fumava.
- Estavas a pensar em qu, neste momento? - interrogou-a, desconsolado, s vezes era to maravilhosa, mas ultimamente parecia to distante, to indiferente. Como 
se lhe fosse fugindo aos poucos, e ele sentia-o mas no sabia como evit-lo.
- Nada de importante... que foi um ptimo jantar... - Sorriu-lhe atravs de uma nuvem de fumo. - s sempre to bom para mim, Charfie, - Mas isso no parecia chegar, 
Charlie percebia-o perfeitamente.
- Procuro ser. Significas tanto para mim, Barb. - Mas ela detestava quando ele se punha a dizer aquelas coisas. - Colocava em cjm dela uma responsabilidade tremenda; 
no queria ser tudo para ele, nerri para ningum. Era um fardo muito pesado para colocar em cima de uma pessoa, e ela no estava disposta, sabia-o agora mais do 
que nunca. - S quero ver-te feliz. - Mas ela interrogava-se se viveria alguma vez segundo as suas expectativas.
- Mas eu sou feliz - disse serenamente.
- s? s vezes tenho dvidas. Sou um tipo to inspido,
- No, no s nada. - Ela corou. - s vezes exijo de mais - e

0 P"(U UA V tI' 1 U
teve um sorriso nostIgico. - E chego mesmo a perder a cabea. No ligues muito!
- 0 que  que tu queres, Barb? - Ele sabia como ela desejava desesperadamente tornar-se uma actriz de sucesso, sabia que no quefia filhos, mas, para alm disso, 
nunca lhe falava dos seus sonhos nem do que desejava para eles. Dir-se-ia que a contentava viver ao sabor do dia-a-dia, satisfazer as suas necessidades mais imediatas. 
Aparentemente, no havia no seu pensamento muito espao para o futuro,
- Por vezes, no tenho a certeza do que quero. Talvez seja esse o problema - admitiu, - Quero ~a minha carreira... quero amigos... quero liberdade... quero excitao...
- E eu no conto? - atalhou ele num tom triste, vendo-a corar.
-  claro, quero-te a ti. Somos casados, no somos?
- Somos? - inquiriu ele incisivamente, e ela no disse nada mas fez que sim com a cabea.
- Claro que somos, no sejas parvo.
- 0 que significa o casamento para ti, Barb? Ele no se ajusta a nenhuma das coisas que mencionaste.
- Porque no? - Mas ela reconhecia o mesmo; s no estava ainda preparada para o aceitar, E no seu entender, ele tambm no.
- No sei, mas no vejo a liberdade e a diverso como sinnimos
do casamento, embora imagine que possam ser, se uma pessoa fizer por isso. julgo que toda a gente pode fazer o que quiser, desde que queira que as coisas funcionem. 
- Ele observava~a enquanto ela apagava o cigarro e acendia outro, e quis perguntar-lhe se era feliz com ele, mas no se atreveu. Temia a sua resposta. E, olhando 
para ela, contnuava a pensar que se tivessem uni filho tudo podia ser diferente. Um beb seria o cimento de que precisavam para continuarem ligados para sempre,


CAPTULO 9
Mark dera~lhe um dia de folga e, na segunda-feira a seguir ao dia de Aco de Graas, Charlie foi a Los Angeles de carro. No disse nada a Barb, que tinha nesse 
dia uma audio para um anncio de fatos de banho, de forma que nem deu pela sada dele nem se apercebeu de que Charlie vestira o seu melhor fato e estava extremamente 
nervoso. Deixou-a na casa de banho, arranjando o cabelo e as unhas com a telefonia altssima. Telefonou-lhe da rua mas ela no atendeu.
Durante todo o caminho para Los Angeles no cessava de pensar no terror que ultimamente sentia de perd-la. Ela no dizia nada, mas agora o seu pensamento parecia 
estar sempre noutro lugar completamente diferente e andava mais distante e contemplativa do que era habitual. Nada disso era feito com maldade intencional, ele sabia-o, 
mas tambm no era fcil viver assim, Barb esquecia-se dos encontros que combinavam, deixava cosmticos espalhados por todos os lados, a cama deles parecia um campo 
de batalha de soutens e cuequinhas, e deixava cadas no cho peas de roupa amarrotadas de cada vez e em cada lugar onde as vestia ou despia. Era boa rapariga, 
e ele era louco por ela, mas tambm reconhecia, como dizia Mark, que a estragara com mimos. No esperava que ela fizesse alguma coisa por ele, nunca lhe pedira contas 
do dinheiro que ganhava com os seus trabalhos de modelo e que normalmente gastava em roupas quando saa com Judi. E a nica coisa que queria dela na verdade, sabia 
como estava relu~ tante em lha dar. 0 seu plano de engan-la com truques tambm no tinha dado qualquer resultado at  data. E agora precisava de descobrir porqu, 
e remediar o que houvesse para remediar. E a - e- ria-se

178                          DANIELLE STEEL
enquanto arrumava o carro no Wilshire Boulevard -, ela que se acautelasse!
0 consultrio do Dr. Peter Pattengill surpreendeu-o pelo modo como era acolhedor; repleto de quadros nas paredes, imensas plantas floridas, cores muito vivas, parecia 
tudo menos um consultrio, sobretudo do tipo daqueles onde uma pessoa se sente no dever de segredar. Charlie ficou aliviado quando deu o nome  enfermeira. No lhe 
haviam dito nada na vspera e no fazia ideia do que iam fazer consigo ou se iriam dar-lhe os clebres cales de gelo. Sorria  ideia, fingindo folhear algumas 
revistas, mas no era capaz de concentrar-se em coisa alguma e por fim chamaram-no pelo nome e foi introduzido no gabinete do Dr. Pattengill.
0 mdico estava sentado  secretria e levantou-se com um largo sorriso quando Charlie entrou. Era de estatura pesada, ombros largos e cabelo preto, uns olhos castanhos 
escuros muito bondosos e sensatos para um homem da sua idade. No aparentava ter mais de 40 anos. Trazia uma gravata de cores berrantes e um casaco de tweed e, antes 
de Pattengill pronunciar uma palavra, Charlie sabia que gostava dele.
- Sou Peter PattengilI, Sr. Winwood. - Depois de se apresentar, Charlie pediu-lhe que o tratasse pelo seu primeiro nome, e Pattengill convidou-o a sentar-se, perguntando-lhe 
se queria um caf. Mas Charlie estava demasiado nervoso para beber fosse o que fosse e recusou. Parecia aterrorizado e jovem, quase jovem de mais para um doente 
de Pattengill. Este era urologista, com uma especializao em poblemas de reproduo. - Ora em que posso ser-lhe til, hoje?
- No sei bem. - Charlie sorriu, hesitante, e o mdico olhou-o encorajadoramente. - No sei exactamente o que o senhor... excepto que ouvi falar nos cales Jockey 
com g-eTo-.-.. - Corou violentamente enquanto Peter Pattengill lhe sorria.
- Servem uma finalidade til. Mas devo admitir que  primeira vista parecem um bocado absurdos aos nossos doentes. Fazem descer a temperatura testicular, e isso 
estimula a fertilidade. - Enquanto falava, abriu uma ficha em cima da- secretria e pegou numa caneta, olhando de seguida para Charlie. --IE se comessemos pela 
sua histria, Sr. Winwood?... Charlie,
Questionou-o acerca de alguma eventual doena grave ou crnica

0 PREO DA VENTURA                            1/9
que pudesse ter sofrido, doenas venreas, papeira em Criana, e Charlie ia abanando a cabea negativamente a todas as suas perguntas.
- Voc e a sua mulher esto actualmente a tentar engravidar? Perguntou, querendo clarificar o motivo por que Charlie o tinha procurado. 0 jovem era to tmido, ainda 
no havia explicado nada de concreto ao mdico.
- Sim... bem, eu estou,
Peter teve um sorriso aberto, recostando-se na cadeira para observar Charlie,
- Talvez precisemos de ter uma conversa sria - gracejou deli~ cadamente. - Isso  uma actividade que tem de ser empreendida por duas pessoas. No estamos Propriamente 
a falar de um desporto a solo.
- Charlie riu-se e continuou a explicar a situao.
- Na verdade, ela no quer engravidar. Eu quero.
- Percebo, E ela tem usado algum mtodo anticoncepcional? Momentaneamente, Peter Pattengill tinha parado de escrever.
- No, se eu a embriagar bastante... - Charlie tinha a conscincia de que se tratava de uma confisso terrvel. Mas ali, podia ser franco. Sabia que tinha de o ser 
com o mdico,
- Isso  quase um plano.
- Sim, . E reconheo que parece horrvel, mas creio que ela acabaria por gostar de um beb, se o tivesse.
- Talvez devesse falar com ela. Quem sabe se no cooperava, se as coisas no seriam mais espontneas.
- Bem, as coisas tm sido bastante espontneas... excepto que, at agora, no aconteceu nada.
<n
- E voc tambm se embriaga? - o mdico olhava-o desconfiado, havia sempre a possibilidade de o rapaz ser um pouco louco, mas Charlie abanou a cabea solenemente, 
com o ar atrapalhado de um garoto de escola.
- No, eu no. E sei que  indecente o que fao com ela, mas estou convencido de que um dia ela ficaria contente se engravidasse. Entretanto, no acontece nada e 
queria saber se as coisas comigo esto todas normais... compreende... sei l, medir o esperma. - Charlie no tinha a menor ideia de como faziam isso.
0 mdico sorriu diante da sua ingenuidade. Havia certamente mais coisas por trs, mas comeava a delinear uma imagem da situao.

180                         DANIELLE STEEL
- H quanto tempo est casado?
- Dezassete meses. Mas s comecei de facto a prestar ateno s coisas, isto , ao seu ciclo... h cerca de cinco meses, embora no adiantasse nada.
- Sim senhor. - o mdico anotou qualquer coisa na ficha e olhou novamente para Charlie, tranquilizando-o: - Isso no  muito tempo.  frequente demorar um ano, ou 
mesmo dois, chegar a uma gravidez. Pode estar a preocupar-se desnecessariamente. E alm disso, a gravidez nem sempre  fcil quando um dos parceiros no a deseja. 
De facto,  muito pouco habitual eu ver apenas uma das metades do casal; isso d-me apenas metade das informaes. 0 problema pode perfeitamente alojar-se na sua 
mulher, se  que existe algum.
- Pensei que se o   senhor visse que est tudo bem comigo, talvez dentro de alguns meses  eu pudesse falar com ela e ela viesse consult-lo. - Ainda no sabia  como 
convenc-la, mas aquele j tinha sido um primeiro passo, e talvez servisse para lhe atenuar as apreenses. - Ela j achou estranho que mesmo sem tomar precaues 
nunca tenha engravidado. Disse isso um dia, e foi desde a que fiquei preocupado.
- A sua mulher j engravidou antes, Sr. Winwood?
- No, julgo que no - respondeu, com segurana.
- Bem, ento vamos ver isso. - 0 mdico levantou-se e Charlie imitou-o, sem nenhuma ideia do que o aguardava, e ento apareceu uma enfermeira que o conduziu a uma 
sala de observao com coloridas pinturas abstractas na parede e uma claraba. Entregou~lhe um frasco pequeno e apontou para uma pilha de revistas, Playbqys, Hustler 
e unia variedade de outras de que Charlie nunca ouvira falar.
- Precisamos do seu srnen, Sr. Winwood - disse a mulher delicadamente. - Disponha do tempo que quiser, e toque a campainha quando pudermos vir buscar a colheita. 
- Charlie olhava-a espantado quando ela fechava 3 porta, sem saber o que fazer a seguir. Sabia, mas no queria acreditar. Eram to terra-a-terra com as coisas! Toma 
l a garrafa, agora desenrasca-te. Por outro lado, porm, ele viera ali atrs de uma resposta par as suas d&idas.
Sentou-se com um suspiro, desapertou as calas pegou numa das revistas, sentindo-se Pior do que um patetinha, e em pouquissimo tempo estava pronto para-tocar e entregar 
a colheita; demorou seguramente mais tempo a decidir-se a chamar a enfermeira, mas queria deixar acal-

0 PREO DA VENTUKA
mar as coisas, e quando, esta reapareceu, Charlie tentou pr UM ar desprendido, e ela pegou no frasco discretamente sem fazer comentrios.
0 Dr, Pattengill veio logo a seguir para ver se ele tinha varicoce-
les - variZeS nos tCsticulOS -, que causavam esterilidade com frequncia, depois chegou um tcnico para lhe fazer anlises ao sangue; iam verificar os seus nveis 
de hormonas e, com o smen, fazer uriu anlise e uma cultura, e dentro de dias teriam algumas informaes a seu respeito. Entretanto, porm, o mdico mostrava-se 
muito tranquilzador. Garantiu-lhe que no via nada de significativo e que esperava que Charlie andasse a preocupar-se por nada. Apenas suspeitava que fosse uma 
questo de ansiedade e impacincia.
Aos olhos de PattengilI, Charlie parecia uma pessoa saudvel, para o bem do qual esperava que no houvesse nenhum problema de maior. Pediu a Charlie que marcasse 
uma consulta para a semana seguinte, devendo trazer nessa altura um frasco com smen fresco, e despediu-se dele.
Quando Charlie se viu na rua, sentu-se imensamente aliviado. Gostara de PattengilI, mas o teor da conversa e a tenso de tudo o resto deixaram-no nervosssimo. 
No lhe agradara nada ter de produzir a amostra sozinho, mas pelo menos era um alvio pensar que da prima vez poderia fazer isso em casa. Tinham~lhe dado um frasco 
para a colheita. Mas as simples implicaes de estar ali, e a perspectiva do que podiam vir a fazer-lhe, eram motivos de sobra para sentir-se uma lstima.
j em casa, telefonou a Mark e agradeceu-lhe mais uma vez a indcao do mdico.
- Que tal correu? Ests bem?
- Por enquanto estou, e  um tipo realmente simptico,
- Garantiu-te que estava tudo em ordem? - inquiriu Mark ansioso, Charlie tinha bom aspecto mas naquele tipo de coisas nunca se sabia; o cunhado parecia estar ptimo,
- Ainda no. Tenho de esperar pelos resultados das anlises na
semana que vem.
- Ainda no te deu as cuecas de gelo? - ironizou Mark e Charlie soltou uma gargalhada nervosa, enquanto se estendia no sof e descalava os sapatos. Estava extremamente 
fatigado.
-  Tal,7ez mas d para a semana.
- Espero que no, Vais ficar fino, mido! Acredita em mim. Eu

182                           DANIELLE STEEL
percebo disso. At amanh - despediu-se num tom jovial, rezando para que tivesse razo.
- Obrigado, Mark... por tudo.
- No tem importncia.
E, voltando ao trabalho, Mark esperava sinceramente que tudo corresse bem com Charlie. Era um mido formidvel e Mark pensava que merecia obter o que dese)ava.
- Ento, isso diz o qu? - interrogava Brad ansioso, enquando ela fazia o teste. Este era idntico ao que Pilar j tinha feito para verificar a subida da hormona 
no perodo mensal da ovulao.
- Ainda no sei. Ainda no teve tempo. - Ela ia controlando pelo relgio e Brad aguardava do lado de fora da casa de banho. - Vai-te embora. Ests a pr-me nervosa.
- No saio daqui. - Ele sorriu-lhe. - Quero saber se a concha de peru deu resultado.
- s um chato, - Mas tambm estava morta por saber, quase sem aguentar... mais sessenta segundos... cinquenta e cinco... quarenta... o teste aproximava-se do fim 
e nada tinha mudado, mas finalmente viu~0... o azul vivo que transformava as suas esperanas em realidade... o milagre acontecera... Ergueu os olhos cheios de lgrimas 
para ele, e este tambm o viu. Estava grvida.
- Oh, meu Deus! - murmurou, olhando para Brad, e de repente, preocupada: - E se for um falso positivo? Creio que acontece com frc~ quncia.
- No . - Ele ainda sorria quando se aproximou dela e a apertou nos braos. Nunca pudera imaginar que as suas vida fossem mudar quele ponto. E nunca pensara amar 
tanto uma mulher--- nem um beb,
- Amo-te, Pilar... tanto! - e fechou os olhos, abraando-a, e havia lgrimas no rosto dela quando olhou para o marido,
- No posso crer. Nunca imaginei que fosse resultar. Todas aquelas plulas, e os ultra-sons... e aquele quarto ridculo com os l.,deotapes e as revistas abjectas... 
Ob!
- Creio que no precisas e contar tudo isso ao beb quando ele ou ela crescer. Parece-me que podemos saltar essa parte, e contar-lhe

0 PREO DA VENTURA                          183
apenas que foi numa noite ao luar e com os dois muito apaixonados. creio que podes excluir a parte da concha de peru.
- , talvez tenhas razo. - Ela ria enquanto voltavam para o quarto. E, de sbito, ele desejou-a de uma forma avassaladora, como se quisesse fazer seu aquele beb, 
muito mais do que o era agora.
Puxou-a suavemente para si na cama, e beijou-a longa e intensamente, sentindo-lhe os seios, mais volumosos do que era habitual, o que ele j vinha notando h uns 
dias e o fizera suspeitar que podia estar grvida.
Ficaram untos na cama durante algum tempo, e ento foi Pilar que o deseou ardentemente. Mas a seguir ficou cheia de remorsos.
- Achas que  mau para o beb? - perguntou-lhe, com uma sensao de culpa, mas plenamente saciada.
- No, creio que no. - E a voz dele soava profunda e sensual, enquanto as mos dela lhe acariciavam o peito e depois desciam at  parte dele que lhe dera tanto 
prazer. - Estar grvida  perfeitamente normal.
- Ah! - ela riu-se. - Se  normal, porque  que no  fcil?
- Por vezes, as coisas boas no o so. Como no foi nada fcil apanhar-te. - Brad bejou-a e os dois levantaram-se e foram preparar o pequeno almoo. Sentaram-se 
no terrao de cales e t-sbirts, Era um maravilhoso dia de Dezembro e o seu beb devia nascer em Agosto.
- Espera at Naticy saber! - Pilar sorria, servindo-se de outra dose de ovos mexidos. Repentinamente, ficara faminta. - Imaginas como vai ficar espantada? - Soltou 
uma gargalhada feliz ao pensar nisso e o lIn
marido riu-se. Pilar e Brad sentiam-se mais felizes do que nunca.
- Parece-me que nem  preciso diz-lo. Se eras tu a primeira a proclamar durante todos estes anos que no querias ter filhos Agora vais ter muito que explicar, minha 
querida! - E ouvir o que lhe diria a me. Mas Pilar j estava habituada. A quem desejava particularmente dizer era a Marina. Sabia como a amiga ia ficar feliz e 
solidria.
- Esperemos que chegue o Natal para dizer aos midos - sugeriu Pilar com um sorriso luminoso.
Brad, porm, pensava para consigo se no seria melhor esperar mais um pouco, s para terem a certeza de que tudo estava bem, mas no quis assust-la. E quando, na 
manh seguinte, ela viu a mdica, esta disse que estava tudo perfeito. Podia trabalhar, jogar tnis, fazer

184                         DANIELLE STEEL
amor, nada de excessos, muito repouso e uma dieta saudvel. Mas de resto ela levava uma vida saudvel, e falava em trabalhar at ao ltimo minuto. Depois tiraria 
alguns meses, e ento voltava para o escritrio. No conseguia imaginar-se desistindo do trabalho, nem a ficar em casa mais do que o necessrio nos primeiros tempos.
j planeara tudo. Iria ela prpria cuidar do filho at retomar o tra~ balho; nessa altura procuraria uma jovem estrangeira que quisesse tra~ balhar e fosse carinhosa 
para o beb. Em finais de Maro ou princpios de Abril iria fazer uma amniocentese para verificar se a criana era geneticamente saudvel; era um exame destinado 
a detectar problemas tais como espinha bfida e o sndroma de Down, e que tambm lhe diria qual o sexo da criana, caso desejasse saber, e ela desejava-o. E sempre 
que ia fazer compras de Natal, aparecia invariavelmente em casa com pequenas bugigangas para o bb. At encomendara um carrinho de beb ingls que a deslumbrou 
numa das vezes que foi ao Saks, com uma capota azul~marinho e um cestinho em esmalte branco.
- Andas a preparar-te com afinco, no andas? - brincava Brad. Estava to excitada! No imaginava como ia aguentar a espera at Agosto. No almoo que tiveram juntos 
por altura do Natal, deu a novidade  sua secretria e aos colegas, os quais quase caram das cadeiras, e ela ria-se felicssima das caras que fizeram.
- Apanhei-os de surpresa, no foi?
- Ests a brincar, no? - Os colegas no queriam acreditar. Pilar? No era possvel. A defensora acrrima da causa feminista? Uma das primeiras apoiantes da legalizao 
do aborto na Califrnia? 0 que lhe acontecera? Era uma mudana de vida? Maturidade? Crises da meia-idade?
- No, creio que foi o casamento. - confessou. - No sei... mas comecei a pensar como seria triste nunca termos um beb.
- Tens sorte em no ter sido tarde de mais - observou a secretria. 0 marido desta tinha morrido quando ela tinha 41 anos, e quando casara com "o homem da sua vida" 
dois anos depois, queriam ansiosamente um beb. Nenhum dos dois tivera filhos antes, e experimentaram tudo para conceber, mas nada resultara. E o marido era contrrio 
 adopo.
Alice e Bruce estavam particularmente felizes por ela, e quanto a Marina, essa ficou simplesmente delirante.

0 PREO DA VENTURA
- Sinto-me com tanta sorte! - dizia Pilar. - No imaginava que pudesse acontecer, mesmo depois de estarmos mentalizados.  um milagre to grande quando acontece. 
Quando s jovem, parece-te uma coisa sem complicaes, vais para a cama com um tipo e o mais que te pode suceder  ficares de balo. E ento se tens 15 anos e a 
coisa acontece no banco de trs de uma carrinha, so favas contadas, Depois disso, j nada  certo, fazes todos os exames do mundo, andas  espera do dia propcio 
e, na melhor das hipteses, tens oito a dez probabilidades de engravidar. - Mas ela tivera essa sorte. E vibrava com isso. Anunciou a todos os seus planos de trabalhar 
at ao fim, e todos ficaram excitados com a notcia. Pilar Coleman tinha tudo o que queria.
Ao contrrio de Charlie Winwood, sentado no consultrio do Dr. Pattengill, olhando para este com espanto e incredulidade. 0         mdico acabara de o informar 
de que a sua contagem de esperma era           inferior a quatro milhes. Durante cinco segundos Charlie pensou que          isso era estupendo, at o mdico lhe 
explicar.
- Quarenta milhes so o mnimo para um limite normal,           Charlie.
- Pattengill olhava seriamente para ele, querendo ampar-lo o melhor possvel. - Quatro milhes esto francamente muito abaixo disso. E a concentrao do esperma 
foi inferior a um milho por milmetro, precisamente cinco por cento do que devia ser; e menos de dois por cento acusara mobilidade, o que tambm era impressionantemente 
baixo, quando o normal seria 50 por cento.
- H alguma coisa que possamos fazer para o subir, digamos assim? - Ele sorriu e o mdico tambm.
- Hormonas, possivelmente, Mas, em todo o caso, pode continuar bastante abaixo dos limites normais. Duvido que possamos fazer subir os seus nveis de esperma o suficiente, 
mas gostava de observ~lo novamente antes de fazermos alguma coisa. - Ele trouxera consigo o outro frasco. - Vamos fazer agora outro ensaio, e um na prxima semana. 
E enquanto esperamos por estes resultados, gostava de efectuar mais algumas anlises. Uma delas  uma anlise de acar para investigar a frutose. Com o volume de 
esperma baixo que tem, podamos estar perante um canal bloqueado e isso dava-nos uma pista importante.

186                         DANIELLE STEEL
- E se estiver bloqueado? - inquiriu Charlie, as faces brancas por debaixo das sardas. No esperava aquilo... Barb tinha razo. Havia um motivo para ela no engravidar. 
Ele possua um baixo nvel de esperma.
- Se existir um bloqueamento, h vrias possibilidades; podemos partir para uma bipsa testicular, ou um vasograma. Mas isso  uma hiptese muito remota, duvido 
que tenha necessidade disso. Gostaria de lhe fazer um teste com pigmento, para ver por que motivo o esperma no se move bem. E o teste do hamster. - 0 mdico"sorru. 
- Pro~ vavelmente ouviu falar nisso. Toda a gente que j teve um amigo com problemas de fertilidade parece conhec-lo.
- No, no conheo. - Que mais lhe iriam fazer agora?
- Usamos um vulo de hamster que fecundamos com o seu esperma. Acaba por ser um ensaio de penetrao do esperma. Se o vulo do hamster for fecundado, a capacidade 
fertilizadora do seu esperma pode ser slida, e se a fecundao no ocorrer, pode ser um indcio de um problema srio,
- Nunca tive um hamster, mesmo em pequeno - admitiu Charfie num tom infeliz, e o mdico sorriu com simpatia.
- Vamos saber mais coisas na prxima semana.
Mas a semana antes do Natal foi a pior na vida de Charlie. Voltou ao consultrio do Dr. PattenglI e recebeu o que era para ele a sentena de morte do seu casamento. 
A segunda contagem de esperma revelara-se ainda pior do que a primeira, e a terceira ainda mais deprmente, Numa delas tinha quase zero de esperma, a mobilidade 
do seu esperma era fraca e no existia nenhuma obstruo que pudesse ser responsvel pelo baixo volume de smen. E o prprio teste do hamster fora desastroso. 0 
hamster no engravidou, se bem que os resultados no surpreendessem Pattengill, em virtude dos nmeros. E no havia absolutamente nada que pudessem fazer. Se os 
seus nveis hormonais fossem mais elevados, podia ter valido a pena experimentar o Clomifene, mas Chaffie estava muito abaixo do limite normal para se tentar essa 
soluo, e sem senhum bloqueamento responsvel tambm a cirurgia no era adequada,
- Tem de pensar em planos alternativos para a sua famlia - suge~ riu-lhe o mdico delicadamente. - Com estes nveis de esperma,  pratcamente impossvel fecundar 
seja quem for. Lamento muito.
- No h absolutamente nenhuma hiptese? - a voz de Charlie

0 PRFO DA VEIIZTURA                           I3/
foi desta vez um silvo na sala subitamente sem ar e, Pela primeira vez em muitos anos, sentiu a sua asma.
- Vrtualrnente nenhuma. - Era uma sentena de morte para ele, que j se arrependia de ter vindo, Mas talvez fosse melhor saber do que nutrir esperanas.
- Nada que eu possa fazer, Doutor? Nenhum medicamento, nenhum tratamento?
- Tomara que houvesse, Char}ie. Voc est muito prximo daquilo a que chamamos esperma nulo. No pode fazer um filho. Mas pode adoptar, Se a sua mulher estiver disposta, 
podem considerar a doao de esperma para ela ser inseminada artificialmente. A, j teriam a oportunidade de seguir juntos todo o processo. isso funciona relativamente 
bem com certas pessoas. ou podem querer considerar no ter filhos de todo em todo; alguns casais so muito felizes "isentos de filhos", como eles lhe chamam. Permite 
mais tempo, maior intimidade, menos stress em certos aspectos, comparativamente ao acrscimo que os filhos consttuem para o casamento. Mesmo os filhos bolgicos 
podem trazer uma enorme presso a um casamento. Voc e a sua mulher devem considerar todas as opes, Ns podemos, por exemplo, providenciar um servio que aconselha 
os casais ajudando a encontrar a melhor soluo para ambos - props, afavelmente.
Lindo. Charlie continuava sentado, olhando apaticamente para a janela. Ol, Barb bom, hoje descobri que sou estril, escusas de preocupar-le mais com a histria 
de terfilbos--- . 0 que  o jantar? Ele sabia que ela jamais iria concordar em adoptar, e muito menos fazer inseminao artificial. S a ideia de lho sugerir dava-lhe 
quase vontade de rir... se a sua vontade maior no fosse a de chorar.
- No sei que dizer - murmurou, olhando para o mdico.
- No precsa de dizer nada.  difcil assimilar tudo de uma vez. E eu sei como . doloroso para si. So notcias terrveis., parece uma sentena de morte, no ?
- Como  que sabe? - inquiriu num tom lapidar, os olhos inundados de lgrmas. -  muito diferente deste lado da secretria.
-  veTdade, e normalmente eu no conto isto aos meus doentes, Cbarlie. Mas eu tenho a mesma coisa que voc. Na realidade, o meu caso  -mais grave, no que isso 
faa grande diferena. Azoospermia clssica, no meu caso. Nvel de esperma zero. A minha mulher e eu

188                         DAINIELLE STEEL
temos quatro filhos, todos eles adoptados. Eu sei como voc se sente. Mas existem outras solues. Voc no vai engravidar a sua mulher este ms, nem no prximo, 
mas no significa que no possa ter uma fanillia, se desejar alguma coisa. Mas como disse, a resposta certa para si at pode ser no ter filhos. 0 que achar certo 
para si. Mas  voc que vai ter de encontrar essas respostas.
Charlie assentiu com a cabea e por fim levantou-se, apertou a mo ao mdico e saiu, Peter Pattengffi no fora propriamente o santo milagreiro que o cunhado de Mark 
tinha prometido. No existiam milagres para Charlie. No existia nada. Nunca existira. Nem pais, nem famlia quando estava a crescer, e agora nem filhos seus, e 
por vezes interrogava-se se mesmo Barbie existiria. Andava to afastada dele, to distante e independente. Ultimamente, j mal a via, sempre em audies, ou saindo 
com amigos, e ele estava em geral a trabalhar. E agora ia dzer-lhe o qu? Que era estril? ptimo... e que te parece fazer a inseminao artficial com o esperma 
de um dador, meu bem? Isso seria uma bomba para ela. Ele mal podia acreditar.
Ficou sentado no carro durante meia hora antes de arrancar; e, enquanto conduzia a caminho de casa, as decoraes de -Natal que via pareciam um insulto. Lembravam-lhe 
os seus anos de garoto nos orfanatos, quando costumavam olhar da janela as casas do outro lado da rua com rvores de Natal, as renas iluminadas no relvado, e mes 
e pas e filhos. Sempre quisera ser um deles, e agora nem sequer isso podia ter. Era uma partida cruel. E a vida inteira tinha sido justamente isso o que ele desejava.
Quando chegou a casa, Barb tinha sado, mas dessa vez deixara um bilhete, e dizia que tinha uma actuao e no estaria em casa antes da meia-noite. Tanto melhor, 
pelo menos no precisava de encar-la nem de lhe dizer. Preparou um mais que generoso copo de whisky e foi para a cama; e quando ela chegou a casa, Charlie encontrava-se 
to bbado que estava inconsciente.

1 CAPITULO 10
Pilar telefonou  me no dia de Natal e, apesar da enorme tentao de falar no beb, conseguiu resistir; alis, ela sabia que metade do desejo de contar-lhe era 
apenas para provar que a me estava enganada e que afinal ela no era velha de mais para ter filhos. Suficientemente honesta para reconhecer isso, no disse nada 
quando lhe desejou um feliz Natal.
Telefonou tambm a Marina, que se encontrava em Toronto a cele~ brar o Natal com uma das muitas irms.
Mais para o fim do dia, Brad e Pitar abriram os presentes na companhia de Todd, Naney, Tommy e do pequeno Adam. Pilar no medira despesas a presentear toda a gente, 
sobretudo o beb. Havia para ele um enorme urso, um pequeno baloio, fatinhos amorosos que descobrira numa boutque em Los Angeles, um litidssimo cavalo de baloio 
alemo que tinha mandado vir de Nova lorque. E tinha presentes maravilhosos Para os outros, Estava emocionada por rever Todd, com um ptimo aspecto e cheio de coisas 
para contar do seu trabalho e da namorada que arranjara em Chicago. E sentia-se mais prxima de Nancy do que em todos aqueles anos, agora que exstia entre as duas 
tanto em comum, embora a enteada ainda no soubesse de nada.
Tiveram um refeio maravilhosa, acabada a qual, enquanto bebiam champanhe e comiam o tradicional bolo natalIcio, de chocolate, Brad lhe sorriu e Pilar acenou com 
a cabea.
- Tenho uma coisa para vos dizer, que sei que vai ser uma incrvel surpresa. Mas a vida  cheia de maravilhosas surpresas. - E dizendo isto, sorriu para Adam, palrando 
na sua cadeira alta. Este trazia vestido

igo                         DAMELLE STEEL
um fatinho de veludo vermelho que ela comprara e dera a Nancy antes do Natal.
- Tambm vais ser juiz! - aventou Todd, feliz pelos dois. - Que famlia impressionante! - elogiou ele.
- Vo comprar uma casa nova! - foi a vez de Nancy arriscar, esperanosa de que o pai a deixasse mudar-se para aquela, caso no resolvesse vend-la.
- Melhor que isso. - Pilar ria. -  muito mais    importante, e no vou ser juiz. j basta uni na famlia, delego esses assuntos importantes no vosso pai. - Sorriu 
ternamente para ele, enquanto todos aguardavam, e ento, respirando fundo, anunciou com serenidade mas orgulhosa: - Vamos ter um beb.
Fez-se um silncio total na sala, que Nancy quebrou com uma gargalhada nervosa. No podia crer.
- No vais nada!
- Vou.
- Mas s to velha! - observou rudemente, e o pai olhou para ela. De sbito lembrava-lhe a garotinha mimada que se tinha oposto a Pilar quando esta comeara a andar 
com ele.
- Mas foste tu prpria a dizer-me que tinhas amigas mais velhas do que eu que s agora comearam a ser mes... - atalhou Pilar serenamente. - Disseste-me que devia 
pensar nisso antes que fosse tarde de mais. - Foi forada a recordar-lhe as suas prprias palavras, mas Nancy no gostou.
- Mas nunca imaginei... limitei-me... tu e o Pap no acham que so demasiado velhos para um filho nesta altura da vida? - insistiu, insolente, sob os olhares silenciosos 
do marido e do irmo.
- No, no achamos - afirmou o pai, muito calmo -, e aparentemente a Me-Natureza tambm no. - Ele estava feliz com o beb, e por causa de Pilar, e no ia permitir 
que Nancy estragasse tudo. Esta tinha a sua prpria vida, o marido, o filho, e no lhe dava o direito de vir ensombrar a deles, nem de estragar a alegria de Pilar 
s pelo facto de ser ciumenta. - Sei que  uma surpresa para vocs todos, mas estamos muito felizes, e espero o mesmo de vocs. E parece-me maravilhos o nosso jovem 
Adam poder ter um novo tio. - Riu-se e Todd ergueu a taa  sade deles.
- Bom, pai, vocs os dois so sempre cheios de surpresas. Mas

0 PREO DA VENTURA                           igi
estou feliz por vocs, se  isso o que querem - afirmou, muito digno.
- Acho que so os dois formidveis. Eu, por mim, no me imagino a ter filhos, sobretudo se sarem a ns - e olhou intencionalmente para a irm -, mas boa sorte para 
vocs! - Terminado o, brinde, bebeu, e Tommy acompanhou-o. S Nancy se mostrava contrariada, e no mudou de atitude at  hora de sair. Nesse momento ainda foi spera 
para Tommy quando este levantou o beb no ar, despediu-se do pai beijando-o com lgrimas nos olhos e nem agradeceu os presentes a Pilar.
- Parece-me que no cresceu tanto como eu imaginava - comentou Pilar depois de sarem. - Est furiosa comigo.
-  uma fedelha mimada, e a nossa vida, e o que pretendemos fazer dela, no  da sua conta. - Recusava-se a permitir que os filhos interferissem na sua vida, do 
mesmo modo que se recusava a interferir na deles. Eram adultos como ele prprio e Pilar, e no ia sentir-se afectado com o que os filhos pensavam. Queria que Pilar 
tivesse aquele beb, sabia o quanto significava para ela, e esta tinha todo o direito de ter filhos, e se j fosse tarde, era um problema exclusivamente seu.
-  capaz de pensar que estou a competir com ela - disse Pilar, pensativa, enquanto levantavam a mesa e empilhavam os pratos no lava-louas para a mulher da limpeza 
lavar na manh seguinte.
- Talvez. Mas est na hora de aprender que o mundo no gira  sua volta. Tommy h-de abrir-lhe os olhos, e Todd tambm. - Este ia ficar com eles alguns dias durante 
as suas frias.
- Todd foi maravilhoso, e tambm deve ter sido um choque para ele.
- Provavelmente, mas pelo menos tem maturidade suficiente para saber que -no vai alterar nada na sua vida. Nancy acabara por conclu-lo tambm, que isso no vai 
diminuir a minha afeio por eles. Mas entretanto, vai tornar-te a vida num inferno, se a deixares. - E nesse instante olhou para Pilar com um ar severo: - No quero 
que ela te aborrea justamente neste momento. Entendido? - Ele parecia muito firme, e ela sorriu-lhe enquanto voltavam para o quarto.
- Sim, MertIssimo.
- E no quero ouvir mais nada sobre aquela pestezinha at ela aprender a ter maneiras.
- Ela vai ficar bem, Brad! Foi uma grande surpresa para ela,
- Acho bem que sim, ou vai ter que haver-se com o pai. Ela deu-

192                         DANIELLE STEEL
-te h quinze anos problemas que chegavam para vrias vidas. No lhe sobrou nada para esta, e se for preciso, eu refresco-lhe a memria. Mas espero no ter de o 
fazer.
- Eu telefono-lhe para a semana a convid-la para almoar, e ento verei se j baixou a crista.
- Ela  que devia telefonar-te - resmungou ele, mas Nancy surpreendeu-os a ambos ao telefonar mais tarde, nessa mesma noite, a pedir desculpa. Tanto o irmo como 
o marido a tinham forado a admitir que no tinha o direito de desaprovar o que eles faziam, e que se comportara pessimamente. Chorava ao telefone com Pilar, dizendo-lhe 
que lamentava o facto de ter sido to ignbil para ela, e Pilar tambm chorou.
- A culpa  tua, sabes? - dizia esta ao telefone, a voz presa pela emoo. - Se o Adam no fosse to engraado, talvez nunca o tivesse feito. - Mas havia muito mais 
do que isso, e ela e Brad sabiam-no.
- Desculpa... e tu foste to querida para mira quando te falei de Adam.
- No te preocupes...       Pilar sorria entre lgrimas. - Ficas a dever-me um cheesecake!*       Era o seu nico desejo, de momento. Na manh seguinte, quando se 
levantaram, havia um cbeesecake
dentro duma caixa cor-de-rosa nos degraus da frente, com uma rosa em cima. E Pilar tornou a chorar abundantemente quando a foi mostrar a Brad. Mas este ficou contente 
por Nancy ter reconhecido o seu erro to rapidamente.
- Agora s tens de relaxar e ter o teu beb. - Pareciam oito meses interminveis, dali at Agosto.
Diana e Andy passaram um Natal tranquilo no Hawai, da forma que ambos estavam a precisar, estendidos ao Sol a torrar dias seguidos em Mauna Kea. Era a primeira vez 
que ficavam sozinhos e longe das agonias que haviam vivido, depois do desastroso fim de semana que pas~ saram em La Jolla nos princpios de Setembro. E tanto um 
como o outro ficaram alarmados quando compreenderam quo perto haviam estado de destruir o seu casamento. Dir~se-ia que no tinham mais nada em
* Bolo feito com queijo, especialidade americana, (N. do T)

0 PREO DA VENTURA                           193
comum, nada para dizer, nada a partilhar, nenhum futuro para antever. Tinham andado quase quatro meses  deriva, e a verdade  que estiveram muito perto de afundar-se, 
at ao dia de Aco de Graas, quando momentaneamente surgira um vislumbre de esperana.
Levou-lhes dois dias de abandono na praia para, finalmente, conversarem de outra coisa alm de comida e do estado do tempo. Mas era o local perfeito para eles; sem 
televiso nos quartos, nenhuns lugares onde ir, nada para ver, ficavam unicamente estendidos na praia e, lentamente, comeavam a recuperar.
No dia de Natal partilharam um jantar tranquilo na sala de jantar principal, dando em seguida um longo passeio pela praia, as mos enlaadas ao pr-do-sol.
- Sinto-me como se tivssemos estado na lua e regressado este ano - murmurava Diana calmamente. Aps ano e meio de casamento, ela j no tinha certezas em relao 
ao que queria nem a que rumo ia tomar.
-  como eu me sinto - admitiu ele, sentando-se ambos na areia a contemplar a rebentao. Em breve, quando escurecesse totalmente, as raias gigantes viriam  beira 
da gua alimentar-se e os hspedes do hotel teriam oportunidade de observ~las. - Mas o importante, Di,  que... conseguimos... no nos fomos abaixo... ainda aqui 
estamos, conversando um com o outro, dando as mos... Isso significa muito... sobrevivemos.
- Mas a que preo! - disse ela tristemente. Desistira de todos os seus sonhos. E doravante, que lhe restava para olhar em frente? Se o que sempre, tinha querido 
eram filhos... mas tambm quisera Andy. E ele continuava ali. A nica coisa perdida eram os filhos. Era duro viver com isso mas, por outro lado, ele tinha razo. 
Perder os sonhos no equivalia a morrer.
- Quem sabe se isto no nos torna mais fortes com o correr do tempo... - disse ele, pensativo. Ainda a amava. j no sabia bem quem ela era, nem onde encontr-la. 
Durante meses, vinha-se escondendo emocionalmente de si mesma, fechada na sua concha, indo trabalhar cada dia mais cedo, regressando a casa cada dia mais tarde, 
metendo-se na cama assim que chegava, caindo no sono mal se deitava. j no queria falar com ele, pouqussimas vezes telefonava aos pais, com as irms e os amigos 
nem falava. Haviam~se tornado subitamente estranhos. E ela

194                          DANIELLE STEEL
aproveitava qualquer viagem que se lhe proporcionasse no escritrio; por mais de uma vez Andy lhe tinha proposto ir ter com ela, pensando que pudessem desfrutar 
de uns dias de distraco no final da viagem, mas ela no queria divertir-se, no queria estar com ele. Andava sempre muito ocupada, dizia.
- A grande questo - prosseguiu ele, hesitante, interrogando-se se no seria demasiado cedo para aflorar o assunto -,  para onde vamos a partir daqui. No queres 
continuar casada comigo? Foi assim to grande a nossa mgoa que no possamos salvar alguma coisa de bom? Eu j no sei o que tu queres - confessou, pensando como 
era trgico estar a perguntar-lhe se desejava o divrcio, ali sentados sob o glorioso pr-do-sol do Hawai. Diana estava com um vestido branco de algodo, j muito 
bronzeada aps dois dias de praia, a brisa agitando-lhe provocadoramente os cabelos. Mas pouco adiantava reconhecer como ela era bela, estava consciente de que no 
o queria,
- 0 que  que tu queres? - perguntou-lhe, por sua vez, sem responder  pergunta dele. - Continuo a pensar que no tenho o direito de prender-te, Mereces muito mais 
do que aquilo que posso dar-te. Estava preparada para abdicar do marido, para bem dele, e talvez at para o seu prprio bem. E viveria sozinha, e prosseguiria a 
sua carreira. Sabia que no voltaria a casar se ele a deixasse, pelo menos era o que pensava. Estava com 28 anos e disposta a abdicar de tudo, se fosse essa a vontade 
dele, mas no era.
- Isso  uma tolice, e tu sabes que .
- Eu j no sei nada. S sei o que no . No sei o que e, nem o que est certo, ou o que devo fazer, ou mesmo o que quero, - Ela j tinha pensado largar o emprego 
e voltar a viver na Europa.
- Amas-me? - perguntou-lhe ele com ternura, aproximando-se dela, olhando-a nos olhos que ela tinha agora sempre to tristes, to vazios, to destroados. Tudo dentro 
dela ficara causticado, queimado e rasgado at ao fundo da alma, e havia ocasies em que ele pensava no ter sobrado nada alm de cinzas.
- Sim, amo-te - suspirou. - Amo-te muito... hei-de amar-te sempre... mas no significa que tenha o direito de te segurar... no posso dar-te nada, Andy... a no 
ser eu mesma, e agora resta muito pouco.
- Resta muito. S que tu tens andado a enterrar~te, em trabalho, em dor e sofrimento... eu posso ajudar-te a ergueres-te, se me deixa-

0 PREO DA VENTURA                           -195
res. - Andy tinha comeado a consultar um psiquiatra umas Semanas antes e senta-se mais forte.
- E depois? - interrogava ela. Parecia-lhe to intil.
- Depois temo-nos um ao outro, o que  bastante mais do que muitas pessoas podem dizer. Somos dois seres bons que se amam e que tm muito a trocar entre si, e tm 
o mundo, os amigos. 0 mundo no gira todo em redor de crianas, sabes disso. E mesmo que tivssemos as nossas, mais cedo ou mais tarde cresciam e iam  vida, ou 
talvez nos detestassem, ou pudessem ser mortas num acidente de carro ou num incndio. No h garantias nenhumas na vida, Nem os prprios filhos esto eternamente 
nas nossas mos. - 0 problema para ela, contudo, era que eles estavam em todo o lado, nas ruas, nos supermercados, at por vezes no elevador do seu prprio escritrio, 
seres minsculos com olhos gigantes e coraes abertos, de mos dadas com as suas mes, ou chorando e sendo confortados de um modo que Diana jamais poderia usar. 
Havia mulheres de ventres enormes onde quer que olhasse em volta, cheias de esperanas e promessas de um modo que Diana jamais conheceria, jamais partilharia, jamais 
sentiria no corao ou no corpo. No era fcil abdicar de tudo isso, e no parecia justo que Andy tivesse de o fazer.
- Acho que  injusto viveres uma vida sem filhos, s porque eu tenho de viver. Porque terias de fazer isso?
- Porque te amo. E tambm no  obrigatrio que seja sem filhos. Pode ser, se o quisermos, Seno, h outras alternativas.
- No sei se estou preparada.
- Nem eu. E no temos de tomar uma deciso neste preciso momento. A nica coisa que temos de fazer  pensar em ns, e fazer alguma coi-antes que seja tarde e nos 
aniquilemos. Amor... no quero perder-te...
- Tambm no quero perder~te - disse ela, subindo-lhe as lgrimas aos olhos, e virou-se. Por cima do ombro, ao fundo da praia, podia ver crianas brincando, e no 
suportava.
- Quero-te de volta... aos meus sonhos       ...  minha vida  ...  aos meus dias... ao meu corao... aos meus braos    ...  minha cama  ...  ao meu futuro. Meu 
Deus, como tenho sentido a tua falta! - e puxou-a para si, sentindo o calor do seu corpo perto dele, desejando-a. Amor... preciso de ti...

196                          DANIELLE STEEL
- Eu tambm preciso de ti - disse ela, e comeou a chorar. Precsava to terrivelmente dele. No podia passar sem ele, desistir de todos aqueles sonhos, e no entanto, 
no meio do horror, perdera-o de certa forma.
- Vamos tentar... por favor, dexa-rne tentar.--- - Ele olhava-a, e ela sorriu e fez que sim com a cabea. - Nem sempre ser fcil, e  bem possvel que eu por vezes 
no entenda, e nem sempre ajude... mas procurarei ajudar. E se no o fizer, diz~me. - Tudo o que ele queria era t-la de novo,
Devagar, drgiram-se para o quarto, mo na mo e, pela primeira vez em meses, fizeram amor, muitssimo melhor do que qualquer um deles se lembrava.
0 Natal de Charlie e Barbie foi estranho. Rescaldo, era a nica palavra que lhe vinha  ideia para descrev-lo. Peculiar. mpar. Talvez mesmo assombroso. Ele cozinhou 
a ceia de Natal, como habitualmente, e ela foi de manh a casa de Jud, segundo disse, dar-lhe um presente. Por uma vez na vida, foi uma felicidade para Charlie 
ficar sozinho. Estava novamente com uma terrvel ressaca, andava a beber demasiado e reconhecia-o. Mas era uma tentativa de assimilar tudo o que lhe dissera o Dr. 
PattengiII, e no conseguia. Nunca iria engravidar a sua mulher. jamais. Um nvel de esperma igual a zero. Lembrava-se, tambm, do que o mdico lhe contara de si 
proprio, mas no o ajudava muito. No lhe interessava quantos filhos os PattengilIs tinham adoptado. Ele queria um beb, o seu beb, e com Barb. Agora. E sabia que 
era impossivel. Ou pelo menos sabia~o o seu esprito, pois o corao ainda se recusava a acreditar.
Ela veio para casa perto das quatro horas, cheia de vivacidade e excitao. Tinha estado a beber, nitidamente, e mostrava-se brincalhona com ele enquanto Charlie 
regava o peru, mas este no sentia a menor vontade de brincar. Tinha-lhe comprado um casaco curto de pele de raposa que ela adorou, correndo imediatamente para o 
quarto, de onde reapareceu, aps ter despido a roupa toda excepto as cuequinhas pretas de renda, de casaco de peles, cuecas e saltos altos, e ele s pde rir. Estava 
to cmica e to graciosa, e tudo aquilo era to desprovido de sentido!

0 PREO DA VENTURA                          1y/
- s uma tonta de uma indecente, sabias? - ele sorria e puxou-a para o sof, beijando-a. - E eu amo~te.
- Tambm eu te amo - disse ela, parecendo misteriosa e algo toldada. Ao jantar, ele serviu o seu champanhe preferido, o peru estava perfeito, e no final da refeio 
sentia~se bastante melhor. Reconhecia que, de certa forma, era-lhe necessrio reconciliar-se com a vida, e entretanto ela veio sentar-se-lhe no colo. Estava com 
um vestido com~ prido de cetim cor-de-rosa que ele lhe comprara no dia de anos, e a viso era deveras convidativa.
- Feliz Natal, Barb. - Beijou-a ao de leve no pescoo, sentindo-lhe as costas arqueando-se sob as suas mos, e de repente ela afastou-se dele, olhando-o com ternura. 
Ele viu-lhe qualquer coisa no olhar, mas no sabia dizer o qu, e ento Barbie beijou-o.
- Tenho uma coisa para te dizer - murmurou ela.
- Eu tambm... - A voz dele era cava. - Vamos para o quarto que eu digo-te...
- Primeiro sou eu - atalhou ela, tornando a afastar~se. - Acho que vais gostar disto. - Parecia misteriosa e ele tinha um ar divertido quando se recostou na cadeira, 
 espera.
-  bom que seja alguma coisa de jeito. Porque se no for, vou rasgar-te a roupa aqui mesmo, e o quarto que se dane! - Estar com ela era o suficiente para lhe levantar 
o nimo.
Houve uma pausa interminvel, com ela a sorrir hesitante, e por fim anunciou-lhe:
- Estou grvida.
Ele olhou-a verdadeiramente estupefacto, primeiro incapaz de falar, fazendo-se em seguida muito plido.
- Ests,a falar a srio?
- Claro que estou. Ia brincar com uma coisa dessas? - Considerando o que o Dr. Pattengill dissera, talvez.
- Tens a certeza? - Seria que o mdico estava enganado? No teria medido o esperma de outra pessoa que o tivesse muito baixo e indolente? - 0 que te leva a pensar 
isso?
- Por amor de Deus! - ripostou ela, com um ar amuado, saindo do colo de Charlie e acendendo um cigarro nas velas da mesa. - E eu a pensar que ias ficar to feliz! 
Mas o que vem a ser isso? A Inquisi~ o? Sim, tenho a certeza! Fui ao mdico h dois dias.

198                          DANIELLE STEEL
- Oh, querida! - Ele fechou os olhos para evitar que ela lhe visse as lgrimas quando a abraou. - Desculpa... s queria... no consigo explicar--- - E no fazia 
outra coisa seno abra~la, e chorar, e ela no fazia ideia do porqu, mas ele no sabia se devia ajoelhar-se e agradecer a Deus ou amaldio-la. Teria andado a 
divertir-se nas suas costas? A criana era de outro homem? Mas sem lhe contar o que sabia, no podia perguntar-lhe.
Continuou o resto do dia muito calado, e ela fez alguns telefonemas enquanto ele lavava os pratos do antar. Mas era bvio que ela no contava com a reaco dele, 
e no conseguia entender. E quando, por fim, foram para a cama nessa noite, ele abraou-a, rezando para que o Pattengill estivesse enganado. Antes, porm, que pudesse 
abrir-lhe o seu corao, bem como ao beb que ela dizia ser seu, sabia que devia perguntar ao mdico.
Foram trs dias interminveis de espera at poder voltar ao consultrio. Entretanto, mal via Barbie, que saa com amigas, ia as compras, que inclusivamente lhe dissera 
que tinha uma audio no dia a seguir ao Natal. Ele no fez perguntas, dessa vez. No disse nada. Primeiro, precisava de ver o Dr. Pattengill. Era tudo o que queria. 
Mas quando, finalmente, tornou a sentar-se  sua secretria, o mdico abanou a cabea, categrico.
- Charlie, no me parece possvel. Gostaria de dizer-lhe que , e tenho visto coisas mais loucas do que essa. Mas  altamente improv~ vel que seja voc o pai dessa 
criana. Tive doentes com infertilidade que de facto me surpreenderam, mas, Charlie, acredite em mim... no  o caso. Quem me dera poder dzer-lhe algo diferente. 
- Ele j sabia, de certa forma. Suspeitava havia muito tempo. As noites que ela no vinha para casa at ele adormecer, todas aquelas amigas", as noites que dormia 
fora com as "raparigas", as visitas a "Judi", as misteriosas "audies", os "ensaios,, que nunca levavam a nada. Havia meses que no lhe davam um papel. E ele sabia, 
afinal, por muito que quisesse que assim fosse, que ela no trazia o seu filho,
Quando saiu do consultrio de Pattengill, seguiu lentamente no carro para casa, quase lamentando t~la encontrado ali quando chegou; estava ao telefone a falar com 
algum, apressando-se a desligar assim que o viu.
- Quem era? - perguntou-lhe num tom neutro como se, muito naturalmente, ela lho fosse dizer.

0 PREO DA VENTUKA
- Era a Jud. Estava a contar-lhe do beb.
- Ah! - Ele virou-se de maneira a no lhe ver a cara, desejoso de no ter de lhe dizer, mas sabia que tinha de o fazer. E devagar, a pouco e pouco, pronto a dar 
a vida para ver o mundo terminar primeiro, virou-se para encar-la. - Temos de conversar - declarou cal~ mamente, e sentou-se numa cadeira defronte dela, que parecia 
espantosamente "sCXy".
- Algum problema? - ela olhou-o nervosamente e cruzou as pernas, acendendo um cigarro e ficando  espera.
. Perdeste o emprego? - pareceu francamente assustada, e em seguida aliviada quando ele abanou a cabea. Que outro problema podia ser? No andava a engan-la, tinha 
a certeza disso, Era um tipo demasiado correcto para o fazer.
- No  to simples corno isso. - Fez uma pausa. - H pouco tempo atrs, fui a um mdico. Logo a seguir ao Dia de Aco de Graas.
- Que espcie de mdico? - ela parecia nervosa.
- Um endocrinologista de reproduo - anunciou ele pomposamente -, um especialista em fertilidade. Disseste qualquer coisa aqui h uns tempos, que estavas admirada 
de nunca engravidar apesar das nossas loucuras e da falta de cuidado, julgo que me deixaste preocupado, por isso resolvi verificar como estavam as coisas, E ento...
- Ento o qu? - ela tentava no parecer impressionada, embora pressentisse j a resposta, com o corao batendo-lhe fortemente.
- Sou estril.
- Ele no sabe o que est a dizer - afirmou e levantou-se, andando de um lado para o outro da sala, - Talvez ele queira exami~ nar-me, para ter a certeza de que 
estou grvida.
- Ests-5- - inquiriu, num tom mordaz. Havia sempre a hiptese de ela estar a mentir, e nesse momento era o que ele mais desejava.
- Claro que estou. Posso fazer uma anlise, se quiseres confirmar.
Estou grvida de dois meses. - imediatamente, ele tentou reconstituir os passos dela no ltimo ms de outubro. - o tipo est doido.
- No - atalhou Charlie. - Mas tenho a impresso de que eu estou. 0 que se passa, Barb? De quem  o beb?
- Teu - respondeu ela, e virou-lhe as costas, cabisbaixa; comeou a chorar e, lentamente, virou-se de frente para ele. - De acordo,

200                         DANIELLE STEEL
no interessa de quem ...  indecente fazer-te uma coisa destas, Charlie. Desculpa. - No entanto, se ele no soubesse, se no tivesse dito nada, ela continuaria 
a mentir, no duvidava.
- Mas julgava que no querias mdos. Porqu este?
- Porque... No sei... - E ento reconheceu que era tarde de mais para mentiras. Ele sabia a verdade, no fim de contas. Tambm podia conhecer o resto da histria. 
- Possivelmente porque j fiz uma srie de abortos, possvelmente porque sabia que querias tanto um beb... talvez esteja a ficar velha... ou mais branda... ou estpida, 
ou sei l o qu... S pensei...
- De quem ? - o corao dlacerava-se-lhe por lhe fazer aquele tipo de perguntas, e ainda por cima to inteis, excepto como meros instrumentos de tortura,
- De um fulano qualquer. Algum que encontrei em Las Vegas. J o conhecia h tempos, e em Outubro veio viver para c. Disse~me que podia arranjar~me um emprego. 
Tem boas relaes em Las Vegas. Ento samos juntos algumas vezes. Pensei... - Mas no pde terminar a frase, estava a chorar.
- Amas o tipo, ou fizeste-o por causa do emprego, ou foi s para te divertires? 0 que significa esse tipo para ti?
- Nada - afirmou, mas no foi capaz de olhar Charlie nos olhos. E este suspeitou de que o outro possua todo o fulgor que ele no tinha. Ao pensar nisso, perguntava 
a si mesmo se ela chegara a am-lo alguma vez, ou se no fora tudo uma farsa, desde o incio, quando o que ele sempre quisera fora uma mulher, filhos, uma famlia, 
autenticidade. Mas talvez no tivesse esse direito; como poderia dar um bom lar a um filho se ele prprio nunca o tivera? 0 que sabia ele disso?
- Porque o fizeste? - perguntava-lhe desolado, chorando como uma criana. E ento ela olhou-o, com honestidade, uma vez na vida.
- Porque tu assustas-me. Queres tudo, queres tudo aquilo de que
eu tenho fugido, Sempre que me aproximava de ti, tinha medo. Queres crianas, famlia, todas essas tolices que no significam um chavo para mim. No quero ficar 
presa a ningum. No sou capaz.
Ele ouvia-a com as lgrimas a rolar-lhe pelas faces, estava a destruir-lhe todos os sonhos e tinha a conscincia disso.
-  Queres saber por que me sinto assim, Charlie? Talvez seja melhor saberes, Tive uma famlia, irmos e irms, me e pai... e sabes que

0 PREO DA VENTURA                          201
mais? 0 meu irmo fornicou-me durante sete anos. Comeou quando eu tinha sete anos, e queres saber, a minha mezinha consentia. Era um mido to "dificil" que ela 
tinha medo de que arranjasse problemas com os cbus se no descarregasse o "gs", e ento eu era isso, a sua vlvula de escape. Fiz o meu primeiro aborto, graas 
a ele, com treze anos, e outros dois mais tarde. E ento o meu pai tambm tentou ter a sua parte de aco... Que rica famlia, hem Charlie? Isso no te dava vontade 
de fugires e de no teres filhos? Claro, a mim tambm. Por isso fui-me embora. Fui para Las Vegas, e andei uma ano aos cados, e ento arranjei trabalho como corista, 
e foram mais dois abortos para a conta, E depois um aqui, quando um agente me deixou de balo. E no quero este beb, Charlie, mas pensei que tu querias. - Ele queria. 
Mas no de um outro qualquer. Continuava, porm, a olh~la sentado, fiagelado por tudo o que ela dissera.
- No sei o que dizer, Barb. Sinto muito, por tudo, pelo passado, por ns. Creio que tivemos ambos uma sorte madrasta.
- . - Ela assoou-se e acendeu um cigarro. - Nunca devia ter casado contigo. Quiseste toda essa fantochada estpida, Devia ter-te dito que  tudo uma merda, mas 
quis convencer-me de que era capaz. Mas no sou. No consigo ser quem tu queres que eu seja, essa hist~ ria da mulherzinha dcil. Comigo no. Pensava que ia enlouquecer, 
sentada a vida inteira neste apartamento, falando de criancinhas, vendo~te a aspirar e a cozinhar jantares. Estou-me cagando para jantares, Charlie, o que eu quero 
so pndegas!
Ele fechava os olhos ao escut-la. No podia crer nas suas palavras. Mas era tudo verdade, e ele sabia-o. Abriu os olhos, fitou-a, pensando para consigo se alguma 
vez a conhecera verdadeiramente.
- Ento queres fazer o qu agora?
- No sei.-- Parece-me que vou para casa da Judi.
- E o beb?
- No h problema. Eu sei o que fazer. - Encolheu os ombros, como se isso fosse o menos importante, e ele fazia um esforo para no pensar no ar doce com que ela 
lhe dera a notcia.
- E o tipo? Ele no quer o filho?
- Nem lhe disse. De qualquer maneira, o tipo tem mulher e trs filhos em Las Vegas, de certeza que no ia ficar muito entusiasmado
com este.

202                          DANIELLE STEEL
- No sei que dizer. - Charlie sentia-se como se toda a sua vida tivesse sofrido uma reviravolta, o que at era verdade. Era-lhe dificil raciocinar, e menos ainda 
tomar decises importantes. - Porque no esperamos uns dias?
- Para qu? - ela parecia perplexa.
- Para ordenar tudo isto na minha cabea. j no sei o que pensar, o que sentir, nem o que quero. No sei que dizer-te.
- No tens que me dizer nada - retorquiu ela suavemente, com remorsos pela primeira vez na vida. - Eu percebo.
Ele continuava a chorar, e sentia-se terrivelmente idiota. Ela fora to eloquentemente sensata, to amadurecida e directa, enquanto ele estava para ali a chorar 
exactamente como em pequeno, quando uma famlia com quem vivera um ano decidira que no podia adoptar uma criana asmtica.
- Desculpa... - No podia conter as lgrimas, e ela puxou-o para si e abraou-o, e em seguida foi para o quarto e meteu algumas roupas numa mala. E pouco depois 
chamava um txi e saa para casa de judi.
Mas Charlie no saiu o dia inteiro da cadeira onde continuava lavado em lgrimas. No podia acreditar no que acontecera. Nem teve coragem para telefonar a Mark; 
sabia o que este ia dizer, que Barbie fora uma fatalidade e que estaria melhor sem ela. Mas se isso fosse verdade, como explicar o seu desconsolo? Nunca se sentira 
pior em toda a sua vida. Era estril e a mulher que amava abandonara-o.

CAPTULO 11
Brad e Pilar passaram a noite de fim de ano com amigos e toda a gente ficou espantada quando Pilar lhes falou do beb. Incontestavelmente ela tinha fechado o crculo 
no ano que findava. Desde a solteira inveterada  mulher casada, e agora  me. Uma longa distncia a separava dos seus conceitos de vida de duas dcadas atrs, 
mas a sua evoluo actual ajustava-se-lhe na perfeio.
Terminado o jantar, o grupo inteiro danou ao som de velhas melodias;  meia~noite trocaram~se beijos e bebeu~se champanhe e Brad e Pilar foram para casa cerca da 
uma e meia. Estava mais cansada do que habitualmente. Gostava de noitadas mas era extenuante ter de explicar a toda a gente as novas circunstncias. E depois de 
engravidar, vinha notando que tinha mais sono.
- As pessoas tm tanta piada, no ? - Pilar ria-se. - Adoro ver as caras deles quando lhes conto que estou grvida. Primeiro julgam que estou a brincar, e no sabem 
o que dizer, e por fim ficam frenticos. Acho urna maravilha.
- s uma rapariga engraada. - Brad sorriu, mas reparou que ela se contraiu quando a ajudou a sair do carro, e no sabia porqu. Ests bem?
- Estou... foi s uma pontada esquisita, mais nada,
- Onde?
- No sei, mais ou menos no estmago - disse vagamente. j sentira pontadas uns dias antes, mas nessa altura tinha telefonado  Dra. Ward e esta dissera que era 
normal, provavelmente eram distenses do tero, que comeava a crescer; e ela presumiu que fosse a mesma

204                           DANIELLE STEEL
coisa que acontecera quando, ao pendurar os fatos, tinha sentido outra pontada uns dias antes. Mas desta vez era mais forte. E entretanto veio~ -lhe outra... e outra... 
e sentiu qualquer coisa quente a escorrer-lhe pela perna... e quando olhou para baixo, viu que estava a sangrar.
- Oh, meu Deus... - murmurou, e ento, com a voz rouca, chamou por Brad, deixando-se ficar imvel, sangrando para a alcatifa. Estava demasiado aterrorizada para 
se mexer, ou para fazer fosse o que fosse. No sabia o que aquilo significava, mas percebia que no era boa coisa, e quando Brad viu, levou-a rapidamente para a 
casa de banho. Deitou-a no tapete em cima de toalhas, tentou elevar-lhe as ancas para estancar a hemorragia, mas ela sangrava abundantemente e estava apavorada a 
olhar para ele.
-   Estou a perder o beb?
- No sei. No te mexas, querida. Vou telefonar  mdica. - Correu para o quarto para falar da extenso e voltou para junto dela alguns minutos depois. Era muito 
tarde para ir ter com a Dra. Ward a Los Angeles. Telefonou ao antigo ginecologista de Pilar e este mandou-o lev-la o mais rapidamente possvel para o hospital. 
Prometeu encontrar~se com eles dentro de dez minutos. Em todo o caso, teve o gesto simptico de garantir a Brad que j tinha visto algumas mulheres a sangrar terrivelmente 
e que no entanto conservavam os seus bebs. 0 Dr. Parker era um tipo de homem antiquado, perto dos seus setenta anos, e Brad sempre gostara dele.
Brad repetiu a Pilar as palavras do mdico, embrulhou-a imediata~ mente em toalhas e ps-lhe um casaco pelos ombros, mas iam deixando um rasto de sangue ao sair 
de casa, e ele deitou-a no banco de trs envolta num cobertor e em vrias toalhas, e arrancou com o carro, des~ cendo a colina  mxima velocidade que podia arriscar 
a caminho do hospital. Quando ali chegaram, Pilar ialvida, chorando de dores e de medo de estar a perder o beb. Dizia que era a pior coisa que alguma vez tinha 
sentido, e quando o mdico tentou examin-la, gritou. Este olhou para Brad, abanando a cabea, e explicou-lhe que ela estava no s a sangrar como tambm a perder 
tecido.
0 Dr. Parker procurou explicar serenamente a Pilar o que estava a suceder, mas esta ora olhava para o mdico, ora olhava para o marido, num terror imenso.
- 0 beb? Est a morrer?

0 PREO DA VENTURA                          205
- Provavelmente j no  vivel - explicava aquele, pegando-lhe
numa das mos, e Brad, carinhosamente, na outra. - Por vezes estas coisas no podem ser atalhadas. - Helen Ward j a tinha avisado semanas antes de que as mes mais 
idosas eram mais susceptveis de abortar.
Mas Pilar soluava, deitada a sangrar e cheia de dores, e no podia crer que o beb que tanto desejavam tivesse morrido. No era justo, Porque tivera de acontecer?
- Daqui a pouco vamos lev-la para cima para lhe fazermos um D&C, isso vai limpar tudo, e deve estancar a hemorragia. Quero em todo o caso esperar um pouco, porque 
Brad disse que voc comeu urnas coisas. Creio que daqui a uma ou duas horas j estar bem, e entretanto vou dar-lhe qualquer coisa para as dores. Mas esse qualquer 
coisa" que a enfermeira lhe props ficou aqum de qualquer alvio; nas duas horas seguintes ela rangia os dentes, estendida na cama, fazendo tudo para no gritar 
com as contraces. Era impossvel acreditar que houvesse alguma coisa mais dolorosa. Estava completamente exausta e histrica quando a levaram na maca, perguntando 
insistentemente a Brad como era se o beb no estivesse realmente morto, se iam fazer-lhe um D&C e o beb estava bem, era a mesma coisa que fazer um aborto. Ele 
procurava garantir-lhe, como o mdico j fizera, que o beb estava perdido e que precisavam de tirar-lhe do tero o tecido morto.
- No  tecido morto! - gritava descontroladamente. -  o nosso beb!
- Eu sei, querida, eu sei. - Acompanhou-a mesmo at s portas da sala de operaes, e quando a levaram o mdico deixou-o  espera na sala de recuperao. Mas quando 
saiu do bloco, Pilar comeou a chorar. No disse uma palavra. Soluou a noite inteira, estendida na maca, e Brad ficou de p junto dela, impotente, a observ-la.
- Vai ser difcil para ela - disse o mdico a Brad antes de sair,
- 0 aborto espontneo  uma das grandes angstias subestimadas dos nossos &s.  uma morte, no h como neg-lo. Antigamente, pensava-se que era so mais uma dessas 
coisas, esperando-se que as mulheres reagissem em poucos dias. Mas no, Leva meses... por vezes anos... nunca, em alguns casos... e na idade de Pilar, ela no tem 
nenhuma certeza acerca de outro beb.
- Vamos tentar - disse Brad, mais para si mesmo do que para o mdico. - Vamos continuar a tentar. Afinal, conseguimos este.

206                         DANIELLE STEEL
-   Diga-lhe isso. Ela vai ficar desolada durante algum tempo. Parte disto  real, outra parte so hormonas, - Mas Brad apercebia-se de que o que estava a sentir 
tambm era real, e quando voltou ao quarto, chorou por ela, chorou pelo beb que haviam perdido e pela amargura que ambos sentiam.
Levou-a de carro para casa nessa tarde, metendo-a imediatamente na cama. Queria que ficasse deitada mais alguns dias, e nessa noite Nancy vinha dizer-lhe pelo telefone 
que tinha visto um bero fabuloso para o seu beb.
- Eu... no posso falar contigo neste momento... - Pilar estava mergulhada em lgrimas, passando o telefone a Brad, que tambm no estava em melhor estado. Foi para 
a outra sala para explicar, e Nancy desligou, chocada, com pena deles, pensando se Pilar no seria velha de mais at para tentar.
Passaram um dia de Ano Novo longo e solitrio, pensando no filho que acabavam de perder, nos sonhos que haviam partilhado, os dois sentados um ao p do outro, serenamente, 
em silencioso pesar.
No dia de Ano Novo, Chaffie acordou por volta das seis e meia da manh. Estivera desperto metade da noite, caindo finalmente no sono cerca das quatro horas. Mas 
pouco tinha dormido naqueles ltimos dias, e chegara a uma concluso sobre o que pretendia fazer a respeito de Barbie. No gostara do que ela tinha feito, era preciso 
ela prometer-lhe que no tornaria a  fazer o mesmo, mas no podia deix~la agora, Ela necessitava dele e ele amava-a. Como podia abandon-la naquele momento? E quem 
sabe se aquele beb no era o que afinal precisavam para se salvar?
Era demasiado   cedo para telefonar, por isso tomou o seu duche, fez a barba, leu o jornal, passeou de um lado para o outro na sala e, finalmente, s nove horas 
pegou no carro e foi a casa de Judi. Estivera trs dias sem falar com Barb, e no soube o que dizer-lhe quando ela saiu de casa. 0 choque da noticia de que estava 
grvida sobrepusera-se a tudo. Curiosamente, porm, tambm lamentava o facto de ter consultado o Dr. Pattengill. Se no tivesse ido l, nunca saberia que era estril 
e teria acreditado que o beb era seu quando ela lho dissera. Mas as coisas j no eram to simples como isso. Ou seriam?

0 PREO DA VENTURA                          Zul
Tocou  campainha e atenderam num minuto. Judi abriu-lhe a porta da frente, mostrando-se surpreendida por v-lo ali. Ia comear a dizer qualquer coisa, mas reconsiderou. 
Estavam com ela um tipo com quem andava a sair desde junho e a nova companheira de quarto que fora ocupar o lugar de Barbie quando esta se casara com Chaffie. Subtamente 
Judi pareceu embaraada, assim como Charlie. Ambos sabiam o que estava a suceder, e Chaffie soube tambm naquele momento que Judi dera certamente cobertura a Barbie 
quando esta ia ver o tipo de Las Vegas. Traira Charlie, mas era a Barbie que ela devia toda a sua lealdade. E agora ela lamentava o rumo que as coisas tinham tomado. 
Barbie contara-lhe assim que soubera que estava grvida; Judi dissera-lhe para se livrar daquilo e no contar nada a ningum, afinal o pai da criana era casado 
com outra, e Barbie primeiro concordou mas depois deixou-se levar pelo facto de Charlie querer tanto um beb. Estupidamente, pensara que podia convenc-lo de que 
era dele, e assim j no teria de fazer outro aborto.
- Ol, Charlie - disse Judi afavelmente - Vou chamar Barbie. Mas esta j estava naquele momento no ba11. Parecia cansada, plida e infeliz.
- Ol - disse-lhe ele, sentindo-se como um adolescente no seu primeiro encontro amoroso quando Judi e os outros desapareceram para a cozinha, - Desculpa no ter 
telefonado. Precisava de tempo para pensar.
- Tambm eu. - Ela tinha lgrimas nos olhos, e no pde conter um soluo. V-lo ali tornava tudo to mais dificil. Percebia agora o que lhe fizera e como fora hediondo 
ter-lhe mentido acerca do beb.
- Podemos sentar-nos num lugar qualquer? - Charlie parecia subitamente mais velho, e mais maduro. Sofrera bastante nos )timos dias. Na verdade, tinha a sensao 
de ter envelhecido anos desde que lhe fora dito-que era estril.
Ela tinha dormido no sof da sala e no queria que os outros os ouvissem da cozinha, por isso foram os dois para o quarto de Judi. Barbie sentou-se na cama desfeita, 
e Charlie ficou desconfrtavelmente apoiado na beirinha da nica cadeira do quarto, olhando para a rapariga com quem havia casado. Tinham feito um longo percurso 
em menos de dois anos, e grande parte da jornada no fora de todo desagradvel. No teria sido propriamente um grande casamento, mas Char-

208                         DANIELLE STEEL
he tinha a certeza de que agora iria mudar. E com um filho, haveria tantas mais coisas a lig-los...
- Quero o beb, Barb. Meditei bastante no assunto e parece-me que podamos tomar as coisas viveis. Que diabo, se algum me tivesse adoptado, eu tambm no teria 
laos de sangue com eles. E esse beb nunca precisar de saber que no sou o seu pai. A sua certido de nascimento dif-lhe~ que sim e para mim  quanto basta. - 
Sorriu-lhe com carinho. Estava disposto a perdo-la por tudo, e ela chorava lastimosamente ao ouvi-lo dizer aquilo. E durante alguns instantes no pde fazer mais 
seno abanar a cabea, Era um momento difcil para ambos, e Charlie levantou-se para lhe pegar na mo, mas ela s se deixou prender por breves segundos. Ele tentou 
dizer-lhe que ia ficar tudo bem. Mas ela no quis escut~lo.
- Fiz ontem um aborto - conseguiu finalmente articular, e as suas palavras atingiram-no corno uma bofetada. Nunca imaginara que ela fizesse uma coisa daquelas to 
rapidamente.
- Ests a brincar? - Mas quem iria brincar com isso? No sabia que mais dizer, os dois sentados olhando-se num silncio ensurdecedor. - Porqu? - Tudo o que ela 
j lhe havia confessado parecia uma loucura e uma estupidez. Mas ele estava emocionalmente incapaz de entender, e tinha a conscincia disso.
- Chaffie, eu no podia ter essa criana. No seria justo nem para ti, nem para mim, nem para o beb. Em toda a sua vida tu saberias que te enganei; ele lembrava-te 
isso a cada dia, a cada hora que o visses. E eu... - ergueu para ele os olhos cheios de lgrimas: - A verdade  esta, por muito culpada que me sinta pelo que fiz, 
por mais que lamente, ou por muito que odiasse ter de fazer outro aborto... no quero realmente ter um filho. Nem teu nem de ningum.
- Porqu? Um beb seria a melhor coisa que podia acontecer-nos. E agora teremos de adoptar um - concluiu desoladamente. Aquele beb podia ter sido a soluo perfeita, 
e agora j nem isso tinham. Uma parte dele sentia-se aliviada, a outra destroada,
Charlie - a voz dela era suave e quase inaudivel no quarto acanhado -, eu no vou voltar para ti. - Baixou a cabea, sem coragem de olh-lo.
- 0 qu? - as faces empaldeceram-lhe por baixo das sardas. Que queres dizer com isso?

0 PREO DA VENTURA                           209
Ela fez um esforo para olh-lo de novo.
- Charlie, amo-te... s tudo o que uma       mulher pode querer de um marido. Mas eu... no quero estar casada. Nunca me apercebi disso antes. Sentia-me como se 
estivesse morta, metida contigo em casa todas as noites, Pensei que fosse capaz, mas no sou. Foi por isso que isto aconteceu, creio. No incio, quando casmos, 
estava to aliviada por ter algum decente a tomar conta de mim. - As       lgrimas rolavam-lhe em catadupa pelas faces. - Pensava que era um sonho. Mas por fim, 
para mim, o sonho tornou-se um pesadelo. No quero dar satisfaes a ningum. No quero passar o tempo trancada        em casa. No quero viver com um tipo, e uma 
coisa que de certeza no quero  ter um beb, teu ou de qualquer outro, e Deus me livre     de pensar em adoptar um. Falei ontem com o mdico e dentro de algumas 
semanas ele vai resolver-me o problema para no tornar a engravidar. Acabaram~se os abortos.
- Porque fizeste isso sem pelo menos falares comigo? - inquiriu, ainda com a fixao da criana. Como se resolver isso tivesse feito com que tudo o resto de que 
ela falara no contasse. Afirmava que no ia voltar para ele, mas no era isso com certeza o que desejava dizer. Estava aborrecida, no sabia o que dizia.
- Charlie, no era o teu filho. E eu no o queria.
- No foi justo - lamentava-se, tambm a chorar. Nada o era. Nada do que tinha sucedido era justo, mas tambm nada o fora vez alguma, desde o incio da sua vida, 
quando os pais o tinham abandonado. E agora estava igualmente a ser abandonado. Ela era exactamente como aquelas pessoas dos lares adoptivos que o conservavam durante 
algum tempo mas que por fim decidiam que era muito simptico mas que no o amavam. Que mal teria ele, interrogava-se com as lgrimas correndo~lhe pelas faces e soluando 
como uma criana; como era possvel que ningum o amasse? - Desculpa... - tentava penitenciar-se de tudo- o que sentia, das lgrimas, mas Barbie apenas abanava a 
cabea. Ele s a fazia sentir-se pior, mas agora estava absolutamente segura da sua atitude. Percebeu que devia t-lo feito muitos meses atrs, antes da sua aventura 
com o tipo de Las Vegas. - Porque no vens para casa por uns tempos, para podermos tentar de novo? Podemos ter um casamento aberto, ou qualquer coisa do gnero, 
podes sair e voltar quando quiseres. Sem perguntas, sem explicaes. - Mas mesmo

210                         DANIELLE STEEL
ouvindo-se a si mesmo, perguntava-se como podia estar a dizer aquilo, se sabia perfeitamente que essa vida o enlouqueceria. E ela sabia-o ainda melhor.
Tomara uma deciso e nada do que ele dissesse a ia mudar.
- No posso fazer isso, Charlie. No seria justo para nenhum de ns.
- 0 que vais fazer? - Estava preocupado com ela. Barbie precisava de algum que cuidasse dela, no era to forte como simulava.
- Jud vai deixar o emprego, e vamos voltar para Las Vegas.
- Fazer o qu? Mais cinco anos de corista, e depois? Como vai ser quando fores velha de mais para passar modelos de fatos de banho e andar a exibir as mamas?
- Opero-as, e ento posso exibi-Ias ainda mais, provavelmente. No sei, Charlie. Mas sei que no posso ser o que tu queres, e aquilo que mereces. Prefiro morrer 
em Las Vegas como corista.
- No posso crer. - Ele levantou-se e foi at ao outro lado do quarto, ficando de olhar perdido na nica janela. A vista da rua era deserta, como tudo na sua vida, 
naquele momento. - Ento no vens comigo para casa? - Virou-se para olh-la e ela abanou firmemente a cabea. Tinham os dois parado de chorar, embora ele se sentisse 
como se um gigante lhe comprimisse o peito com o punho.
- Mereces mais do que eu podia alguma vez dar~te - disse ela tristemente. - Uma rapariga simptica que aprecia tudo quanto tens para dar, que queira ficar em casa 
a cozinhar para ti; podem adoptar uma srie de midos e ser muito felizes.
- Obrigado por arquitectares tudo isso para mim - atalhou desoladamente. Ele sabia, ali de p, que jamais tentaria outra vez. No podia for-la a voltar para si, 
mas sabia que no voltaria a casar,
- Charlie, desculpa... - disse ela mais uma vez, enquanto saam do quarto, e ficou a v-lo descer as escadas quando deixava o apartamento de Judi. No se virou para 
olh-la. No pde. Ia recordar-lhe muitas coisas daquelas vezes terrveis em que os pais adoptivos o recambiavam para o orfanato.

CAPTULO 12
Durante o resto do ms de janeiro, Charlie sentiu-se como se andasse debaixo de gua. Ia trabalhar, emalava as coisas dela, devolvia-lhe tudo, mudava-se para um 
apartamento-estdio em Palms, e ficava a noite inteira sentado a cogitar. Queria compreender por que motivo tudo tinha corrido mal, mas nunca chegava a uma concluso. 
Quisera demasiado? Foi o seu desejo de ter filhos? Era essa a explicao para ela ter chegado ao limite? Tornara-se dificil aceitar que fosse unicamente porque no 
queria estar casada. No fim do ms Barbie j tinha os papis preparados para o divrcio e uns dias depois te)efonou-lhe a dizer que estava de partida para Las Vegas. 
Disse que depois o informava de onde ia ficar, de forma a poderem obter o resto da papelada. Parecia muito eficiente e segura de si, o que no era o caso de Charlie. 
Chorou durante uma hora depois de ela desligar o telefone, e nem Mark foi capaz de consol-lo. Este continuava a dizer-lhe que o que no faltava eram mulheres, que 
ela no era a nica do Mundo e que o melhor para ele seria uma rapariga um pouco mais do seu gnero. No quis lembrar-lhe que sempre tinha desconfiado dela desde 
o-incio. Ento qual era agora o problema?
E,Iernbrava constantemente a Charlie que tinha passado pelo mesmo, quando a mulher o trocara por outro homem e viera viver para a Calfrna.
- E eu tinha filhas! - observava, para sublinhar corno fora muito
pior para ele; mas isso s vinha lembrar a Charlie a solido da sua vida, o seu futuro vazio. Recusava-se a sair com outras pessoas, e os esforos de Mark para apresent~lo 
a amigas eram nfrutiferos. j nem queria ir jogar bowlng. Ainda era muito cedo para ele; queria repensar toda a sua vida.

212                           DANIELLE STEEL
Tinha mesmo comeado a considerar que vivia melhor sem midos, que era uma sorte ser estril. Afinal, o que sabia ele de crianas? Nunca tivera uma infncia normal. 
Como podia pensar em ser um pai decente? E confessava isso mesmo a Mark, que lhe ripostava que era louco. 0 amigo ficava de corao despedaado ao v-lo to destrudo, 
e chegou a sugerir-lhe que fosse a um psiquiatra que ele conhecia no Valley, mas Charlie tambm no queria fazer isso.
- Escuta garoto - tentava Mark demov-lo uma noite, quando saam do trabalho -, tu no ests a pensar racionalmente. Provavelmente eras capaz de ser o melhor pai 
do mundo porque compreendes o que um mido precisa, j que nunca tiveste nada. Apanh2ste a rapariga errada, mais nada, to simples como isso. Era uma mida simptica, 
mas no queria outra coisa seno espalhafato e pardia. Ora o que tu queres  cozinhar e ficar em casa e criar uma famlia. Ento... vais acabar por descobrir a 
rapariga certa, estabilizas, e vo viver inuito, felizes. Pra de pensar que a tua vida terminou, Charlie, porque no  verdade. D um tempo, As feridas ainda esto 
frescas, ainda ests a sangrar. - E estava. E o que Mark dizia era verdade, mas Charlie no queria escut,-lo.
- No quero descobrir mais ningum. E no quero casar-me. Que diabo, ainda nem me divorciei!
- Oh... ento  por isso que j no vais jogar boiffing. ..  por isso que no podemos sair para uma cervejinha e uma pzza. Qual  a tua ideia, que eu quero ter 
uma aventura contigo? Ouve, tu s giro, mas no s propriamente o meu tipo, e a Gininha pode ficar muito chateada, sabes... - Ai Charlie desatou a rir, e Mark deu-lhe 
um amigvel empurro. - V l se tomas tino, hem?
- Sim, est bem, vou tentar.--- - E sorriu, o que no fazia havia sculos.
Saiu para jantar com Mark alguns dias depois e, no fim de semana seguinte, at aceitou jogar bow1ing. Era um processo longo e lento, mas comeava finalmente a sarar. 
Ainda doa terrivelmente quando pensava nela, e ainda lhe custava a acreditar no que ela fizera para lhes destruir o casamento, mas aos poucos ia saindo da sua concha. 
E comeou a jogar baseball aos fins de semana com um grupnho de rfos de doze anos.

0 PREO DA VENTURA                          213
Pilar passou o ms que se seguiu ao aborto em esmagadora depres-
so. Tirou uns dias no escritrio, recusava-se a falar com toda a gente e ficava em casa, de camisa de noite, em comiscrao. Brad tentava persuadi-la a ver amigos, 
mas mesmo Marina teve de fazer vrias tentativas antes de poder v-Ia.
Apareceu-lhe com uma pilha de livros sobre o sofrimento, sobre a perda de uma criana, sobre a nostalgia. Sempre pensara que a informao era a melhor muleta, mas 
Pilar no queria ouvir falar nisso.
- No quero saber como estou lastimvel, nem corno devia estar lastimvel - afirmou furiosa para a amiga, repelindo-a e repelindo os livros que esta trouxera.
- Mas eras capaz de gostar de saber o que fazer para te sentires melhor, e quando poders contar com uma vida outra vez normal argumentou Mariria, carinhosa.
- Como pode ser normal? Sou uma mulher de meia-idade que tomou uma srie de decises na sua vida e cujo resultado  nunca mais ter filhos.
- Meu Deus! Cheia de pena de si! - critcou-a Marina, com um sorriso,
- Tenho esse direito.
- Sim, tens, mas no como estilo de vida. Pensa no Brad, pensa como isso  duro para ele. - Fora Brad que implorara a Marina para vir v-Ia. Pitar nunca atendera 
o telefone, nem queria falar com ela quando era Brad a atender.
- Ele tem os seus filhos. No sabe nada a respeito disto.
- No, mas outras pessoas sabem. Existem organizaes para essas coisas. Outras mulheres que tambm virarn uma gravidez interrompida. No s a nica, Pilar, embora 
penses que s. Agora tens essa impresso, mas no s. Outras mulheres perderam bebs, tiveram nados-mortos, perderam filhos que conheceram e amaram durante vrios 
anos. Deve ser o pior golpe na vida de uma pessoa - disse num tom triste, com pena da amiga, que comeou de novo a chorar.
, E, - admitiu Pilar, as lgrimas correndo-lhe pelas faces. - E sinto-me estpida. Sei que deve parecer ridculo s pessoas, mas sinto-me como se tivesse perdido 
um beb que j conhecia... uma pessoa pequenina que j amava... e agora est morta e nunca vou chegar a conhec-la.

214                         DANIELLE STEEL
- Pois no, mas podes ter outro filho. No vai alterar nada, mas pode ajudar.
- Creio que  a nica coisa que podia ajudar - disse Pilar honestamente. - Por isso quero ficar grvida outra vez. - Assoou-se a uma pilha de lenos de papel, e 
Marina sorriu compreensivamente.
- E s capaz de ficar. - No gostava de alimentar falsas esperanas, e no havia nenhuma forma de saber se Pilar engravidaria. , e tambm sou capaz de no ficar. 
E depois?
Depois segues o teu caminho novamente. No tens outro rerndio. A tua vida era excelente, antes, e voltar a ser. Os bebs no so tudo, sabes isso. - Mas ao dizer 
aquilo, lembrou-se de um incidente de muitos anos atrs e compartlhou-o com Pilar. - Sabes uma coisa, tinha-me quase esquecido, at este momento. A minha me perdeu 
o seu nono filho, creio que estava grvida de dois meses. Talvez um pouco mais. E j com oito filhos, seria de imaginar que no representasse um grande drama, mas 
se a visses terias pensado que lhe morrera o filho mais velho, ou o nico. Completamente desolada, um desgosto imenso, o meu pai no sabia o que fazer. Ficava metida 
na cama, chorava, e os outros sete midos estavam insuportveis, excepto quando me tinham por perto para os manter na linha, mas a pobre da minha me estava numa 
misria. Deprimida durante meses, mas depois, claro, engravidou. Teve mais duas crianas a seguir  que perdeu, e queres saber? Falou disso at morrer, de como foi 
teiTivel, triste, a falta que sentia daquele beb. Tinha amigas que tambm perderam filhos, mas parece-me que isso no a ajudava nada, e falava do beb que morreu 
como se o conhecesse.
-  o rnesmo que eu sinto - disse Pilar, num tom de quem descobre finalmente algum que a compreende. Sentiu um lao sbito com a me de Marina e tudo o que sofrera 
com a perda do seu beb.
- Deve ser um desses mistrios da vida que ningum compreende, excepto quando passa pelo mesmo.
- Talvez - murmurou Pilar, parecendo outra vez melanclica.  a pior coisa que j me aconteceu - acrescentou, e estava a falar a srio. Ficava com o corao desfeito 
sempre que pensava em tudo aquilo, e no havia nenhum momento do dia em que esse pensamento no a torturasse.
- Bom, pensa na minha me. Teve mais duas crianas depois

0 PREO DA VENnJRA                            215
daquilo, como te disse. Creio que estava com 47 anos quando perdeu aquele beb.
- Ds-me uma esperana. - Marina era a primeira pessoa a faz-lo, uma graa divina como de costume, ao contrrio da me de Pilar, a quem de resto nunca telefonava. 
Em prmeiro lugar, porque nunca chegava a falar-lhe do beb, e tambm ela teria sem dvida lembrado a Pitar que j a avisara de que era velha de mais. E era exactamente 
corno agora se sentia.
Continuou carpindo a sua dor durante varias semanas, para grande desespero de Brad. Alice e Bruce ocupavatri-se dos seus casos no escrtrio, as marcaes no tribunal 
tiveram de ser alteradas, os clientes eram informados de que Pilar estava doente, e toda a gente andava seriamente preocupada.
A prpria Naney quis aparecer para tentar anirn-la, mas, como lirazia consigo o beb, s veio piorar mais as coisas, Pitar estava quase histrica quando Brad chegou 
a casa; disse-lhe que nunca mais queria ver outro beb, e que no queria ver Adam naquela casa enquanto no fosse mais velho.
- Pitar, tens de parar corri isso - argumentou ele, angustiado e sentindo-se impotente. - No podes fazer uma cosa dessas a ti prpria.
- Porque no? - Ela no comia, no dormia, perdera quatro quilos e parecia cinco anos mais velha.
- No  saudvel. E para o ms que vem queremos tentar outra vez. V l querida Tens de tentar reagir. - A verdade, porm, era que ela no podia. Desde o acordar 
at ao momento de ir para a cama, sen~ tia-se como se andasse carregando um peso esmagador no corao. Havia alturas em que no queria sequer continuar a viver. 
- Por favor... querida, por favor! - Finalmente, na esperana de anim-la, ele levou-a num fim de semana a So Francisco, mas, para cmulo do azar, era a semana 
do seu perodo. Tudo o que pde fazer para anim-la foi lembrar-lhe que dali a duas semanas iriam outra vez ao consultrio da Dr.a Ward com a concha de peru e os 
filmes pornogrficos.
- Oh, Meu Deus! - Ela fez uma careta e, mal-grado seu, soltou urna gargalhada. - No me lembres isso!
- Ento, o melhor  preparares-te para apreciar desta vez. - E pas-

216                        DANIELLE STEEL
sou o resto da viagem a brincar com ela, afirmando que ia lev-la  Broadway para comprar "ajudas conjugais>, que juntariam  coleco da mdica.
- s um pervertido, Bradford Coleman. Se algum suspeitasse da mente obscena que tens, sentadinho no tribunal a fazer de juiz, expulsavam-te da Ordem. - Pilar sorria 
e, pela primeira vez em semanas, parecia outra vez ela prpria.
- ptimo. Nesse caso podia ficar em casa a fazer amor contigo o dia todo. - Mas nem isso era grande motivo de atraco nos ltimos tempos. Ela tentara explic-lo 
ao seu psiquiatra e a Brad. Achava que o aborto traduzia o seu supremo fracasso como mulher. - Perdi o beb...  como t-lo deixado algures num autocarro, ou esquecer-me 
dele num parque... ou t-lo comido... perdi o beb - dizia com as lgrimas caindo-lhe pelas faces, achando-se uma negao corno mae,
Era difcil tentar raciocinar com ela. 0 que sentia no lhe vinha da mente. Saa-lhe do corao. A sua mente sabia que podia ter outra opor~ tunidade, e Brad repetia-lhe 
vezes sem conta que continuariam a tentar, mas o corao no conseguia ver nada que no fosse o que perdera. 0 beb que quisera to intensamente. E quando consentia 
tais pensamentos, a dor pesava~lhe no peito.
Diana mantinha-se cautelosa quando ela e Andy regressaram de frias. No queria forar a sorte. As coisas tinham sido maravilhosas para eles no Hawai e chegavam 
a casa renovados, no os mesmos que tinham sido outrora, mas, em certos aspectos, talvez melhores, Sabendo, contudo, da estrada sinuosa que trilhava, no queria 
fazer crescer as presses, Decidira no ver a famlia por uns tempos, no ter que responder a nenhuma das suas perguntas, Havia quase dois meses que no via nem 
falava com Sam, mas no aguentava a iminente realidade do seu beb. Para Diana, seria tremendamente doloroso.
0 propsito que ento os mantinha de p era evitar a dor. E Diana lutava at s ultimas consequncias para o fazer. Foi convidada no emprego para duas festas comemorando 
o nascimento de bebs e declinou-as, E ela e Andy tinham concordado que no iam discutir, pelo menos por algum tempo, nenhumas solues alternativas para terem um

0 PREO DA VEN 1 UKA
filho. Andavam ambos num psiquiatra, separadamente, o que parecia estar a ajudar.
0 trabalho dela ia bem, e comeava de novo a apreci-lo. Gostava de conversar de vez em quando com Eloise, embora a sua amizade tivesse aparentemente esfriado. Eloise 
estava a pensar mudar de emprego e Diana andava ainda muito absorvida em salvar a sua vida e o seu casamento. Durante a primeira semana aps a viagem, Dana apreciava 
mais do que tudo o resto regressar a casa ao fim do dia, sempre ansiosa por rever Andy e passar o tempo com ele. Este costumava telefonar-lhe trs ou quatro vezes 
por dia do escritrio, s para dizer um ^"ol" e saber como ela estava. Sentia~se mais perto dele do que de qualquer outra pessoa, e as suas vidas continuavam bastante 
recolhidas; Diana no se sentia preparada para tomar a ver os amigos e Andy no a pressionava. Tal como os prprios amigos; Bill e Denise no lhes telefonavam havia 
meses, Andy explicara~lhes finalmente que era muito dficil para Diana estar com eles, com Denise grvida. Aparentemente Bill compreendia e os dois homens ainda 
se encontravam para jogar tnis sempre que podiam, o que no era muito frequente. Ambos tinham agora novas responsabilidades, outras presses.
Quando chegava a casa, Diana raramente se dava ao incmodo de verificar o atendedor de chamadas, j quase ningum lhes telefonava, a no ser, de tempos a tempos, 
a sua me ou os irmos de Andy.
Mas em meados de janeiro, numa noite em que chegou a casa mais cedo, lembrou-se de lig-lo, ficando a ouvir as mensagens enquanto acendia o forno e comeava a fazer 
o jantar. Previsivelmente, a me tinha-lhe telefonado, o que a fez sorrir; falou tambm uma mulher qualquer que vendia revistas e havia trs mensagens para Andy, 
uma de Bill a propsito de um torneio de tnis no clube, outra do seu irmo Nick e a terceira de uma mulher. Com uma voz sensual, esta limitava-se a dizer que aquela 
mensagem se destinava a Andy e que este saberia o motivo do seu telefonema. E no final, numa voz profunda e entrecortada pelo fumo de um cigarro: "...  s para 
ele me telefonar". Deixou o nmero e o nome, Wanda Williams. Diana franziu o sobrolho e riu~ -se. Mesmo nos momentos mais dramticos do ltimo ano nunca suspeitara 
de que ele pudesse andar a engan~la. Sabia que certos homens o faziam, na contingncia daquele tipo de tenses, mas no pensava que ele o fizesse. E tambm no 
acreditava que fosse to idiota ao

218                        DANIELLE STEEL
ponto de as amiguinhas lhe deixarem recados em casa. No estava muito Preocupada, s divertida, e nessa noite brincou com ele ao ) .an~
tar. Calculava que se tratasse de alguma actriz de um dos sbows que tinha entre mos no escritrio.
- Ento, quem  a mulher da voz "sexp, que hoje telefonou para ti?
- 0 qu? - Ele ficou srio, esticou-se para tirar outra fatia de po, parecendo distrado.
- Ouviste o que eu disse. Quem  ela? - Diana sorria; adorava meter-se com ele, e normalmente Andy cooperava na brincadeira, mas desta vez no estava manifestamente 
a gostar.
- Quem havia de ser?  uma -das amigas do meu irmo, creio que veio c por uns tempos, e quer que eu a ajude a comprar um carro, ou coisa do gnero.
- Um carro? - Diana riu-se na cara dele abertamente. -  a desculpa mais esfarrapada que j ouvi. Vamos l Andrew... quem  ela? Quem  Wanda Williams? - e imitava 
a voz da mulher ao fazer a pergunta, mas Andy no lhe achou graa.
- No sei quem ! Est bem? Um nome. Nunca a conheci.
- Parecia um Tele-Encontro - observou Diana, imitando novamente a voz enrouquecida da chamada: - Telefone~me...
- Est bem, est bem, j percebi. - A, ele j ia na terceira fatia de po, aparentemente muito nervoso, o que alarmou Diana.
- Ento vais telefonar-lhe?... por causa do carro, claro. - Ela estava a zombar, e ele comeava a parecer zangado a srio.
- Talvez. Logo vejo.
- No vais nada. - Ela j no estava muito contente. Havia naquela histria alguma coisa que no se encaixava, e Diana no estava a gostar. - Andy, que histria 
 essa?
- Ouve c,  uma coisa que estou a fazer que s a mim me diz respeito, entendido? No tenho direito a um pouco de privacidade?
- Tens. - Diana olhou-c, hesitante. - Talvez. Mas no com mulheres.
- No ando por a a fornicar. E isso o que queres saber? juro.
- Ento andas a fazer o qu? - Ela no percebia por que razo se mostrava to reservado em relao quela rapariga. 0 que estaria a esconder, santo Deus?
-  uma amiga de um amigo meu. Ela conhece um dos advoga~

0 PREO DA VENTURA                        219
dos com quem trabalho, e este pediu-me para falar com ela a respeito de um projecto. - No quis contar-lhe que era uma das antigas namoradas de Bill Bennington, 
e que este tinha sugerido que Andy lhe telefonasse.
- Ento porque me mentiste quando disseste que era uma amiga do teu irmo?
- Ouve, Diana, no faas isso, Ests a perceber? No me pressiones!
- Porqu, santo Deus? - Levantou-se bruscamente da mesa, desconfiando dele, Quem sabe se no tinha uma aventura e ela no o sabia? - 0 que  que andas a fazer?
- Ora bolas! Que maldio... - Tinha feito tudo para no lhe contar, mas estava a ver que era inevitvel. - No queria falar disso agora, Gostava de conversar primeiro 
com ela, e ver como a achava quando a conhecesse.
- Lindo... mas o que vem a ser isso? Andas a ter encontros?
- Ela teve uma criana para uma pessoa no ano passado.  uma me hospedeira. E estava disposta a faz-lo outra vez. Pensei que podia investigar e falar com ela, 
e depois tencionava perguntar-te o que pensavas disso. - Explicou, muito sereno, preparando-se para a exploso da mulher.
- 0 qu? Ias ter com uma Miss-Barriga-de-Aluguer para investig~ -Ia e no me dizias nada? Ias fazer o qu? Dormir com ela para ver se pegava? Por amor de Deus, 
Andy, como pudeste fazer isso?
- Ia apenas falar com ela, por amor de Deus! Seria atravs de inseminao artificial, se quisssemos avanar com isso, e tu sabes.
- Porqu? Porque ests a fazer isto? Pensei que tivssemos concordado no discutir esse assunto nos meses mais prximos.
- Eu sei. Mas a coisa surgiu na semana passada, e pessoas como esta no so fceis de encontrar, E quando estivesses disposta a conversar, ela j podia estar a ter 
o beb de outra pessoa.
- Quem  ela?
-  uma actriz sem importncia. No v hiptese de aborto e diz que engravida com muita facilidade, e pensa que est a fazer uma boa aco s pessoas oferecendo 
esse servio.
- Que simptica! E quanto cobra?
- Vinte e cinco mil.

220                        DANIELLE STEEL
- E como  se ela ficar com o beb?
- No pode. Faz-se um contrato fgido. E no houve nenhum problema com o tipo do ano passado. Eu prprio falei com ele. E esto entusiasmadssimos, Tm urna menina, 
e so loucos por ela. Querida, por favor... pelo menos deixa-me falar com a rapariga.
- No. E se ela se droga, e como  se tem alguma doena? E se depois no quer entregar a criana? E se... oh, meu Deus... no me peas para fazer isso... - apoiou 
a cabea na mesa, soluando. Tinha vontade de gritar com ele. Porque a obrigava a passar outra vez por tudo aquilo? Mal tinham acabado de dar o primeiro passo para 
salvar o seu casamento, e agora esperava tudo menos aquilo.
- Amor, foste a primeira a dizer que querias o meu beb, no  justo para mim no ter o meu filho. Pensei que fosse melhor que a adopo, peb menos o beb seria 
metade nosso. No quiseste ouvir falar da transplantao de um vulo doado quando o mdico te sugeriu, e isto parece ser uma soluo alternativa vivel.
- Mas o que  isto? Uma experiencia cientiffica? Por amor de Deus!
- e fitava-o com os olhos cheios de dio. - Odeio-te, Andrew Douglas. Corno te atreves a pr-me nesta situao?
- Tambm tenho direito a querer um filho. E eu sei como queres
tanto ter um.
- No dessa maneira. J no te lembras da tenso em que andmos at tudo terminar? E no quero o teu esperma dentro de outra mulher qualquer. E ela se apaixona por 
ti e pelo beb?
- Di, ela  casada!
- Oh, por amor de Deus! Vocs so todos doidos, tu, ela e o marido dela!
- E tu s a nica ajuizada? - exclamou, furioso,
- Talvez.
- Pois olha, minha linda, podes ter a certeza de que no pareces.
- Ela estava transtornada, angustiada, quase fora de si. - E olha, vou falar com ela um dia desta semana. Ponto final. S quero saber quais so as condies, como 
 ela, como seriam as coisas. Quero saber quais so as nossas opes, se o quisermos fazer agora, ou em qualquer altura. E gostava que viesses comigo, Diana.
- No quero ter nada a ver com isso. No posso. Arrasava~me. Mal tinha acabado de se recompor. No queria arriscar.

0 PREO DA VENTUKA                            4-1
julgo que s mais forte do que pensas - disse ele calmamente. Estava decidido a faz-lo. Pensara bastante no assunto nos ltimos meses, e queria um beb. Queria 
Diana, mas tambm queria uma faniilia, e se pudesse ter um filho concebido por si, tanto melhor.
- Para mim, s um filho da me! - disse-lhe violentamente e foi trancar-se na casa de banho. Quando reapareceu, Andy j tinha telefonado a Wanda Williams e marcara 
um encontro para a tarde do dia seguinte no Tbe Ivy. Parecia um local esquisito, mas foi o que Wanda escolheu.
- Ento, vens? - perguntou-lhe de manh, mas ela abanou a cabea. Antes de sair para o emprego, tornou a pression-la e ela no disse nada. Bill perguntou-lhe para 
o escritrio nessa manh corno iam as coisas, e Andy contou-lhe muito tenso corno Diana ficara furiosa. No fazia ideia se ela apareceria para conhecer a me substituta, 
e Bill desejou-lhe sorte, cheio de Pressa porque ia ter uma reunio importante.
Ao meio-dia, Diana estava sentada no escritrio, pensando neles, questionando-se como seria a rapariga. E por fim no aguentou mais, Chamou um txi e saiu. Chegou 
ao restaurante com meia hora de atraso, mas eles encontravani-se confortavelmente sentados numa mesa recuada, com o marido da rapariga. Andy pareceu perplexo quando 
a viu entrar e apresentou-a aos Williams, john e Wanda. Tinham aspecto de pessoas srias e sensatas, decentemente vestidos, sem nenhum ar de drogados ou de imbecis. 
Wanda era uma bonita rapariga que falava sem parar de como era importante para si fazer alguma coisa de <,signfcatvo, pelas pessoas, e john parecia no se importar, 
desde qie fossem salvaguardados certos aspectos, Corno ele se expressava, "dinhero  dnhero". Iam pagar os cuidados mdicos dela, uma pequena verba para roupas 
e uma indemnizao de dois meses de salrio, uma vez que, -na altura, ela no poderia trabalhar nuito- E o seu "preo", como ela dizia, era de 25 mil dlares. Assinaria 
um contrato comprometendo-se a no consumir lcool nem drogas, nem a expor-se a riscos indevidos, e no hospital, quando o beb nascesse, entreg-lo-ia sem qualquer 
problema.
- E se voc decidir ficar com ele? - perguntou Diana rudemente; esta s tinha pedido uma chvena de caf,
- No o faria - respondeu claramente, e acrescentou qualquer coisa a respeito do seu karma, que no queria violar. 0 marido explcou que ela estava muito envolvida 
em religies orientais.

222                          DANIELLE STEEL
- Ela no  propriamente doida por midos - acrescentou o marido. - At ao ltimo que teve, nunca quis ficar com nenhum.
- E o senhor? - perguntou-lhe Diana. - Corno encara ter a sua mulher grvida com o esperma do meu marido?
- Bem, calculo que ele no o faria se no precisasse - e olhou intencionalmente para Diana, que sentiu a punhalada mas no vacilou.
- No sei, penso que  com ela.  o que ela quer fazer. - Diana tinha a sensao de que eram os dois doidos, mas no havia de facto nada de visivelmente "errado,> 
com eles. 0 plano propriamente dito  que parecia tremendamente horroroso.
Deixaram a coisa pendente no fim do almoo e Andy ficou de telefona-r-lhes nos prximos dias, depois de ele e Diana discutirem o assunto.
- Tenho outro candidato para entrevistar - explicou Wanda. Vou estar com ele amanh.
- Ela s faz isto para as pessoas que lhe agradam - sublinhou o marido, olhando para Diana acusadoramente. No havia dvida, Diana no fora suficentemente "simptica" 
e era capaz de ter posto todo o projecto em risco. Isso deixou-a histrica, pensar que estava a ser "entre~ vistada" por aqueles excntricos.
Saram antes dos Dotiglas, e Diana ficou sentada olhando furiosamente o marido.
- Como pudeste fazer isto connosco?
- Porque foste to rude com o homem, a perguntar-lhe como se sentia a respeito do meu esperma? Por amor de Deus, Diana, so muito capazes de nos rejeitar.
- OM - Ela reclinou-se na cadeira, desviando os olhos com rancor. - No creio. Ela fica aqui sentada a falar-te do seu kanna, e tu queres que ela tenha o teu beb! 
Acho tudo to inconsistente. Como o marido dela.
- Vou telefonar ao Dr. Johnston para ver como vamos fazer.
- No contes comigo para nada do que andas a fazer. Quero que saibas bem isso - afirmou, peremptria.
-  contigo. No te estou a pedir que ponhas um centavo nisto,
- Diana sabia que ele teria de pedir dinheiro emprestado aos pais e questionava-se sobre qual seria a sua justificao.
- Acho que ests doente. E penso que  pattico, os extremos a

0 PREO DA VENTURA                           /1 Z _)
que chegam pessoas como ns para ter um beb. - No havia uma soluo mais simples, e ela , ali sentada, sabia que devia t-la tomado mais cedo. Levantou-se, olhou~o, 
abanou a cabea e dirigiu-se para a porta do restaurante. Havia um txi  espera na rua, ela entrou e deu a morada de casa. E na altura que Andy saiu do restaurante, 
depois de pagar a conta, ela j tinha desaparecido. Como todas as suas coisas, quando ele chegou a casa do emprego naquela noite. Diana tinha-se ido embora. Para 
sempre, Deixara-lhe um bilhete na mesa da cozinha.
"Querido Anoly... devia ter feito isto h meses. Desculpa, Tudo isto agora  to estpido. No precisas de uma me hospedeira. Precisas de urna mulher... uma autntica... 
que possa ter um beb. Boa sorte. Amo-te. Vou pedir ao meu advogado que te telefone. Um beijo, Diana." Ele ficou de p, olhando boquiaberto para o pedao de papel 
azul na mo, e sentiu-se estarrecido, No podia crer que ela tivesse feito aquilo.
Telefonou aos pas dela nessa noite, afectando um ar casual, para ver se estava ali, mas as suas perguntas de rotina disseram-lhe que no. A me suspeitou de que 
havia algum problema mas no quis fazer
perguntas. No viam Diana desde a sua crise no dia de Aco de Graas, embora falassem com regularidade pelo telefone, e o pai s nesse fim de semana tivera urna 
longa conversa com ela.
Mas afinal Diana tinha ido para um hotel. E nesse mesmo fim de semana alugou uma casa. j ningum precisava de a convencer fosse do que fosse. Era uma insensatez, 
o almoo no lhe Ivy revelaia-lhe tudo o que precisava de saber, como estavam desesperados, irracionais, loucos. Era rifficulo, Andy estar a pensar engravidar aquela 
rapariga. onde  que tinha ele a cabea?
Anoly telefonava todos os dias para o emprego de Diana, mas ela recusava-se sistematicamente a atender as chamadas. E quando resolvia aparecer ali, no queria v-lo. 
0 sonho tinha chegado ao fim, e com ele o pesadelo, Tudo terminara para Diana e Andy,


CAPITULO 13
- Muito bem - disse Pilar com um sorriso hesitante -, vamos a isto outra vez. - Ligou o vdeo e duas mulheres comearam a lamber o sexo uma  outra, enquanto Brad 
olhava para ela com um riso envergonhado, sentindo~de completamente idiota.
- No sei se fizeste uma boa escolha dos filmes.
- Oh, cala a boca! - Ela soltou uma gargalhada. Estava a tentar empenhadamente ser tambm desta vez uma parceira divertida, mas a Dra. Ward j lhes havia garantido 
que talvez precisassem de dez ou doze tentativas para tornar a engravidar, e ainda assim podia perder depois a criana. Agora iam experimentar supositrios de progesterona, 
durante trs meses, a fim de ver se engravidava, mas no havia garantias, dissera-lhes a mdica, E em cada minuto de cada dia que passava Pilar no ia ficando propriamente 
mais nova.
Lentamente, arrancou as roupas a Brad, enquanto ele via          o filme, depois despiu-se ela prpria, provocando suavemente a ereco, e em breve tinham o smen 
desejado. A enfermeira levou-o e Pilar no resistiu a meter-se com ele.
- Vamos ter de comprar este para ver em casa. Parece-me que gostaste!
No era um caminho fcil o que haviam escolhido. Desta vez a inse~ minao artificial correu igualmente bem, embora a Dra. Ward tomasse a avis-los de que era altamente 
improvvel resultar  primeira tentativa. Pilar tinha recomeado com o Clomifene, o que a tornava extremamente nervosa e parecia deprimi-la ainda mais, Foram tempos 
duros para ela, interrogando-se intimamente se alguma vez se recuperaria do aborto, Era o seu pensa-

226                           DANIELLE STEEL
mento de todas as horas, e mesmo quando a dor parecia atenuar-se, algo a induzia de novo inadvertidamente, a viso de algum carregando uma criana nos braos, deparar 
com uma mulher grvida, ver roupas de beb numa montra, ou, se ainda no sabiam nada do aborto, os amigos felcitando-a por estar grvida. S agora reconhecia a 
tola que fora em contar to cedo a toda a gente; ia levar-lhe meses a dizer a todos que afinal no estava grvida. E de cada vez que era forada a explicar, proclamavam 
a sua imensa pena, ou punham questes to absurdamente cruis como se dera tempo de ver se era rapaz ou rapariga, ou de que tamanho era.
Brad levou-a nesse dia s compras para anim-la um pouco, e ficaram no 13everly Wilshre. Era agradvel estar longe de tudo com ele, pelo que procurou fazer do passeio 
uma ocasio festiva. No dia seguinte era dia de So Valentim, e quando chegaram ao hotel Brad tinha-lhe enviado duas dzias de rosas vermelhas.
Para o meu amor, sempre, Brad, dizia o carto, e ela chorou quando o leu. Vinha-se interrogando ultimamente se no seria uma idiota em querer mais do que aquilo, 
talvez fosse um erro, uma ganncia excessiva. Quem sabe se no tivera razo todos aqueles anos. Talvez ter um beb no fosse afinal to importante, Era dircil abdicar 
agora do sonho, mas tambm comeava a pensar que era insensato da sua parte correr atrs dele. Quem sabe se, pura e simplesmerite, no tinha que ser assim e devesse 
esquecer a ideia de ter filhos. Falou de tudo isso nessa noite a Brad, que alis tambm andava a meditar no assunto.
- Porque no ficamos uns tempos apenas a ver o que acontece? E se isso te faz infeliz, paramos.  contigo.
- s to bom para mim! - disse ela, colando-se a ele, ainda ferida mas grata pela sua presena.
Alugaram um filme ertico e viram-no no video, rindo imenso e comendo chocolates oferecidos pelo hotel,
- Sabes... isto pode tornar-se um hbito - observou Brad, rindo~ -se para ela.
- - - Os chocolates? - perguntou, simulando inocncia, e ele soltou uma gargalhada.
- No, os filmes!
Fizeram amor quando o filme terminou, e em seguida mergulharam no sono nos braos um do outro, ainda sem certezas nem respostas.

0 PREO DA VENTURA
No dia de So Valentim, Charlie foi comprar flores para a mulher que o ajudava a fazer os seus relatrios no trabalho. Era uma mulher enorme, de cofao desmedido. 
Comprou-lhe cravos vermelhos e cor-de-rosa guarnecidos de gipsofila e ela atirou~se-lhe ao pescoo num abrao e chorou, muito comovida quando ele lhos ofereceu. 
Era to bom rapaz, o pobre garoto; ela soubera que estava a divorciar-se, e por vezes parecia to solitrio,..
 hora do almoo, Charlie saiu, comprou uma sanduche e foi com~ -Ia para o Palms Park perto de Westwood Vltage, onde podia ficar a ver pessoas idosas deambulando, 
namorados beijando-se, crianas a brincar. De vez em quando, gostava de ir ali, s para observar os midos.
Reparou numa garotinha de tranas loiras compridas, grandes olhos azuis e um sorriso traquina, e ria-se enquanto a via brincar com a me, jogava  apanhada e  macaca, 
saltava  corda e ao eixo, e a me era quase to bonita corno ela, Era uma loira franzria, com os cabelos lisos compridos e grandes olhos azuis, e tinha um ar meio 
infantil.
Por fim foram jogar  bola, qual delas a mais inbil tanto a atirar como a apanhar, Ckarlie observava-as e sofria, aps ter terminado a sua sanduche, mas, subitamente, 
ficou perplexo quando um dos seus desastrosos lanamentos o atingiu em cheio. Levou-lhes a bola e elas agradeceram-lhe. E ao faz-lo  garotinha olhou para ele e 
riu~se, completamente desdentada  frente.
- Virgem santa, quem te acertou nos dentes? - perguntou-lhe Charlie.
- Foi a fada dos dentes. E ela pagou-me um dlar por cada um. Ganhei oito dlares - explicou, continuando a rir.
- Isso  muto dinheiro! - Charlie simulou um ar imensamente impressionado e a me da mida sorriu-lhe. Era igualzinha  filha, exceptuando a falta de dentes, e 
Charlie disse-lhes isso mesmo. A jovem mulher soltou uma gargalhada.
- Sim, julgo que tive muita sorte por a fada dos dentes no mos ter tambm arrancado. Os meus seriam um pouco mais caros. - A verdade era que estava grata pelo facto 
de o marido no lhos haver esmurfado antes de a deixar. Mas no o disse a Charlie. '
- Vou comprar  minha me um presente com o dinheiro - anunciou a garotinha, e em seguida perguntou-lhe se no queria jogar com elas. Ele hesitou, mas s por instantes, 
no querendo aborrecer a me.

228                          DANIELLE STEEL
- De acordo. Mas eu tambm no sou grande jogador. A propsito, o meu nome  Charlie.
- Eu sou Annabelle - anunciou a garota -, mas toda a gente me trata por Annie.
- Eu sou Beth - disse a me, inspeccionando Charlie. Este parecia circunspecto, mas afvel.
Passaram um bom bocado a jogar  bola, depois  macaca, antes de Charlie ter de regressar ao trabalho, relutantemente, para vender txteis.
- At qualquer dia - disse quando as deixou, sabendo como isso
era pouco provvel. No lhes perguntara nem o nmero de telefone nem os nomes. Gostara delas, mas no estava particularmente interessado em andar atrs de uma mulher 
desconhecida e da filha. Desde que Barbie sara de casa, no tivera nenhuma aventura, e provavelmente a mulher at era casada. Mas no havia dvida que era interessante.
- Adeus Charlie! - e Annie acenava-lhe quando ele ia a sair do parque. - Feliz dia de So Valentim!
- Obrigado - virou-se para trs e deixou-as, sentindo-se bem. Havia qualquer coisa nelas que lhe desanuviou todo aquele dia, mesmo bastante depois de as ter deixado.
Andy levou quase um ms a descobrir onde ela vivia, E no incio, j na posse da morada, no sabia o que fazer com a informao. 0 advogado dela tnha-o informado, 
sem rodeios, de que a Sra. Dougias dava o casamento por terminado. Tinham sido dezoito meses de muitas lgrimas e ela no queria tornar a v-lo. Desejava-lhe felicidades, 
mas deixara bem claro que estava tudo terminado.
Andy continuou a telefonar-lhe para o emprego vrias vezes depois disso, mas ela persistia em no atender as chamadas. E ele s podia pensar naquele estpido almoo 
com a me hospedeira e o marido. Fora a que tudo terminara. Que maneira to pattica de acabar com um casamento! Foram ridculos, um e outro- os "pesquisadores 
de esperma,... em busca desesperada de bebs. j lhe era indiferente se nunca viesse a ter um filho. Tudo o que queria na vida era Diana.
E ento, inadvertidamente, quando recorreu a Seamus e a Sam, estes disseram-lhe onde ela vivia. Tinha alugado urna velha vivenda em Malibu, e estava a morar junto 
da praia. Fora um dos primeiros lugares

0 PREO DA VENTURA                         229
que eles tiveram em vista antes de se casarem, e ele sabia como ela era louca pelo mar.
Arrancou-lhes o endereo com a desculpa de que precisava de entregar-lhe algumas das suas coisas. E eles disseram que tinham imensa pena do que havia sucedido.
- Foi uma grande dose de estupidez e um enorme azar - explicou Andy tristemente -. Azar dela, e eu fui um imbecil.
- Talvez supere - quis Sam suavizar as coisas. Esta tinha todo o aspecto de quem ia ter o beb a qualquer minuto, e de facto estavam justamente a caminho do mdico 
para fazer um exame. Andy teve um instante de cimes deles, mas lembrou-se rapidamente de que essa ainda no era uma opo.
Cismou durante dois dias sobre o que fazer com a informao dada por eles. Se lhe aparecesse de repente  frente, Diana no o deixaria entrar, ou ento podia ficar 
pendurado na praia  espera que ela sasse para apanhar ar, mas se ela no o fizesse? E por fim, no dia de So Valentim, tomou uma resoluo, acontecesse o que acontecesse; 
comprou-lhe uma dzia de rosas e foi de carro a Malibu, rezando para que ela ali estivesse, mas no estava. Pousou as rosas cuidado~ samente nos degraus da porta, 
com um bilhete. No dizia muito, um mero "Amo-te. Andy", e em seguida tornou a entrar no carro; e precisamente quando o fazia, ela vinha a chegar. Mas no saiu do 
carro quando o viu.
Ele saiu do seu, aproximou~se para falar com ela, e Diana, relutantemente, baixou o vidro da janela.
- No devias ter vindo aqui - afirmou, evitando olh-lo. Parecia mais magra e mais bela do que ele se lembrava. Trazia um vestido preto, com um ar muito sexy e elegante 
quando saiu do carro e permaneceu de p junto deste, no fosse ter que lhe servir de proteco.
- Porque vieste? - Ela tinha reparado nas flores sobre os degraus e no sabia se eram dele, Mas se fossem, no as queria. Tinha cessado de torturar-se e queria que 
ele fizesse o mesmo. Agora s lhes restava esquecerem.
- Queria ver-te - disse ele tristemente, parecendo o rapaz com quem ela casara, se bem que melhor, Era atraente, jovem e loiro, tinha
34 anos e ainda a amava.
- 0 meu advogado no te deu o meu recado?

230                         DANIELLE STEEL
- Deu. Mas eu nunca dou ouvidos a advogados. - Riu-se, e ela sorriu mal-grado seu. - Alis, nunca dou ouvidos a ningum. j deves saber.
- Talvez devesses. Podia fazer-te bem, Era capaz de te poupar uma srie de dores de cabea.
- A srio? Como? - Ele finga-se de inocente, mas estava to feliz por v-Ia. Queria ret~la ali a conversar, era uma maneira de estar perto dela. E a despeito da 
brisa mafitima, podia sentir-lhe o seu perfume, Calcbe, de Herms, que de resto sempre adorara.
- Podias parar de tentar o impossvel, por exemplo - esclareceu ela, com doura, dizendo para si mesma que no estava afectada por ele. Era um teste, encontrar-se 
junto dele e resistir-lhe.
- Adoro tentar o impossvel - retorquiu ele suavemente.
- Pois no tentes. j no h motivo para isso, Andy.
- Trouxe-te umas flores - anunciou, sem saber o que mais dizer. E no queria deix-la ir embora.
- Tambm no devias ter feito isso - retorquiu num tom triste.
- Tinhas obrigao de saber. Daqui a cinco meses, ficars livre, e ento podes ter toda uma vida nova sem mim.
- No quero isso.
- Queremos os dois - disse Diana com firmeza.
- No me venhas dizer o que eu quero - ripostou asperamente,
- Quero-te a ti, que diabo!  o que eu quero, No quero essa coisa estpida da me hospedeira,  incrvel como tudo isso foi idiota_ nem quero beb nenhum. No quero 
tomar a ouvir a palavra. Tudo o que eu quero s tu.--- Di... Por favor, d-nos outra oportunidade... por favor... amo-te tanto... - Ele queria dizer-lhe que no 
podia viver sem ela, mas as lgrimas na garganta no o deixaram.
- Tambm no quero beb nenhum - ela estava a mentir, e ambos sabiam. Se algum pudesse brandir sobre ela uma varinha mgica naquele exacto momento e deix-la grvida, 
ela teria agarrado a oportunidade num segundo. Mas no podia permitir-se pensar nisso.
- No quero estar casada, No tenho nenhum direito de estar - rematou, tentando parecer convicta. Quase chegara a acreditar nisso.
- Porqu? Por no poderes engravidar? E depois? No sejas estpida. Achas que s as pessoas frteis tm direito a casar?  a coisa mais idiota que j ouvi.

0 PREO DA VENTURA
Z51
- Deviam casar com pessoas iguais. Assim ningum ficava magoado. -Que grande ideia! Como  que eu no pensei nisso? Oh, por
amor de Deus, Di, cresce! Tivemos um azar danado, mas no  o fim do mundo. Ainda podemos recuperar.
- Ns no tivemos azar danado - corrigiu-o -, tive eu.
- Pois , e eu andei por a como um luntico a entrevistar estrelas budistas armadas em mes hospedeiras. Muito bem, fomos ambos uns loucos. E depois? Foi violento. 
Foi brutal, de facto. Foi a pior coisa que jamais pensei viver. Mas essa parte acabou. Agora temos o resto das nossas vidas para viver. No podes simplesmente desistir 
de ns s porque ficmos loucos.
- j no quero mais loucuras - atalhou Diana, e falava a srio.
- H uma srie de coisas que no tornarei a fazer a mim mesma, coisas que pensava que <,tinha de fazer". No vou a festas de bebs, nem a baptizados, nem a hospitais 
onde nasam bebs. Sam teve ontem o beb e eu telefonei a dizer-lhe que no vou. E sabes que mais?  ptimo.  o que tenho de fazer para sobreviver neste momento, 
e talvez um dia eu consiga resolver a coisa, e se no conseguir,  verdade que  duro, mas  a nica maneira. j no vou fazer nada que possa deixar-me incomodada 
ou infeliz, nem estar casada com algum que devia ter filhos e no os tem porque sou sua mulher e sou estril, E Po vou perder a cabea com mes hospedeiras, nem 
com vulos doados. Que se lixe toda essa merda, Andy. j no vou fazer isso comigo. Vou apenas viver a minha vida, e lev~la para a frente. Tenho o meu trabalho. 
H outras coisas aa vida alm de filhos e casamento.
Ele olhava-a, pensando no que ela dizia. Urna parte fazia sentido, outra no. E o trabalho no era a substituio justa para filhos e um marido.
- No mereces ficar sznha para o resto da vida. No precisas de ser castigada, Di, No andaste a "fazer" nada. Aconteceu-te, j  suficientemente mau. No piores 
ainda mais as coisas ficando s, - Os olhos dele encheram-se de lgrimas.
- E quem te disse que me sinto s? - atalhou, irritada com as suas suposies.
- Porque tens andado a roer as unhas. Nunca o fazes quando ests feliz.
- Ob, vai-te lixa-r, - Ela sorriu contra vontade. - Tive muito que

232                         DANIELLE STEEL
fazer no trabalho. - E ento olhou para ele; havia uma hora que estavam a conversar e continuavam de p junto do carro dela, na estrada. Com certeza que no havia 
nenhum mal em deix~lo entrar por uns momentos. Foram casados dezoito meses, estverarn juntos durante muito tempo antes disso, ela podia seguramente lev-lo uns 
minutos para a sala de estar.
Convdou-o, e ele pareceu surpreendido, e ela colocou as rosas numa jarra e agradeceu-lhas.
- Queres beber alguma coisa?
- No, obrigado. Sabes do que  que gostava realmente? Ela quase tinha medo de perguntar-lhe:
- Do qu?
- Dar um passeio pela praia contigo. Podia ser? - Assentiu com a cabea, mudou de sapatos, vestiu um casaco mais quente e ele deixou-a emprestar-lhe uma das suas 
velhas camisolas de l, que ela trouxera consigo.
- j tinha pensado onde  que esta coisa teria ido parar. - Ele sorria enquanto vestia a camisola, uma velha amiga que muito estimava.
- Deste-ma quando namorvamos.
- Nessa altura era mais esperto do que sou agora.
- Talvez fssemos os dois - reconheceu ela. Desceram as escadas da varanda da sala e entraram na praia, que ambos adoravam. Andy pensava que era uma pena no se 
terem empenhado mais para encontrar uma casa naquele local; a praia era to maravilhosa, e gostavam tanto dela, e agora, particularmente, tinha qualquer coisa de 
reconfortante. To simples e to prxima da natureza.
Caminharam em silncio por longos momentos, contemplando o oceano e sentindo o vento no rosto. Ento, sem dizer nada, ele pegou-lhe na mo, e andaram mais um pouco. 
E passados alguns instantes ela olhou-o como se tentasse lembrar-se quem ele era. Mas era fcil de mais lembrar-se agora, caminhando a seu lado. Era o homem que 
ela tanto amara... que a fizera to fliz--- antes de tudo se decompor.
- Tem sido duro, no tem? - perguntou ele quando se sentaram perto de uma duna, j a grande distncia da casa que ela alugara.
- Sim, tem. E tinhas razo... sinto-me s.--- mas estou a aprender coisas acerca de mim prpria, coisas em que nunca pensei antes. Estava

0 PREO DA VENTURA                            1---)3
sempre to obcecada pela ideia de ter filhos que raramente parava para pensar quem era e o que queria.
- E queres o qu, Di?
- Quero unia vida completa, um casamento autntico com uma pessoa completa que no dependa de ter filhos para o manter de p. Ainda gostava de os ter, mas no sei 
se no seria capaz de sobreviver agora sem eles. Talvez seja essa a lio que preciso tirar desta histria toda. No sei. Ainda no raciocinei sobre tudo isso. - 
Mas tinha avanado alguns passos desde que o deixara. - Estive sempre confusa acerca de quem eram as minhas irms, de quem era a minha me, de quem era eu. E se 
era ou no diferente, ou simplesmente igual. Disseram-me a vida inteira que era diferente delas, mas no creio que o seja. Fui sempre atrada pelas mesmas coisas, 
famlia, filhos. Mas fui atrada por outras coisas, tambm,  nisso que sou diferente. Sempre trabalhei mais do que qualquer uma delas, tinha necessidade de vencer, 
de ser a "melhor". Talvez graas a essa faceta isto doa agora tanto, Falhei, desta vez. No ganhei. No obtive o que queria. - Era uma avaliao honesta, e Andy 
admirava a sua sinceridade.
- s uma pessoa muito especial - disse suavemente, e olhava para ela. - No falhaste. Fizeste o melhor que pudeste,  o que importa. - Ela fez que sim com a cabea, 
tentando acreditar que ele tinha razo. E ele teve de conter-se para no lhe tocar. Mas a despeito de todas as promessas que fizera a si mesmo de que no cederia 
quando a visse, inclinou-se e beijou-a. Ela no lhe fugiu, e tinha os olhos hmidos depois de ele a beijar.
- Ainda te amo, sabes - murmurou por entre a brisa, sentada junto dele. - Isso nunca vai mudar. Mas creio que j no  bom para ns ficarmos juntos. - E, subitamente, 
riu-se, pensando em Wanda. Wanda era um horror, no era? Mas o meu senso de humor estava nas ltimas naquela altura. S uns dias depois comecei a pensar corno tudo 
tinha sido ridculo e horrvel. Tive quase vontade de te telefonar.
- Quem me dera que tivesses telefonado. - Andara to desesperado desde a sua salda de casa que teria sido uma tremenda emoo ela telefonar~lhe. - Estragaste-me 
tudo, claro, Wanda escolheu o outro fulano,
0 marido disse que ela no estava muito contente com o teu kama.
- Adorei! Espero que tenha tido quadrigmeos. Porque  que as pessoas se sujeitam a esse tipo de coisas? - interrogou, olhando para

234                         DANIELLE STEEL
o mar. Havia uma neblina cinzenta no horizonte e o Sol punha-se lentamente.
- Referes-te a procurar mes hospedeiras?  que eles estavam to desesperados como ns. E no caso de Wanda, julgo que ela se considera uma espcie de Madre Teresa.
- Creio que o dinheiro tem ali um grande papel.  nojento, porque os compradores esto desesperados em extremo e os vendedores sabem isso.
-  a histria da vida, creio. Ainda bem que o teu karma estava to em baixo naquele almoo. Podia ter redundado num desastre.
- Creio que na altura estava meio fora de mim, possivelmente at mais que meio. - Mas parecia deveras sensata agora, e muito calma, e ele nunca a amara tanto como 
naquele momento.
Voltaram lentamente para casa dela, e conversaram durante horas, de outras coisas, finalmente, alm de infertilidade e bebs. Tinha de existir alguma coisa mais 
nas suas vidas, e talvez agora isso fosse possvel. Mas enquanto estiveram no centro das coisas, apenas o desespero tinha existido, e ocupara~lhes quase todo o seu 
tempo de casados.
Nem se lembraram de jantar nessa noite, e quando ele se preparava para sair, viram com surpresa que era meia-noite.
- Que tal se sassemos amanh  noite? - perguntou-lhe, receoso de que ela se zangasse e recusasse, mas, lentamente, respondeu que sim com a cabea.
- Sou capaz de querer.
- Que tal o CNanti? - Era um restaurantezinho italiano em Melrose com pratos deliciosos e que eles adoravam. - E talvez um cinema.
- No me desagradava. - Beijou~a de novo, e sentiam-se como
dois adolescentes quando ele saiu. Diana seguiu~o com o olhar e acenou-lhe. Depois foi para o terrao, onde ficou durante muito tempo a contemplar o oceano.

CAPITULO 14
Charlie voltou vrias vezes ao Paim Park na esperana de encontrar Annabelle e Beth, e encontrou-as. Conversaram, jogaram  bola, mas ele no ousava pedir-lhes o 
nmero de telefone. Alis, nem podia saber se ela era casada, no lhe via nenhuma aliana, mas tambm nunca lhe dissera se estava divorciada. Charlie maravilhava-se 
a observ-las, e Annie era adorvel com a sua boca desdentada e toda a sua excitao a propsito de tudo. A me era sempre uma pessoa muito agradvel com quem conversar. 
Dava gosto v-Ias formando como que uma pequena famlia, entendendo-se admiravelmente bem uma com a outra. Para ele, era como se fossem j velhos amigos na terceira 
vez que as encontrou, em principos de Maro, e Beth comeou a abrir-se com ele. Contou que Annabelle estava no jardim de infncia e que ela trabalhava no Centro 
Mdico da Universidade da Califrnia, ali perto, como auxiliar de enfermeira. Quisera obter o diploma de enfermeira, mas no tinha tido possibilidades de terminar 
o curso. Conheciam~se havia escassas semanas, mas Charlie sentia-se surpreendentemente  vontade com ela; ficaram sentados num banco a ver Annabelle a jogar  macaca, 
e nesse dia tinha trazido um chupa~chupa para o caso de elas estarem ali. Ultimamente vinha quase todos os dias comer o seu almoo no parque s para as ver.
- Apanhei uma constipao - anunciou-lhe Annie quando voltou para juntos deles, mas parecia bem disposta e, momentos depois, desandava para os baloios, dando a 
Charlie oportunidade de falar com a me.
- Ela  maravilhosa - disse com carinho.
- Eu sei.  uma criana formidvel. - E vrou-se para ele com

~-6                          DANIELLE STEEL
um sorriso tmido: - Obrigada pelas suas gentilezas com ela... os bombons, as pastilhas elsticas, os caramelos. Deve gostar de crianas.
- Gosto - acenou com a cabea.
- Tem alguma?
- Eu... no... ainda no... - De repente apercebeu-se do que tinha dito e achou-se no dever de corrigir: - No, no tenho. E provavelmente nunca terei - acrescentou 
num tom confidencial -, mas isso  uma longa histria. - Ela interrogava-se se a mulher no poderia ter, ou se teria mesmo mulher, mas era demasiado tmida para 
perguntar, e ele no deu mais explicaes. - Um dia gostava de adoptar uns midos. Fui rfo, e sei o que significa precisar-se de uma famlia e no a ter. - No 
lhe falou dos inmeros lares adoptivos onde estivera, nem das inmeras pessoas que o haviam rejeitado por causa das suas alergias e da sua asma. A famlia mais simptica 
que conhecera tinha um gato e ele no podia viver l. E disseram-lhe que seria um enorme desgosto para eles desfazerem-se do gato. De forma que se desfizeram de 
Charlie. -  duro para um mido... gostava de tomar as coisas diferentes para algum. - Sorriu. Pensava bastante nisso nos ltimos tempos. Sabia de pessoas que o 
faziam, e quando tivesse mais umas economias ia informar-se. Entretanto, tinha o seu pequeno clube de futebol de midos, com os quais jogava todos os fins de semana.
-  simptico fazer isso. - Beth sorriu. - Eu tambm fui rf. Os meus pais morreram tinha eu doze anos. Fui criada com uma tia, fugi com dezasseis anos e casei-me. 
Foi uma estupidez, mas paguei bem caro. Prendi-me com um homem que bebia, e enganava-me, e mentia, e batia-me sempre que podia. No percebo como fui capaz de ficar 
com ele, mas na altura em que quis deix-lo, estava grvida. Tive a Armie aos dezoito anos. - Isso significava que estava agora com 24, o que parecia espantoso, 
pois aparentava uma maturidade bastante superior  de muitas raparigas da sua idade, e tornava-se bvio que era uma boa me.
- 0 que aconteceu? Como conseguiu livrar-se dele? - Charlie ficou horrorizado com a ideia de haver pessoas capazes de espancar uma mulher, sobretudo uma rapariga 
to simptica como ela.
- Ele deixou~me, e nunca mais ouvi falar nele. Tinha outra, julgo eu, e passados seis meses morreu numa briga num bar. Annie tinha um ano e eu voltei para aqui, 
e aqui ficmos desde ento. Trabalho de noite

0 PREO DA VENTURA
num hospital, por isso posso estar o dia inteiro com a Annie, e a minha vizinha vai-lhe prestando alguma ateno, de forma que no preciso de pagar a uma ama.
- Parece uma boa soluo.
- As coisas tm corrido bem para ns. Gostava de voltar um dia a estudar, obter o meu diploma. Talvez possa, um dia. - Ao ouvi-Ia, Charlie tinha vontade de fazer 
alguma coisa para ajud-la.
- Vivem onde? - Subitamente ficou curioso em saber mais coisas a respeito dela.
- Apenas a alguns quarteires daqui, em Montana. - Deu-lhe a morada e ele assentiu com a cabea. Era a zona mais pobre de Santa Mnica, mas respeitvel, e provavelmente 
estavam seguras ali.
- No gostava de jantar um dia destes? - perguntou-lhe, depois de observarem Annie no baloio durante mais alguns instantes. - Podia trazer a Annabelle. Ela gosta 
de pizza?
- Adora!
- Que tal amanh  noite?
- Parece-me perfeito. No preciso de estar no hospital antes das onze. Saio de casa por volta das dez, e venho s sete e meia da manh, mesmo a tempo de prepar-la 
para a escola e fazer o pequeno-almoo. E ento durmo umas horas antes de ir busc-la. Est tudo bem coordenado. - Tinham organizado o seu esquema, e este funcionava 
relativamente bem para as duas. Mas Charlie sentia pena de Beth, com tantas responsabilidades sobre os ombros e sem ningum para ajud~la.
- Pelo que me diz, parece que no dorme muito - observou delicadamente.
- No preciso, estou habituada, Durmo umas trs horas de manh, enquanto Annie est na escola, e passo um pouco pelo sono depois dela se deitar, antes de ir para 
o trabalho.
- Isso no lhe deixa muito tempo para se distrair - comentou com alguma pena quando Annie lhe pulou para cima. Esta parecia sentir-se melhor. E Beth falou-lhe no 
convite para a pzza.
- Com o Charlie? - parecia surpreendida e contente e a me respondeu~lhe que sim com a cabea, tambm aparentemente feliz. Era bonita e jovem, e havia muito tempo 
que no havia espao para um homem na sua vida. Mas ver Charfie fazia-a subitamente sentir-se dife-

238                         DANIELLE STEEL
rente. - Boa! E podemos tambm ir comer um gelado? - perguntou-lhe Annie, e ele soltou uma gargalhada.
- Claro! - Era-lhe imensamente agradvel estar com elas; e, seguindo a garota com o olhar enquanto esta voltava para os baloios, uma parte dele sentia de novo um 
enorme desejo de ter um filho e outra dizia-lhe que no tinha necessariamente de ter; existiam crianas no mundo que se cruzariam no seu caminho, que lhe acalentariam 
o corao, como ela, naquele momento. E ultimamente vinha pensando que tambm tinha o seu lado bom o facto de possuir a sua total liberdade. Mark tentara dizer-lho, 
mas agora ele estava a descobri-lo por si prprio. Olhou de relance para Annabelle, e ele e Beth trocaram um sorriso afectuoso, corno se ambos se interrogassem sobre 
o futuro.
Desta vez Pilar no tinha coragem para fazer o teste de gravidez ao fim dos poucos dias de atraso do seu perodo. Temia, alis, que fosse negativo, o seu corpo ainda 
estava provavelmente bastante abalado aps o aborto espontneo. A mdica dissera-lhes que as hipteses de xito da primeira vez que repetissem a inseminao artificial 
eram muito fracas. Por isso ela'esperou. E esperou. E ao fim de uma semana, Brad ameaava fazer ele prprio o teste, caso ela no fizesse.
- No quero saber - afirmava, nitidamente perturbada.
- Ento fao eu.
- Tenho a certeza de que no estou grvida. - Mas no estava to segura como isso; sentia-se permanentemente cansada, e tinha os seios mais volumosos e doridos. 
E havia algo em si que a fazia suspeitar.
- Faz o teste! - insistia ele. Mas ela argumentava que no podia enfrentar a mesma coisa, e queria desistir do Clornifne. De resto, j no o tomava desde o seu 
ltimo peilodo, mas no queria recomear se descobrisse que no estava grvida. Comeava a pensar que o stress que este lhe causava era demasiado destrutvo.
Por fim Brad telefonou ao ginecologista local, o Dr. Parker, e concordaram que ela estava apavorada. Este aconselhou Brad a lev-la ao consultrio para ele a examinar 
e, quando o fez, suspeitou que ela estivesse grvida, Efectuaram o teste da urina e este foi positivo. Pilar estava incontestavelmente grvida.

0 PREO DA VENTURA
Quase desfaleceu de alegria, e Brad ficou emocionado. Depois de tudo quanto ela tinha passado at ali, queria sinceramente que Pilar tivesse aquele beb, Haviam-lhe 
receitado supositrios de progesterona para manter os seus nveis elevados de forma a suster a gravidez, e o resto fora obra da Me~Natureza, 0 mdico avisou-a de 
que podia voltar a abortar, era muito possvel que nunca conseguisse levar uma gra~ videz at ao fim, ningum podia fazer previses.
- Vou ficar de cama durante os prximos trs meses - afirmou, os olhos cheios de pnico, mas o Dr. Parker insistiu que no era necessrio. E em seguida telefonaram 
 Dra. Ward a dizer-lhe que a insemi-nao havia resultado, e no caminho para casa Brad insistia que fora tudo por causa daquele filme.
- s incorrigvel! - ela ria-se, ao mesmo tempo apavorada, excitada e feliz. Mas tinha tanto medo de perder tudo de novo que combinaram no dizer nada a ningum 
at completar as doze semanas e depois de excludo o perigo de um aborto. Havia, contudo, um milho de outras coisas que podiam correr mal, lembrava a Brad nessa 
noite. Podia sofrer um aborto espontneo tardio, ou ter um nado-morto.
0 beb podia morrer no tero, estrangulado pelo cordo, ou por uma infinidade de horripilantes razes. Ou podia padecer do sndroma de Down, em virtude da sua idade, 
que nesse aspecto constitua um alto risco, ou de espinha bfida. 0 corao apertava-se-lhe quando enumerava todas as possveis desgraas, e Brad abanava a cabea 
ao ouvi-Ia.
- Mas cala-te e descontrai-te! E que tal os ps chatos, ou um QI baixo, ou a doena de Alzheimer quando a criana for suficientemente velha para a contrair? Se no 
te acalmas, querida, vais estar histrica na altura em que o beb nascer.
Mas quando, completadas as nove semanas, foi fazer uma ecografia, ficaram os dois histricos, bem como o Dr. Parker. Eram gmeos, no restava absolutamente nenhuma 
dvida, e bivitelinos. Havia dois sacos amniticos e Pilar chorou de jbilo ao ver bater os seus coraes minsculos.
- Oh, meu Deus, e agora? - exclamava de espanto, - Precisamos de ter tudo a dobrar - dizia, ainda assoberbada pela percepo de que ia ter dois bebs.
- 0 que precisamos agora - declarou o mdico com firmeza

240                        DANIELLE STEEL
 de ter uma mam muito calma durante os prximos oito meses, Espero que isto sirva para os dois, caso contrrio teremos sarilhos. No queremos perder estes fulanos.
- Meu Deus, no! - exclamou Pilar, fechando os olhos, sabendo perfeitamente que no suportaria,

CAPTULO 15
Em Maro, Andy ia ficando cada vez mais tempo na praia com a mulher. Diana deixou-o finalmente passar a noite com ela um ms depois do seu reencontro.
- No quero voltar quela casa - disse-lhe serenamente, e ele compreendia. Pelo menos, por enquanto. Ainda precisava de tempo, e ambos estavam felizes, vivendo juntos 
em Malibu na sua pequena vivenda,
Ele vinha directamente do trabalho para ali todos os dias, e trazia-lhe pequenos presentes e flores. s vezes Diana cozinhava para ele, mas eram mais as ocasies 
em que saam para comer nos seus lugares preferidos. Era um tempo especial de recuperao para ambos, de reencontros consigo mesmos, de definio do que significavam 
um para o outro.
S nos primeiros dias de Abril Diana voltou a entrar na sua antiga casa, ficando surpreendida quando se apercebeu da falta que esta lhe fizera.
-  uma bonita casa, no ? - observou, olhando em redor e sentindo-se como uma estranha. No ia ali havia trs meses.
- julgo que foi exactamente o que pensmos quando a comprmos - atalhou ele, cautelosamente, e passaram ali o fim de semana. Mas na semana seguinte sentiram a falta 
de Malibu, por isso regressaram  casa que ela tinha alugado. Estavam a viver bons momentos, rejuvenescidos e libertos. Era uma vida perfeita, e Diana surpreendeu-o 
uma noite em meados de Abril quando lhe disse que afinal no lhe desagradava o facto de no terem filhos.

242                         DANIELLE STEEL
- Ests a falar a srio? - admirou-se. Naquele ltimo ms tinham passado as noites juntos, e ele estava mais feliz do que nunca, vendo-a descontrada e jovial, uma 
outra pessoa.
- Sim... julgo que sim - afirmou pausadamente. - Estamos to livres. Podemos fazer o que nos apetece, ir onde quisermos, quando quisermos. No temos de pensar em 
ningum seno em ns, um no outro. Posso ir arranjar o cabelo sem a preocupao de vir a correr para casa por causa das baby-stters, podemos jantar s dez horas, 
podemos resolver sair inesperadamente para um fim de semana. No sei, para uma vida inteira talvez fosse um egosmo, mas neste momento creio que me agrada.
- Aleluia! - exclamou ele, mas nesse instante o telefone tocou, e quando foi atender olhou estranhamente para Diana.
- Quem era?
- Um velho amigo. - Mas estava plido e ela ficou preocupada.
- H algum problema?
- No sei - respondeu honestamente, e ela estranhou a sua expresso.
- Por instantes pensei que fosse a encantadora Wanda. - Diana sorria e ele parecia envergonhado.
- No andaste muito longe - disse, passeando-se pela sala com um ar enigmtico, e ela observava-o, subitamente apreensiva.
- 0 que queres dizer com isso? - Comeava a ficar assustada. Outra me hospedeira? Oh, Andy, no... no podemos passar por tudo isso outra vez! Pensei que tnhamos 
concordado que essa parte da nossa vida terminou, pelo menos por agora, e talvez para sempre. - Ainda no tinham chegado a decises definitivas, embora, em certos 
momen~ tos, ela tivesse a impresso de que seria capaz de viver perfeitamente sem filhos.
- Creio que desta vez  diferente. - Sentou-se e olhou-a. - Em Setembro, quando descobrimos... quando o Dr. Johnston...
- Disse que eu era estril - interrompeu-o ela, muito natural~ mente.
- Falei com um velho amigo meu da Faculdade. Ele trata de casos de adopo em So Francisco. Frisei-lhe que no queria rescaldos de noites irresponsveis, mas se 
soubesse de algum caso capaz, de uma me saudvel, talvez nos interessasse. Era ele ao telefone, j me tinha

0 PREO DA VENTURA                            243
esquecido de todo. - Andy olhou-a ento intensamente. No queria for-la a nada, mas tinham de decidir depressa. Havia mais pessoas  espera de uma criana e o 
amigo de Andy dava-lhes prioridade desde que o informassem logo de manh. Era sexta-feira  noite, e o beb estava para nascer a todo o momento. A rapariga tinha 
acabado de decidir entregar o beb para adopo.
- 0 que foi que ele disse? - Diana ficou a ouvi-lo, esttica, na cadeira. A me era uma rapariga de 22 anos, era o seu primeiro filho, e como hesitara tempo de mais 
no pudera fazer um aborto. Estava a terminar o curso em Stanford e os pais dela no sabiam de nada; o pai da criana era estudante de Medicina em So Francisco 
e nenhum dos dois tinha condies para ter um beb. Estavam ambos dispostos a dlo, mas s  pessoa certa. E Eric Jones, o amigo de Andy, sabia que este e Diana 
seriam o casal ideal.
Aps muitos avanos e recuos na sua inteno de darem ou no o filho, s nessa manh haviam resolvido definitivamente faz-lo.
- E se mudam de ideias? - perguntou Diana com uma expresso de  terror.
- Tm o direito de faz-lo at assinarem a papelada final - admi~ tiu Andy honestamente, e ela pareceu preocupada.
- E isso demora quanto tempo?
- Em geral, cerca de seis meses, mas eles podem assinar antes, se quiserem.
Diana acenava com a cabea enquanto o escutava.
- No era capaz de passar por isso. Imagina como era se eles o levavam... Andy, no posso--- - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas e ele acenava com a cabea. Entendia 
perfeitamente, e no queria pres~ sion-la.
De acordo, amor, S quis contar-te. No era justo no o fazer. Eu sei. E ias odiar-me se no aceitssemos? Na verdade, creio que no posso. Os riscos so tremendos.
- Nunca podia odiar-te. julgo que se quisssemos avanar para a adopo, esta era uma oportunidade ideal, mas nada nos diz que tenhamos de o fazer. Nem agora nem 
mais tarde.  inteiramente contigo.
- E eu que pensava estar outra vez com os pes assentes no cho. e que tinhamos dado um primeiro passo para recuperar o nosso casa-

244                        DANIELLE STEEL
mento. No quero pr isso em perigo, nem correr o risco de uma terrvel decepo.
- Eu entendo - afirmou Andy, e era verdade. Passaram uma noite tranquila nos braos um do outro, e quando ele acordou na manh seguinte, Diana tinha desaparecido. 
Levantou~se para a procurar e foi encontr-la sentada na cozinha, com um ar desfeito.
- Ests bem?
Viu-a terrivelmente plida, e de repente pensou h quanto tempo estaria ela ali, ou se teria chegado a ir para a cama.
- No, no estou.
- Sentes-te doente? - insistiu, preocupado, e por fim ela dirigiu~lhe um sorriso amarelo, abanando a cabea, o que o aliviou.
- Ainda no tenho a certeza, Estou morta de medo. - Ento, ele percebeu tudo, olhando-a com um sorriso. - Andy, quero fazer isso.
- 0 beb? - Ele susteve a respirao; era essa a sua vontade, mas
no queria influenci~la. Com ela agora refeita, quando comeava a reencontrar o seu caminho, ele sabia que o beb seria um complemento maravilhoso para o seu casamento.
- Sim. Telefona-lhes. - Mal conseguia falar, extremamente nervosa enquanto ele marcava o nmero de Eric ienes em So Francisco. Este atendeu ao segundo toque, com 
uma voz ensonada. Eram oito horas da manh.
- Queremos o beb - anunciou Andy num tom lapidar, espe~ rando que estivessem a dar o passo certo, e que o beb fosse saudvel, e rezando para que os pais no mudassem 
de ideias nos prximos seis meses, ou antes. Sabia que isso destruiria Diana, e possivelmente o seu casamento.
-  melhor virem depressa - disse Eric, radiante. - Ela entrou em trabalho de parto h cerca de uma hora. Podem apanhar um avio agora?
- Claro - assegurou Andy, procurando parecer calmo mas sentindo-se completamente aparvalhado quando pousou o telefone e bei~ jou Diana. - Ela est em trabalho de 
parto, temos de apanhar um avio para So Francisco.
- Agora? - estava boquiaberta, enquanto ele ligava para a companhia area.
- j! - Ele acenava-lhe que sim, saindo da cozinha, mandando-a

0 PREO DA VENTURA                          245
emalar umas coisas para eles, C em cinco minutos estava l em cima, guardando artigos de toflette com uma das mos, barbeando~se com a outra.
- Mas o que estamos a fazer, meu Deus? - Ela comeou a rir, olhando para ele. - Ainda a noite passada estava a dizer-te como me sinto feliz por no termos filhos, 
e agora andamos a correr como loucos, a ir a So Francisco atrs de um beb. - E subitamente parecia de novo apavorada.
- E se no gostarmos deles?... E se eles nos detestarem? Como ?
- Voltamos para casa e eu vou lembrar-te o que disseste na noite passada, que era agradvel no ter filhos.
- Jesus, porque havemos de sujeitar~nos a isto? - gemia ela, enfiando umas calas cinzentas e uns sapatos rasos pretos. A sua vida tornava-se outra vez uma montanha 
russa e no tinha a certeza de isso lhe agradar. E no entanto sabia o que queria. E podia sentir o corao abrindo-se-lhe de novo lentamente, e era a um tempo emocionante 
e doloroso. Mas ningum podia furtar-se  dor. E se ia amar aquela criana, tinha de dar-se inteira.
- Encara as coisas nestes termos          disse-lhe ele, metendo a mquina de barbear na mala e beijando-a         melhor que a merda do almoo com Wanda.
- Amo-te, sabias? - e sorria-lhe enquanto ele fechava a mala.
- ptimo, ento aperta as calas e veste a camisa.
- No me obrigues a andar  pressa. Estou para ter um beb. Ela vestiu uma camisa de seda e agarrou num velho blazer azul-escuro. Era um doce momento nas suas vidas, 
que nenhum queria esque-
cer, Fizeram o trajecto de carro para o aeroporto num tempo recorde, exactamente  justa para apanharem o avio, e s onze e meia da manh estavam em So Francisco.
Eric explicara-lhes como chegar ao hospital; ela estava no Children's Hospital, na Califrnia Street, e Eric aguardava-os na entrada como prometera.
- Est tudo a correr bem - sossegou-os, acompanhando-os de seguida at ao andar superior onde os deixou na sala de espera da rea de obstretricia. Andy passeava~se 
pela sala e Diana sentou-se, os olhos fitos na porta, insegura do que a aguardava, e alguns minutos depois apareceu Eric com um jovem que lhes apresentou simplesmente 
como

246                         DANIELLE STEEL
Edward, o pai do beb. Era um jovem com bom aspecto e, curiosamente, muito parecido com Andy.
Edward era loiro e bem constitudo, de feies correctas, e acha~ ram-no agradvel e inteligente quando comeou a conversar com eles. Contou que Eric lhes falara 
deles e tanto ele como Jane tinham ficado muito excitados com a ideia de aceitarem o beb.
- Tm a certeza de que no querem ficar com ele? - perguntou~ -lhe Diana, frontalmente. - No quero passar por isso, daria cabo de mim - acrescentou, e todos sabiam 
que falava a srio.
- No o faramos, Mrs. Douglas... Diana... juro. Jane sabe que no pode ficar com esta criana. Quis, durante uns tempos, mas no pode. Descia acabar o curso, eu 
estou na Escola Mdica, as nossas famlias esto a sustentar-nos e nunca aceitariam essa deciso. E eu no permitiria sequer que ela lhes perguntasse. No, a verdade 
 que no queremos um filho. No temos nada para dar-lhe neste momento, nem emocionalmente nem no resto. No  a altura certa para ns, e ainda podemos ter uma quantidade 
de filhos mais tarde. - Parecia uma forma arrogante de falar, pelo menos a Diana, a quem sempre impressionava a enorme confiana que as pessoas depositavam no futuro. 
Como  que ele sabia se tudo correria bem mais tarde? Como podiam abdicar de um beb partindo da suposio de que no lhes faltariam oportunidades para fazer outro? 
Bastava ver o que acontecera consigo. - Temos a certeza - insistiu. E os Douglas tinham a impresso de que estava a falar a srio.
- Espero que sim - disse Andy num tom moderado. Fizeram-lhe algumas perguntas acerca da sade dos dois, dos seus vcios, das famlias. E Edward quis saber alguma 
coisa sobre os seus estilos de vida, as suas crenas, relaes, a sua viso das crianas. E, pelo que puderam perceber, Eric tinha razo. Havia uma compatibilidade 
perfeita.
E ento Edward surpreendeu-os:
- Creio que Jane gostava de conhec-los.
- Agradava-nos bastante - aceitou Andy, convencido de que Edward se estava a referir a quando o parto terminasse, mas este pare~ cia indicar-lhes uma porta onde 
se lia SALA DE PARTOS. PROIBIDA A ENTRADA.
- Mas agora? - perguntou Dana, horrorizada. Seria a mesma coisa que entrar~lhe um estranho a meio dos seus exames, embora esta fosse,

0 PREO DA VENTURA                         247
evidentemente, uma ocasio bem mais feliz mas que no dispensava por isso a privacidade, e eles eram apenas desconhecidos.
- julgo que ela no se importa. - Estava em trabalho de parto havia seis horas, mas as coisas pareciam atrasadas, informava Edward, e falavam em dar-lhe Pitocin 
para acelerar o parto.
Este deixava adivinhar a segurana de um estudante de Medcina ao conduzi-los ao longo do corredor para a sala de partos onde tinha deixado Jane. A meio do percurso 
separaram-se de Eric.
Jane era uma bonita rapariga de cabelos pretos. Amparada por almofadas numa cama de hospital, arfava furiosamente com uma enfermeira a ajud-la, e ento parou para 
olh-los quando a contraco terminou. Sabia quem eram. Edward dissera-lhe que estavam ali e ela quisera conhec-los.
- Ol - disse timidamente, mas no parecia importar-se com a presena deles. Edward apresentou-lhos, visivelmente cauteloso corn ela. Parecia mais nova do que era, 
e havia em toda ela um qu de delicado e pueril. Tinha exactamente a mesma cor de pele e de cabelos de Diana, e uma semelhana nos olhos que surpreendeu Andy.
Entretanto, enquanto conversavam, as contraces recomeavam e Diana pensou que seria melhor sarem da sala, mas Jane fez-lhes sinal para ficarem. Andy manifestava 
um certo mal-estar, mas o jovem casal parecia to  vontade que em breve nem ele nem Diana se sentiam embaraados.
- Esta foi forte - queixou-se Jane, olhando para Ec[ward, o qual foi verificar o monitor fetal e lho confirmou com a cabea.
- Esto a progredir, talvez no seja necessrio darem-te o Pitocin.
- Espero  que no - disse Jane, e sorriu para Diana. E, como se entre as duas j se houvesse gerado um lao, agarrava nos dedos de Diana quando  surgia outra dor. 
E foi assim at cerca das quatro horas; Diana e Andy permaneciam junto dela, e nessa altura Jane comeava a mostrar sinais de cansao. As dores prostravam-na, mas 
pareciam no levar a lado nenhum.
- Demora uma eternidade! - lamentava-se, e Diana sentia-se como uma espcie de me dela, acariciando-lhe docemente a testa, colocando-lhe cubos de gelo, e nem tivera 
tempo para pensar como era extraordinrio que na noite anterior ignorasse completamente a existncia daquela rapariga que agora ia dar-lhe o seu beb. Edward tinha

248                          DANIELLE STEEL
conversado a ss com Jane e, posteriormente, dissera a Eric que tanto ele como Jane queriam que fossem os Douglas a adoptar o beb. Da sua parte a combinao estava 
feita, e quando Erie auscultou Andy e Diana, estes concordaram que estava tudo em ordem. Agora, o que todos precisavam era do beb.
s cinco horas o mdico veio examinar Jane mais uma vez; Andy saiu para o corredor para conversar um pouco com Edward, mas Jane pediu a Diana que ficasse com ela. 
E Diana sentia~se subitamente muito maternal para aquela rapariga, muito protectora.
- Aguente um pouco - dizia-lhe carinhosamente -, aguente s um pouco, Jane... em breve acaba tudo. - Admirava-se que no lhe dessem qualquer coisa para as dores, 
mas a enfermeira explicou que as contraces ainda no eram suficientemente significativas, estava apenas com cinco centmetros de dilatao aps dez horas de trabalho 
de parto.
- Vai cuidar bem do meu beb, no vai? - perguntou, de repente muito nervosa antes de outra dor, aps a sada do mdico. Este tinha informado que ainda a esperavam 
umas boas horas.
- Prometo. Vou am-lo como se fosse meu. - Queria dizer-lhe que podia visit~lo sempre que desejasse; parecia to cruel estar a tirar-lhe o seu beb depois de tudo 
aquilo; mas tambm sabia que nem ela nem Andy gostariam de v-Ia aparecer para vist-lo. - Gosto muito de si, Jane - murmurou-lhe no momento da dor seguinte, e 
era verdade -, e amo o seu beb. - Jane acenou com a cabea, e nesse momento comeava a chorar. As dores eram brutais.
Rebentaram-lhe as guas s seis horas e a partir da as dores tornaram-se enlouquecedoras. Jane tinha quase perdido ento o controlo, e Diana duvidava que soubesse 
sequer quem estava ali. Fora uma tarde esgotante, mas quando tentou sair por uns momentos, Jane agarrou-se-lhe freneticamente, como se necessitasse de Diana perto 
de si.
- No v... no v... - era tudo quanto podia balbuciar entre uma dor e outra, com Ec[ward num dos lados da cama e Diana no outro. E ento, finalmente, a enfermeira 
anunciou que podia comear a fazer fora, o mdico apareceu, e de repente atiravam uns pijamas verdes a Edward, Andy e Diana.
- Isto  para qu? - sussurrou Andy  enfermeira.

0 PREO DA VENTURA                           249
- jane quer os dois no parto - explicou Edward. Vestiram~se
rapidamente na minscula casa de banho e, seguiram jane numa cor~ reria cega pelo ball onde era transportada de maca para a sala de partos. Colocaram-na imediatamente 
em cima da mesa, cobriram~na de panos e apoiaram-lhe as pernas nos ganchos, e por fim cobriram-nas tambm de panos. Subitamente tudo em redor parecia frentico, 
Ela gritava, chegavam mdicos, enfermeiras, e Diana sentiu um terror sbito de que alguma coisa estivesse errada, mas todos pareciam calmos, apenas ocupadssimos. 
E em breve tambm Diana se viu ocupada, falando com jane,  qual Edward segurava pelos ombros e dizia quando devia fazer fora aos sinais do mdico. Esta empurrava 
com todas as suas energias, e subitamente Diana viu um bero entrar na sala e percebeu ento que era um prenncio. E quando olhou para o relgio algum tempo depois 
de estarem ali, ficou surpreendida ao ver que era quase meia-noite.
- Estamos quase, Jane - dizia o mdico. - Vamos l, continue, s um pouco mais de fora... - e fazia sinais a Diana. 0 mdico sabia porque estavam ali, e sentia-se 
feliz por ela, Fez-lhe sinal para se aproximar e ffiar por entre as pernas de jane, e quando Diana o fez, pde ter a primeira revelao do beb. Uma cabea mnima 
de cabelos pre~ tos, abrindo caminho... forando-o... enquanto jane trabalhava, e subitamente houve um grito, e ela tinha saldo da sua me para o Mundo, olhando 
Diana com espanto, enquanto deixava escapar um grito abafado, com Andy de p a chorar a seu lado.
0 mdico embrulhou cuidadosamente o beb num lenol e entregou-o a Diana, ainda ligado a Jane pelo cordo, e Diana sentia correrem-lhe pelas faces rios de lagrimas 
que quase no a deixavam ver, mas quando ergueu os olhos, tudo o que viu foi Andy.
Estavam um ao lado do outro, contemplando o milagre que era aquele beb, e Diana entregou-o delicadamente a jane assim que lhe cortaram o cordo. Esta trabalhara 
tanto para a dar  luz que tinha todo o direito de pegar-lhe. Mas jane reteve-a apenas por breves instantes. Ofereceu-lhe o seio, beijou-a e deu-a a Ec[ward. Tambm 
chorava, nesse momento, e parecia completamente exausta. Edward olhou a sua filha longa e intensamente, aparentemente sem emoo, e entregou-a  enfermeira. 0 beb 
foi pesado e examinado e todos os valores eram perfeitos. Pesava 3,563 kg, media 53 cm e, finalmente, aps quase dois anos

250                         DANIELLE STEEL
de agonia, Diana tinha o seu beb. Ficou a contempl-la no bero. Tinha uns grandes olhos abertos e uma expresso de espanto quando parecia fitar os seus novssmos 
pas. E estes admravam-na, de mos dadas, sob o temor respeitoso do milagre da vida, e indizivelmente gra~ tos a Jane e a Edward.

CAPITULO 16
Andy e Diana andaram como loucos no dia seguinte, comprando numa azfama fraldas e camisolinhas, pijamas e meias minsculas, botinhas, gorros quentes e cobertores, 
e uma lista interminvel de coisas que lhes disseram que iriam fazer-lhes falta quando fossem buscar a beb na manh de segunda-feira. Nessa tarde tomaram a encontrar-se 
com Edward e Jane, e assinaram os papis preliminares.
Jane estava com melhor aspecto do que  meia-noite da vspera, mas parecia de alguma forma abalada pela dura experincia e ficou deveras emocionada quando viu Diana. 
Tentou agradecer~lhe tudo o que esta tinha feito, e o facto de amar a sua garotinha, mas pouco mais conseguiu fazer do que chorar, enquanto Edward a segurava.
- Lamento tanto! - Diana tambm chorou quando os viu, com a sensao de que estava a roubar-lhes a beb, e por breves instantes ficou insegura da sua resoluo. 
- Prometo-vos, vamos cuidar bem dela... e ela ser muito feliz,
Abraou Jane mais uma vez, e quando Andy a levou do quarto todos choravam. Mas quando pararam na sala dos bebs para v-Ia, sabiam que tinham dado o passo certo. 
Era to maravilhosa e to pequenina a dormir no bero. Falaram com o pediatra antes de sarem, e este explcou-lhes como deviam alment-la e que doses administrar, 
o ritmo de desenvolvimento que ela devia alcanar, como cuidar do cordo umbilical, e por fim sugeriu-lhes que a levassem ao seu pediatra na semana seguinte; Diana 
olhou tristemente para Andy, mas nesse instante pensou nas irms.
- Vou telefonar  Sam. - E subitamente sorriu. No falava com a

252                         DANIELLE STEEL
irm havia uma srie de semanas. J pouco se telefonavam. Sobretudo porque Diana no queria ouvi-Ia falar do seu beb, - Menino, vai ser urna surpresa para ela! 
- Ria-se, enquanto apanhavam o elevador do hospital, e dali seguiram para Sacramento Strect para comer qualquer coisa. Tinham sido dois dias desgastantes mas maravilhosos, 
e de manh iam buscar a beb. Jane tambm estaria l para ser examinada, mas resolvera no voltar a ver a filha. Seria demasiado dificil para ela.
- No te parece que v mudar de ideias, pois no? - perguntou Diana nervosamente a Andy nessa noite, e ele pensou uns segundos antes de responder.
- No, acho que no. Mas penso que  uma possibilidade que temos de encarar nos prximos meses, at eles assinarem os documentos finais, Podiam mudar de ideias  
ltima hora, mas parecem-me bastante firmes. Edward est, no h dvida. E julgo que ela tambm, mas  um momento de grande emoo para ela, deve ser mesmo brutal.
Diana no podia imaginar como seria abdicar de um beb, e sentia-se feliz por nunca ter de enfrentar uma deciso desse tipo, embora, intimamente, soubesse que no 
seria capaz de o fazer. Ento falaram de outras coisas, do nome que dariam  beb; ainda no tinham deci~ dido definitivamente, mas Hilary parecia merecer as suas 
preferncias.
De manh telefonaram ambos para os seus respectivos escritrios dizendo que no podiam ir trabalhar por motivos de "sade.; Andy queria ficar em casa pelo menos 
mais um dia, e Diana sabia que ia querer tirar uns tempos, talvez at demitir-se, mas no tinha resolvido nada por enquanto.
Eric Jones encontrou-se com eles no hospital; trazia mais documentos para assinar. j estivera com Edward. e Jane e informou os Douglas de que os outros se tinham 
ido embora, o que era um alvio para estes. Queriam ver essa parte da adopo apagada. Agora s desejavam a sua beb.
Diana parecia ansiosa ao subir no elevador, carregando uma alcofa de verga tapada com uma coberta de renda branca, e tinham comprado uni assento para colocar na 
limusina que alugaram para os levar ao aeroporto, Era um grande acontecimento para eles. Estavam finalmente a levar para casa o seu beb. E at j tinha nome: decidiram-se, 
nessa manh, por Hlary Diana Douglas.

0 PREO DA VENTURA
Esta dormia profundamente quando a enfermeira a foi buscar. Tinham deixado Andy e Diana entrar no quarto dos bebs depois de enfiarem batas por cima das roupas, 
e a enfermeira explicou a Diana como devia vesti-Ia e mud-la, as horas a que devia dar-lhe o leite, e quando era preciso substituir este por glucose e gua. 0 hospital 
ofreceu-lhes uma dzia de biberes, mas a enfermeira explicou que se Hilary fosse sua filha natural, o leite de Diana ainda no teria subido e por isso no queriam 
estar a sobrecarreg-la com um bibero at passar pelo menos mais um dia; tinha menos de dois dias e era um beb muito pequeno.
Quando lhe mexeram, ela abriu a boca e bocejou, depois olhou ensonada para Dana e Andy, e ento tornou a fechar os olhos enquanto Diana a vestia. E ao faz-lo, 
Diana sentiu qualquer coisa que nunca sentira por ningum, nem mesmo por Andy. Era uma vaga de amor e de prazer quase avassaladora. Havia lgrimas nas suas faces 
enquanto enfiava a rapariguinha num vestido cor-de-rosa, e por cima deste num resguardo quente da mesma cor e numas minsculas botinhas de malha. Ps-lhe uma touca 
a condizer, enfeitada com pequenas rosas, e estava adorvel quando Diana a levantou. Andy tinha a sensao de que Diana nunca parecera to bela como naquele momento.
- Vamos, Mam - disse-)he suavemente, e Diana trazia-a encostada ao seu ombro quando chegaram ao ball onde Eric os esperava. A beb j tivera alta do hospital. Agora 
era inteiramente deles.
Abraaram-no, agradeceram-lhe comovidos, e este desceu para v-los entrar na limusina; Diana apertava nervosamente o cinto de segurana; no porta-bagagens havia 
trs malas com roupas de beb e um grande urso que Andy comprara.
- Obrigado por tudo - gritou este a Erc, j com a limusina em andamento, e o amigo acenou~lhes com um sorriso. Era uma maravilha observ-los.
Diana reclinou-se ento no banco, junto da sua beb, e olhou para ndy, Era difcil acreditar na imensido de coisas que lhes sucedera em menos de quarenta e oito 
horas.
- Consegues acreditar? - perguntou-lhe com um sorriso, ainda receosa de admitir a realidade. Mas os dedos pequeninos que apertavam o seu dziam-lhe que era verdade. 
E, olhando para a pequena Hilary, tudo parecia perfeito.

254                          DANIELLE STEEL
- Ainda me custa a crer - confessou Andy num murmrio, com medo de acordar a beb. No caminho para o aeroporto, olhou de repente para Diana e riu-se, - 0 que vais 
fazer com o teu emprego?
- Ela estava outra vez to entusiasmada com o seu trabalho, e agora, subitamente, tudo sofrera uma reviravolta,
- Creio que vou aproveitar a licena de maternidade. Ainda no resolvi.
- Eles vo adorar - gracejou Andy. Mas tambm estava a pensar tirar uma semana pelo menos, para ajudar Diana e comear a conhecer a sua filha... a sua filha... o 
seu beb... Eram palavras ainda to estranhas para os dois. E Diana ainda estremecia quando pensava na perda de Jane e no beneficio deles. Parecia uma forma cruel 
de obter um beb; causar a outrem uma dor to imensa e ficar-lhe com o filho. Mas era o que Jane queria e todos tinham concordado.
Hilary acordou mesmo antes de entrarem no avio, Diana mudou-a e deu~lhe um pouco de glucose. Voltou rapidamente a adormecer quando Diana a deitou no cestinho. Durante 
a viagem, levava-anos braos sentindo no peito o seu calor confortante, muito aninhada a dormir profundamente. Era uma sensao desconhecida, a esmagadora sensao 
do amor, da paz, do aconchego que  ter nos braos uma criana adormecida.
- No sei quem parece mais feliz, se tu se a Donzela Hilary observou Andy, sorrindo para ambas, e permitiu-se uma bebida a bordo do avio. Achava que merecia.
 hora do jantar estavam em casa, e Diana olhava  sua volta, com a impresso de ter estado fora uma vida inteira. Sucedera-lhes tanta coisa, modificara-se tudo 
to inesperadamente desde aquele sbito e memorvel telefonema de sexta-feira  noite. S tinham passado trs dias? No podiam crer.
- Em que quarto devo p-la? - segredou Andy, carregando a alcofa.
- No nosso, talvez. No a quero longe de ns. E alm disso tenho de levantar-me de noite para lhe dar de comer.
- Pois sim, pois sim, eu sei - zombou ele -, no queres  ficar um minuto longe dela. - Mas no podia critic~la. Andy tambm a queria junto deles. E j se interrogava, 
ao colocar docemente a alcofa ao lado da cama, se seria difcil adoptar outro.

0 PREO DA VENTURA                        255
Diana telefonou  sua irm Sam nessa noite e perguntou-lhe o
i nome do pediatra, para uma "amiga", e Sam no pde ver o riso no
rosto da irm mais velha quando fez a pergunta. Sam deu-lhe o nome, e ento Diana perguntou-lhe como estava o beb e se no queria apa-
recer l em casa no dia seguinte.                                              I Mas Sam, que acabara por compreender como Diana estava sus-
ceptvel, foi muito cautelosa antes de responder.
- No tenho ningum a quem deixar o beb, Di. Seamus est a trabalhar numa nova pintuTa. Eu podia ir quando os outros dois estivessem no jardim-escola, mas teria 
de lev~lo comigo. - E ela sabia que Diana no ia querer. Vira o beb uma nica vez desde que nas~ ceu, e a urna distncia muito considervel.
- Mas pode ser. No me importo - respondeu com naturalidade, e Sam franziu o sobrolho do outro lado da linha, desconfiada.
i
- Tens a certeza?
- Absoluta. - Parecia estar a falar a srio.
- Sentes-te melhor dos teus problemas? - inquiriu Sam com prudncia, icara chocada com a exploso da irm no Dia de Aco de
I
Graas, mas nos meses seguintes acabara por compreender como era
doloroso, e sentia~se uma idiota quando pensava como todos tinham sido insensveis, no se apercebendo dos seus problemas.
- Estou muito melhor, Sam - afirmou Diana. - Falaremos disso amanh.
Em seguida telefonou  me. 0 pai no estava na cidade, o que a             1 desapontou, mas convidou a mae para um caf  mesma hora a que                 1 chegaria 
Sam. E por ltimo telefonou a Gay1e. Estavam todas livres e
no dissse a nenhuma das trs o motivo do seu convite. Mas quando pousou o telefonou o telefone depois de falar com Gayle, sorria de orelha a orelha. Finalmente 
era uma delas. Acabara por conseguir. Pertericia  sociedade secreta. Tinha um beb.
- Fico contente por ver-te feliz, amor - disse-lhe Andy nessa noite. Nunca a vira daquele modo e agora compreendia mais do que nunca o quanto ela desejara aquele 
beb. Apercebia-se com surpresa de que no o afectava nada o facto daquela criana no estar biologi-
camente ligada a si. No podia ser-lhe mais indiferente. Achava-a um           I i encanto e, quando ela acordou pela primeira vez nessa noite, saltaram         
I
i

256                         DANIELLE STEEL
os dois da cama para ir buscar um bibero. Das vezes seguintes fizeram turnos, e de manh Andy disse a Diana, cansado mas feliz:
- Houve uma pessoa a quem te esqueceste de telefonar ontem  noite - apontava~lhe o dedo, ensonado, enquanto voltava para a cama, Tinha acabado de falar para o escritrio 
a inform-los de que tambm -no iria nesse dia, nem provavelmente no outro. Disse-lhes que ainda estava doente, e mais tarde explicaria melhor.
- Esqueci-me de telefonar a quem? - Diana parecia confusa. Telefonara as irms e  me, pensava falar com o pai assim que este regressasse da sua viagem. - No fao 
ideia de quem seja. - Talvez se referisse a Eloise mas davam-se to pouco ultimamente.---
- No, refiro-me a Wanda... sabes--- Wanda Williams.
- Oh, s indecente - Diana soltou uma gargalhada e nesse instante a beb comeava a chorar. Deu de comer a Hilary, deu-lhe banho e antes da famlia chegar para conhec-la 
tinha-a muito bem vestida com uma das toilettes do seu novo enxoval. Mas subitamente, enquanto a olhava, antes delas chegarem, Diana percebeu que, mais importante 
do que a sua famlia, ou de como iriam reagir, ou o que pensariam de Dana, agora que tinha uma filha, era a beb, a pequena pessoa que ela era, a mulher em que 
iria tomar-se, e tudo o que viria a significar, e o que j significava para Andy e para Diaria. Era algum por quem tinham esperado durante o que parecia ser urna 
vida inteira. Tinham rezado por ela, tinham-se confrontado por causa dela, quase se des~ truindo um ao outro e a si prprios quando julgavam que jamais a encontrariam. 
Significava mais para eles do que alguma vez suspeitariam e o que os outros pensassem dela nada significava. Diana esperava que a famlia amasse Hilary, e estava 
certa de que sim, como poderiam no am-la? Mas se isso no acontecesse... pouco interessava. Diana sabia que ningum a podia acusar de faltar aos seus deveres maternais. 
Apenas fizera as coisas de uma forma diferente. Enfrentara um problema insupervel, conhecera o infemo no fundo da sua alma, e sobrevivera. Assunto encerrado. A 
vida continuava. No havia ali nem vitria nem derrota. Apenas a vida, com toda a sua riqueza, toda a sua alegria e misrias, e as suas ddivas infinitamente preciosas. 
Hilary era uma delas, talvez a maior que Diana jamais pudesse receber. Mas sabia agora que a chegada de Hilary  sua vida no era uma vitria sua, mas sim uma bno.

0 PREO DA VENTURA                          257
Enquanto sorria para a criana adormecida, a campainha tocou e era a me.
- Como ests tu, minha querida? - perguntou-lhe a me, apreensiva, e Diana pde ver nos seus olhos que estava assustada.
-  Estou ptima.
- No ests a trabalhar porqu? - Sentou-se no sof, os joelhos rigidamente juntos no seu fato azul-marinho, o cabelo acabado de arranjar e as duas mos agarrando 
ansiosamente a carteira.
- No estejas to preocupada, Mam. Est tudo bem. Estou de frias.
- Ests? No me tinhas dito que tiravas frias agora. Tu e o Andy vo a algum lado? - Ela sabia que tinham estado separados durante uns tempos, mas assim que se 
reconciliaram, Diana tinha-lhes contado. Normalmente era muito cuidadosa nesse aspecto, evitando sempre preocup-los em vo, Apenas a dor da sua infertilidade fora 
mantida como um segredo vergonhoso. Mas a me nunca lhe falava nisso. No queria intrometer-se, nem fazer perguntas embaraosas, embora Sam lhe tivesse dito que 
no havia nenhuma esperana de Diana poder ser me, e Jack, o cunhado, confirmara-o.
Preparava-se para dizer  me que nem ela nem Andy iam a lado nenhum, que se deixavam ficar pela cidade, mas a campainha da porta tocou e era Sam com o seu beb. 
Este tinha dois meses, e um ar ado~ rvel, profundamente adormecido no seu assento do carro. Diana deu~ -se conta, ao olhar para ele, de como lhe seria doloroso 
se o tivesse visto uns dias antes. Mas naquele momento era simplesmente um doce e apetecvel beb.
- H algum problema? - inquiriu Sam assim que transps a porta. Diana ria~se enquanto a ajudava a pousar o beb, e Sam olhava~a consternada. Alguma coisa devia ter-lhe 
sucedido, parecia menos esquiva do que era habitual, to segura de si, completamente impassvel diante do beb. Sam quase perguntava a si mesma se no estaria grvida, 
mas nunca se atreveria a perguntar~lho.
- No h problema nenhum. A Mam perguntou-me a mesma coisa. Pensava que eu tinha sido despedida pelo facto de estar em casa.
- Ento Sam viu a me na sala de estar e ficou ainda mais surpreen~ dida. - Estou de frias esta semana e pensei que era divertido estarmos juntas, Que bom ver~te, 
Sam! - Diana sorriu, e as duas irms tro-

258                          DANIELLE STEEL
caram um olhar que confortou o corao da me; ficava to feliz por presenc-lo!
Gay1e chegou dez minutos depois, reclamando contra o trnsito, contra o carro, contra a falta de lugares para estacionar.
- Ento estanios a comemorar o qu? - Olhava em redor, desconfiada quando viu a me e a irm. - Isto parece um conselho de famlia.
- Bom, no . - Diana sorria naturalmente. -  uma pessoa que quero que vocs conheam - anunciou, muito calma. - Trago-a j, Senta-te, Gay1e. - Sam j estava sentada 
ao lado da me no sof, amamentando o seu beb.
Diana desapareceu durante uns minutos e, sem a acordar, retirou cuidadosamente Hlary da alcofa e apoiou-a no seu ombro. Esta refastelou-se, muito quente e aninhada 
enquanto Diana a apertava contra si, beijando-a delicadamente na cabea at chegar  sala; ento parou e elas olharam-na com espanto. Sam ficou completamente colada 
 cadeira e sorriu, a me comeou a chorar, e Gay1e observava-a estupefacta.
- Oh, meu Deus... arranjaste um beb!
- Claro que sim. Hilary - disse Diana, e sentou-se ao lado de Sam, colocando o beb no regao para elas poderem v~la. Era uma rapariguinha maravflhosa, com uma 
pele perfeita e feies graciosas, e umas mos midas com longos dedos delicados.
-  to linda! - A me chorava, e ento inclinou-se para beijar a filha. - Querida, estou to feliz por ti!
- Tambm eu, Mam - disse Diana, enquanto a me a beijava, e Sam deu-lhe um abrao carinhoso, e as duas irms riam e choravam ao mesmo tempo, e Gay1e dobrou-se para 
olhar a beb mais de perto.
-  linda - declarou. E em seguida olhou para Diana. - s uma felizarda, escolheste a forma mais fcil, sem parto, sem quilos a perder, sem os seios descados, apenas 
uma garota linda e o mesmo corpo escanzelado de sempre. Se no me sentisse to feliz por tua causa, odiava-te. Talvez agora possamos tornar a ser amigas. Isto no 
tem sido fcil para nenhuma de ns. - Ela falava em nome de todas, se bem que, como de costume, a tenso fosse sempre maior entre ela e Diana. Sam ficava sempre 
isenta das suas brigas, sempre ficara. Era a filhinha mais nova.

0 PREO DA VENTURA                         259
- Peo desculpa - disse Diana, olhando para a sua rapariguinha.
- Foi um perodo horroroso, mas agora acabou.
- Donde veio ela? - perguntou Sam curiosa, fascinada pelas suas delicadas feies.
So Francisc0. Nasceu  meia-noite e trinta de domingo.
 um encanto - anunciou a sua nova av, e estava ansiosa por contar ao marido, e sair para comprar um presente  beb. No podia imaginar o que pensaria o pai de 
Diana, mas sabia que ia ficar feliz e aliviado aps todo o sofrimento da filha.
Demoraram-se quase duas horas, e por fim saram as trs, com muita pena, depois de beijarem Diana e a beb repetidas vezes. Andy chegou justamente quando Sam ia 
a sair. Passara pelo escritrio para ir buscar alguns documentos e explicar que necessitava do resto da semana para si. Ficaram surpreendidos com as suas boas-novas, 
mas foram muito compreensivos em conceder-lhe os dias de licena, dizendo-lhe para tirar tambm a semana seguinte, se considerasse necessrio, Tinha aproveitado 
tambm para ver Bill Bennington e contar-lhes as novidades acerca da beb,
- Isso quer dizer que podemos voltar a )ogar? - gracejou BiII. Este compreendia perfeitamente que fosse difcil para Diana suportar a gravidez de Denise. Alis, 
esta tinha passado os ltimos tempos de cama; as coisas no estavam a ser muito fceis. Receavam que o beb fosse prematuro, ou que ela pudesse mesmo perd-lo, Mas 
agora estavam no fipano do lar. 0 tempo dela s devia terminar dai a oito semanas, no ms seguinte deviam deix-la levantar-se, e seria muito bom se ela tivesse 
o beb. - Quando  que podemos v-Ia? - perguntou-lhe BilI, exeitadissimo. j sabia que tambm iam ter uma rapariga e agradava-lhe a ideia de poderem sair os dois 
com as suas filhas.
- Talvez dentro de uns anos possamos jogar a pares - sugeriu, e Andy riu-se, prometendo que apareceriam assim que Denise se sentisse capaz de receber visitas.
- Ns telefonamos - prometeu Andy, e apressou-se a voltar para junto de Diana e da beb, Diana dera-lhe uma longa lista de compras, e ele tambm precisava de umas 
coisas para si, mas viu, quando chegou a casa, que ela tinha passado, sem dvida, uns momentos agradveis com a me e as irms.
- Misso cumprida? - perguntou num tom misterioso, e ela riu-

260                         DANIELLE STEEL
-se. - Que tal se portou a princesa? - Hilary estava outra vez profundamente adormecida na alcofa.
- Impecavelmente. E elas adoraram-na.
- Quem no adoraria? - Ele olhava-a, fascinado por cada movimento seu, cada milmetro do seu corpo, Adorava-a. E de repente lembrou-se de outra coisa. - Telefonaste 
para o teu escritrio?
- Tentei, mas nenhuma das pessoas que interessavam estava l, Parecc~me prefervel ir pessoalmente para explicar. - Tinha uma srie de coisas a dizer-lhes, e deva~lhes 
uma explicao, j que tudo tinha sucedido sem qualquer aviso.
Quando foi l no final dessa tarde, ficou impressionada com a com~ preenso de todos. Concederam-lhe a licena de maternidade, que era de cinco meses, a comear 
naquele momento. E quando terminasse esse perodo, teria de novo o seu lugar. Diana tinha a certeza de que ainda o queria, embora j algumas vezes se tivesse interrogado 
sobre o que faria se lhe nascesse um filho. Primeiro, ainda chegara a pr a hiptese de desistir do emprego, mas depois pensou que continuaria a trabalhar, ou pelo 
menos tentaria um pad-Ume. Claro que nunca poderia conservar o lugar de directora editorial trabalhando em pail-tme, mas havia uma srie de outras coisas interessantes 
que poderia fazer para eles. E agora, particularmente, no tinha a certeza de nada. Dispunha de cinco meses para ficar com Hilary e resolver, e nessa altura haveria 
de saber o que queria.
Agradeceu ao director a sua generosidade e foi desimpedir o seu gabinete. Precisavam de l meter algum enquanto ela estivesse fora, e por isso, numa hora, guardou 
todas as suas coisas numa caixa, e mandou o porteiro lev-la para o carro; e antes de sair, ainda parou para ver Eloise, Esta acabava precisamente de retirar um 
souffl do forno.
- Meu Deus, como isso parece bom! - 0 ar estava impregnado do  aroma dos seus cozinhados, e quando a viu Elose sorriu.
- Tambm tu. j no te via h sculos. Tens tempo para um caf?
- S um muito rpido.
-  para j.
Diana sentou-se ao balco e instantes depois Eloise serva-lhe um caf fumegante e um pratinho com um pedao do souffl.
- No estou muito segura desta receita, prova e diz-me o que te parece.

0 PREO DA VENTURA                            261
Diana comeu um pedao e fechou os olhos em xtase,
- Est um autntico pecado!
- Ainda bem. - Eloise ficou satisfeita. - E agora, que notcias tuas me ds? - Ela sabia do mau bocado que Diana tinha vivido naquele ltimo ano, haviam-se encontrado 
ocasionalmente e Dana falara-lhe nisso por alto. Mas lgubre   como andava a maior parte do tempo, e afastando-se sistematicamente de todos os conhecidos, as suas 
relaes com Eloise haviam-se tornado    distantes nessa altura, apesar de Diana ainda gostar dela. - Ests com      ptimo aspecto - cumprimentou-a Eloise. Diana 
tinha outra cara desde a sua reconciliao com Andy; parecia estar finalmente a juntar os cacos em que a sua vida se desfizera, e via-se que a sua felicidade j 
no dependia de ter ou no ter um beb. Todavia, tinha um ar mais srio do que era costume. As cicatrizes do que sofrera eram inevitveis.
- Obrigada. - Dana assumiu subitamente um ar malicioso enquanto sorvia o caf. - Tivemos um beb esta semana. - E riu-se ao ver Eloise de queixo cado.
- Tiveram o qu? Ser que ouvi bem?
- Ouviste - Diana sorriu-lhe. - Uma menina chamada Hilary. Nasceu no domingo, e vamos adopt-la.
- Bem, que bom para ti! - Eloise parecia emocionada, Era o milagre supremo, e ela sabia como eles deviam amar aquele beb.
- Acabaram de conceder-me cinco meses de licena de matmi~ dade, Mas hei-de voltar. Podes vir visitar~nos, e no final do ano j c estarei outra vez. Trata de no 
desistir de cozinhar!
- No, no desisto. - Eloise olhou para ela pesarosa. - Mas no vou cozinhar aqui. Aceitei um lugar em Nova lorque. Apresentei esta manh a minha demisso. Devo 
partir dentro de duas semanas. Tencionava dizer-te quando te visse.
- Vou sentir a tua falta - disse Diana delicadamente. Sentia um grande respeito por Eloise, e lamentava mesmo no a ter conhecido melhor, mas tinham acontecido tantas 
coisas na sua vida naquele ltimo ano. No sobrava quase espao nenhum para amizades, e Eloise entendia-o.
- Tambm vou sentir a tua falta. Tens de vir visitar-me a Nova lorque. Mas antes de ir, quero ver a beb, Telefono~te esta semana.
- Excelente! - Diana terminou o caf e deu-lhe um abrao, e

262                        DAMELLE STEEL
Eloise prometeu aparecer naquele fim-de-semana. A caminho de casa Diana pensava nela e na falta que ia sentir da revista enquanto estivesse afastada. Mas no momento 
em que chegou a casa, os seus pensamentos foram preenchidos pela beb, e a revista que outrora lhe consumira cada um dos seus momentos poderia perfeitamente encontrar-se 
num outro planeta.
Em Maio fazia trs meses que Charlie e Beth se conheciam, e ele senta-se como se a tivesse conhecido a vida inteira. Podiam conversar acerca de tudo, passava horas 
e horas a falar-lhe da sua infncia, de como esta o afectara e, exactamente por essa razo, como se haviam tornado mais consistentes os seus conceitos do que era 
ter uma famlia e um lar. Falou-lhe da sua decepo com Barbara, e como esta o magoara ao abandon-lo. Mas aceitava-o melhor agora. Tinha meditado bastante e comeava 
a aperceber-se de que fora um mau casamento.
Uma coisa havia, porm, que Charlie nunca lhe dissera, e tinha dvidas de que viesse a dizer-lho. Uma coisa ele sabia: no tinha o direito de tornar a casar, mas 
desde que no chegasse a esse ponto, no precisava de lhe dizer nada. Ela no tinha necessidade de saber que ele era estril,
Gostava demasiado dela para lhe contar a verdade. Receava perd-Ia. j perdera demasiadas coisas na vida, demasiadas pessoas por quem se interessara, para correr 
o risco de perder Beth e Anne.
Passaram o dia da Me juntos, e ele levou~as a almoar a Marina Del Rey. Primeiro sara com Annie para comprar flores a Beth, e Anne tambm tinha feito um lindo 
carto para a me na escola. Nessa tarde, foram  praia, riram, jogaram e conversaram. Ele era maravilhoso com a garota, e num momento em que Annie se encontrava 
a brincar na praia com outras crianas, Beth olhou para ele e, casualmente, fez-lhe a grande pergunta.
- Porque nunca tiveste filhos, Charlie? - fez a pergunta de um modo muito natural, estendida na areia com a cabea apoiada no peito dele, mas notou que Chaffie tinha 
ficado repentinamente muito tenso.
- No sei. Falta de tempo, falta de dinheiro. - No parecia ele, e por outro lado j uma vez lhe dissera que uma das razes das suas desavenas com a mulher era 
o facto de esta no querer filhos. E tam-

0 PREO DA VENTURA                           263
bm lhe explicara que ela aparecera grvida de outro e que isso acabara com o seu casamento. No entrara em pormenores, corno por exemplo que estava disposto a aceitar 
a criana e que ela j tinha feito um aborto quando ele lho disse. - No creio que me torne a casar afirmou serenamente. - Na verdade, sei que no - rectificou, 
e ela virou~se para ele com um sorriso envergonhado. No estava a induzir nenhuma proposta. Sentia-se apenas curiosa acerca do seu passado, e interessada por tudo 
o que lhe dizia respeito.
- No foi isso que perguntei. No estejas to tenso. Eu no estava a candidatar-me, Perguntei por que nunca tinhas tido filhos, - Mostrava-se completamente descontrada, 
mas podia perceber que no era o caso dele. Perguntava-se se teria dito alguma inconvenincia, at que por fim Charlie se sentou e ela fez o mesmo, ficando a observ-lo, 
No se justificava estar a engan~la. Gostava demasiado dela para isso. E teria sido incorrecto seduzi-Ia e um belo dia desaparecer, uma atitude que fora sempre 
a sua preocupao evitar. Por isso mesmo, resolveu que tambm devia contar-lhe. Ela tinha o direito de saber com quem andava a perder o seu tempo.
- No posso ter filhos, Beth. Descobri h seis meses, mesmo nas vsperas do Natal. Fiz um punhado de testes e, para encurtar a histria, o resultado  que sou estril. 
Foi um choque - confessou, ainia visivelmente perturbado por estar finalmente a contar-lhe. E receava o que ela pudesse fazer a partir da. Provavelmente ia deix-lo, 
como toda a gente sempre fizera. Mas contar-lhe era o passo mais acertado, reconhecia-o.
- Oh, Charlie.--- - disse ela bondosamente, arrependida da sua pergunta. Estendeu a mo para tocar a dele, mas dessa vez ele no lha prendeu na sua, e de repente 
parecia estranharnente distante.
- Devia talvez ter-te contado mais cedo, mas no  exactamente o tipo de coisa que se goste de contar num primeiro encontro. - Nem em nenhum momento.
- No. - E ento ela sorriu meigamente, e quis espica-lo um pouco. - Podias, em todo o caso, ter dito alguma coisa, e poupar aos dois urna srie de chatices com 
as precaues. - Tinham andado a usar preservativos, que de resto ambos reconheciam ser uma boa !dela nos dias que corriam, mas Beth tambm usava um diafragma e 
ele nunca lhe dissera para no o usar, o que agora lhe parecia bizarro, mas

264                         DANIELLE STEEL
no a Charlie. - No tem importncia - acrescentou num tom Suave, mas subitamente ps um ar zangado: - Mas afinal que ideia  essade no tornar a casar? 0 que  
que isso tem a ver?
- No me parece que tenha o direito de me casar, Beth. Repara no teu caso. tens uma filhinha linda, e o mais natural  quereres mais filhos,
- Quem diz que quero? Ou que posso mesmo t-los? - Ela olhava-o com uma expresso sria.
- No? No podes? - Era uma surpresa para ele, ela amava tanto Annie que era dificil imaginar que no quisesse mais filhos.
- Sim, posso ter mais filhos - atalhou honestamente, - Creio que dependeria da pessoa com quem casasse, se o fizesse. Mas para te dizer a verdade, tenho a certeza 
de que no quero mais, Chega-me a Aniffie. De facto, nunca pensei em ter mais nenhum alm da Annie, mas sinto-me perfeitamente feliz s com ela. Fui filha nica, 
no me fez dife~ rena nenhuma. E em certos aspectos  bastante mais simples. Alis, nem tenho meios para ter outra neste momento. Por vezes, mal tenho suficiente 
para alimentar-me a mim e  Annie. - Ele saba-o, e fazia que podia para trazer-lhe pequenos presentes, alguns artigos de mer~ cearia, e lev-las a sair sempre que 
lhe era possvel.
- Mas se tornasses a casar, querias mais filhos. Como qualquer pessoa... como eu quereria... - rematou tristemente. - Um dia gostava de adoptar alguns. Tenho estado 
a fazer umas economias este ano para poder adoptar um garoto. Eles agora autorizam a adopo a pais solteiros, e quero descobrir um mido como eu era, fechado num 
tipo qualquer de organato miservel sem ningum para am-lo. Quero mudar a vida dele, e talvez a de outros se tiver meios para isso.
- Quantos ests a pensar adoptar? - inquiriu ela, ansiosa.
- Dois... trs... no sei.  um sonho meu. J pensava nisso mesmo quando julgava que podia ter os meus prprios filhos.
- Tens a certeza de que no podes ter? - inquiriu ela solenemente.
- Absoluta. Fui a um tipo importante em Beverly Hills, e ele disse-me que no havia nenhuma hiptese. E tambm acho que  capaz de ter razo, Tive uma srie de oportunidades 
na vida, sobretudo quando era novo, e nunca aconteceu nada.
- No  um drama, sabes bem - afirmou ela calmrnente. Tinha

0 PREO DA VENTURA                           265
pena dele, mas no pensava que fosse o fim do mundo, e esperava que ele pensasse o mesmo. E de certeza que no ia alterar a sua opinio sobre a sua virilidade, que 
era bastante impressionante.
- Foi um inferno para mim durante algum tempo - explicava Charlie. - Sempre quis ter os meus prprios midos, e tentei a todo o custo erigravidar Barb para salvar 
o nosso casamento. - E ento, de repente soltou uma gargalhada irnica, - Por fim, houve algum que me ganhou. - j no o incomodava muito, no entanto. Lamentava 
que as coisas no tivessem resultado com Barb, mas nos ltimos meses vinha-se tornando filosfico acerca de tudo isso, sobretudo desde que conhecera Beth e Annie. 
A nica coisa que o incomodava de momento era o facto do seu amor por Beth no levar provavelmente a lugar nenhum, Continuava convencido, independentemente do que 
ela dissesse, de que no tinha o direito de se casar com ela e priv-la de mais filhos. Naquele momento era jovem, mas podia perfeitamente desejar outros mais tarde.
- No acho que devas permitir que isso te aborrea - observou ela com sinceridade. - Parece-me que qualquer mulher que te ame a srio vai compreender, e que se estaria 
borrifando se podias ou no ter filhos.
- Pensas que sim? - Ele parecia surpreendido, e ento tornou a deitar-se na areia com a cabea dela no seu ombro. - No sei se ters razo - concluiu serenamente, 
depois de pensar uns instantes.
- Tenho sim. Eu estava-me borrifando.
- No devias - retorquiu, paternal. - No limites o teu futuro, s demasiado jovem para o fazer - acrescentou com firmeza, e ela tornou a sentar-se e olhou-o com 
ar severo.
- No me venhas dizer o que devo fazer., Charlie Winwood. Posso fazer o que me der na gana, e posso dizer-te desde j, estava-me borrifando que fosses estril! - 
Dsse-o em voz alta e firme, e ele estremeceu, olhando em redor, mas aparentemente ningum lhes prestava ateno, e Annie encontrava-se longe dali.
- Que tal se apregossemos na bolsa?
- Desculpa. - Ela pareceu aplacar-se e deitou-se outra vez junto dele. - Mas estou a falar a srio.
Ele virou-se de barriga para baixo, a cara apoiada nas mos, observando-a atentamente, estendida a seu lado:

266                          DANIELLE STEEL
- Ests realmente a falar a srio, Beth?
- Estou.
Isso alterava significativamente as coisas para ele, e fazia-o ponderar o seu futuro, mas no lhe parecia certo casar com uma rapariga jovem corno ela e no poder 
dar-lhe filhos. Sabia, claro, que existiam dadores de esperma, Pattengill sugerira isso no caso dele com Barb, mas Charlie tambm sabia que nunca o faria. Mas se 
ela estava a falar a srio, talvez Annie fosse bastante... ou podiam adoptar alguns midos. Deitou-se na areia sorrndo-lhe, e depois, sem dizer mais nada, virou-se 
e beijou~a.

CAPTULO 17
No seu aniversrio de casamento, o segundo, Andy e Diana ficaram em casa porque esta no confiava em ninguem a quem deixar o beb e, alm disso, sentia-se igualmente 
feliz sem ir a lugar nenhum.
- Tens a certeza? - Andy senda-se de alguma forma culpado por no a levar a sair, mas tinha de admitir que no se importava nada de ficar em casa com a mulher e 
a beb.
Diana estava a fruir com prazer o seu afastamento do trabalho, pas~ sava todo o seu tempo com Hilary e andava a tentar resolver o que ia fazer quando terminasse 
a licena. Gostava de estar em casa, mas come~ ava a pensar que eventualmente poderia agradar-lhe retomar o trabalho, talvez em pa71-time. j tinha mesmo considerado 
a hiptese de arranjar outro emprego, com um horrio mais flexvel. Mas ainda dis~ punha de trs meses para decidir.
Andy estava naquele momento mais ocupado do que nunca no escritrio, com novas sries, novas estrelas, novos contratos.
E Bill Benington tirara uma longa licena. Denise tivera o beb antes do tempo, em fins de Maro, e apareceram algumas complicaes, mas agora o beb estava em casa 
e eles estavam extasiados.
Dana foi visit-la algumas vezes e tentava ajud-la. Agora sentia-se experiente na matria, ao fim de dois meses. Ouvia uma srie de con~ selhos de Gay1e e de Sam, 
e contava com a ajuda preciosa de um excelente pediatra. No resto do tempo, seguia os seus instintos. Criar uma criana parecia, em grande medida, uma questo de 
senso comum.
0 pai dissera-lhe isso da primeira vez que viera ver a beb. E quando a viu, chorou. Era to importante para ele saber que a sua prpria filha

268                          DANIELLE STEEL
estava em paz! Prendera Diana nos braos durante longos instantes, com as lgrimas a rolarem-lhe pelas faces, e depois sorrira para a beb.
- Fizeste um bom trabalho - comentou, e Diana interrogava-se subitamente se ele teria esquecido que no fora ela quem a dera  luz, e isso preocupou-a. Seria um 
primeiro sintoma de senilidade, o que at ali nunca sucedera.
- Pap, eu no a tive - lembrara-lhe prudentemente, e ele soltava uma gargalhada.
- Eu sei, sua tontinha. Mas descobriste-a, e trouxeste~a para casa. Ela  uma bno para todos ns, no apenas para ti e para o Andy. Tinha ficado parado a olh-la 
por longos momentos, e por fim dobrara-se para bei'j-la. Pouco depois saia, mas antes assegurara aos pais de Hlary que era o beb mais bonito que j vira. E parecia 
estar a falar a srio.
Tinham baptizado a beb no inicio de junho e festejaram na casa dos pais de Diana em Pasadena. Naqueles dias, tudo parecia girar em redor da beb. De tal maneira 
que Andy achava que Diana andava com um ar cansado. Em parte era falta de sono, passava as noites a levantar-se trs ou quatro vezes, e durante o primeiro ms Hilary 
sofrera de imensas clicas. Mas agora estava ptima, a nica que no estava era Diana. E na noite do seu aniversrio, quando ficaram em casa, Andy reparou que Diana 
j nem tivera pacincia para maquilhar-se. V-Ia to abatida levava-o quase a arrepender~se de terem desistido da casa da praia que Diana alugara durante a sua separao. 
Adoravam--na os dois, mas agora, com Hilary, no podiam gozar dela.
- Sentes-te bem? - Olhava-a preocupado, mas pelo menos ela parecia feliz.
- Estou ptima. Apenas cansada. Esta noite, Hilary acordou de duas em duas horas.
- Talvez devesses arranjar algum para te ajudar, sabes, uma rapariga.
- Nem pensar! - Fingiu~se furiosa. No estava a deixar ninguem cuidar do seu beb. Tinha esperado demasiado tempo por aquilo, e pagara um preo alto de mais para 
deixar uma mulher qualquer tocar nela. A nica ajuda que consentia era a do marido.
- Esta noite sou eu que dou o bibero. Tu aproveitas para dormir. Ests a precisar.

0 PREO DA VENTURA                          269
Ele cozinhou o jantar para ela nessa noite, enquanto Diana deitava
a beb. E no final conversaram longamente, de como a sua vida mudara, como chegaram to longe em dois anos, era mesmo difcil recordar aqueles momentos em que Hilary 
no estivera com eles.
Foram cedo para a cama nessa noite, e Andy queria fazer amor, mas Diana adormeceu antes de ele sair da casa de banho. Ficou um momento a sorrir para ela, e ento 
colocou suavemente a alcofa da beb no seu lado da cama, assim poderia ouvi-Ia quando acordasse para o prximo bibero.
Na manh seguinte, porem, apos urna noite bem dormida, Diana parecia pior. E estava completamente verde quando se servia de caf.
- Parece-me que apanhei gripe - queixou-se, e a sua primeira
preocupao foi se no iria contagiar o beb. - 0 melhor talvez fosse usar uma mscara - disse, e ele riu-se.
- Ouve, ela  mais resistente do que pensas. E se apanhaste gripe, j esteve exposta, de qualquer maneira, - Era sbado e ele ofereceu~se para cuidar da beb naquele 
dia. Diana dormiu a tarde inteira e parecia zonza nessa noite quando cozinhava o jantar para ele, e Andy reparou que no tinha comido nada, No estava com fome.
Na segunda-feira, nada tinha mudado. No estava com febre mas o seu aspecto era horrvel. E quando saiu para o escritrio, Andy disselhe para chamar o mdico.
- No contes com isso - ripostou, parecendo de novo exausta, e a verdade  que no a vira comer durante todo o fim-de-semana. Nunca mais quero ver um mdico no resto 
da minha vida.
- No estou a falar de um ginecologista, eu disse um mdico. - Mas ela recusou categoricamente. E uns dias parecia bem, outros ficava pior; s vezes dependia das 
horas de sono, outras no. Mas de tanto se preocupar com ela, j comeava a ficar louco, e ela recusava-se a escut-lo.
- Ouve, estpida criatura! - disse-lhe finalmente em julho, antes do seu piquenique com a famlia em Pasadena durante o feriado. - A Hilary e eu precisamos de ti. 
Tens~te sentido uma lstima o ms inteiro, agora faz alguma coisa para resolver isso, Possivelmente ests anmica Z-
por passares a noite levantada e no comeres.
- Como  que pensas que fazem as mes normais? Pelos vistos, aguentam. Sam no anda propriamente a roar o rabo pelas cadeiras.
- Deprimia-a sentir-se to pessimamente, mas tinha de admitir que

270                          DANIELLE STEEL
agora passava a maior parte do tempo mal disposta. E no piquenique da famlia, no dia seguinte, Andy falou com o cunhado, Jack, e pediu-lhe para obrigar Diana a 
procurar um mdico.
Jack conseguiu apanh-la uns minutos sozinha, aps o almoo, quando alimentava o beb.
- Andy est preocupado contigo - disse-lhe abruptamente.
- Pois no devia! Estou ptima - tentava despach-lo, mas Jack no era fcil de evitar, e Andy avisara-o de que era preciso ser persistente.
- 0 teu ar no  contudo dos melhores, para quem  jovem e
bonita e tem um beb to maravilhoso - gracejou. Ele estava feliz por eles, e ficara imensamente aliviado quando Gay1e lhe contara que tinham adoptado uma criana. 
Vira antes a angstia em que ela vivia e tinha imensa pena deles.
- Porque no fazes uma anlise de sangue? - tentou novamente, j que havia prometido a Andy, mas sabia como Diana era teimosa.
- Ests a tentar dzer-me o qu, Jack? Que estou cansada? j sei isso. Fiz anlises que cheguem para o resto da vida.
- No  a mesma coisa, Diana, sabes perfeitamente. Estou a falar num cbeck-up. Isso no  nada.
- Pode no ser nada para ti, mas  muito para mim.
- Ento porque no vens ter comigo? Podia fazer-te uma simples anlise de sangue, para ter a certeza de que no h nenhuma pequena infeco a enfraquecer-te, se 
no ests anmica, dar-te umas vitaminas. nada de importncia.
- Talvez - disse ela, hesitante, mas antes de eles sarem naquela tarde, voltou a insistir com ela.
- Quero ver-te amanh no meu consultrio.
Parecia-lhe estpido, mas na manh seguinte sentia-se to horrorosamente mal quando Andy saiu para o emprego que acabou por passar uma hora a vomitar, e depois estendida 
no cho da casa de banho, meio desfalecida, enquanto a beb chorava vigorosamente no quarto.
- Est bem - murmurava cada no cho, sentindo-se como se fosse morrer. - Vou j... vou j... - E uma hora depois, ela e Hilary estavam no consultrio de Jack.
Relutantemente, confessou o que lhe sucedera nessa manh, e j acontecera antes. Tinha uma vaga suspeita, aps todas as agonias do ano anterior, de que podia ter 
arranjado uma lcera,

0 PREO DA VENTURA                          271
Ele espiava-a enquanto ela lhe ia explicando tudo, e ento fez-lhe
uma srie de perguntas, a cor do vomitado, se pareciam borras de caf, se alguma vez vomitara sangue, mas ela disse que no, e ele assentiu com a cabea.
- A que propsito vem isso? - perguntou ansiosa, enquanto Hilary dormia tranquilamente na sua alcofa.
- Estou apenas a verificar a tua teoria da lcera, e a confirmar se nunca vomitaste sangue pisado ou vivo. - Ele era um ginecologista, mas no se alheava completamente 
desse tipo de perguntas, - Se suspeitamos de uma lcera, devias fazer uma srie de exames. Mas no vamos pensar nisso por enquanto. - Tirou-lhe sangue, tomou alguns 
apontamentos, auscultou-a e em seguida palpou-lhe o estmago e a parte inferior do abdmen. E a, olhou-a por cima dos culos. - 0 que  isto? - perguntou, sentindo 
uma pequena massa abaixo da barriga dela. - Isto estava aqui antes?
- No sei - ela parecia assustada e esticou-se para tocar naquilo. Estava ali h uns tempos, ela sabia, mas no conseguia lembrar~se desde quando, semanas, meses, 
dias. Estava to cansada que no podia fazer clculos de quando o descobrira pela primeira vez. - No foi h muito tempo. Talvez desde que temos o beb. - Ele olhou-a 
de novo, o rosto carregado, palpou um pouco mais e por fim sentou-se numa cadeira ao lado dela com uma expresso estranha.
- Quando foi o teu ltimo perodo? - perguntou-lhe, e ela fez um esforo para lembrar-se. Uns instantes apenas, pois pouca importncia teria.
- No sei - Tentava pensar. - Talvez no tivesse vindo antes de Hilary chegar, uns dois meses talves. Porqu, h algum problema? Quem sabe se agora, a somar a todos 
os outros problemas que tivera com o seu tracto reprodutor, no estaria com um tumor? - Achas que  algum tipo de neoplasma? - Oh, Cristo, era s o que lhe faltava! 
Era capaz de ter um cancro. Que tal chegar a casa e dizer a Andy: Querido... lamento muto... mas vou morrer e deixar-te com esse beb. Os olhos encheram-se-lhe 
de lgrimas ao pensar nisso, e o cunhado dava~lhe palmadinhas na mo.
- Creio que podia ser isso, mas tambm creio que pode ser outra coisa. Que hipteses vs de poderes estar grvida?
- Oh, pra com isso! - Ela riu-se e sentou-se, - No brinques

272                          DANIELLE STEEL
comigo, Jack. Que disparate. 0 que disse o mdico? Que eu tinha uma em dez mil chances de engravidar, ou era uma em dez milhes? No me lembro.
- Creio que  uma possibilidade. E se no fosses minha cunhada, fazia-te um exame. Que tal se eu trouxesse uma das minhas colegas para te ver? Podamos fazer um 
teste rpido da urina, e pelo menos isso ficava excludo, No quero aborrecer-te com essa sugesto, mas podia explicar todos os teus sintomas.
... - Ela fulminou-o com os olhos. - E tambm se  cancro. Vamos pensar no melhor. - Ele deu-lhe uma palmada carinhosa na perna e saiu da sala, deixando-a a espumar. 
Estava furiosa com ele por haver sequer levantado o espectro. Desse tormento j ela tivera que chegasse na sua vida para tornar a encar~lo. Grvida... disparate! 
Vociferava consigo mesma, e entretanto Jack reapareceu na sala com uma jovem mulher muito atraente. Apresentou-a a Diana, que apenas pde ser civilizada.
- Queremos saber se  de excluir alguma gravidez - explicou ele.
- Ela teve uns problemas graves de infertilidade que se revelaram incontomveis, e gravidez no  alegadarnente uma possibilidade, ou se for,  muito remota. Mas 
encontro alguns sintomas que me deixam confuso.
- Ainda no fez um teste de gravidez? - perguntou a mdica, e ele abanou a cabea, e pediu a Diana que tomasse a deitar-se. Mostrou  colega o que tinha sentido, 
e quando apertava. Diana teve uma sensao estranha de dor.
- Di~te? - perguntou-lhe.
- Sim - respondeu, os olhos fitos na parede. No tinham o direito de fazer-lhe aquilo. Era como profanar os mortos, e no era justo. Ela no queria ouvir.
- Vs-me isso, Louise?
- Com certeza. - Ele agradeceu-lhe e saiu da sala, e Louise ajudou Diana a apoiar-se nos ganchos da marquesa. 0 simples facto de estar ali f-la cornear a tremer, 
e Louise fingiu no reparar, enquanto punha as luvas e iniciava o exame.
- Quem consultou acerca da infertlidade? - inquiriu, s para fazer conversa,  medida que ia apalpando as entranhas de Diana, quase at s amgdalas.
- Alexander Johnston.

0 PREO DA VENTURA                          273
-  o melhor. E ele disse o qu?
- Essencialmente, que sou estril.
- Disse porqu?
- Devido a um DIU que usei quando estava na Faculdade, ou que era o que ele pensava, Nunca tive nenhuns- sintomas, mas tenho as trompas bloqueadas, e aderncias 
graves nos dois ovrios.
0 exame prosseguia e Diana interrogava-se quanto tempo mais iria durar.
- Pelo menos isso exclui a fecundao n vitro - observou Louise num tom jovial, e Diana acenou com a cabea, - Ele sugeriu um vulo doado? - perguntou, mas Diana 
estremeceu e sacudiu a cabea,  pergunta e ao que ela estava a fazer-lhe. Nenhuma das coisas lhe trazia lembranas felizes.
- Sim, sugeriu, E eu no estava interessada. Adoptmos uma menina em Abril. - E a, Louise olhou para Hilary e sorriu.
- Estou a ver.  uma beleza. - E com isto o exame terminou. Ela sorriu para Diana e, antes que pudesse dizer-lhe alguma coisa, Jack entrou na sala, os olhos cheios 
de interrogaes.
- Ento?
Louise olhou-a pesarosamente, e em seguida para o colega.
- No gosto de contradizer os meus colegas - afirmou com prudncia, enquanto Diana aguardava o veredicto de cancro -, mas eu diria que o Dr. Johnston se enganou. 
Isto parece-me um tero de dez semanas. Se no me tivessem dito que havia problemas, no teria duvidado um segundo. Pode mesmo ser de mais tempo. Quando foi o seu 
UPM? - ltimo periodo menstrual. Diana conhecia os termos todos e detestava voltar a ouvi-los, enquanto fechava os olhos, sentindo-se tonta,
- Finais de Maro, princpios de Abril. No me lembro.
- isso d-lhe aproximadamente trs meses de gravidez.
- 0 qu? - Diana olhava-os estupefacta. - Esto a brincar? Jack, no me faas isso!
- No, no estou. Diana, juro. Estou a falar a srio. - Louise desculpou-se e deixou-os, e Jack pediu a Diana que fosse  casa de banho e fizesse chichi para um 
frasco, de forma a ele poder fazer um teste de gravidez, e quando o fez, confirmou-se o diagnstico. Diana estava incontestavelmente grvida.

274                         DANIELLE STEEL
- No estou nada... no posso estar... - dizia, repetia, e repetia at  exausto, mas estava, e quando saiu do consultrio, parecia aturdida, e f-lo prometer que 
no contava a ningum at ela o fazer.
Seguiu directamente no carro para a empresa para ver o marido. Este estava numa conferncia, e ela vinha de jeans, e trazia Hilary consigo a dormir profundamente 
no assento do carro,
- Tenho de o ver! - explicava  sua secretria - "agora"! - E alguma coisa no rosto dela dizia  mulher que Diana estava a falar a srio. Saiu rapidamente porta 
fora e dois minutos depois Andy aparecia a correr.
- 0 que h? A beb est bem? - Ele parecia ansioso para a ver, e Diana estava plida como um cadver e com ar grave.
Ela est bem. Preciso de falar contigo. A ss.
Vem para o meu escritrio. - Ele tirou~lhe a beb dos braos, e ela seguu-c, para uma sala de paredes de vidro e madeira com urna vista deslumbrante. Ento ele 
virou-se e olhou~a preocupado. - Qual  o problema, Di? - Algo de terrvel tinha obviamente sucedido. No se atrevia a imaginar o qu.
Mas ela no lhe deu o beneficio de meias palavras, limitou-se a olh~lo numa confuso total.
- Estou grvida.
- Ests a falar a srio? - Ele fitava~a e por fim riu-se, - Ests a brincar comigo? - No conseguia parar de rir, e ela abanou a cabea, ainda em estado de choque.
- Trs meses, s capaz de acreditar?
- No, mas querida, estou to feliz por ti... e por mim... e por Hillie... meu Deus, trs meses, deve ter acontecido justamente quando a trouxemos de So Francisco. 
Que espantoso! - Mas ele j ouvira falar nisso, de pessoas que concebem imediatamente aps a adopo, depois de anos de tentativas infrutferas.
Diana sentou-se, com um ar feliz mas envergonhado.
- Andava to cansada, no consigo mesmo lembrar~me de fazer amor contigo nessa altura.
- Bom, espero ter sido eu... - gracejou. - Quem sabe? Podia ser uma "Imaculada Conceio".
- No  provvel.
- Meu Deus, no posso crer.  para quando?

0 PREO DA VhN i u KA
- No sei. L para janeiro. Estava to atordoada que no ouvi o que o Jack disse. A dez de janeiro ou coisa assim.
- No posso acreditar! Deviamos telefonar ao Johnston a dizer-lhe.
- 0 Johnston que v para o inferno - rezingou ela, e levantou-se para beijar o marido, que a ergueu no ar, rodopiando com ela nos braos, excitadssimo.
- Hurra para ns... hurra para ti! Engravidmos. - E ento, subitamente, ficou srio. - Como te sentes? Meu Deus, no admira que te sentisses to mal.
- , e o mais engraado  que Jack diz que o pior j passou. Diz que devo sentir-me melhor daqui a uma semana ou duas.
- ptimo, vamos jantar fora esta noite para celebrar. Ao L'Orangere. Deixamos a beb no bengaleiro, se for preciso. - Beijou-a outra vez e voltou para a sua reunio, 
e Diana ficou ali um pedao, contemplando a vista, e pensando no que tinha acontecido, com espanto.
Aquele Vero estava a correr frtil de paz para Pilar. Fizera a sua amniocentese em junho, e tinha-a apavorado terrivelmente, mas fora fcil, afinal. Tiveram de 
extrair fluido dos dois sacos com duas agulhas enormes, mas j dispunham dos resultados e agora sabiam que iam ter uma rapariga e um rapaz, e que eram ambos saudveis.
Assim que obteve os resultados, Pilar soube que tinha de telefonar  me. Telefonou-lhe num sbado  tarde, quase esperanosa desta ter sado para o fim-de-semana, 
mas no; e atendeu-lhe o telefone ao primeiro toque, Tinha duas crianas gravemente doentes sob a sua vigilncia nesse fim-de-semana.
- Oh, s tu - disse, parecendo surpreendida. - Pensei que fosse do hospital. Como ests? - Pilar lembrou-se subitamente como se sentia em criana, uma intromisso 
constante,nos assuntos bastante mais importantes na vida da me, Mas agora ela tinha uma coisa igualmente importante a dizer-lhe, e interrogava-se como iria a me 
receber a notcia.
- Estou ptima. E a me?
- Muito bem, sempre ocupada. E o Brad?
- Est bom - Pilar avanou nervosamente: - Me, tenho uma coisa a dizer-lhe.

276                        DANIELLE STEEL
- Ests doente? - o seu tom de voz parecia de preocupao, e Pilar comoveu-se ao ouvi-lo.
- No, estou ptima... eu... me, estou grvida - disse suavemente, com um sorriso feliz, convencida de repente de que a me acharia isso to maravilhoso como ela.
Fez-se um longo silncio do outro lado da linha, e por fim Elizabeth Graham retomou a sua compostura.
- Que tolice! j te disse o mesmo quando te casaste com Brad. So os dois demasiado velhos para pensarem sequer em ter filhos.
- No  o que dizem os nossos mdicos. Discutimos isso com eles antes de engravidar.
- Isso foi planeado? - Ela parecia chocada.
- Sim, foi.
- Que estupidez incrvel! - Ela estava agora com 69 anos, e algumas das suas ideias no eram das mais modernas.
Pilar sentiu-se como se tivesse levado uma bofetada com a reaco da me, e no entanto falar com ela no era nada diferente do que sempre fora. Mas era sistematicamente 
o mesmo velho jogo, com Pilar esperando ridiculamente dela uma pessoa que no era, que nunca fora nem seria.
- Mas h mais. - Chocar a me comeava a diverti-Ia. - So gmeos.
- Oh, meu Deus! Tomaste drogas de fertilidade?
- Sim, tomei - confirmou Pilar com um sorriso perverso. Brad ia a entrar na sala, ouviu um pedao da conversa e abanou um dedo. Ela estava a torturar a me e a adorar 
cada minuto, como uma criana travessa saboreando as suas maldades.
- Por amor de Deus, Pilar, quem foi o tolo que te aconselhou a fazer isso?
- Me, isto  o que ns queramos. Mas fomos a uma especialista em Los Angeles. Ela  considerada uma das melhores neste campo, e foi altamente recomendada.
- Corno se chama? No que eu esteja muito informada nesse campo, mas posso fazer umas sondagens.
- Helen Ward. Mas no precisa de perguntar a ningum. Ns fizerno-lo e s colhemos as melhores referncias a respeito dela.
- No pode ser muito excepcional,  que encoraja mulheres de

0 PREO DA VENTURA                           277
44 anos a engravidarem. Eu fao tudo o que posso para dissuadi~las. Vejo os resultados desses erros, e cre em mim, so desastrosos.
- Nem todos os seus doentes tm mes quarentonas, pois no? Alguns devem ter mes mais jovens.
- isso  verdade. Mas no podes forar a Natureza, Pilar. Pagas um preo terrvel quando o fazes.
- Bom, at agora, est tudo bem. Os resultados da amniocentese so normais, e ambos os bebs esto ptimos, pelo menos geneticamente.
- Eles avisaram-te de que h um risco de infeco com esse teste, ou que podes simplesmente perd-los? - 0 arauto da desgraa, vindo directamente de Nova lorque. 
Nem uma palavra de felicitaes. Mas exactamente agora, Pilar no esperava nada dela. Tinha dado a novdade  me. E como esta aceitava ou deixava de aceitar, era 
absoluta~ mente com ela.
- Avisaram-nos de tudo isso, mas agora o perigo passou. Est tudo a correr regularmente.
- Fico contente de saber isso. - Houve um longo silncio entre a duas, e por fim, Elizabeth Graham suspirou e resolveu quebr-lo. No sei realmente que dizer, Pilar, 
Desejava que no tivesses feito isso. Suponho que  demasiado tarde, mas vocs foram de facto mal aconselhados. 0 que fizeram  arriscado e insensato. Imagina como 
te sentias se perdesses esses bebs. Que necessidade tinhas de te sujeitar a isso?
Pilar fechou os olhos, pensando ainda no seu aborto. Engravidar outra vez tinha-lhe enchido o corao, mas ficara contudo um espao que jamais esqueceria a perda, 
e ela sabia-o.
- Por favor no digas isso - murmurou Pilar. - Vamos estar bem.
- Espero que tenhas razo. - E ento desferiu o golpe de misericrdia: - Brad deve estar a ficar senil. - Mas desta vez Pilar s pde rir, e depois de desligar transmitiu 
ao marido o diagnstico da me. E ele ficou to divertido como ela.
- E eu com esperanas de que no reparasses.
- Bem, a minha me l sabe, meu caro! No podes fazer da Boa Doutora Graham uma tola!
- Escuta, fizeste~a passar um mau bocado, Deves t-la chocado horrivelmente, e estavas a divertir-te com isso. A pobre mulher julgava-

278                          DANIELLE STEEL
-se livre e desimpedida, e de repente vais surpreend-la no com um neto, mas com dois.  demasiado forte para uma pessoa como ela.
- Oh, por amor de Deus, no estejas a desculp-la! A mulher  desumana.
- No, no  - defendeu-a ele -, e tenho a certeza de qde  uma danada de uma boa mdica. No , claro, a tua imagem, nem a minha, de uma grande me. No  o seu 
estilo. Mas h outras reas da sua vida que podem inclusivarnente fazer dela um ser humano aprecivel.
- Pareces o meu psiquiatra - comentou Pilar com repugnancia, e beijou-o. Mas pelo menos dera a novidade  me. Agora podia concentrar-se em Brad e nos seus bebs.
Festejaram o primeiro anversrio de Adam em julho. Pilar estava no seu quinto ms de gravidez, e dir-se-ia que era o oitavo, mas tudo tinha corrido bem at ali. 
Ficava, contudo, a maior parte do tempo con~ denada  priso da cama. Com grneos, no queriam correr nenhuns riscos de ela poder ter o parto antes do tempo.
- Como te sentes? - perguntou-lhe Marina um dia que a foi visitar, e Pilar ria-se enquanto lutava para sentar-se na cama. Era como um corpo-a-corpo com um rinoceronte.
- Como um Estdio yankee, e se mais pudesse ser. A maior parte do tempo, parece a Terceira Guerra Mundial. Tenho dvidas de que estes fulanos venham a ser grandes 
camaradas. Passam o tempo a dar pontaps nas canelas um do outro, ou a dar-me socos. - 0 simples movimento de atravessar uma sala era urna pequena faanha, Sentia-se 
descomunal, e estava perplexa com a enormidade do seu ventre.
- Nunca fazes as coisas pela metade - observara Brad com um sorriso, ao v-Ia um dia a entrar para a banheira. Parecia de facto desumanamente gigantesca. E as mais 
das vezes, bastava olhar para ela para poderem ver-se joelhos e braos e ombros, e ps minsculos ponta~ peando e movendo-se. Pilar achara maravilhoso no incio, 
mas estava a tornar-se deveras desconfortvel a meio do Vero,
Em Setembro, sentia-se absolutamente lastimvel. Tinha constantemente azia, e o ventre parecia estar na iminncia de explodir, a pele retesada e cheia de gretas, 
as costas estavam a mat-la, os tornozelos tinham o dobro do tamanho normal, e se fazia um pouco mais do que

0 PREO DA VENTURA
4/5#
sair at ao terrao, comeava com contraces. No podia ir a lado algum e no se atrevia a sair de casa. No era sequer suposto sair do quarto, com receio de o 
tero ficar "irritvel" e poder entrar prematuramente em trabalho de parto. Os colegas mandavam-lhe trabalho para casa, mas ela no se sentia muito til, ali estendida 
a maior parte do tempo. E no final do ms, interrogava-se quanto tempo mais iria aguentar.
A data prevista era s dali a seis semanas, que lhe pareciam as seis semanas mais longas da sua vida, sobretudo quando se sentia particularmente desconfortvel, 
com Brad a rir-se ao fazer-lhe massagens nos tornozelos inchados.
- Isso foi o que tu arranjaste ao meteres-te com tipos capazes.
- Pra de ser fanfarro!
- No sou. - Ele sorria, e inclinava-se para lhe friccionar suave~ mente a barriga. A sua mo, porm, foi instantaneamente recebida com um vigoroso pontap, e ento 
ele pde ver um p-de~vento de agitao. - Menina, eles no desistem, pois no?
- No, enquanto tiverem oportunidade para isso. A nica altura em que dormem  quando me mexo, e Deus sabe o pouco que o fao.
- Ele riu~se, observando-os outra vez, e estava to excitado como ela. Mas por vezes, tambm tinha pena dela. Parecia to miseravelmente desconfortvel, e havia 
poucas coisas relevantes que ele pudesse fazer para ajud-la.
Tambm estava preocupado com o parto, embora no falasse disso a Pilar. Mas tivera vrias conversas srias com o Dr. Parker; de momento, este no via necessidade 
de cesariana, mas no hesitaria em faz-la se algum dos gmeos mudasse a sua posio de cabea para baixo ou se estivesse em dificuldades durante o parto.
Ela marcara com um instrutor de respirao a vinda deste a casa em Outubro, mas quando Brad olhava para ela, no podia deixar de interrogar-se se chegaria a faz-lo. 
j ia nas trinta e quatro semanas de gravidez, e o Dr. Parker tinha esperanas de chegar pelo menos s trinta e seis semanas que ela entrasse em trabalho de parto.


CAPITULO 18
Outubro foi um ms infernal para Andy e Diana. Ela estava grvida quase de seis meses e a papelada final da adopo de Hilary tinha de ser assinada por Jane e Edward. 
Eric falara com eles recentemente e garantira a Diana que no havia qualquer problema. Eles iam assinar.
At telefonar-lhes s primeiras horas da manh de uma tera-feira e pedir para falar com Andy. Andy ficou a ouvir em silncio ao telefone, sem erguer os olhos para 
ela uma nica vez, e Dana percebeu imediatamente que algo de terrvel havia sucedido. Puxou para junto de si a balbuciante criaturinha de cinco meses de idade, 
e quando o fez, a beb pressentiu a sua tenso e comeou a chorar, como se soubesse que alguma coisa estava errada. E quando Andy pousou o telefone, Diana tambm 
o sabia, antes deste lhe dizer.
- Qual  o problema? Eles no assinam os papeis, no ?
Com lgrimas nos olhos, Andy olhou para ela e abanou a cabea.
- No, no assinam. Querem pensar mais uns dias. E  muito pos~ svel que queiram vir c ver o beb.
Detestava dizer-lhe aquilo, detestava aborrec-la naquela altura, mas ela tinha de saber, sobretudo se ia surgir algum problema. A questo era que Jane j no estava 
segura. No sabia se queria ir para a escola, no tinha a certeza se fizera a coisa certa ao abdicar do seu beb, em suma, tudo dvidas razoveis, excepto para Diana 
e Andy.
- Ela no pode - afirmou Diana, dando um salto. - Eles abdcaram dela... no podem reav-la agora. - E comeou a chorar.
- Querida... - Ele tentava argumentar com ela da forma mais

282                          DANIELLE STEEL
branda possvel - eles podem fazer o que quiserem antes de assinarem os papis.
- No podes permitir que eles nos faam isso. - Ela chorava com a criana ao colo e ele tirou-lhe Hilary dos braos delicadamente e encostou-a ao seu ombro.
- Procura ficar calma. - No queria v-Ia perder o seu beb por causa deste, apesar de amar Hilary profundamente. - 56 nos resta esperar para ver o que acontece.
- Como podes dizer uma coisa dessas? - gritou-lhe. Ela amava Hilary como a sua prpria filha, e sabia que por muito amado que fosse o seu beb, nunca o seria mais 
do que esta. Era o seu primeiro filho, o primeiro amor, e no ia devolv-la a ningum. - No quero que Jane a veja.
Mas quando Eric telefonou pela segunda vez, disse que Jane e Edward estavam a ir para ali. Contou que Jane parecia enlouquecida quando falaram pelo telefone e que, 
na opinio dele, o melhor era Andy e Diana manterem-se calmos e deixarem-na ver a criana.
- Eu entendo - dizia Andy ao amigo -, mas Diana no. Est histrica com tudo isto. - Tambm explicou a Eric que Diana estava grvida. E isso era um outro problema 
para Jane. Esta tinha medo, agora que esperavam o seu prprio beb, que o favorecessem em detrimento do beb de Jane.
- Oh, Deus! - Exclamava Andy ao ouv-lo. - Porque e que a vida nunca  simples?
- Porque assim rio teria piada, no achas? - replicou Erc, e Andy suspirou. Todo aquele episdio no ia ser nada fcil para Diana. Entretanto, Edward e Jane chegavam 
a Los Angeles para ficar dois
dias. Alojaram-se num motel ali prximo, mesmo junto  auto-estrada, e vinham ali a casa incessantemente. Jane queria v-los, e insistia em pegar no beb, o que 
deixava Diana quase frentica; tinha medo que Jane fugisse com ela, mas no o fez. A maior parte das vezes limitava-se a ficar ali sentada, e chorava, e Edward no 
dizia nada. As suas relaes pareciam bastante mais tensas do que na altura do nascimento de Hilary, e Jane estava sem dvida mais nervosa. E por fim, ao segundo 
dia, Dana soube porqu, quando Jane lhe confessou que acabara de fazer um aborto. No quisera passar por outro parto, mas isso viera alterar todas as suas ideias 
acerca da adopo. Subitamente ela interrogava-

0 PREO DA VENTURA                          283
-se se fizera a coisa certa quando abdicara de Hilary cinco meses e meio atrs. E estava convencida de que a nica razo pela qual tornara a engravidar no tinha 
nada a ver com um descuido deles, mas sim porque ela quisera ter um beb.
- E ento agora quer a minha! - explodiu finalmente Diana. Ela agora  o nosso beb. Ficmos ao lado dela sempre que esteve doente, levantmo-nos quatro vezes durante 
a noite por causa dela, a embal---la e a passe-la nos braos, e a am-la.
- Mas eu carreguei-a durante nove meses - disse jane, horrorizada, enquanto os dois homens as observavam, sentindo-se ineptos e impotentes.
- Eu sei que carregou - afirmava Diana, tentando retomar a sua compostura. - E ser-lhe-ei sempre grata por no~la ter dado. Mas no pode tir-la outra vez. No pode 
dizer "torna, ama-a para sempre", e a seguir "no, espera l, desculpa mas mudei de ideias porque fiz um aborto". E ento a vida dela? Como  a vida dela? Esto 
a oferecer--lhe o qu? 0 que  que mudou nos ltimos cinco meses? 0 que a leva a pensar que seria melhor para ela do que ns?
- Talvez porque sou a sua me - atalhou jane serenamente. Tinha remorsos de estar a fazer-lhes aquilo, mas precisava de saber se queria aquele beb. - No quero 
arrepender-me para o resto da vida
- acrescentou honestamente, mas Dana tambm foi honesta com ela, e era mais velha.
- Vai arrepender-se, jane, vai arrepender~se sempre. Vai pensar sempre como podia ter sido, e como a vida podia ser diferente. Todos fazemos isso. E abdicar de um 
beb  certamente a maior coisa que uma mulher pode fazer, Mas h cinco meses, pensava que era o que queria fazer.
- Pensvamos ambos - acrescentou Edward calmamente. - E eu ainda penso. Mas jane est a reconsiderar. - Este achava que ela devia ter feito desde logo um aborto, 
mas o facto de no ter feito no era razo para conservar o beb. Dissera-lhe tudo isso, mas agora ela estava com um medo terivel de desistir do beb.
- Ainda no sei - admitiu jane quando saiu, e Diana queria gritar, e implorar-lhe que no os torturasse mais. No aguentaria. E teve contraces durante todo o dia, 
o que preocupou Andy.
E Edward aterrorizou~os nessa noite, quando lhes telefonou do

284                         DANIELLE STEEL
hotel  meia-noite a perguntar se podiam ir ali. Jane tinha uma coisa importante a dizer-lhes.
- Agora? - Andy parecia chocado, e Diana ficou completamente transtornada quando este lhe disse.
- Ela vai levar o beb, no ? Ela quer... foi isso o que ele te disse?
- Diana, pra! Ele no me disse nada. Dsse-me simplesmente que Jane tem uma coisa para nos dizer.
- Porque  que ela est a fazer isto connosco?
- Porque tambm  uma grande deciso para ela. - E ambos sabiam que seria horivel. No podiam imaginar ter de abdicar de Hilary, e todavia esperavam que Jane o 
fizesse para sempre. No parecia justo, de certa maneira, embora todos soubessem que a vida no era justa. E rezavam para que ela mantivesse a sua deciso inicial.
A espera pela chegada deles pareceu-lhes interminvel, mas finalmente,  meia-noite e trinta, tocaram  campainha. Jane vinha plida e acabrunhada, e era bvio que 
estivera a chorar. E Edward parecia nitidamente aborrecido com ela; a sua pacincia tinha quase chegado ao limite naqueles ltimos dois dias, e estava ansioso por 
regressar a So Francisco.
Diana convidou-os a entrar, mas Jane deixou-se ficar especada, abanando a cabea, e comeou a chorar.
- Desculpem - murmurou, e em seguida olhou-os, e Diana reunia foras para o pior, segurando inconscientemente a barriga como que a salvar pelo menos este beb de 
lhe ser levado. - Desculpem - repetia Jane -, eu sei que tambm  duro para vocs... - e sufocava a cada palavra - mas tinha de ter a certeza. Sei que no podia... 
no posso... creio que sempre soube que no podia conserv-la. - Diana pensou que ia desmaiar, agarrando-se ao brao de Andy, e este ps-lhe um brao  volta para 
evitar que tal sucedesse. - Vamos agora para So Francisco - disse Jane, entregando um envelope a Diana. - Assinei os papis. - Diana comeou a chorar, mas Jane 
mostrava-se subitamente mais controlada que nos ltimos dias, e olhou primeiro para Diana e em seguida para Andy.
- Posso v-Ia mais uma vez? Prometo que nunca mais tentarei v-Ia depois disto. Ela agora  vossa. - 0 seu ar era to pattico, ali especada, que Diana no pde 
dizer-lhe que no e conduzu~a em siln-

0 PREO DA VENTURA                           285
cio ao andar de cima para ver o seu beb. Hilary dormia profundamente no seu bero novo, a um canto do quarto deles. j tinha o seu prprio quarto, repleto de bonecos 
de peluche e de presentes que as pessoas lhe davam, mas eles gostavam de t-la perto de si. E nem Andy nem Diana tinham coragem para mud-la do seu quarto.
Mas agora, jane estava ali a olhar para ela, plena de emoo, os olhos transbordantes, e punha dedos delicados sobre a face do beb, como uma beno.
- Dorme bem, minha querida - murmurou  criana adormecida enquanto as duas mulheres choravam. - Hei-de amar-te sempre. Ficou ainda mais um minuto, e ento dobrou-se 
para beij-la, e Diana sentiu um n na garganta sufocando-a lentamente. jane deteve-se por um derradeiro momento enquanto Diana a observava, e de seguida des~ ceu 
calmamente as escadas sem uma palavra, e sem o seu beb. Apertou fortemente a mo de Diana  sada, e dirigiu-se para o carro, seguida por Edward. E Diana no podia 
parar de chorar quando a porta se fechou atrs deles. Sentia-se culpada e triste, e pesarosa por jane, e to aliviada que Hilary fosse agora deles. Era uma avalanche 
de sentmentos que ela no fazia ideia como enfrentar quando se agarrou a Andy.
- Vem. - Ele levou-a lentamente para cima, amparando-a esmagada pelas suas emoes. Eram quase duas horas da manh. Estavam ambos arrasados pelas emoes dos ltimos 
dias, e Andy pensava que era um milagre ela no ter entrado em trabalho de parto.
No outro dia, obrigou-a a ficar na cama, e tomou ele conta da beb. E Eric jones veio pessoalmente de avio para levar os documentos. Tinha sido tudo assinado. Estava 
tudo feito. Hlary Dana Douglas estava segura e com eles para sempre.
- Custa-me a crer que tudo tenha terminado - disse Diana suavemente, quando Eric saiu. Agora ningum podia lev-la, ningum podia voltar atrs para mudar de ideias. 
Ningum podia tir-la deles.


CAPTULO 19                                            'J
Os bebs de Pilar e de Brad eram esperados para princpios de Novembro e naquele ltimo ms ela s podia praticamente levantar-se para ir  casa de banho. 0 colo 
do tero havia comeado a encurtar semanas antes e a dilatao j estava a fazer-se. De cada vez que se punha de p, por um minuto que fosse, tinha contraces. 
Estava farta de passar o tempo deitada, e nervosa, no fosse surgir algum problema, se algum deles ficasse estrangulado pelo cordo, se por um motivo qualquer um 
dos gmeos magoasse o outro.
Fazia os exerccios de respirao com Brad e por altura da festa de Todos-os~Santos os bebs tinham praticamente cessado de mexer.
0 espao era ento to exiguo para se moverem, e ela parecia um daqueles cartoons com uma mulher engolindo um prdio. Levantava-se e olhava-se por vezes ao espelho, 
e s podia rir-se do seu cwp desfigurado. Dir-se-ia que carregava um beb em cima de outro beb com outro beb por cima.
- Isto  quase uma proeza - gracejava Brad uma noite, enquanto a ajudava a sair da banheira. j no conseguia fazer nada sozinha. No podia tomar banho sem a ajuda 
dele, no era capaz de calar os sapatos, nem mesmo as pantufas, e na primeira semana de Novembro at precisava que algum a ajudasse a levantar~se da retrete. Marina 
vinha v~la sempre que podia, e Nancy ficava frequentemente com ela enquanto Brad estava a trabalhar. E esta no se cansava de dar os parabns a Pilar pela sua coragem 
e pacincia, e dizia-lhe que no queria estar no seu lugar por dinheiro nenhum deste mundo. Era o seu motivo de conversa com o marido quando voltava para casa; toda 
a gente a

288                         DANIELLE STEEL
fazer a sua vida normal, a jantar fora e a divertir-se, e a pobre Pilar inchada como um balo, prestes a explodir com os seus bebs.
A me telefonava~lhe frequantemente, dando a impresso de que se ia habituando  ideia da gravidez de Pilar. E ofereceu-se por varias vezes para vir de avio, mas 
Pilar no a queria consigo.
Queixava-se de no ia ao cabeleireiro h seis meses, mas quando Brad a via demasiado deprimida, lembrava-lhe que tudo isso valia a pena. E ela sabia-o. Mas era terrivelmente 
desgastante estar ali deitada  espera de entrar em trabalho de parto.
Os gmeos pareciam estar em boa posio, e numa das suas visitas o mdico dsse-lhe que um deles era ligeiramente maior, provavelmente o rapaz, suspeitava. Era o 
que sucedia em geral, mas nem sempre. E tambm a informou de que teriam uma equipa de mdicos para o seu parto. Graas  idade dela, e pelo facto de tratar-se de 
um parto duplo, ele queria outro obstetra a trabalhar consigo, e dois pediatras para os bebs,
- Parece uma festa - observou Brad, tentando suavizar as coisas. reparara que Pilar ficava preocupada sempre que o mdico falava numa ,<equipa", ou se fosse necessrio 
fazer-lhe uma cesariana. Poe enquanto no viam motivo para isso, mas queriam estar preparados para todas as eventualidades. Brad notava no entanto que nas ltimas 
sernanas, a medida que se aproximava o seu tempo, Pilar andava estremamente nervosa.
0 Dr. Parker dsse-lhe tambm que no a deixaria ultrapassar o tempo. Havia muita coisa em jogo, sobretudo tratando-se de dois bebs. Mas uma semana antes da data 
prevista. s primeiras horas da manh, Pilar comeou a ter contraces. 0 mdico aconselhou-a a andar um pouco pela casa para acelerar o processo, mas ficou espantada 
ao ver como estava fraca aps tanto tempo de cama, como tinha as pernas trmulas, e foi uma decepo verificar que no podia andar grande coisa, mas faltavam~lhe 
as foras e a barriga pesava-lhe horrivelmente.
Durante a tarde, as dores tornaram-se mais regulares, e Brad fez-lhe uma chvena de ch e em seguida tudo parou outra vez. A iminncia latente era uma verdadeira 
tortura enquanto aguardavam.
- Deus, como queria ver isto acabar! - dizia a Brad. Mas no aconteceu absolutamente mais nada nessa tarde, e  noite, a seguir ao jantar, rebentavam-lhe as guas. 
No havia contudo sinal de contrac-

0 PREO DA VENTURA                           289
es, mas o mdico mandou-a ir para o hospital. Queria-a internada para poder observ-la.
- Observar o qu? - protestava enquanto Brad a levava de carro para o Cottage Hospital. - No est a acontecer nada. Porque havemos de ir para o hospital? Que estupidez! 
- Mas ao ouvi-Ia dizer isto, com o seu corpo to imenso. Brad s pde rir,, com um alvio enorme por estar a traz~la para os mdicos, No tinha o mnimo desejo 
de passar pela sua primeira lio como parteira durante um nascimento de gmeos, e ainda por cima em casa. j bastava, pela parte que lhe cabia ter concordado em 
acompanh-la no trabalho de parto. Pensar nisso, dava-lhe uma vaga sensao de nuseas, mas sabia que Pilar precisava dele, por isso no hesitou quando ela lho pediu.
0 Dr. Parker examinou~a assim que chegaram e depois deste terminar o exame dela teve umas ligeiras contraces. E o mdico mostrou-se satisfeito ao ver que as poucas 
contraces que ela sentira nessa manh tinham evoludo o suficiente para aumentar a dilatao. Era bvio que no demoraria muito tempo para Pilar ter os seus bebs.
- Em breve alguma coisa h-de comear - prometeu, e em seguida foi para casa. Mas disse que voltaria ali assim que o chamassem. Pilar e Brad viram televiso durante 
um pedao, depois ela dormitou um pouco, e bruscamente acordou com uma sensao estranha. Uma enorme presso.
Chamou Brad, e havia na sua expresso um to ntido pavor que este chamou a enfermeira para Pilar lhe explicar o que sentia.
- Creio que est em trabalho de parto, Mrs. Coleman. - A enfermeira sorriu e foi chamar o mdico, e pouco depois chegava um membro da equipa do hospital para observ-la. 
Pilar ops-se, mas quando quis discutir com ele, teve uma enorme contraco. Todo o seu descomunal ventre parecia estar preso num enorme torno, que o comprimia para 
lhe exaurir o ar at ela no suportar mais. Apertava a mo de Brad, fazia esforos para lembrar-se dos exerccios respiratrios, e algum que no conseguia ver dobrava-lhe 
a cama para cima.
- Oh, Deus... esta foi horrvel! - murmurou.
Tinha os cabelos ensopados, a boca seca, de uma nica contraco. Mas o seu corpo sabia que ainda a aguardava uma poro de trabalho para fazer, e quando o mdico 
insistiu para examin-la, teve outra. A enfermeira saiu apressadamente da sala para telefonar ao

290                         DANIELLE STEEL
Dr. Parker a dizer-lhe que Pilar Coleman estava em trabalho de parto activo.
0 obstetra auxiliar apareceu para a ver e examin-la, mas quando o fez as contraces tomaram-se de imediato mais violentas e Pilar tentava repeli-lo. Subitamente 
ia perdendo o controlo das coisas; na pequena sala entravam mais dois mdicos; duas enfermeiras faziam~lhe os preparativos intravenosos numa das mos; uma outra 
enfermeira prendeu-lhe um montor  barriga para medir as pulsaes fetais e a amplitude das suas contraces. Mas a presso da cinta do monitor tor~ nava as contraces 
ainda piores.
Era horrvel, sentia-se como um animal, presa e acorrentada e a ser puxada de todos os lados. Muitas coisas estavam a acontecer e aparentemente ela no tinha nenhum 
controlo.
- Brad... no posso... no posso... - Tentava fugir-lhes das mos, mas a sua extrema vastido, e a ferocidade das dores impossibilitavam-na de mexer-se. - Brad, 
manda~os parar! - Queria que a deixassem s, queria arrancar a cinta e as agulhas, parar de sofrer. Mas no podiam larg-la; os seus bebs estavam em jogo, e Brad 
sentia-se impotente ao olhar para ela.
Tentou dizer qualquer coisa  enfermeira-chefe, depois ao mdico, quando este voltou.
- No podemos fazer nada para lhe facilitar as coisas? - perguntou, esperanoso. - 0 monitor  to desconfortvel, e parece-me que os exames agravam as contraces.
- Eu sei que sim, Brad - respondeu compreensivamente o Dr. Parker -, mas ela tem ali uma quantidade de bebs, e se no vamos fazer urna cesariana precisamos de saber 
o que est a passar-se. E se a fizermos, precisamos na mesma. No podemos perder tempo. - E vrou-lhe as costas para se abeirar da doente.
- Ento como  que estamos a portar-nos? - perguntou a Pilar, com um sorriso carinhoso.
- Uma merda - disse ela, e de repente quis vomitar. Tinha vmitos sempre que lhe vinham as dores, e no via alvio, sentia que a dilaceravam, e a cada contraco 
ela sentia mais presso, e uma necessidade maior de empurrar para fora. Talvez estivesse a chegar  fase de expulso, pensava cheia de esperana, talvez fosse isso 
o que sentia, talvez fosse o pior de tudo e estivesse quase a terminar, mas quando

0 PREO DA VENTURA                           291
perguntou  enfermeira, esta respondeu que ainda faltava muito tempo para ela ter de empurrar. Aquilo era s o princpio.
- Drogas - resmungou quando viu novamente o mdico  sua cabeceira. Naquele momento, mal conseguia falar, numa angstia tremenda. - Quero drogas.
- Falamos nisso mais tarde - esquivou-se, e ela recomeava a gri~ tar e agarrava-se  manga do mdico.
- Quero-as agora - dizia ela, lutando para sentar-se, mas o monitor susteve-a, como a dor seguinte, que a deixou agarrada  mo de Brad. - Oh, Deus... escuta... 
no h ningum para escutar~me...
- Eu estou a escutar, querida - dizia Brad, Mas ela dificilmente podia v-lo. Havia tanta gente na sala, tanto ir e vir de pessoas. Como fora que tudo ficara to 
incontrolvel, e por que no a ouviam? Tudo o que podia fazer era permanecer ali deitada e soluar entre as contraces, quando no estava a gritar.
- Obriga-os a fazer alguma coisa... por favor... obriga-os a parar...
- Eu sei, pequenina... eu sei... - Mas no sabia. E comeava a arrepender-se de tudo. Das hormonas e das drogas, e das idas  Dra. Ward, e ali estava o que tudo 
isso lhe trouxera. Afligia-o v-Ia em tamanho sofrimento, e no podia fazer nada para ajud-la. Nunca se sentiu to intil.
- Quero-a j na sala de partos - disse o segundo obstetra ao Dr. Parker. - Se tivermos de a abrir, quero estar preparado.
- Acho bem - concordou o mdico de Pilar, e subitamente a sala redobrou de actividade, de gente, de mquinas, de mais exames a Pilar, de mais contraces.
Empurraram a sua cama pelo corredor, embora ela implorasse que parassem e a deixassem mover~se um pouco no intervalo das dores, mas eles queriarri-na instalada o 
mais rapidamente possvel. Segundo o mdico disse a Brad, as coisas estavam agora a caminhar depressa e eles queriam estar preparados. Tinham de pensar na segurana 
dos bebs e no no conforto da me. Era ento uma da manh, e Brad tinha a sensao de estarem ali havia sculos.
Na sala de partos, mudaram-na da cama para a marquesa, puseram~ -lhe as pernas nos ganchos, cobriram-nas de panos, ataram-lhe os bra~ os e mudaram toda a aparelhagem 
intravenosa para os braos, e ela queixava-se amargamente da sua posio no intervalo das contraces.

292                          DANIELLE STEEL
Dizia que as costas e o pescoo se lhe partiam, mas ningum a escutava naquele momento. Estavam de longe mais preocupados com outras coisas. Havia entretanto trs 
pediatras na sala, vrios mdicos, um regimento de enfermeiras, e os seus dois obstetras.
- Deus! - dizia ela a Brad entre as dores, com a voz enrouquecida. - 0 que estamos a fazer? Um pleito eleitoral? - 0 montor continuava instalado, e algum parecia 
vigiar-lhe o colo do tero de cada vez que respirava. Segundo a enfermeira, ia em dez, o que significava que estava com dez centmetros de dilatao e podia comear 
a fazer fora.
- Muito bem - regozijaram-se todos, mas Pilar ficou indiferente, e era bvio que no lhe iam dar nenhum remdio.
- No posso tomar nada porqu? - lamuriava.
- Porque no  bom para os seus bebs - respondeu com firmeza uma das enfermeiras.
Mas segundos depois, Pilar j no podia perguntar mais nada, as dores eram imensas e comeara a fazer fora.
Para Brad, era um pesadelo. Eles berravam, ela fazia fora, depois gritava, e no mesmo instante que terminava uma dor principiava outra, e todos comeavam a berrar, 
e ela gritava mais e mais, Ele no entendia por que razo no lhe davam qualquer coisa para as dores, a no ser que ouvia o mdico insistir que deprimia os bebs.
Dir-se-a que ela estava a forar havia horas sem qualquer resultado. E quando Brad olhou para o relgio, no queria acreditar que fossem quase quatro horas da manh. 
Perguntava a,si prprio quanto tempo mais ela ia suportar antes de ficar completamente incoerente com o que eles estavam a fazer-lhe. E ento, subitamente, houve 
urna renovada excitao. Apareceram duas incubadoras, e o crculo de rostos mascarados apertou-se mais. Pilar parecia gritar interminavelmente, era um queixume infindvel 
que no tinha princpio nem fim, e subitamente toda a gente berrava, instigava, encorajava, e ele viu a cabea do primeiro beb, abrindo caminho para o mundo, o 
seu longo e fraco gemido misturando-se com o de sua me.
-  um rapaz! - anunciou o mdico, e Brad ficou repentinamente assustado com a sua cor azulada, mas a enfermeira disse que no fazia mal, e um minuto depois j parecia 
melhor. Entregaram-no a Pilar por um momento para o ver, mas ela estava demasiado exausta

0 PREO DA VEITURA                          Z95
para prestar ateno. As dores prosseguiam corno antes, e o mdico teve de usar um frceps para colocar o segundo beb em melhor posio, Brad no Podia olhar para 
o que estavam a fazer-lhe, lmtava-se a rezar ao segurar~lhe as mos numa luta de morte, para que ela sobrevivesse quilo.
- Aguenta, querida... era breve estar tudo acabado... - Mas este beb era ainda mais teimoso que o primeiro, e s cinco horas ele viu os dois mdicos conferenciando.
- Podemos ter de fazer uma cesariana se a rapariga no sair rapidamente - explicaram a Brad instantes depois.
- Seria mais fcil para ela? - perguntou-lhes em voz baixa, na esperana de ela no o ouvir. Mas ela estava to dominada pela dor e forando com tanta intensidade 
que no ouvia ningum.
- Podia ser. Levava anestesia geral, claro, no podefiamos provavelmente estar a aplicar-lhe agora uma epidural, mas tambm seria duplamente penoso para ela, um 
parto vaginal com episiotomia, e uma operao. No seria uma recuperao fcil. Tudo depende do que fizer o beb nos prximos minutos. - 0 primeiro j fora observado 
e estava numa incubadora, soltando sonoros vagidos.
- -me indiferente o que fizerem - declarou Brad num tom frentico. - Faam o que for melhor, e mais fcil para ela,
- Quero tentar primeiro a sada vaginal do beb - disse o mdico, e foi novamente para junto dela com o frceps. Este trabalhava e empurrava e apertava, e justamente 
quando estavam quase a desisitir o beb mexeu~se e, lentamente, comeou a deslizar por entre as pernas da me. Eram seis horas, e Pilar mal se mantinha consciente, 
e de sbito ela estava ali, um doce rosto mido, era um beb minsculo. Tinha metade do tamanho do irmo, e olhava em redor ansiosamente, corno em busca da sua me. 
E quase como se o pressentisse, Pilar ergueu a cabea e viu~a.
- 0h, ela  to linda! - disse, e a cabea tornou a pender-lhe, sorrindo para Brad entre lgrimas. Fora uma agonia, mas valera a pena, Tinha dois bebs maravilhosos,, 
e enquanto se deixava cair para trs e olhava para ele, duas enfermeiras levaram a beb logo aps ser-lhe cortado o cordo, colocando-a numa segunda incubadora para 
o pediatra a examinar a seguir. Mas desta vez no ouviram nenhum grito, e subitamente a sala ficou num silncio completo.

294                         DANIELLE STEEL
- Ela est bem? - perguntava Pilar a algum que sem dvida a ouvia, mas de repente estavam todos ocupadssimos. Brad podia ver o filho na sua incubadora a um canto 
da sala, com duas enfermeiras a v-lo espernear e debater-se freneticamente, procurando algum conforto. Mas no conseguia ver a sua filha, e avanou um passo do 
lugar onde estava Pilar de forma a v-Ia melhor. E ento viu~os, aspirando desesperadamente, tentando dar~lhe ar, um mdico fazia respirao artificial, depois comprmia-lhe 
o peito minsculo, mas o beb jazia im~ vel. Tinha sucumbido, e nada do que fizessem a reanimaria. Brad olhava com horror para a cara do mdico, e Pilar permanecia 
deitada na maca mesmo atrs dele, fazendo-lhe perguntas. Ele quase sentiu o corao parar-lhe. 0 que podia ele dizer-lhe, Santo Deus?
- Eles esto bem? Brad?... No consigo ouvir os bebs...
- Esto ptimos - respondeu, aptico, como se algum tivesse dado um tiro em Pilar. Parecia uma coincidncia incrivel, mas instantaneamente ela ficou aturdida e 
meio sonolenta e Brad olhava para o mdico parado  sua frente.
- 0 que aconteceu? - perguntou, entorpecido. Era uma experi~ ncia sinistra, e o prprio nascimento do filho escassamente servia de consolao.
-  difcil dizer. Ela era demasiado pequena. Creio que perdeu bastante sangue para o irmo. Chamam a isso transfuso de gmeo para gmeo. Isso enfraqueceu-a, e 
o resultado  que no pode respirar por si prpria. Pulmes subdesenvolvidos, creio, e pequenos de mais para sobreviverem a um trauma to grande. Talvez o melhor 
fosse eu t~la operado. - disse desgostosamente, e Brad virou-se para olhar a mulher tranquilamente adormecida na sala de partos, drogada finalmente, surda ao que 
estava a acontecer, e ele tinha dificuldade em imaginar o que ia dizer-lhe. Tanta ventura convertida vertiginosamente em agonia.
Mas todos os pediatras concordavam com os obstetras, houvera nitidamente alguma coisa errada com os pulmes da beb, de que ningum soubera nem suspeitara. As suas 
pulsaes foram regulares durante o parto mas, tendo perdido sangue para o seu gmeo, ela fora simplesmente incapaz de sobreviver fora do tero, sem a sua me.
Brad conhecia todos os factos. Mas ainda lhe era impossvel entender por que sucederam. E enquanto Pilar era levada para a sala de recuperao, Brad ficou a olhar 
para a sua rapariguinha, com lgrimas des-

0 PREO DA VENTURA                          295
lizando-lhe pelas faces. Parecia to doce e to perfeita. Estava to linda como era  nascena, e agora dir-se-ia adormecida.
o seu irmo chorava desconsoladamente, como pressentindo que algo correra mal. Habituara-se a estar junto dela, a dar-lhe pontaps, a estar com ela, e subitamente 
ela desaparecera, como a sua me.
Sem pensar, Brad estendeu uma mo para dentro da incubadora e sentiu~a. Ainda estava quente, e ficou a contempl-la, querendo pegar-lhe. Que diria a Pilar? 0 que 
podia ele dizer? Como podia dizer-lhe que um deles tinha morrido? Ela acordaria  espera de encontrar dois milagres e em vez disso descobriria que fora fulminada 
por uma tragdia num s instante. Era uma partida cruel para ambos, e ele ficou por momentos imvel, olhando para o que parecia ser o seu beb adormecido.
- Sr. Coleman - chamou-o delicadamente uma enfermeira, Queriam retirar dali o beb morto. E algum ia dizer-lhe que medidas deviam ser tomadas. Teriam de preparar 
o enterro do seu beb. - A sua mulher est acordada, se quiser v-Ia.
- Obrigado - disse, e estava lvido. Tocou mais uma vez a mo diminuta, e ento deixou-a, com a vaga sensao de que no devia, que ela ainda necessitava dele, mas 
claro, no necessitava. - Como est a minha mulher? - perguntou  enfermeira, e por fim seguiu-a at  sala de recuperao, com um ar desolado.
- Sentindo~se melhor que h uns minutos atrs. - A enfermeira sorriu. Mas no por muito tempo, pensava Brad, tentando ordenar os seus sentimentos.
- Onde esto eles? - perguntou ela numa voz fraca quando o viu. Perdera muito sangue e passara por dores terriveis, e agora teria de ser mais forte do que fora anteriormente. 
Ele quase no suportava. E havia lgrimas nos seus olhos quando a encarou.
- Amo-te tanto, e foste to corajosa! - disse-lhe, procurando em vo combater as lgrimas, desejando que as coisas fossem diferentes e no querendo apavor-la.
- Onde esto os bebs? - tornou ela a perguntar.
- Ainda esto na sala de partos - respondeu, mentindo-lhe pela primeira vez na sua vida em comum, mas sabia que tinha de o fazer. Ela no precisava de saber j, 
era demasiado cruel ter visto aquele pequenno rosto de anjo e agora saber que desaparecera to veloz-

296                          DANIELLE STEEL
alente. 0 seu irmo parecia to mais vigoroso, to melhor preparado para a vida do que a sua irm. - Vo sair em breve - mentiu Brad novamente, e ela caiu no sono.
Mas no houve como esconder-lhe a verdade na manh seguinte.
0 mdico veio com Brad para dizer-lhe, e por instantes Brad pensou que o choque ia mat-la. Ficou terrivelmente plida e fechou os olhos, e por um momento desfaleceu 
quando ia sentar~se na cama, e Brad aproximou-se para segur-la.
- No... diz que no  verdade! - gritava-lhe. - Ests a mentir!
- Gritava para o marido e para o mdico. 0 mdico dissefa-lhe tudo, e em termos muito simples. A sua beb morreu pouco depois do parto, por perda de sangue que passou 
em transfuso para o seu irmo gmeo, agravada por subdesenvolvimento dos pulmes. No pde sim~ plesmente sobreviver, disse~lhe ele.
- Isso no  verdade! - gritava histericamente. - Vocs mataram-na! Eu vi-a! Ela estava viva... olhou para mim...
- Sim, ela olhou para si, Mrs. Coleman - atalhou ele tristemente.
- Mas no chegou a respirar capazmente. No chegou a fazer uma aspirao completa. No chegou a chorar, e fizemos tudo o que podamos para a salvar.
- Eu quero v-Ia - disse Pilar, soluando, e tentou saltar da cama, mas viu como estava fraca, no podia. - Quero v-Ia agora. Onde est ela? - Os dois homens trocaram 
um olhar, mas o mdico no se opunha a mostrarem a criana a Pilar. j tinham feito isso vrias vezes antes, em certos casos era uma ajuda para a famlia ver a criana 
e poder despedir-se. 0 beb estava no andar de baixo, na morgue,  espera do funeral, mas no havia nenhuma razo para a me no poder v-Ia. Quero que me levem 
junto dela.
- Vamos traz-la para um quarto daqui a pouco - disse ele cafi~ nhosamente, enquanto Pilar se encostava ao marido, soluando e tentanto assimilar tudo o que acabava 
de suceder. Fora to feliz na noite anterior, mesmo por um breve instante, por muito hediondo que tivesse sido, e agora ela havia desaparecido. No chegara sequer 
a pegar-lhe.
- Gostava de ver o seu filho agora?
Ela primeiro abanou a cabea, mas em seguida olhou para Brad e fez sinal que sim. Ele parecia to destroado, estava de tal modo esmagado pelo que lhes sucedera 
que ela no tinha o direito de tornar as

0 PREO DA VENTURA                           297
coisas piores, mas tudo o que queria era morrer e ir juntar-se ao seu beb.
- Vamos traz-lo - disse o mdico, e reapareceu momentos depois com o seu robusto filho. Pesava quatro quilos, o que era imenso para um gmeo. Mas a sua minscula 
irm tinha pesado menos de dois. Ele recebera tudo o que necessitava para sobreviver,  custa dela, e ela no recebera o suficiente. Era um caso clssico de sobrevivncia 
do mais apto.
-  lindo, no ? - disse ela tristemente, quase como se ele no estivesse ali, e no estendeu os braos para pegar-lhe. Limitava-se a contempl-lo, interrogando-se 
porque tinha ele vivido e a sua irm gmea no. Brad pegou-lhe, quando ambos o olhavam, e ento colo~ cou-o suavemente nos braos da me, e esta chorava copiosamente 
enquanto o beijava.
Quando finalmente a enfermeira o levou, ela pediu mais uma vez para ver a filha.
Lavaram-na numa cadeira de rodas a uma sala no piso inferior, era uma sala vazia, e estava glida, e tudo nela era ermo e estril. Passados uns momentos trouxeram-na, 
ainda na sua incubadora, estreitamente envolta- no seu cobertor, o seu rosto pequeno to doce, to puro, que ainda parecia a Brad que estava apenas adormecida.
- Quero pegar-lhe - pediu-lhe ela, e ele retirou-a cuidadosamente e colocou-a nos braos da me, onde nunca chegara a estar, e Pilar sentou-se em silncio com ela 
ao colo. Tocou-lhe os olhos, a boca, as faces, as mos minsculas com os lbios, beijando cada um dos seus pequenos dedos como se esperasse insuflar-lhe vida. Como 
se pudesse mudar o que sucedera na noite anterior, porque ela no conseguia aceit-lo.
- Amo-te - murmurava-lhe suavemente -, hei-de amar-te sempre. Amei-te antes de nasceres, e amo~te agora, doce beb.
Ento olhou para Brad, e viu que ele estava a chorar convulsivamente, parado e vibrando de dor a v-Ia pegar no beb.
- Tenho tanta pena... - disse-lhe. - Tanta pena...
- Quero pr-lhe o nome de Grace - disse Pilar em voz baixa, e tocou carinhosamente na mo dele. - Grace Elizabeth Coleman. - Elzabetb como a sua me. Parecia correcto 
agora, de certa forma. E Brad

298                         DANIELLE STEEL
apenas pde assentir com a cabea. No suportava a ideia de no meio de tanta alegria terem agora de sepultar aquele beb.
Pilar continuou sentada durante muito tempo, apenas pegando-lhe, olhando-lhe o rosto, como se fosse necessrio assegurar-se de que iria sempre lembrar-se dela... 
talvez at um dia tomarem a encontrar-se no Cu... E por fim a enfermeira veio busc-la e eles tiveram de entreg-Ia, para ela poder seguir para a casa morturia 
que Brad contactara pelo telefone s primeiras horas daquela manh,
- Adeus, doce anjo - disse Pilar, e beijou-a de novo, e enquanto saam da sala ela sentia o corao rasgado por uma dor que jamais voltaria a conhecer, Era um pedao 
da sua profunda chaga que iria a enterrar com o seu beb.
Quando chegaram ao andar de cima, o seu rapaz dormia profundarnente na sua cama no quarto dela, e havia outra enfermeira  espera. Esta tinha uma expresso sombria, 
sabendo onde eles tinham estado, e carinhosamente ajudou Pilar a deitar-se e entregou-lhe o seu filho adormecido.
- No o quero agora. - Pilar sacudia a cabea e tentava desvi-]o, mas a enfermeira no desarmou e ps a criana nos braos da me, fitando-a firmemente nos olhos.
- Ele precisa de si, Mrs. Coleman... e a senhora precisa dele... E em seguida deixou a sala, e deixou o rapaznho com os pais, Eles haviam lutado muito e longarnente 
por ele, e ele chegara e trouxera consigo uma tragdia e uma bno. Mas no fora culpa dele a irm ter morrido. E quando Pilar lhe pegou, sentiu suavizar-se-lhe 
o corao. Ele era to doce e rolio, to diferente do que fora a pequenina Grace. Todo ele parecia rapaz... e ela parecera um anjo minsculo, um mero suspiro de 
criana... um suspiro regressado ao seio de Deus para sempre,
Foi um dia estranho para eles, um dia de jbilo e de luto, de clera e exaltao  mistura com infortnio e decepo, um arco-ris de emoes que nenhum deles entendia, 
mas pelo menos estavam juntos. Nancy apareceu e soluou nos braos de Pilar, incapaz de dizer-lhe o que sentia, mas as suas lgrimas eram suficientemente eloquentes. 
E Tominy chorava tambm, e dizia-lhes quanto lamentava. Todd telefonou, sem saber de Grace, e Brad chorou terrivelmente quando lhe contou. Sozinha por um momento, 
Pilar telefonou  me e disse-lhe. E pela primeira vez na sua vida, a mae surpreendeu-a verdadeiramente.

0 PREO DA VENTURA                           299
No era a Boa Doutora Graham, mas a av duma criana que morrera, a me de uma mulher terrivelmente ferida, e durante quase uma hora conversaram e choraram juntas. 
E deixou Pilar sem respirao quando lhe falou do filho que havia tido e que morrera no bero antes mesmo de ela nascer.
- Tinha cinco meses, E em certos aspectos no julguei poder voltar a ser a mesma. Recriminei~me sempre pelo facto de estar to ocupada depois dele nascer, nunca 
passava tempo suficiente com.ele. E ento fiquei grvida de ti, e no me atrevi a prender-me a ti, tinha medo que viesses tambm a morrer. Nunca mais quis interessar~me 
especialmente por qualquer ser humano. Pilar... querida... desculpa...
- A me soluava, e Pilar chorava convulsivamente. - Espero que saibas que sempre te amei muito... - Ela mal podia falar por entre as suas prprias lgrimas, e Pilar 
sufocava ao peso das suas emoes de mais de quarenta anos enquanto a ouvia.
- Oh, Mezinha... amo~a... Porque nunca me disse?
- 0 teu pai e eu nunca falvamos nisso. As coisas eram to diferentes naqueles tempos. No era suposto falar de coisas dolorosas. Era embaraoso. ramos todos to 
estpidos naquele tempo! Foi a pior coisa por que passei, e no tinha ningum com quem conversar sobre isso, e por fim aprendi a viver com a dor. Ajudou, quando 
tu nasceste, e fiquei contente por seres uma rapariga. Pelo menos tu eras diferente... Chamava-se Andrew... - disse ela com doura. - Tratvamo-lo por Andy... - 
E dizendo isto, parecia extremamente triste e jovem, e o corao de Pilar ia todo para ela. Vivera com o seu desgosto durante quase cinquenta anos, e Pilar nunca 
soubera. Explicava uma srie de coisas, e era demasiado tarde agora para a garota que ela fora, mas significava muito para ela naquele momento saber o que tinha 
sucedido.
- No desaparece facilmente - alertou-a a me com carinho. Vai levar muito tempo... mais tempo do que imaginas ser capaz de suportar. Nunca se desvanece completamente. 
Vivers com isso cada dia, Pilar, ou talvez esqueas durante um dia ou dois, mas acontecer sempre qualquer coisa para lembrar-te. Mas tens que seguir em frente, 
dia aps dia, momento a momento... para o bem de Brad, para o teu bem... para o do teu filhinho... Tens de continuar, e a dor atenua-se com o tempo. Mas a cicatriz 
vai ficar-te no corao para sempre. Tomaram a chorar juntas, e por fim, relutantemente desta vez, Pilar des-

-)UU                         DANIELLE STEEL
ligou o telefone. Mas pela primeira vez na vida, ela tinha a impresso de conhecer a me. Esta props vir ao funeral, mas Pilar pediu-lhe que no o fizesse. Sabia 
agora como seria doloroso para ela, e no queria sujeit-la a isso. E por uma vez, Elizabeth Graham no ripostou.
- Mas se precisares de mim, estarei a em seis horas. Lembra-te disso. Estou  distncia de uma chamada telefnica. Amo-te. - repetiu antes de desligar, e Pilar 
sentia-se corno se tivesse recebido dela uma ddiva, Era lamentvel que ficasse a dev-la a uma to grande tragdia.
E ao longo de tudo aquilo, o seu filho acordava e adormecia, e chorava pela me, e quando ela ou Brad lhe pegavam, ficava feliz e calado. Era como se j os conhecesse.
- Gosto do nome de Christian Andrew, que te parece? - perguntou ela tristemente. 0 segundo nome era em memria do irmo de que ela no soubera at quele dia, e 
disse-o a Brad depois da me lhe dizer a ela.
- Agrada-me. - Ele sorriu entre lgrimas. Dir-se-ia que tinham chorado o dia inteiro, e choraram. 0 dia pelo qual tanto haviam esperado convertera-se num dia de 
luto.
- A vida  uma tremenda ironia, no ? - Observava ela serenamente a Brad nessa noite. Ele no queria deix-la, mas ela pensava que ele devia ir para casa; parecia 
absolutamente exausto. Insistiu, contudo, que no queria deix-la, e uma enfermeira, pensando que precisavam de ficar juntos, trouxe uma cama de lona para o quarto, 
no caso de ele decidir ficar.
-  tudo to estranho, esperas uma coisa e sai-te outra, pagas um preo por tudo na vida, creio eu... o bom, o mau, os sonhos, os pesadelos... e aparece tudo misturado 
ao mesmo tempo. Por vezes  dificil destrin-lo,  essa a parte dolorosa. - Christian seria a sua alegria, e Grace o seu pesar, e todavia tinham vindo juntos. Ela 
quisera filhos com tanto ardor, e agora tinha perdido um mesmo antes de comear. Parecia ensombrar tudo, e no entanto, quando olhava Christian dormindo tranquilamente 
a seu lado, a vida afigurava~se-lhe infinitamente merecedora de ser vivida. E ao olhar para ela, Brad interrogava-se como lhe fora possvel resistir. Tinha sido 
a pior agonia a que ele assistira em toda a sua vida, e no final de tudo, tinham perdido um beb.
- A vida  cheia de surpresas - observou Brad filosoficamente.
- Pensei que nunca iria recuperar~me da morte de Natalie, - Era a

0 PREO DA VENTURA                           301
me de Naney e Todd. - E ento, subitamente, estavas tu ali, cinco anos depois ... e tenho sido to feliz contigo. A vida tem muitas vezes uma forma de nos abenoar 
depois de nos punir. Imagino que ser o caso de Christian. Sofremos muito ... mas talvez ele seja a maior alegria que partilharemos no resto das nossas vidas.
- Espero que sim - disse ela docemente, olhando-o, e tentando esquecer o pequeno rosto que no voltaria a ver  ... o beb que ela lembraria sempre.


CAPITULO 20
Christian chorava desconsoladamente no dia em que saram do hospital e o levaram para casa. Pilar tinha~lhe vestido um pequeno fato de malha azul. Embrulhou-o cuidadosamente 
num cobertor azul e levava-o junto de si quando uma enfenneira os levou para baixo numa cadeira de rodas. Uma ajudante de enfermeira seguia atrs, empurrando uma 
maca repleta de flores. 0 que a maioria das pessoas sabia era que ela tivera os bebs. Ningum sabia que um deles tinha morrido. E vinha tambm tudo o que havia 
em duplicado, em azul e rosa, com pequenas bonecas e pequenos ursos, com Raggedy Ann e Andy.
Brad levou-os de carro para casa, e deitaram suavemente o pequeno Christian no bero no seu quarto. Brad j levara o segundo bero, que tinha guardado na garagem. 
No queria que Pilar o visse. Mas esta sabia que ele estivera ali, e quando abriu as gavetas para tirar o pijama do beb, viu ali misturadas as roupinhas cor-de-rosa, 
e ao fechar as gavetas sentia-se como se lhe estivessem a apertar o corao. Era-lhe quase insuportvel. Tanta tristeza e tanta alegria ao mesmo tempo. Era impossvel 
esquecer que houvera dois bebs, e que agora havia um nico. Como iria esquec-lo alguma vez?
Christian era um bom beb e fcil de alimentar. 0 leite dela subira copiosamente, como se o seu corpo ainda ignorasse que j no havia dois bebs. Pegou nele para 
amament-lo, sentada na cadeira de baloio do quarto dele, com Brad a contempl-la.
- Vais ficar bem? - perguntou-lhe delicadamente. Estava preocupado com ela. No era a mesma desde o nascimento dos bebs e

304                         DANIELLE STEEL
depois de Grace ter morrido. Sentia-se quase arrependido de os terem tido. Era to profundamente doloroso.
- No sei - respondeu ela francamente, segurando o beb adormecido. E ento olhou para ele, era to perfeito e to pequeno, e no entanto to rolio e saudvel. Era 
tudo o que Grace no fora, com as suas feies midas e uma miniatura de rosto. Ela parecia perfeita do mesmo modo, mas infinitamente mais franzina. - Ainda tento 
entender como isto aconteceu. Foi culpa minha? Foi alguma coisa que eu fiz? Comi alguma coisa que no devia, dormi sempre para o mesmo lado?... Porqu? - Os olhos 
inundaram-se-lhe de novo ao olhar para o marido, e este ficou de p junto dela enquanto contemplavam Christian.
- Temos de ser cautelosos em no culp-lo - disse Brad-, no fazer com que ele sinta mais tarde que no  por alguma razo suficiente, que queramos mais. Suponho 
que isto  exactamente o que tinha de ser - acrescentou, e dobrou-se para beij-la, e a Christian a seguir. Este ci-a uma criana maravilhosa e tinha direito a uma 
vida de alegria, no ao peso de ter vindo ao mundo como uma bno incompleta.
- Eu no o culpo - disse Pilar tristemente, lavada em lgrimas.
- S gostava que ela tambm estivesse aqui. - Mas talvez ela estivesse ali, de certa forma, uma doce presena, um esprito adorvel. Era to pouco a que se agarrar...
Pilar teve um sono agitado, acordando de manh com a sensao de ter quilos de peso em cima do peito. Lembrou-se do que iam fazer nesse dia.
Tomou banho e alimentou o beb assim que ele acordou. Os seios estavam muito cheios, e ela tinha tanto leite que lhe salpicou a cara quando ele quis mamar, e ele 
fez-lhe uma careta to cmica que ela soltou uma gargalhada, no obstante o mal que se sentia, e Brad ouviu.
- Mas o que vem a ser isto? - perguntou, entrando no quarto de fato preto. Era a primeira vez que ela ria em muitos dias, e foi um alivio ouvi-Ia.
Ela mostrou-lho e ele tambm riu.
- Parece um daqueles antigos actores de vaudevlle levando com um jacto de sifo na cara, no ?... uma espcia de Harpo Marx.
- Na verdade - disse Brad sorrindo -, acho que se parece um

0 PREO DA VENTURA                           305
pouco com o Zeppo. - Surpreendia-o o muito que j sentia por ele, como j o amava tanto, e como lamentava que tivesse vindo ao mundo sem a irm. Parecia to inocente 
e to dependente deles. Brad no conseguia recordar os seus outros filhos to pequenos, to carentes, ou at talvez o beb sentisse que algo de tertivel tinha sucedido. 
Onde estava ela? Vivera com a irm durante nove meses, e agora ela desaparecia. Tinha de ser traumtico tambm para ele. Nem ele prprio estava a salvo da dor que 
ambos sentiam.
- No demoras a vestir-te? - interrogou-a Brad com doura. Ela acenou-lhe com a cabea e deitou o beb adormecido depois de mamar. Teria sido to perfeito se apenas 
ele tivesse existido, seria um xtase sem sombras, e agora era to diferente. Era meio alegre e meio triste, meio agonia e meio beleza, tudo to agridoce, to terrivelmente 
delicado. Tomada de comoo, ficou a olh-lo por longos instantes, pensando como j o amava tanto. Mas tinha amado Gracie tambm... isso era o mais importante. Conhecera 
o seu pequeno rosto no momento em que ela chegara e gravara-o no corao para toda a eternidade, tal como ao seu nome.
Vestiu um vestido preto de l muito simples, que lhe cala dos orinbros sem cinto, usara-o no escritrio nos seus primeiros tempos de grvida. Meias pretas, sapatos 
pretos, e descobriu um casaco preto que lhe servia, e ento ficou lugubremente imvel a olhar para o marido.
-  injusto, de certa forma, no ? Devamos estar a festejar em vez deste luto. - E havia tantas pessoas a quem contar, todos os seus conhecidos tinham sabido que 
eles iam ter gmeos, e agora seria preciso contar-lhes.
Brad colocou o beb no carro, e este no chegou a acordar enquanto o punham no seu assento, e seguiram de carro para a igreja Episcopal de Montecito, em silncio 
absoluto. No havia nada que Pilar pudesse dizer-lhe, nada que afastasse a dor ou tornasse as coisas diferentes. Ele deu-lhe carinhosamente uma palmada na nio quando 
estacionava o carro, e Nancy e Tormny estavam  sua espera no passeio com Marina. Tomnry vinha de fato preto, como Brad, e Nancy parecia destroada com o seu beb 
ao colo. No descobrira nenhuma babY-sitter e por fim acabara por trazer Adam. Este gritou de contentamento ao ver Pilar e Brad. Por instantes, desanuviou aquele 
momento.
0 pastor tambm os aguardava, e levou~os para dentro, mas Pilar

306                         DANIELLE STEEL
no estava de maneira nenhuma preparada para o que viu ali, a pequena urna branca rodeada de lrios do campo,  espera no altar. Era uma brincadeira, urna mentira, 
urna partida cruel que a Natureza lhe pregara, primeiro prometendo-lhe tanto, e por fim furtando-lhe metade, e um soluo prendeu-lhe a garganta no momento em que 
a viu.
- No aguento - murmurou a Brad, escondendo o rosto nas mos, e Nancy comeou a chorar, enquanto Tommy lhe tirava o beb, e Christian formia tranquilamente no seu 
assento do carro. Eram os caminhos de Deus, lembrava-lhes o pastor, dar e tirar, rir e chorar, confundir jbilo com pesar, mas a dor era quase grande de mais para 
suportar quando este abenoou a rapariguinha que fora deles apenas por um momento.
No final Pilar sentia-se como se estivesse vivendo um sonho, um pesadelo, enquanto saa com Brad e seguiam a carreta at ao cemitrio. junto da sepultura, ficaram 
imveis durante uns instantes, silenciosos e infelizes debaixo de chuva, e ento Pilar entrou em pnico.
- No posso deix-la aqui... - E sufocava a cada palavra, agarrada a Brad, e o genro de Brad juntou-se a eles, e perto estava Marina, a uma distncia discreta. Nancy 
tinha ficado no carro com os dois garotinhos, j no suportava mais, dissera ao marido. Era demasiado terrvel, demasado triste, aquele caixo minsculo, e os rostos 
deles destroados. Era um momento horroroso para todos, sobretudo para Pilar e Brad. Ele parecia mil anos mais velho, e ela dava a sensao de ir desfalecer enquanto 
o pastor administrava  pequena Grace a bno final.
Pilar depositou um pequeno ramo de rosas sobre a urna, contemplando-a durante longos instantes, soluando baixinho, e ento Brad levou-a para o carro, mas ela no 
parecia saber para onde estava a ir. Sentou-se, olhando apaticamente em frente enquanto seguiam de carro, sem dizer uma palavra. Brad e Marina seguravam-lhe as rn)s, 
mas ela no tinha nada a dizer-lhes, nem a eles nem a ningum,
Brad no sabia que dzer-lhe, no sabia como consol-la nem o que fazer. Apesar de ter sentido a perda quando Grace nascera, esta fora uma estranha para ele. Mas 
Pilar carregara-a durante nove meses, e conheca-a intimamente como ningum mais poderia conhecer.
- Quero-te deitada - disse-lhe ele quando chegaram a casa e os outros j tinham sado. 0 beb comeou a agitar-se quando ele o ps na sua alcofa.

0 PREO DA VENTURA                           307
Ela acenou com a cabea e foi para o quarto, deitou-se COM 0 seu
vestido preto, sem dizer nada, os olhos fitos no tecto, perguntando a si mesma por que no havia de ter morrido, e eles sobrevivido. Porque no eram dadas a uma 
pessoa escolhas diversas? Quem teria ela escolhido? 0 que teria feito? Sabia que se sacrificaria de boa vontade para salv-los. Tentou explic-lo a Brad e este pareceu 
horrorizado. Por muito que chorasse a sua filha perdida, jamais teria querido perder a mulher, e estava furioso com a sugesto.
- No percebes como precisamos de ti?
- No, no precisam - retorquiu friamente.
- E ele? - apontou para o quarto ao lado. - No achas que ele tem direito a uma me? - Ela encolheu os ombros, incapaz de responder. - No fales desse modo - disse 
ele. Mas ela passava o dia inteiro deprimida, no comia, no bebia, e acabava por afectar o leite, e este deixava o beb rabugento. Era corno se todos eles quisessem 
chorar e revoltar-se com o que lhes sucedera, mas nenhum sabia como, e Pilar menos que todos. Queria gritar at sufocar, mas em vez disso, sentava-se e contemplava 
Christian.
- Ele precisa de ti, e eu tambm - tornou a lembrar-lhe Brad. Tens de procurar recompor-te,
- Porqu? - Ela ficou sentada, os olhos perdidos na janela, mas finalmente levantou~se para beber ch, e em seguida um prato de sopa, e pelo menos tinha leite suficiente 
para alimentar o filho.
Levantou~se por causa dele vrias vezes nessa noite, enquanto Brad dormia. Foa um dia extenuante tambm para ele, e estava aflitivamente preocupado com Pilar. E 
quando o Sol nasceu, ela encontrava-se sen~ tada na cadeira de baloio, pegando em Christian, pensando nos seus dois bebs. Estes tinham sido entidades separadas, 
pessoas separadas, vidas separadas, cada um com o seu destino proprio e o seu futuro. Christian tinha unia existncia a preencher, e a misso de Grace curnprira-se 
prematuramente. Talvez fosse to simples como isso, talvez ela estivesse destinada a ficar com eles apenas por um momento. Mas subitamente Pilar percebia que tinha 
de deix-la partir, que ela haveria de tocar-lhe a memria de quando em vez, mas que no podia lev-la consigo. E Brad tinha razo, Christian precisava dela. Ele 
teria uma vida longa com eles, e ela queria estar ali a seu lado. Pela primeira vez em cinco dias, sentia-se em paz, sentada com ele ao colo. A bno estava

308                        DANIELLE STEEL
com eles, no como a haviam desejado, nem como tinham pensado que seria, mas como tinha de ser, e como era, e ela devia aceit-la.
- Levantada? - Brad apareceu ensonado  porta, tendo acordado e no a vendo na cama. - Tudo bem?
Ela acenou e sorriu-lhe, parecendo muito sensata, muito triste, e tambm muito bela.
- Amo-te - disse serenamente, e ele pressentiu que algo nela havia mudado, algo de muito profundo que fora quebrado e rasgado, e quase a dilacerara, e agora, lentamente, 
comeava a sarar.
- Eu tambm te amo. - Ele queria dizer-lhe como estava pesaroso, mas j no sabia como. No havia palavras, apenas sentimentos muito profundos.
E de repente, Christian agitou-se. Bocejou e em seguida abriu os olhos e olhou-os muito atentamente.
- Ele  c um tipo! - observou com orgulho.
- Tambm tu - disse Pilar, enquanto se beijavam no sol da manh.

CAPTULO 21
Nesse ano, Todd apareceu-lhes para o dia de Aco de Graas. Queria conhecer o beb, ento com duas semanas e meia, e tambm soubera da provao que tinham vivido 
e queria estar com eles.
Pilar tinha um aspecto um pouco melhor nessa altura, apesar dos seus vrios quilos a mais, mas ainda no saa de casa.
Estava fraca, ainda muito marcada por tudo aquilo, e sobretudo no se sentia preparada para enfrentar os amigos e ter de explicar~lhes. Ainda era deveras doloroso.
Todd no sabia o que dizer-lhe no incio, mas acabou por tocar no assunto e manifestou o seu pesar pela perda do beb.
- Que coisa terrvel de suportar! - 0 pai parecera-lhe bastante abatido quando lhe telefonara a dar a notcia do nascimento de Chris~ tian e da morte de Gracie, 
mas Pilar estava a aguentar muito pior.
- Foi horrvel - admitiu ela serenamente, embora as feridas fossem sarando a pouco e pouco. Ainda sentia uma dor tremenda quando pensava nela, mas comeava a permitir-se 
saborear a presena de Christian. Falava com a me com mais frequncia, e parte do que esta lhe contara da sua prpria experincia tinha ajudado Pilar. Era uma consolao 
conversar com algum que tinha passado pelo mesmo, mas continuava a no quer-la ali. No se sentia em condies de ver quem quer que fosse, nem a prpria me.
- Nada  to simples como parece - dizia Pilar a Todd com melancolia, pensando na agonia que passara para engravidar, depois o seu aborto... e agora Gracie. - Pensa-se 
que tudo vai ser fcil, e exactamente como se planeou, mas por vezes no  assim. Levou-me qua-

310                        DANIELLE STEEL
renta e quatro anos para chegar a essa concluso, e acredita em mim, no tem sido fcil. - Conceber filhos no fora das coisas mais fceis que tivera de empreender 
at ali. A sua carreira fora de longe mais sim~ ples, e at o prprio casamento com Brad. De certa forma, porm, ela sabia que no fundo tudo aquilo tinha valido 
a pena. No teria abdicado de Christian por nada no mundo e, no obstante o preo que pagara, sabia que ele o merecia, que mereceria o dobro do preo se necess~ 
rio, embora a surpreendesse o facto de pensar assim.
- 0 que esto os dois a fazer? A resolver os problemas da vida?
- gracejou Brad, vindo sentar~se junto deles.
- Ia dizer-lhe que o amo muito - Pilar sorriu para o enteado e em seguida para o marido. -  uma pessoa muito especial.
-  uma variante agradvel para quem foi um garoto repelente. -
0 pai sorria com malcia. Todd era um bonito rapaz, e muito parecido com Brad.
- Eras suportvel - condescendeu Brad num tom desprendido, mas com um sorriso de troa. - E agora escapas. E Chicago, como vai?
- Bem. Mas tenho estado a pensar em voltar para a Costa Oeste.
Talvez arranjar um emprego em Los Angeles ou em So Francisco.
- Rapaz, isso era um raio dum azar! - tomava o pai a espica-lo, e Pilar sorriu abertamente.
- Adorava ter-te outra vez aqui.
- Podia fazer de baby-sitter aos fins de semana.
- No se fiem muito! - aconselhou a irm, acabada de chegar.
- Quando fica connosco, dorme mesmo com os gritos de Adam, deixa-o brincar com o telefone, e d-lhe cerveja para o manter sob controlo.
- Pois sim, mas ele adora, est bem? Quem  o seu tio predilecto?
- Tambm no tem muito por onde escolher, coitado! - arrelia~ va-o a irm.
Pouco depois, Christian acordava e berrava vigorosamente pela me. Esta foi amament-lo e quando reapareceu os jovens preparavam~ -se para sair, e Todd beijou-a 
e prendeu-a por instantes num carinhoso abrao.
- Ests formidvel, e o meu irmo  um espanto.
- Tambm tu. E estou contente por teres vindo. - Ele olhou-a e acenou com a cabea; tambm estava contente. Era visvel o que ambos tinham passado, particularmente 
o pai, que parecia ter envelhecido e

0 PREO DA VENTURA                           311
ainda se mostrava preocupado com ela, mas estavam aparentemente a reagir bem. Apesar de triste, Pilar parecia estar a superar,
- Achas que vo fazer o mesmo outra vez? - perguntava Todd  irm depois de sarem e enquanto seguiam no carro para casa desta.
- Duvido - afirmou Nancy, e acrescentou confidencialmente: -
Uma amiga minha foi a uma especialista de fertilidade em Los Angeles e disse-me que os viu l. Eles nunca me contaram nada, mas no creio que Pilar tenha engravidado 
com muita facilidade. Fizeram toda aquela encenao de que era uma grande surpresa, mas acho que no foi. Penso que foi antes o resultado de muito esforo. E agora 
passaram por um momento terrvel com a morte do beb.
Todd assentiu com a cabea. Tinha pena de Pilar, e sempre gostara dela.
- No sei - observou uns minutos depois -, mas julgo que devem pensar que vale a pena. - E dizendo isto, olhou de relance para o rechonchudo sobrinho, rapidamente 
cado no sono no seu assento ao lado dele. - Talvez valha... quem sabe?
E ento, espreitando para o banco de trs o seu filho adormecido, Nancy acenou com a cabea.
Em Santa Monica, Beth tinha cozinhado um enorme peru, e estava a reg-lo pela ltima vez quando Charlie chegou com um grande peru de chocolate para Annie e flores 
para ela, que serviriam como centro de mesa no seu jantar do dia de Aco de Graas.
- Ena! 0 que vem a ser tudo isto? - exclamou, surpreendida e emocionada. Ele era sempre to atencioso. Conviviam havia nove meses e ela nunca conhecera ningum como 
ele. Cozinhava, trazia presentes, comprava~lhes artigos de mercearia, levava-as a sair, passava horas sentado a ler a Annie. Era justamente o tipo de pessoa com 
que Beth sempre sonhara mas que nunca encontrara. Charlie era um sonho tornado realidade, e Annie amava-o verdadeiramente.
- Feliz dia de Aco de Graas para as duas. - Sorria ao pousar as flores, e Annie comeou imediatamente a arrancar a prata colorida ao peru de chocolate.
- Posso com-lo agora? - perguntou excitada, e a me disse-lhe que podia dar uma dentada, e guardar o resto para depois do jantar.

312                          DANIELLE STEEL
Ela deu bastante mais que uma dentada, e em breve o bicho estava de cabea degolada, enquanto Charlie beijava a me.
- Posso ajudar? - ofereceu-se, mas ela tinha tudo preparado. Qui~ sera cozinhar para ele daquela vez, e era o prato mais elaborado que fazia em muito tempo. Em geral, 
ela e Annie costumavam sair, comendo num restaurante ou em casa de amigos; deprimia-a bastante cozinhar s para as duas no dia de Aco de Graas. Mas nesse ano 
havia tan~ tos novos motivos gratificantes. Tudo se tornara to feliz para elas desde que Charlie tinha entrado nas suas vidas. Dir-se-ia que ele tinha exorcizado 
os maus momentos, retomando o caminho certo com elas. Fazia-a sentir-se uma pessoa protegida, e j no estava s. No carregava nos ombros o peso do mundo.
Quando Annie adoecia, Charlie vinha e ajudava-a a cuidar dela, quando tivera problemas com o senhorio, falara com ele, e durante urna greve no hospital chegara mesmo 
a emprestar-lhe dinheiro. Ela pagou-lhe at ao ltimo centavo assim que retomou o trabalho; no gostava de aproveitar-se dele, mas Charlie era a bondade de pessoa.
E nesse Outono tinha comeado a ajudar um dos orfanatos e continuava a jogar futebol todos os sbados de manh com um rancho de garotos. Depois vinha falar do que 
estes significavam para si, e corno um dia gostava de adoptar um garotinho, quando visse crescer as suas economias.
Beth nunca estivera to apaixonada por uma pessoa na sua vida, e Charfie era um amor de homem para ela, mas nunca fazia aluses a urna possibilidade de futuro. Continuava 
a pensar que no tinha o direito de casar pelo facto de no poder ter filhos. Mas ela dizia-lhe sempre que no se importava, pensando que ele tinha o direito de 
saber, casasse ou no com ela, que muitas mulheres se dariam por felizes em t-lo como marido, com ou sem bebs.
- Qual  a importncia disso? - observara da ltima vez que falaram do assunto, uma noite depois de Annie ter ido para a cama e quando acabavam de fazer amor. A 
sua vida sexual era extraordinria, parecendo sempre inacreditvel que no pudesse ter filhos. Mas ela tambm sabia que uma coisa no garantia a outra. - No percebo 
porque hs-de dar tanta importncia a isso - repreendia-o -, montes de pessoas no podem ter midos. E da? E se fosse eu? Sentias-te diferente a meu respeito?

0 PREO DA VENTURA                           313
Pela primeira vez, ele pensou nisso, e tinha de admitir que no se importaria.
- Era pena, porque s to boa para eles, devias ter midos... mas amava-te da mesma maneira - concluiu carinhosamente e mudaram de assunto. Parecia haver sempre 
tanta coisa para falar quando estavam juntos.
No dia de Aco de Graas conversaram os trs durante todo o jantar. 0 peru estava magnfico, bem como o pur de batata, as ervilhas e o recheio. Ela no se tinha 
poupado a esforos para lhe agradar, tal corno ele sempre fazia com ela, mas Beth admitia envergonhada que ele cozinhava melhor,
- De forma nenhuma! - protestou ele sorrindo -, isto est fantstico. - E a melhor parte era estarem juntos.
Em seguida foram os trs dar um longo passeio, e Annie levou o tempo numa correria, ora escapulindo-se-lhes, ora reaparecendo, e quando regressaram a casa estava 
alegremente exausta.
Meteram-na na cama s oito horas, em seguida viram televiso, Charlie fez pipocas e estas estavam deliciosas. E a meio da primeira srie, comeou a ficar excitado; 
deitaram-se no sof, provocando-se como dolescentes, esquecendo completamente o que estavam a ver. Annie dormia profundamente e eles dirigiram-se nos bicos dos ps 
para o quarto de Beth, trancando a porta sem fazer barulho; e momentos depois jaziam nus nos braos um do outro, transbordando de paixo.
- Deus, Charlie... - Beth tentava recuperar o flego no final de tudo. - Como  que tu me fazes isto? - Nunca tinha sido assim, com ningum, E para ele tambm era 
maravilhoso porque a amava, desejava-a, e desta vez sabia bem que podia confiar e que ela no o magoaria. Ficara fascinado por Barbe trs anos antes, mas era a 
rapariga errada para si e agora sabia-o. Sabia de resto uma srie de coisas, e encarava tudo de um modo diferente de seis meses atrs. Beth tinha-lhe modificado 
a vida, e com esta os seus conceitos acerca de ter filhos. Levara-o a considerar como seria se fosse ela que no pudesse ter filhos. E subitarnente percebeu que 
no teria para si a menor importncia, que a amaria do mesmo modo, e que ela tinha direito a uma vida plena, tivessem ou no tivessem filhos. Charlie cessara finalmente 
de culpar-se por aquilo que no podia fazer, nem ter, nem oferecer-lhe. Havia tanta coisa que podia dar-lhe e agora queria faz~lo, mais do que nunca.

514                            DANIELLE STEEL
- Quero perguntar-te uma coisa - anunciou-lhe nessa noite, na cama com ela, e virou-lhe o rosto para si sorrindo, pensando como era espantosamente parecida com Anne. 
- Quero dizer-te que te amo muito, em primeiro lugar - ela estremeceu. Sabia das suas ideias de no dever casar com ela, nem com ningum, e interrogava-se se no 
estaria a preparar~se para lhe dizer que ia afastar-se, que fora bom mas que tinha terminado. Sentia o corpo a tremer-lhe e os olhos cheios de lgrimas, e no queria 
ouvir o que ele estava a dizer,
- No tens de dizer nada - atalhou, na esperana de desencoraj-lo. - Sabes que te amo. - E deitada, rezava para que ele no dissesse o que ela temia, mas Charlie 
parecia muito srio quando se virou para ela na cama.
- H urna coisa que quero perguntar-te.
- Porqu? - Os seus grandes olhos azuis pareciam enormes,
- Porque s importante para mim, e no tenho o direito de atrapalhar a tua vida como se fosse dono dela.
- No sejas pateta... eu.--- ns temos bons momentos juntos, gosto mais de estar contigo do que com qualquer outra pessoa... Charlie, no...
- No o qu? - fez um ar de espanto.
- No te vs embora. - Ela colocou os braos  volta do seu pescoo, comeando a chorar como uma criana, e ele olhava-a perplexo.
- Mas estou com o ar de quem vai a algum lado? No tem nada
a ver com partir, mas sim com ficar. - E sorriu, comovido com a sua reaco.
- Vais ficar? - Parecia atordoada, afastando-se dele, o rosto lavado em lgrimas, os olhos cheios de ernoo.
- Eu gostava. E gostava que tambm ficasses. Vou perguntar-te...
- hesitou um instante e por fim concluiu: - Queres casar comigo, Beth?
Ela sorriu de orelha a orelha, e beijou-o com tanta intensidade que fez a cama abanar.
- Sim, quero! - exclamou sem flego quando se desprenderam, e ele rolou na cama com ela, rindo de contentamento.
- Oh, que maravilha! Arno-te! Quando?... - E de repente pareceu preocupado: - Tens a certeza? Mesmo sem podermos ter midos? Ele queria certificar~se, pela ltima 
vez, ela tinha o direito de rejeit-lo.

0 PREO DA VENTURA                            315
- Pensava que amos adoptar - retorquiu ela calmamente.
- amos? Quando  que dissemos isso?
- Disseste que gostavas de adoptar um garotinho, talvez mesmo dois.
- Mas isso era se eu ficasse solteiro. Agora tenho-te a ti e  Annie. Estavas disposta a adoptar, Beth?
- Acho que gostava. - Abanava pensativamente a cabea, e ento olhou~o: - Dava um lar a algum que necessitasse dele, em vez de me limitar a pr mais um beb no 
mundo... Sim, no fundo gostava...
- Fala-me primeiro a respeito de casar. Quando?
- No sei. - Ela riu~se. - Amanh. Na semana que vem. Vou ter uma semana de    frias antes do Natal.
- Natal - ele sorriu de satisfao. - E esquece as frias. Quero que largues esse emprego, no te quero a trabalhar de noite depois de casarmos. Podes arranjar um 
part-time noutro lugar qualquer enquanto a Annie est na escola, ou tirar o diploma que querias. - Para isso ela s precisava de estudar um ano, e ele providenciava 
o resto, estava a ganhar bem com as comisses. - Natal,  isso! - Olhou-a com um sorriso, depois puxou~a de novo para si, e em breve os seus corpos selavam aquele 
compromisso.


CAPITULO 22
Charlie e Beth casaram-se no dia de Natal na Igreja Metodista de Westwood, e Annie foi a nica acompanhante. Fizeram um pequeno copo-d'gua num restaurante local 
com alguns amigos. Mark estava presente, claro, com a sua namorada mais recente, e foi exactamente como eles queriam. Sem os espaventos do Bel Air, sem convidados 
extrava~ gantes. Ele no tinha ningum para exibir. Tinha uma mulher a srio e uma vida a srio, e uma garota que agora era sua. j haviam falado em Charlie adopt-la, 
e ela dissera que queria ser Annie Winwood.
Os trs foram a San Diego para a sua lua-de~mel. Foram ao jardim Zoolgico, visitaram a base naval e ficaram num hotelzinho muito bonito que Charlie conhecia, e 
davam longos passeios pela praia. Era exactamente o que ele sempre sonhara e nunca tinha encontrado. At Beth aparecer para mudar tudo na sua vida.
Esta largara o emprego, que substituiu por um lugar que arranjou na secretaria da escola de Annie. Tudo estava a dar certo e ela queria voltar a estudar para obter 
o diploma de enfermeira em Setembro.
- Ests to feliz como eu? - perguntava-lhe Charlie enquanto passeavam pela praia descalos, no dia a seguir ao Natal. o dia rompera cheio de Sol e a areia estava 
fria, mas quente o suficiente para Annie tirar os sapatos. E esta divertia-se imenso, ora adiantando-se-lhes a correr, ora juntando-se-lhes de novo, como um cachorrinho.
- Creio que estou mais - Beth sorriu. - Nunca tive nada como isto. A minha vida foi uma porcaria to grande nos ltimos tempos de casada. Era estpida e jovem, e 
ele era um sacana. No me sobrou nada de bom dessa bodega.

318                          DANIELLE STEEL
- Sobrou, sim senhora... - ele sorriu, lembrando-a. - Sobrou-te a Annie.
-  verdade. Creio que existe uma bno no meio de tudo. Mas por vezes leva tempo a descobri-Ia. - Ele ainda no estava certo de que bno lhe sobrara do seu casamento 
com Barbie. Fora uma to profunda decepo. Mas finalmente terminara, e agora tinha uma vida autntica  sua frente com Beth. Uma vida que lhe oferecia tudo o que 
queria, companheirismo, ternura, honestidade, amor.
- Espero poder fazer-te to feliz como tu me fizeste a mim - afirmou, e ps-lhe o brao  volta dos ombros, e ela sorriu, sentia-se to segura quando o tinha a seu 
lado.
- j fizeste - atalhou carinhosarriente, enquanto Annie lhes acenava.
- Venham l! - gritava esta na brisa. - No digam nada at verem as conchas! - Eles sorriram e correram atrs dela, cada um tentando apanhar o outro ao longo da 
praia e no meio de gargalhadas, enquanto o Sol subia no cu de Inverno e parecia sorrir-lhes com uma bno.
0 Natal em casa dos Goodes foi catico como habitualmente, s que naquele ano um pouco mais. Gay1e e Sam e os maridos e a respectiva prole estavam l, e Andy e Diana 
tinham voltado ao redil para passarem o Natal com eles, acompanhados de Hilary, claro, e Diana estava com oito meses e meio de gravidez. Arrastava-se pesadamente, 
tentando deitar a mo a Hlary de cada vez que esta se agarrava de p a todos os mveis e comprometia a sua vida com tudo o que encontrava em cima da mesa do caf.
- Ela d uma trabalheira, no ? - comentava a me, encantada. Era um beb lindo e unia rapariguinha feliz, e fonte de uma alegria infinita para Andy e Diana, Todos 
se lembravam do facto de eles no estarem ali no ano anterior, tinham o casamento quase arruinado e tinham ido para o Hawai tentar consert-lo. Fora depois disso, 
lembrara-lhe Diana havia ainda poucos dias com um esgar de desagrado, que Wanda, a me hospedeira, se atravessara nas suas vidas e deitara de novo tudo a perder. 
Mas a separao em que isso culminara tinha feito bem aos dois. E ento, subitamente, surgira-lhes Hilary, e agora o seu prprio beb. Fora alucnante

0 PREO DA VENTURA                             319
para ambos, mas Diana nunca tinha sido to feliz em toda a sua vida. A gravidez corria bem e ela sentia-se esplndida.
Alargara a sua licena de maternidade, naturalmente, e a revista dei~ xava-a esperar at junho para retomar o trabalho.
- Como vai isso? - perguntou-lhe Jack afavelmente, quando a observava a pr a mesa ajudada pela mulher, enquanto Sam tentava resolver uma disputa violenta entre 
os seus dois filhos mais velhos.
- Optima. - Diana sorriu, lembrando~se ainda do dia em que ele lhe dissera que estava grvida e ela tinha pensado que ele era louco.
-   Para um destes dias, diria eu,
-   Faltam-me quase trs semanas - retorquiu ela, muito convencida, e ele abanou a cabea de sobrolho franzido, avaliando a barriga dela e  em seguida palpando-a 
suavemente como a um enorme melo.
-   Eu diria que ests mais perto do que pensas, Di. Est praticamente   entre os teus joelhos. H quanto tempo no vais  tua mdica?
- Oh, por amor de Deus, Jack! - repreendeu-o a mulher. - Pra, de brincar ao Dr. Kildare,  Natal!
- S estou a dizer-lhe que est mais perto do que pensa, o beb descaiu, e apostava contigo o que quisesses em como a cabea est em posio.
- Pois sim, foi isso que me disseste, e eu estava atrasada duas semanas e meia.
- De acordo. - Ele encolheu os ombros, levantando as mos no ar. - Afinal sou humano. - E ento tornou a dirigir~se seriamente a Dana. - No estou a brincar. Devias 
ir verificar nos prximos dias, penso que de facto descau. Nunca vi um beb to em baixo numa mulher que no estivesse em trabalho de parto,
- Talvez esteja e no saiba. - Ela riu~se para ele, e prometeu-lhe que iria  mdica na segunda-feira.
- Tm sucedido coisas estranhas. - Ele riu-se e em seguida foi partilhar uma bebida com o sogro. No estava de servio, por isso podia deixar as coisas correr.
As raparigas ajudavam a me como era costume e, cozinhada a ave, os homens trincharam-na e enormes travessas de comida saram para a sala de jantar. Toda a gente 
estava de bom humor naquele ano, as crian~ as estavam animadas mas comportando-se bem, no havia rixas de famlia e j todos tinham perdoado Diana havia muito tempo 
pela sua

320                         DANIELLE STEEL
exploso de fria no dia de Aco de Graas do ano anterior. Depois de se aperceberem do que estava a suceder-lhe, todos tinham compreendido. A prpria Gay1e parecia 
mais branda para a irm.
- No ests a comer nada - disse-lhe a irm mais velha, olhando de relance para Diana do outro lado da mesa.
- Falta de espao. - Ela sorriu e a seguir olhou de soslaio para Andy. Este divertia-se imenso a conversar com Seamus. 0 seu cunhado irlands tinha sempre histrias 
mirambolantes para contar a propsito de algum. Normalmente, no eram verdadeiras, mas tinham sempre graa.
Quando a me se levantou para tornar a encher as travessas, Diana foi ter com ela  cozinha para ajud-la. Disse que lhe doam as costas e precisava mexer~se. E 
quando ia para a cozinha, Andy reparou que ela parecia perturbada. E a seguir viu Jack a observ-la e ficou intrigado. Ainda esfregava as costas quando voltou, e 
fez vrias caminhadas para a cozinha a ajudar a me, e Sam murmurou em voz baixa a Jack:
- Ela est terrivelmente agitada.
Este acenou com a cabea e prosseguiu o seu jantar, conversando com todos os que estavam  mesa, Minutos depois, Diana voltava para o seu lugar e parecia bem. Ria-se 
e conversava, mas, subitamente, parou, olhando o marido de relance, sem que ele se apercebesse. Ela por fim desculpou~se e foi ao andar de cima, e minutos depois 
desceu e no disse nada.
Foi depois da sobremesa que ela disse a Sam que no estava a sentir-se muito bem e ia subir para deitar-se, mas pediu-lhe que no dissesse a ningum. Era apenas 
uma indigesto.
S passada uma hora Andy olhou em redor  procura da mulher e no a viu.
- Algum viu a Di?
- Est l em cima a vomitar - respondeu a sobrinha mais velha, e Andy precipitou-se pelas escadas para ir ter com ela.
- Achas que tambm deves ir? - perguntou Gay1e ao marido, que respingou.
- Parece-me que me disseste para me meter na minha vida.
- Talvez fizesse mal.
- Provavelmente ela comeu de mais. Eles chamam-me se precisarem de mim. E mesmo que ela esteja em trabalho de parto, este  o

0 PREO DA VENTURA                            321
seu primeiro filho. Podia ir daqui a p para o hospital, e ainda lhe sobrava tempo.
- Que engraado! Sabes como eu sou. - Ela mal tivera tempo para chegar ao hospital aquando das duas primeiras filhas, e ele fizera~lhe o parto da ltima na cozinha.
- Cada pessoa  diferente - lembrou-lhe ele, e Diana provara isso sem dvida, parecendo estril e tendo levado dois anos para engravidar. Mas Andy desceu minutos 
depois, parecendo apreensivo.
- Diz que est mal do estmago - disse a Jack, em voz baixa.
- Vomitou vrias vezes e agora diz que tem pontadas terrveis. Acho melhor lev-la para casa, mas ela no quer mexer-se. Diz que magoou as costas a ajudar a Mam 
ao jantar. - Jack ouviu e galgou as escadas duas a duas para ir ter com Diana, e Andy seguiu-o.
- Ento? - disse-lhe Jack num tom jovial - Ouvi dizer que esta~ vas de ressaca.
- Sinto-me terrivelmente mal - confessou, e ao diz-lo, contraiu-se e agarrou o enorme ventre.
- Mal como? - perguntou-lhe ele calmamente, mas j sabia, e ficou perplexo quando lhe palpou o estmago. Parecia duro como pedra e ela estava a ter uma forte contraco.
- Estou enjoada, e tenho picadas terrveis... e as minhas costas...
- Virou-se, e agarrou-se a cama com outra dor. - Creio que comi alguma coisa envenenada... mas no digam  Mam... - Estava lvida quando se virou para olhar para 
ele, e este sorriu.
- No me parece, creio que ests em trabalho de parto.
- Agora? - Ela parecia atordoada e um pouco assustada. - Mas ainda no est na altura.
- Afigura-se-me que sim. - E enquanto ele dizia isto, ela tinha outra contraco. Ele cronometrou esta ltima, que foi longa e forte, e interrogava-se a que ritmo 
estariam a dar-se, mas dentro de dois minutos obteve a resposta. Franziu o sobrolho, olhando de soslaio para ela e a seguir para Andy. - H quanto teWo tens contraces 
como esta?
- No sei - disse Diana vagamente -, tive mais ou menos picadas o dia inteiro. Pensei que fosse alguma coisa que comi . . . - Ela parecia agora embaraada, quando 
percebeu que no soubera ver que estava em trabalho de parto.
- Nenhum sinal de que as guas tenham rebentado? - Ela estava

322                        DANIELLE STEEL
bastante mais adiantada do que ele pensava, e queria poder examin~Ia, mas no tinha a certeza se ela o deixaria.
- No - afirmou. - Apenas uns pingos desde ontem de manh, mas nada de parecido com um jacto de gua - acrescentou, ansiosa por provar que ele estava enganado. Ainda 
se lembrava do que Jane passara quando Hilary nascera, e agora sentia~se apavorada.
Jack olhou Andy e em seguida Di, e sorriu.
- Minha querida, isso foram as tuas guas. No  obrigatrio ser um jacto. Creio que o melhor  levar-te imediatamente para o hospital. Mas ao ouvi-lo, ela agarrou-lhe 
o brao, e quase berrou:
- No!... No! Isto no  nada... - Mas entretanto as dores foram to intensas que no pde falar no meio da contraco, e parecia no os ouvir. Estava ofegante 
e sem respirao quando terminou, e a seguinte deu-se em menos de um minuto, e ela chorava e tentava lutar.
- Oh, Deus... o que  isto... Andy... Jack... - Jack correu para a casa de banho, voltou com uma pilha de toalhas que colocou rapidamente por baixo dela, e ento 
examinou~a delicadamente e ela parecia no dar por nada enquanto agarrava o brao de Andy e chorava. Lutava contra cada dor e no controlava o que estava sentindo. 
Subitamente, houve uma sensao terrvel de ardor e um impacte insuportvel, como um comboio tentando empurr~la. - Oh, Deus... est a sair... est a sair... - E 
o seu pnico era total, ora olhando o marido ora olhando o cunhado, e Jack acenou com a cabea e olhou de lado para Andy.
- Sim, est, Di- - Ela estava nitidamente a ter o beb. E calmamente ele disse ao marido: - Andy, marca o 911. Chama uma ambulncia, diz-lhes que h uma mulher a 
dar  luz aqui, e que h um mdico presente. Ela est bem, vai ser tudo fcil. Estava provavelmente em trabalho de parto desde ontem e no sabia.
- No me deixes - chorava, quando Andy ia para sair, mas Jack acenou a este com firmeza, apressando-o a fazer a chamada. E assim que Andy saiu do quarto, ela teve 
outra dor intensa e o comboio parecia pux-la outra vez. Jack afastou~lhe as pernas para os lados, vendo que o beb j mostrava a cabea.
- Empurra, Di... vamos l... empurra-me esse beb...
- No posso... di muito... oh, Deus... no pra... no pra... Ela queria que parasse mas no parava, e a seguir Andy estava outra

0 PREO DA VENTURA                          323
vez junto dela, e dizia a Jack que a ambulncia vinha a caminho. E ningum l em baixo sabia o que estava a acontecer. No houvera tempo para dizer-lhes.
- Empurra, Dil - dizia-lhe Jack quando se aproximava outra contraco. Agora eram de minuto a minuto, e ento, subitamente, com ela a gemer horrivelmente e Jack 
segurando-lhe as pernas e Andy os ombros, o beb quase voou de dentro dela, e em seguida para as mos de Jack. Era um rapaz enorme, com uma abundncia de cabelos 
loiros, e uma semelhana espantosa com a sua irm beb. Diana olhou para ele deslumbrada e ele olhou para ela, e o pai ria~se. Era o beb mais maravilhoso que ele 
j tinha visto.
Diana deixou cair outra vez a cabea na cama, sorrindo para o marido, dizendo-lhe quanto o amava.
-  to lindo... e parece-se contigo. - E em seguida olhou Jack com um sorriso inseguro. - Estou a ver que eras capaz de ter razo...
- E os trs riram-se e o beb soltou um queixume quando o tio lhe pegou. E nesse mesmo instante, puderam ouvir a sirene l fora.
-  melhor ires explicar-lhes - disse Jack a Andy, que ainda permanecia em estado de choque com tudo o que sucedera. Tinham vindo para a ceia de Natal e iam para 
casa com um beb. Nada lhes sucedia nunca exactamente como planeavam.
Andy precipitou~se escadas abaixo anunciando a toda a gente que tinha um filho, no instante preciso em que o sogro abria a porta da frente ao pessoal paramdico.
- Ela est l em cima - apontou Andy, e todos o olhavam em espanto.
- Ela est bem? - perguntou o pai, enquanto a me e as irms corriam para as escadas, e Seamus dava uma palmada nas costas de Andy-
- No dormes em servio, meu rapaz, no  verdade?
- Desconfio que no.
Jack entretanto limpara-a, e cortou o cordo com os instrumentos que os paramdicos traziam, e momentos depois ela e o beb estavam bem embrulhados em cima de uma 
maca e eram levados para a ambulncia, com a famlia inteira a correr ao lado deles e desejando-lhes o melhor. Andy agradecia a Jack, e Diana acenava. Fora pior 
do que ela pensava, mas ao mesmo tempo, e de certa maneira, melhor. Pelo menos fora rpido, mas to intenso que a surpreendera.

324                        DAINIELLE STEEL
Por fim seguiram na ambulncia, e Sam prometeu-lhe ficar com Hilary at Diana sair do hospital com o seu beb.
- No h dvida que vocs continuam a pr tudo numa roda viva nesta casa - murmurava o pai, ao fechar as portas depois deles sa~ rem, e abriu o champanhe, e serviu 
toda a gente, at um pouco aos garotos.
- Ao Andrew e  Diana e aos seus filhos - saudou solenemente, e a sua mulher tinha lgrimas nos olhos, sabendo quanto fora duro para eles. Mas agora tinham dois 
filhos maravilhosos.
-  a coisa mais adorvel que j vi - murmurava Diana a Andy na ambulncia, com o seu beb sobre o peito, envolto em cobertores. Este olhava em redor com grandes 
olhos cheios de curiosidade e interesse. Era muito atento, e aparentemente muito tranquilo.
- Espera at Hilary o ver - observou Andy, e os dois trocaram um sorriso. Tinham tido dois bebs em nove meses, da privao  abundncia quase num nico instante.
Ela e o beb ficaram s uma noite no hospital, e no dia seguinte foram para casa, com Hilary. E deram ao beb o nome de William, em homenagem ao pai dela.
- Billy e Hillie - gracejava Diana ao contempl-lo adormecido no bero a um canto do quarto deles. Subitamente estavam rodeados das crianas por que tanto tinham 
suspirado, dir-se-ia uma chuva de bnos.
- s formidvel! - murmurava-lhe Andy, beijando-a.
- Tambm tu. - Ela retribuiu-lhe o beijo, a agonia esquecida, o vazio, a mgoa. E no entanto ela sabia que tudo isso tinha tornado aquele momento infinitamente mais 
precioso.

CAPTULO 23
Andy e Diana passaram o seu terceiro aniversrio de casamento no Hawa, na praia de Waikiki com os filhos.
Hilary estava ento com catorze meses, ensaiando os primeiros pas~ sos por toda a parte, descobrindo tudo. Adorava a areia e o mar e os pais, e o seu irmo beb 
William. Este estava com cinco gordos e saudveis meses, palrando e rindo muito. E os dois eram urna trabalheira, Mantinham Diana ocupada dia e noite e ela devia 
retomar o seu trabalho na Todays Home da a duas semanas, mas s em part-tme. Ainda no tinha a certeza se queria deixar definitivamente os filhos, mas tambm queria 
dar uma ajuda a Andy. Com duas crianas a sustentar repentinamente, podiam precisar de dinheiro. E mesmo trabalhando uma pai-te do dia, teriam de sacrificar alguns 
dos luxos a que estavam habituados, mas Diana no queria abdicar do seu tempo com os filhos para voltar a trabalhar a tempo inteiro, e Andy concordava totalmente 
com ela. Tinha esperado demasiado tempo, no ia agora perd~lo. J a atemorizavam as horas que ia ficar longe deles, e tinha justamente acabado de contratar algum 
que cuidaria deles enquanto ela trabalhava. Era uma rapariga alem muito simptica, que j fizera antes esse trabalho, muito simples e com um ptimo aspecto, e falando 
um ingls razovel. E s6 ia trabalhar para eles enquanto Diana estivesse no emprego. 0 resto do tempo, Diana queria cuidar ela prpria dos filhos, e Andy estava 
disposto a ajud-la.
Nesse ano, ele tinha sido promovido na empresa, estava cheio de trabalho no escritrio, mas adorava regressar a casa para estar com eles, ver a expresso de contentamento 
no rosto dela, sabendo que os

326                          DANIELLE STEEL
sonhos de ambos se haviam transformado em realidade, mesmo nos dias em que a mquina de lavar se avariava e havia fraldas por tudo quanto era lugar, ou que Hilary 
se lembrava de fazer novas pinturas murais no quarto deles com o bton de Diana. A vida estaria repleta de coisas desse gnero durante alguns anos, mas os dois tinham 
conscincia de como isso era precioso, e to efmero   '
- Que crianas lindas tm os senhores! - comentou uma mulher de Offio uma tarde, na praia. - Que idade tm?
- Cinco e catorze meses - Diana sorriu e a mulher pareceu admirada. Ainda faziam menos diferena que os dela, que nasceram com um intervalo de treze meses e no 
lhe deixavam um instante livre.
- No sabe a sorte que tem em ter filhos to facilmente - disse-lhe muito sria. - Tm uma famlia maravilhosa. Deus vos abenoe.
- Obrigada - respondeu Diana, com um longo e demorado sorriso para o marido.
Numa tarde de junho, Charlie levou Beth e Annie a Rosemead, e desceram de carro uma rua tranquila em direco a um sombrio edificio de tijolo. Ele tinha aguardado 
aquele dia durante muito tempo e no disse nada enquanto estacionava o carro. Mas Beth tocou-lhe na mo, ela sabia, e Annie pressentiu que aquele era um momento 
importante. Sabia o que estava a suceder, e o motivo por que ali estavam, se bem que Beth no estivesse totalmente segura de que a filha compreendesse.
Foram conduzidos para dentro e convidados a sentarem-se. A pape~ lada tinha comeado a correr havia seis meses e aparentemente estava tudo em ordem.
Charlie e Beth j tinham ali estado vrias vezes para encontros e consultas. A instituio era dirigida por freiras, e estas ainda usavam o hbito antigo. 0 simples 
facto de ali estar trazia a Charlie recordaes dolorosas. Passara por tantas instituies iguais quela; ainda se lembrava do tinir dos rosrios delas ao passarem, 
das noites frias e escuras numa cama estreita, dos terriveis pesadelos que tinha e do constante receio de ficar sufocado pela asma. Estar ali era o bastante para 
lhe ser difcil respirar e, instintivamente, procurou as mos de Beth e de Annie -enquanto aguardavam.

0 PREO DA VENTURA                            327
- j estiveste aqui antes? - perguntou-lhe Annie num sussurro
bastante audvel, e ele assentiu com a cabea. - No gosto nada disto.
- Ningum gosta, querida.  por isso que estamos aqui, - Vinham salvar uma alma daquela priso solitria.
j tinham visto o garoto, e o corao de Charlie abriu-se para ele logo no momento em que o viram. Tinha quatro anos, e era muito pequeno, disseram as freiras. Tivera 
problemas respiratrios  nascena e elas lamentavam ter de dizer ao Sr. Winwood que sofria de asma. Se no lhe servisse, naturalmente, havia urna garotinha... mas 
as freiras ficaram perplexas quando ouviram que servia na perfeio para os Winwoods.
As assistentes sociais tinham colhido informaes acerca de Beth e Charlie, e chegaram mesmo a conversar com Annie, e estavam muito satisfeitas com o facto de o 
rapaz ir ter um bom lar. No era um beb, bem entendido, e podia ser um bocado dificil, tinham de contar com um perodo de adaptao.
- Estamos cientes de tudo isso - afirmou Charlie delicadamente. Sabia tudo sobre o assunto, como tentara desesperadamente, como cozinhara e limpara para eles, e 
lhes implorara que o amassem. E corno sistematicamente acabavam por rejeit-lo, e como era ver-se de novo na cama de ferro sobre o colcho rugoso nos dormitrios 
gelados e ve-ntosos de que tinha tanto medo.
Uma porta abriu-se e apareceram duas freiras, Charlie podia ouvir-lhes os rosrios, mas quando olhou, elas tinham rostos gentis, e  medida que os seus trajos dominicanos 
ondulavam ele viu o miudinho mesmo atrs delas. Era um rapazinho plido e magrizela, de calas de bombazina, uma velha camisola azul-marinho e sapatos de ginstica 
desbotados. Tinha os cabelos ruivos, e olhava para cada um deles em silencioso terror. Escondera-se a manh inteira no quarto, tremendo de medo de que no viessem. 
j sabia que aquela gente nunca fazia o que prometia. As freiras tinham~lhe dito que os Winwoods vinham naquele dia, mas no acreditava. E sabia que iam lev-lo 
algures, mas no tinha a certeza para onde, nem por quanto tempo ia ficar.
- Os Winwoods vm buscar~te - disse-lhe em voz baixa a mais alta das duas freiras, e Bernie acenou com a cabea. Tinham vindo, afinal. Ainda lhe custava a crer.
Olhou interrogativamente para os trs, corno se no acreditasse nos seus olhos, e ento Charlie avanou lentamente para ele.

328                          DANIELLE STEEL
- Ol, Bernie - disse Arinc corri doura, e ouviu-se a respirao sibilante dele. Tivera ataques de asma durante todos aqueles dias e estava com um medo de norte 
que mudassem de ideias se,descobrissem.
Charlie observava-o com lgrimas nos olhos, e por fim estendeu-lhe os braos e o garoto avanou devagar para ele,
- Vamos levar-te connosco para casa... para ficares l para sempre. Quero ser o teu pai... e esta agora  a tua me... e Anne  a tua irm.
- Como uma famlia a srio? Para sempr& - a criana olhava para ele com os olhos repletos de suspeio. Era o que lhe tinham dito, mas, aos quatro anos, no o entendia 
na totalidade, nem acreditava neles. Esperava unicamente que viessem e o levassem. Era tudo o que queria.
-  isso mesmo - disse Charlie calmamente, sentindo o corao bater. Ele lembrava-se to bem do que isso era, excepto que a ele nunca tinham dito tais palavras... 
Diziam-lhe que ia para ficar uns tempos, e depois levavam-no de volta, Nunca assumiam compromisso nenhum.
- Eu no tenho uma famlia, Sou rfo.
- Agora j no, Bernie. - estavam dispostos a assumir um compromisso total perante ele, e as freiras eram unnimes em afirmar que era um garoto maravilhoso, muito 
vivo, dcil e carinhoso. Rejeitado  nascena, fora colocado em vrios lares adoptivos, mas nenhum o consei-vara em virtude da sua asma. Dava demasiado trabalho 
lutar contra isso.
-  Podia levar o meu urso? - perguntou Bernie cautelosamente, tornando a olhar de lado para AnnIe. Esta observava-o e sorria,
- Claro. Podias trazer as tuas coisas todas - respondeu-lhe Charlie com doura.
- Temos bons brinquedos l em casa - encorajou Annie, e o garotinho de cabelos ruivos avanou     ,uns passos na direco de Charlie. Era como se algo o puxasse 
para ele, como se pressentisse que n
tinham um punhado de coisas em comum e que ali estaria seguro.
- Gostava de ir com vocs - disse, erguendo os olhos para o homem que queria tanto ser o seu pai.
- Obrigado - disse Charlie, enquanto o tomava carinhosamente nos braos, querendo dizer-lhe que o amava, mas apenas o susteve ali enquanto Bemie se lhe colava e, 
por fim, com a sua voz mais meiga, lhe murmurou a palavra por que Charlie sempre suspirara.

0 PREO DA VENTURA                            329
- Paizinho - proferiu, o rosto enterrado no peito de Charlie, que
fechava os olhos e sorria entre lgrimas, enquanto Beth e Annie os contemplavam.
Pilar e Brad passaram tranquilamente o seu aniversrio naquele ano. Sabiam que tinham muito com que se regozijar, muitssimo em que pensar. Christian era um beb 
esplndido. Tinha ento sete meses e era uma alegria total para eles. Adoravam-no.
Pilar contratara uma baby-sitter e recomeou a trabalhar ao fim de quatro meses, mas ainda s ia ao escritrio durante as manhs e adorava aparecer com Christian 
num carrinho no tribunal. Brad exibia~o a toda a gente, e finalmente as pessoas tinham cessado de perguntar onde estava o outro gmeo.
Fora uma longa e dura provao, que levara consigo uma boa parte deles. Brad afirmava sempre que estava contente por t-lo feito, mas no iria faz-lo de novo. E 
Pilar gracejava com ele dizendo que sentia falta dos filmes sujos da Dra. Ward. Tinham-lhe escrito um bilhete quando os grneos nasceram, e contaram-lhe da morte 
do beb, e ela enviara-lhes uma carta muito simptica. Pilar lembrava-se sempre do que ela lhes dizia, que no havia garantias de nada, e que por vezes a fertilidade, 
bem como a infertilidade, era uma das muitas ambvalncias que a vida tinha. Fora-o de facto, para eles, mas naqueles ltimos meses a balana vinha claramente pendendo 
para o lado bom. Christian era para eles uma fonte  constante de jbilo, e Pilar sentia-se grata a cada momento por haver decidido ter uma famlia antes que o tempo 
j no lhe concedesse outra escolha,
A me tinha vindo para ver o beb e ficou igualmente louca por ele. Era a primeira visita boa para uma e outra, e ambas a aproveitaram ao mximo.
Nancy estava de novo grvida, ansiando desta vez por uma rapariguinha. Finalmente, Pilar contara-lhe tudo acerca dos seus tratamentos para a infertilidade, e custava 
a acreditar no que ambos tinham suportado. Fora uma prova de fora, de coragem e perseverana.
- E um pouco de loucura, Tornou-se uma espcie de obsesso, como quem fica na mesa da roleta at perder tudo ou ganhar uma fortuna.
- Parece-me que ganhaste - observou-lhe Nancy, mas ambas

330                          DANIELLE STEEL
sabiam o preo que lhe custara, e a dor que fora a perda de Grace. Nunca fora com efeito capaz de olhar Christian nos primeiros tempos sem pensar nela. S agora, 
com o beneficio do tempo, ela podia verdadeiramente am-lo sem sofrimento.
- Por vezes, tenho a sensao de que perdi os seus primeiros meses - confessara ela a Brad em mais de uma ocasio. - Estava de tal modo ofuscada pela desgraa que 
no me lembro de nada. - Pilar tinha emalado as outras roupas de beb, retirara do quarto os brinquedos de menina, pusera tudo dentro de uma grande caixa na qual 
escreveu "Grace", e Brad guardou-a no sto, porque ela no queria desfazer-se de nada, no queria esquecer, no estava ainda preparada para libertar-se de tudo,
Mas por alturas do dia do seu aniversrio, sentia-se outra vez ela prpria e via-se-lhe isso no rosto.
- Bem, decididamente a vida no tem sido montona este ano. Ela sorria. No ano anterior tinham sabido que iam ter gmeos, e passara o aniversrio grvida.
- Pelo menos este ano no ests grvida! - atalhou ele, mas ela ainda no queria sair. Gostava de ficar em casa com ele, e tinha andado exausta nas ltimas semanas 
com um caso difcil que estava a preparar. Ele acusava-a de estar a perder genica quando admitia o seu cansao. - Eras tu que costumavas ir desafiar-me ao tribunal 
porque querias ir danar.
- Que posso eu dizer~te? - ela encolheu os ombros com um sorriso amarelo. - Tenho centenas de anos de idade.
- Isso faz-rne ter quantos? - interrogou, meditativo, e ela riu-se. Pilar tinha 45, e ele 64, mas no aparentava, e ultimamente andava mais activo do que nunca. 
Ela sentia-se como se tivesse envelhecido uma vida inteira naquele ano, mas ele insistia que no parecia nada. S nas ltimas semanas  que andara francamente a 
arrastar-se, mas ela atribua-o ao facto de ainda estar a amamentar Christian e a trabalhar ao mesmo tempo. Tinha esperado tanto por aquele filho que queria saborear 
cada instante com ele.
Duas semanas aps o aniversrio, continuava no entanto cansada, e recebera entretanto mais trs casos novos. Um deles era um caso dificil de adopo, que a interessava, 
os restantes envolviam um litgio num restaurante e uma disputa sria sobre uma propriedade em Montecito.

0 PREO DA VENTURA                         331
Os trs casos eram interessantes e as pessoas envolvidas extremamente exigentes.
Unia noite, j tarde, falava sobre os trs casos com Brad e este estava preocupado com ela. Parecia exausta, e a meio da conversa saiu para amamentar o beb.
- No te parece que ests a abusar da tua sade? - perguntou-lhe, entrando no quarto e sentando-se junto dela. - Talvez fosse melhor parares de amarnent-lo, ou 
reduzires o trabalho, ou qualquer outra coisa. - Era to raro ver Pilar cansada.
- Estou a usar isto como um meio anticoncepcional. - E sorriu, porque no era totalmente verdade. Adorava arnament-lo, e ele estava a desenvolver~se. - Mais facilmente 
desistia do trabalho - acrescentou honestamente, enquanto ele a observava. Havia uma ligao entre me e filho que sempre o comovia observar.
- Talvez devesses deixar outra vez o trabalho at ele ser um pouco mais crescido.
Mas ela abanou a cabea.
- No posso fazer isso, Brad. No seria justo para os meus colegas. Estive inactiva um ano inteiro, e agora s trabalho durante as manhs. - Mas trazia dossers 
para casa, e trabalhava numa srie de
outros casos,
- Bom, tens ar de quem est a trabalhar demasiado. Devias ir ao mdico.
Finalmente, em julho ela foi ao consultrio e explicou ao mdico os sintomas. Lembrou-lhe a idade com que Christian estava, e o facto de ainda o amamentar. No havia 
nenhuma hiptese de gravidez, infelizmente, uma vez que ela e Brad tinham concordado em no fazer mais proezas, e a Dra. Ward tinha-lhe dito que aos 45 anos era 
quase mpossvel engravidar. No tivera nenhum perodo desde o parto, o que eles diziam dever-se ao facto de estar a amamentar. Interrogava-se por vezes se no teria 
passado directamente da maternidade para a menopausa, o que parecia um bocado estranho, mas mais coisas inslitas j tinham acontecido.
0 mdico mandou-a fazer algumas anlises simples e telefonou-lhe para o escritrio a dzer-lhe que estava anmica, provavelmente por causa do parto. Receitou-lhe 
uns comprimidos de ferro, que fizeram Christian queixar~se do seu leite, de modo que ela parou de os tomar

332                          DANIELLE STEEL
e esqueceu o assunto. Ele no lhe encontrava nada de mais grave e na outra semana sentia-se melhor, pelo menos at ao dia em que foram ver a regata e ela, que estava 
de p ao lado de Brad, o olhou de sbito com uma expresso esquisita e desmaiou.
Brad ficou afltssimo e ela foi outra vez ao mdico; fizeram mais anlises e desta vez, quando soube os resultados, ficou emudecida pelo choque. Nunca o julgara 
possvel, no se atrevera sequer a sonhar em ter outro filho, mas estava grvida. 0 mdico telefonou-lhe a dar a notcia precisamente na altura em que ela se preparava 
para sair do escrtrio  hora do almoo e ir a casa dar de mamar a Christian, mas aquele disse-lhe que agora teria de parar de amamentar. E avisou-a tambm do risco 
de aborto espontneo na sua idade, e dos demais perigos e ciladas que ela conhecia muitssimo bem: sndroma de Down, defeitos cromossmicos, nados-mortos, o verdadeiro 
campo de minas que ela tinha de atravessar na sua idade para gerar um beb saudvel. E no final, a contingncia do lance... do destino... se uma pessoa est ou no 
predestinada a ter esse beb.
Ela ficou de p na sala do tribunal a observ-lo, enquanto Brad anunciava com o seu martelo o intervalo do almoo. Estava a ouvir um caso de crime e o ru foi levado 
pelo beleguim. Ficou surpreendido quando a viu, parada no extremo oposto da sua sala de audincias.
- Podes aproximar-te - disse-lhe com voz retumbante quando a sala ficou vazia, e ela dirigiu~se lentamente para junto dele. Lembrava-lhe os seus dias juntos no tribunal, 
anos atrs. Conhecera-o dezanove anos antes, e juntos tinham chegado to longe, partilhado tantas coisas, tragdias e xtases, momentos preciosos.
- 0 que tens a dizer de tua justia? - perguntou num tom severo olhando para ela, e Pilar sorriu-lhe, com a sbita sensao de que era outra vez jovem e achando 
a vida engraadssima.
- Ficas cmico com a tua toga - observou assumidamente irreverente, e ele sorriu como resposta.
- Queres vir visitar-me aos meus aposentos? - perguntou, com um ar muito perverso, enquanto ela se ria,
- Era capaz. Mas primeiro tenho uma coisa a dizer-te. - Ele no ia acreditar.

0 PREO DA VENTURA
- 0 que ? Uma confisso? Ou uma declarao?
- Talvez as duas... e urna espcie de anedota... e possivelmente um choque... e no fim uma bno...
- Oh, Deus! Estoiraste com o carro, e ests a tentar dizer-me que era uma sucata velha, de qualquer maneira, e que precisvamos de um novo.
- No, mas isso  bastante imaginativo, Hei-de lembrar-me, da prxima vez que precisar.
Subitamente ela estava a sorrir radiante, enquanto ele a observava, longe de suspeitar do que ela ia dizer~lhe.
- Que foi que fizeste? - inquiriu firmemente, com uma vontade repentina de descer para beij-la. Toda a gente tinha sado e encontra~ vam-se sozinhos na sala da 
audincias,
- No tenho exactamente a certeza se  o que eu fiz... Creio que ajudaste.
Ele franziu o sobrolho, intrigado com o que ela estava a dizer.
- Parece-me que andaste outra vez a ver filmes porcos e no me contaste. - Ela apontava-lhe um dedo.
Ele deu uma gargalhada e olhou para ela.
- 0 que  que isso quer dizer?
- Quer dizer, Meritissmo... que sem proezas, nem hormonas, nem a ajuda de ningum a no ser a tua... estou grvida!
- Ests o qu? - Ele olhava-a aturdido.
- Ouviste bem.
Ele desceu e avanou para ela, olhando~a com um sorriso, no sabendo bem o que sentia nem porqu, nem se queria ou no passar por tudo novamente, mas contudo, de 
uma forma estranha, estava feliz.
- Pensava que no amos voltar -a fazer isso - disse, olhando~a ternarnente.
Tambm eu. Pelos vistos, algum decidiu de forma diferente.
 isso o que tu queres? - perguntou-lhe docemente. No queria que ela suportasse tudo de novo se no o desejasse.
Ela olhou-o longa e intensamente, pensara bastante nisso durante o caminho para o tribunal.
- Creio que, como tudo o resto tia vida, tal como dizia a Dra. Ward... isto ter tambm o seu preo... mas sim... quero... - fechou os olhos e ele beijou-a como 
sempre lhe apetecera fazer, na sua sala de audincias. Demorara dezanove anos, mas tinha~o feito finalmente.


PR6xtMoS VOLUMES:
Murray Smith
0 DISCiPULO DO DIABO
Christian jacq BARRAGEM NO NILO
